24 Mai, 2018

Breve diário do Figueira Beach Rugby – Coluna de Opinião de Hélio Pires

Fair PlayJulho 20, 20178min0

Breve diário do Figueira Beach Rugby – Coluna de Opinião de Hélio Pires

Fair PlayJulho 20, 20178min0

As saudades do Figueira Beach Rugby apertam e com o final da época da variante, Hélio Pires, autor da coluna Visto de Fora, conta-nos como viu a Maior Etapa de Beach Rugby do Mundo. O Diário do Figueira Beach Rugby no Fair Play

Até onde vai uma pessoa para assistir a um torneio de râguebi de praia? No caso de dois adeptos em particular, até aos 61 quilómetros comboio e 50 de bicicleta, mais a viagem de regresso em moldes semelhantes. Para ser honesto, nem tudo se ficou a dever à bola oval: também gostamos de pedalar e um fim de semana diferente sabe sempre bem, pelo que foi uma espécie de três ou antes cinco em um, já que acresce ainda o exercício físico e a dimensão ecológica.

Claro que não há viagens sem imprevistos, neste caso um comboio atrasado, vento forte e estradas rurais em muito mau estado, o que resultou em mais uma hora de percurso e obrigou a uma ida apressada ao supermercado à chegada à Figueira. Escusado será dizer que nenhum de nós estava com energia para uma saída à noite e que por isso não tardámos a adormecer.

O primeiro dia

Deitar cedo e cedo erguer… qualquer coisa râguebi ver. À chegada à praia de Buarcos, já pouco depois das 10:30 e com água e comida nas mochilas, fomos à tenda principal para consultar os horários e escolher os jogos a ver, tendo optado por começar pelos Magnets, cujas qualidades com a bola e sentido de humor fazem jus ao nome da equipa.

Os flamengos venceram confortavelmente a Calpi Team por 11-1 e depois mudámo-nos para junto da terceira área de jogo, tentando encostar-nos à pouca sombra que havia no local. Vimos a primeira partida dos North Sevens, equipa francesa que já o ano passado tinha estado na Figueira e que foi formada a partir dos cacos de um clube de râguebi falido. Não se pode dizer que iniciaram a edição de 2017 com o pé direito, tendo perdido por 6-1 frente ao Dendermonde RC, mas o que interessa é como se acaba e não como se começa.

Seguiu-se o jogo do Figueira Rugby contra o São Miguel, a equipa do bulldog, que venceu pela margem mínima de 2-1. E de um animal para outro, depois virámo-nos para a primeira partida dos Caparica Sharks. Porque, tal como os Magnets, têm qualidades com a bola e sentido de humor, e não é todos os dias que se vê jogar uma equipa migratória com vários milhões de anos – dizem as crónicas oficiais dos Tubarões. E também porque o adversário era o Leiria, que para nós era o mais próximo de “clube da terra”. Assim divididos entre as barbatanas e a afinidade distrital, vimos os Sharks vencerem por 10-0.

Os minutos seguintes foram passados à conversa com alguns dos jogadores, enquanto à nossa frente, no mesmo campo, as raparigas do São Miguel jogavam contra as Putain Nanas, campeãs de 2016. A vitória clara das francesas por 13-1, a somar a outra por 7-1 no início do torneio, deixava adivinhar que estavam a caminho da final deste ano.

Já perto da 1 da tarde, voltámos a ver os Magnets, dessa vez contra o Benfica, o que foi motivo mais do que suficiente para eu tirar uma fotografia e enviá-la ao meu pai, que é um benfiquista ferranho. Não para apoiar o clube dele, mas para lhe dizer que estava a torcer pelos flamengos, o que pelos vistos ele aceitou com um riso à mistura. E ainda bem, porque os belgas venceram por 8-2.

A tarde fez-se da mesma movimentação constante entre campos, ora deitados na areia, ora encolhidos nas bancadas, por vezes refugiados na tenda principal, sempre em busca de abrigo contra o vento forte. Vimos jogos como a vitória dos Caparica Sharks sobre o Dendermonde por 8-3, a Agronomia a vencer o Dalmine por 6-3 e a mesma equipa a perder frente aos Magnets por 11-4. Por essa altura, já o frio era demasiado e fugimos para o apartamento.

Foto: Luís Cabelo Fotografia

A primeira (e única) noite

Termicamente restabelecidos após um banho quente e um bom jantar, o tempo pouco ameno não nos impediu de sair no sábado à noite. Até porque o desejo de conviver falava mais alto e as ruas estreitas junto ao casino são sempre uma boa defesa contra o vento. Isso ou as paredes de um bar.

Como o que é próximo tende a agregar-se e um de nós conhecia um dos jogadores do Leiria, juntámo-nos a eles ao início da noite. E depressa passámos de um conhecido a vários, terreno fértil para novas amizades, alimentadas pela conversa, o riso, as bebidas e sim, o facto de sermos de localidades próximas e termos por isso rotinas, experiências ou contactos em comum.

Aguentámos até às 2 da manhã, altura em que cedemos à perspectiva do dia seguinte, que ia ser cheio de jogos e com dezenas de quilómetros de bicicleta por percorrer. Para trás deixámos ruas apinhadas de locais, adeptos e jogadores, alguns muitíssimo alegres, como é normal em noites de festa sob o olhar inebriante de Dioniso.

O segundo dia

Claro que, na manhã seguinte, há um preço a pagar. E isso notou-se nas caras de sono, nas ausências matinais ou nas cervejas em mão, talvez na crença de que a melhor forma de combater a ressaca é evitando-a com o consumo estável de álcool.

Apesar disso, o torneio prosseguiu sem percalços de maior e debaixo de temperaturas mais elevadas do que no dia anterior. Tal era o calor, que para vermos as raparigas do São Miguel tivemos que nos encostar à mesa de um dos oficiais de jogo e do seu chapéu de sol. E depois mudámo-nos para a bancada sul do campo principal, abrigados sob a sombra fugaz de umas bandeiras.

Foi lá que vimos o São Miguel ganhar ao Benfica por 4-3, num jogo renhido em que, uma vez mais e para desgosto do meu pai, eu não estava a torcer pelos encarnados. Também vimos a Agronomia a perder frente ao Dendermonde por 8-4, os Caparica Sharks a derrotarem a Académica por 7-3 e os Magnets a ganharem ao Ovale de Marselha por 5-4. E mudando novamente de poiso, encolhidos à sombra de um insuflável, gritámos pelo Leiria, que venceu os Disco Disco por 7-6.

Já mais pela tarde, deixámos momentaneamente a praia para fazermos as malas, desocuparmos o apartamento e regressarmos ao recinto com as bicicletas prontas a partir. Voltámos a tempo de ver os North Sevens vencerem o Montemor por 6-5, num jogo agressivo que deu aos franceses a vitória num dos escalões intermédios masculinos. Logo a seguir, vimos o São Miguel perder por 4-7 noutra das finais, mas com a insistência de quem luta até ao apito final. E antes disso, deu gosto ver as Gazelles a não só aplaudirem as Raphaele’s, que derrotaram por 10-1, mas a puxarem por elas no final da partida.

Houve também um dejá vú, com os Magnets e os Caparica Sharks a voltarem a disputar o terceiro lugar e com uma vitória dos primeiros, tal como em 2016. Já no equivalente feminino, as portistas venceram as benfiquistas por 4-2 – logo quando eu estava finalmente a torcer pelo Benfica – e as Putain Nanas, embora tenham chegado à final, cederam o título às Dolphins Sete por 9-0.

O derradeiro jogo feminino só teve lugar, no entanto, depois de um momento de samba por raparigas de uma escola de dança, depressa acrescidas de jogadores dos Magnets com fios dentais improvisados. E tal como em 2016, atrás deles foram outros de outras equipas, num espectáculo verdadeiramente igualitário, porque tinha algo para todos os gostos, géneros e orientações. E o mesmo foi verdade para a final masculina, também ela precedida de um momento de dança ao qual se somou o improviso do público, incluindo um contributo do crocodilo insuflável do Braga.

Dito isto, o último jogo foi intenso, por momentos a fazer crer que estava prestes a resvalar para uma maior agressividade e cifrou-se numa vitória dos Minots sob a CDUL por 4-1. Para nós, foi uma final a que assistimos já em modo de partida, prontos para nos fazermos à estrada após o apito final. O comboio não espera e ainda tínhamos vários quilómetros pela frente até à estação do Louriçal, mas fomos contentes, satisfeitos com a experiência e de espírito animado. Para o ano, se der, voltamos à Figueira. E com um pouco de sorte, levamos connosco mais uns quantos a pedal e sobre carris.

Foto: Luís Cabelo Fotografia


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