17 Ago, 2017

Yevgeni Bushmanov: A nova esperança para o futebol jovem da Rússia

Joel AmorimAbril 25, 20177min0

Yevgeni Bushmanov: A nova esperança para o futebol jovem da Rússia

Joel AmorimAbril 25, 20177min0

Têm sido tempos de desalento e desnorte, aqueles vividos pela selecção russa de Sub-21 nos últimos 15 anos. As constantes mudanças na equipa técnica e a quase letargia táctica e técnica da era de Pisarev colocaram o combinado russo numa posição extremamente delicada no panorama futebolístico mundial.

No comando da equipa desde 2010, o antigo internacional russo Nikolai Pisarev nunca foi capaz de montar uma formação competitiva e desperdiçou, de certa forma, aquela que era vista como uma geração de ouro do futebol russo e da qual faziam parte nomes sonantes como os de Alan Dzagoev, Fyodor Smolov, Oleg Shatov, Maksim Kanunnikov e Denis Cheryshev, entre outros. O Campeonato Europeu da categoria disputado em Israel em 2013, o único para o qual a formação russa se conseguiu apurar pela mão de Nikolai Pisarev, foi um triste exemplo de como uma geração com enorme potencial estava a ser mal gerida e desperdiçava toda a sua qualidade em esquemas tácticos confusos, desajustados e sem qualquer fio condutor. Apesar de lhe ter calhado em sorte um grupo altamente complicado, o combinado russo terminou o torneio com três derrotas em outros tantos jogos, tendo sido o desaire por 5-1 frente à selecção holandesa particularmente embaraçoso.

Após falhar o apuramento para o Campeonato da Europa da categoria em 2015 na República Checa e para os Jogos Olímpicos do Brasil um ano mais tarde, a queda vertiginosa do combinado russo aconteceu na fase de apuramento para o Europeu da Polónia que se irá realizar este ano. Uma campanha verdadeiramente medíocre com apenas duas vitórias em 10 jogos e o consequente penúltimo lugar do seu grupo fizeram, finalmente, ecoar o sinal de alerta na Federação Russa (RFS – Российский Футбольный Союз), que após anos de aparente resignação e descoordenação pareceu querer tomar as rédeas da situação.

No final do mês de Janeiro deste ano e após alguma especulação, Vitaly Mutko, o presidente da RFS, dava a conhecer o novo timoneiro da armada russa e, apesar de tardia, a sua escolha “recebeu” uma aprovação quase generalizada por parte da imprensa e dos adeptos russos. Yevgeni Bushmanov, 45 anos de idade, antigo médio de CSKA e FC Spartak Moscovo, foi o homem escolhido para reconstruir uma selecção que há muito perdeu o seu fio condutor e que em nada faz lembrar aquele combinado que ainda durante a era soviética amealhou títulos a nível europeu e mundial.

Bushmanov a orientar o treino dos sub-21 em Marbella. (Foto: www.rfs.ru)

Após uma carreira de nível elevado como jogador, Bushmanov começou o seu percurso como treinador em 2004 na equipa de reservas do FC Shinnik Yaroslavl. Após várias passagens por clubes do Oblast de Moscovo, o trabalho altamente elaborado e metódico de Bushmanov começou a fazer-se notar ao serviço do Spartak-2 (equipa B ou de reservas do FC Spartak Moscovo). Em 2013, ano em que a equipa voltou a disputar uma liga profissional, Bushmanov começou a preparar um conjunto de jogadores da academia de Tarasovka e, em 2015, consegue fazer com que o Spartak-2 suba, pela primeira vez na sua história, ao segundo escalão do futebol russo, a FNL (ФНЛ).

A primeira época do Spartak-2 de Yevgeni Bushmanov na competitiva FNL foi verdadeiramente fantástica e a equipa terminou a campanha num honroso 5º lugar. Sempre fiel ao seu 4-2-3-1, táctica pouco utilizada pela escola de futebol russa e soviética, Bushmanov não abandonou, por um só momento, o futebol de ataque, de pressão alta e construído a partir de trás com passes curtos e algo mecanizados, estilo de jogo promovido na academia deste histórico emblema moscovita.

Passar do comando de uma equipa dita de reservas para o comando da selecção nacional de Sub-21 não se apresenta certamente como uma tarefa fácil, mas por aquilo que já foi possível ver durante os dois encontros de preparação realizados no passado mês de Março, Bushmanov é o homem certo para tal hercúlea tarefa.

Selecção Russa Sub-21 no jogo de preparação contra a Noruega em Marbella. (Foto: www.rfs.ru)

Com especial talento para fazer desenvolver jovens jogadores, Bushmanov pôs, desde cedo, mãos à obra, e liderou uma revolução quase que silenciosa na selecção russa. Um corte total com o passado e com as escolhas, nem sempre felizes, do seu antecessor deram mote para um virar de página, que a bem do futebol russo, se espera bem sucedido.

A ERA DE BUSHMANOV

De uma equipa capitaneada pelo talentoso guarda-redes e antigo campeão da Europa de Sub-17 Anton Mitryushkin, há a destacar jogadores de elevado valor como são os casos de Ayaz Gulyev (médio centro do FC Anzhi, emprestado pelo FC Spartak Moscovo), Aleksandr Makarov (extremo versátil do FC Tosno, emprestado pelo CSKA Moscovo), Georgi Melkadze (avançado versátil do FC Spartak Moscovo, apesar de realizar a maior parte dos jogos pelo Spartak-2), Aleksandr Zuev (médio ou extremo esquerdo do FC Krylya Sovetov, emprestado pelo FC Spartak Moscovo), Dmitri Barinov (médio centro do FC Lokomotiv Moscovo), Igor Bezdenezhnykh (médio centro do FC Ufa), Ivan Oblyakov (médio de ataque altamente versátil do FC Ufa), Rifat Zhemaletdinov (extremo do FC Rubin Kazan) e Shamsiddin Shanbiev (defesa que actua preferencialmente pelo lado direito, mas que também pode ser utilizado como médio defensivo ou médio ala, do Spartak-2), entre outros.

Embora ainda haja muito por fazer, os dois primeiros jogos de preparação contra Roménia e Noruega respectivamente, deixaram já boas indicações a Yevgeni Bushmanov. Uma vitória por 5-1 diante dos romenos e outra por 2-0 diante de uma bem organizada formação norueguesa deixaram transparecer de imediato algo que não se via desde há já muito tempo na equipa russa: organização e critério. Sempre com uma posse de bola acima dos 55% e com uma qualidade de passe já bastante assinável, há essencialmente a destacar o leque de opções de qualidade que Bushmanov tem no sector intermediário. Ayaz Gulyev e Ilya Zhigulev conferem à equipa uma circulação de bola bastante fluída e sempre, ou quase sempre, assente em passes curtos e construção rápida, pelo centro do terreno. Lá mais na frente, as movimentações constantes de Makarov, Melkadze, Zuev, Oblyakov e Zhemaletdinov oferecem um ritmo elevado nos movimentos de ataque e uma pressão agressiva ao portador da bola no primeiro momento de construção da formação adversária.

A Yevgeni Bushmanov é-lhe pedido que consiga fazer com que a Rússia marque presença no Europeu de 2019 de Sub21, que terá lugar em Itália e San Marino. A tarefa que se avizinha não será certamente fácil e mais complicada se torna se tivermos em conta os parcos e até enfadonhos desempenhos da formação russa nos últimos 15 anos. Bushmanov, que trabalhou de perto com treinadores como o lendário Oleg Romantsev e o astuto Gennadi Kostylev, parece ter reunido em si um pouco dos dois, sem nunca, no entanto, ter perdido a sua própria identidade e o seu próprio cunho pessoal. Yevgeni tem agora a responsabilidade de fazer renascer o futebol jovem do seu país, que, apesar de breves momentos de glória, tem estado em quase profunda depressão desde o desmembramento da antiga União Soviética.


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