19 Ago, 2017

Uma série de desgraças

Ruben CardosoMaio 26, 201713min0

Uma série de desgraças

Ruben CardosoMaio 26, 201713min0

Acabada mais uma época de “seca” em Alvalade, e com uma recta final de campeonato algo turbulenta, a hora é de efetuar um balanço intensivo ao que impediu o Sporting de, 15 anos depois, alcançar o título nacional – para além de mais um ano afastado das decisões nas restantes competições. Analisamos alguns dos aspectos principais que marcaram a época, e levam ao aumentar da tensão no reino do leão, na antecâmara de uma temporada que promete ser decisiva.

No final de 2015/2016, poucos seriam aqueles que esperariam que a presente época do Sporting trouxesse um sentimento de regressão e de “paragem no tempo”, na evolução que os leões tinham registado na primeira temporada com Jorge Jesus no comando dos destinos da equipa. Um recorde de pontos alcançado no campeonato, futebol atractivo, baseado na performance de elementos como João Mário, Slimani ou Bryan Ruiz, uma massa associativa crente nos destinos da equipa, e um desempenho que acima de tudo trazia esperança para o universo leonino, de que o Sporting estaria cada vez mais perto de se voltar a sagrar campeão nacional.

O desfecho da época não podia ter causa sensações mais inversas e contrárias ao que se esperava. O clube ficou arredado de praticamente todas as competições entre Dezembro e Janeiro, e a miragem do campeonato não passou disso mesmo – quando poderia haver uma hipótese de aproximação aos dois primeiros, o Sporting vacilou. Sequência de uma série de más decisões, tanto a nível de contratações, gestão do plantel e comunicação, que fizeram com que os alarmes voltem a soar em Alvalade, e apesar de Jesus já ter anunciado que irá continuar, a margem de erro está em níveis mínimos, pelo que a próxima época poderá ser derradeira, não só para o técnico, como para Bruno de Carvalho.

O vazio de João Mário

Após ser anunciada a sua saída para o Inter de Milão, poucos esperariam que a saída de João Mário causasse um impacto tão significativo no onze leonino. Não só pela influência que o médio tinha em toda a manobra ofensiva e defensiva da equipa, mas também porque a sua saída obrigou a uma modificação profunda na forma de jogar da equipa. Se o Sporting da primeira época de Jesus procurava variar a sua forma de jogar, controlando sempre a posse de bola de forma dinâmica e proactiva, e sempre na busca de soluções explorando todas as zonas do terreno, já este ano muito da produção ofensiva da equipa veio em exclusivo dos flancos.

Saindo João Mário, a escolha óbvia para a posição recaiu sobre Gelson Martins, que já havia sido bastante utilizado por Jesus na temporada anterior. Um jogador quase exasperante de ver jogar, devido à sua vertigem e à sua capacidade de desequilibrar no 1×1, uma qualidade no drible de cortar a respiração, mas que forçou a equipa a adaptar-se ao seu estilo de jogo. O Sporting deixou de ser uma equipa imprevisível, devido à dinâmica implementada por Ruiz e João Mário, para ser uma equipa facilmente anulável, pois Gelson ainda é um jogador a tentar aperfeiçoar-se e a conseguir modificar o seu jogo dependendo das circunstâncias do mesmo. A incrível quebra de forma de Ruiz foi também um factor decisivo para esta situação, mas mesmo as alternativas, como Campbell e Bruno César, nunca conseguiram devolver à equipa outra capacidade de encarar o jogo e de explorar zonas mais promissoras do terreno no momento ofensivo.

Foto: Gazzetta dello Sport

Contratações sonantes – mas apenas isso

Na primeira época de Jorge Jesus, o principal objectivo de Bruno de Carvalho era de conseguir dar à equipa soluções suficientes para criar um onze forte para atacar o campeonato, e principalmente opções que trouxessem experiência a uma equipa maioritariamente ainda jovem. As contratações de elementos como Bryan Ruiz e Teófilo Gutiérrez, elementos que tiveram um impacto muito significativo no modelo de jogo, foram talvez as melhores aquisições da época desportiva – para além de Coates, que viria a ser adquirido em definitivo já durante este ano.

Este ano, e olhando para o que foram a totalidade das contratações, o paradigma mudou significativamente. As aquisições foram feitas em muito maior número, para dotar o plantel de uma profundidade suficiente para fazer frente a todas as competições, incluindo a Liga dos Campeões. Quem visse os novos reforços do Sporting no início da época desportiva, estaria longe de imaginar que apenas 2 deles iriam ter um verdadeiro impacto na equipa titular.

Bas Dost – foi o verdadeiro abono de família da equipa, com a saída de Islam Slimani. O panzer holandês rubricou numa época fabulosa, com números de tal ordem incríveis que esteve praticamente até à última jornada na luta pela Bota de Ouro Europeia. 34 golos em 31 jogos para o campeonato é uma marca de registo, e que faz pensar o que seria o Sporting desde ano sem a presença de um homem como Bas Dost na frente de ataque. 10 milhões que valeram cada cêntimo.

Foto: Record

Alan Ruiz – a pré-época não foi brilhante, mas este parecia um “projecto JJ” – um jogador para crescer com o técnico leonino, passar pelo habitual processo de adaptação ao futebol português, e para Jesus moldar. Um investimento avultado, na ordem dos 8.5 milhões de euros, mas que apesar de ter tido um ínicio tímido, teve o seu momento alto na segunda metade da época, quando se afirmou decididamente como a melhor opção para apoiar Bas Dost na frente de ataque. Vários golos e assistências, que prometem um 2017/2018 ainda melhor.

Joel Campbell & Lazar Markovic – aqui entramos no campo das contratações a pensar no curto-prazo, puramente. Empréstimos de jogadores razoavelmente consolidados, e que seriam claras mais-valias na realidade do campeonato português. A verdade é que, à excepção de alguns momentos esporádicos do costa-riquenho do Arsenal, nenhum dos dois foi capaz de dar à equipa aquilo que era pretendido na altura em que foram recrutados. Markovic, depois das lesões, é uma sombra daquilo que mostrou na Luz, e que fez o Liverpool gastar 20 milhões de euros por ele, enquanto que Campbell procurava um clube para poder ganhar minutos, e tentar nova oportunidade no Emirates. Nenhum conseguiu chegar perto das expectativas criadas sobre si.

Foto: O Jogo

Elias, Douglas e André – o trio de brasileiros, segundo rezam as “lendas”, foram pedidos expressos de Jorge Jesus, sendo que os dois primeiros já eram pretendidos pelo técnico leonino nos tempos em que treinava o Benfica. Elias não teve uma primeira passagem feliz por Alvalade, e dada a forma como abandonou o clube, era pouco expectável que fosse regressar. No entanto, na iminência de uma saída de Adrien, o clube agiu, e recrutou o ex-Corinthians para tentar compensar o lugar deixado pelo capitão. Elias ficaria na sombra, até ao momento em que Adrien se lesionou com alguma gravidade, e o médio brasileiro foi chamado a intervir. Foi o culminar da pior série de jogos da época, em que a equipa pareceu sempre totalmente desequilibrada em campo, e com Elias muitas vezes perdido na sua missão de substituir um dos médios mais influentes do campeonato – sendo que viria a sair a meio da época. André chegou ao Sporting como uma alternativa de recurso, e para acrescentar profundidade à posição de avançado, mas fora raríssimas excepções, nunca foi capaz de mostrar a qualidade que os leões precisavam, acabando também por regressar ao Brasileirão no mercado de Inverno. Já Douglas era uma contratação já há muito desejada pelo clube, e que se veio a concretizar, mas que causou pouco ou nenhum impacto na equipa inicial – Paulo Oliveira e Semedo tomaram sempre conta da posição ao lado de Coates.

O regresso da juventude

A meio da época, e vendo que a situação desportiva estava na iminência de se deteriorar severamente, Bruno de Carvalho teve que tomar uma decisão: encurtar o plantel ao máximo, na medida de começar a resolver eventuais problemas que pudessem surgir no futuro. Elias, André, Meli saíram do plantel em definitivo, enquanto que Petrovic foi emprestado ao Rio Ave. No entanto, o grande destaque do mercado de Inverno leonino foi outro.

Com a saída de jogadores considerados mais experientes, o Sporting fez regressar alguma da juventude emprestada na Primeira Liga. Podence e Geraldes, vencedores da Taça da Liga pelo Moreirense, foram dois elementos que rubricaram uma primeira metade de época soberba, sendo que também André Geraldes e Ryan Gauld também regressaram do empréstimo ao Vitória Futebol Clube. Podence, em particular, regressou com claras indicações de que, dadas as dificuldades de adaptação de Alan Ruiz na altura, o pequeno avançado leonino teria a sua oportunidade. Um festival de irreverência, velocidade, que com certeza verá muito mais oportunidades na próxima época.

A expectactiva será que, com o início de 2017/2018, regressem mais jovens jogadores às fileiras do clube de Alvalade. Um nome em particular tem estado sobre os holofotes do campeonato português. Iuri Medeiros revolucionou por completo a equipa do Boavista, sendo constantemente o jogador em foco, aquele que conseguiu sempre elevar o nível exibicional da equipa para outros patamares competitivos. A próxima temporada desportiva será decisiva, pois Iuri não pode continuar a ser esquecido pelos dirigentes leoninos, depois de dois empréstimos de grande sucesso no campeonato português. Depois dos falhanços que se revelaram Markovic e Campbell, é crucial que a “prata da casa” seja vista com maior atenção.

Foto: Record

O estranho caso de Chico

O caso de Francisco Geraldes é, em particular, o mais interessante. Quem acompanhou a época de Chico em Moreira de Cónegos, teve a possibilidade de apreciar a elegância e inteligência de um jogador raro no futebol português, por vários motivos. O primeiro, é que Chico é um jogador ambidestro que, apesar de ter o pé direito como favorito, consegue jogar em perfeitas condições com o pé esquerdo, a todos os níveis, o que lhe dá uma versatilidade em campo muito significativa. Depois, é um jogador com uma amplitude territorial fantástica e acima de tudo, sem qualquer medo em ter a bola. Capaz de desequilibrar em progessão ou através do passe, é um híbrido que, em circunstâncias ditas normais, seria um elemento com entrada praticamente direta no onze do Sporting.

Uma das principais bandeiras do esquema montado por Jorge Jesus na temporada anterior foi o aproveitamento das alas para incluir jogadores com outra capacidade de construção, e não extremos puros de linha e desequilíbrio. A adaptação de João Mário (que já tinha desempenhado a posição nos sub-21) ao lado direito do meio-campo proporcionou ao Sporting um jogador com grande capacidade com bola, de progressão e com uma qualidade no momento da decisão ímpar no plantel. Do outro lado, Bryan Ruiz fazia as delícias dos adeptos, e foi seguramente a grande desilusão da presente época. O costa-riquenho teve uma queda abrupta de rendimento a todos os níveis, e fala-se inclusive da sua saída como uma certeza. Francisco Geraldes será, porém, um bom equilíbrio entre estes dois jogadores. Sem ter as rotinas de avançado de Ruiz já possuia dos tempos do Twente, nem o pulmão de João Mário para conseguir manter o seu rendimento durante os 90 minutos, Francisco tem uma dinâmica quase refrescante no momento em que se posiciona no centro do terreno. Capaz de aparecer entre-linhas, de descer no terreno para começar a construção, poderá ser, assim o treinador do Sporting queira, um elemento fundamental não apenas no plantel, como até no onze inicial – seja em que posição for.

Foto: Record

O ano derradeiro de Jesus e Bruno de Carvalho

Estamos prestes a entrar na terceira época de Jorge Jesus ao comando do Sporting – isto se os rumores da saída para o PSG não se confirmarem. Uma época em que o campeonato fugiu apenas por 2 pontos; e outro em que o clube ficou fora de praticamente todas as competições a meio da época, e com uma clara regressão na qualidade exibicional. Bruno de Carvalho venceu as eleições de Março de maneira categórica, mas já deu a entender na recta final da época que, caso o Sporting não se sagre campeão em 2017/2018, ponderará anunciar eleições antecipadas. O projecto inicial, em 2013, era de fazer do Sporting campeão no período de 5 anos – mas estes já passaram, e entramos num ano de decisões. O clube terá que voltar a afirmar-se como candidato ao título, na antecâmara de uma época onde o Benfica procurará fazer história novamente, conquistando o pentacampeonato, e onde o Porto voltará a apostar tudo na conquista do título que foge há 4 anos.

Certo é, que o planeamento da época leonina está a ser feito com alguma antecedência, com já algumas contratações efetuadas que, para além de trazerem a necessária profundidade ao onze inicial, trazem com eles experiência no campeonato português ou na Europa. No entanto, há jogadores no plantel imensamente cotados no panorama europeu, e que com nova competição de selecções a ocorrer em breve, poderá trazer de novo os holofotes sobre elementos como Adrien, Rui Patrício, William Carvalho e Gelson. Depois de uma época marcada pelo fracasso em todas as competições, poderá ser hora de uma das jóias da coroa abandonar o clube, não só para manter a saúde financeira, mas também para permitir um investimento sério na reconquista do título, 16 anos depois.

Foto: Maisfutebol


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