A morte e o mercado de inverno: dois protagonistas do título do FC Porto
O FC Porto venceu a mais recente edição da Primeira Liga, com total justiça. A equipa de Francesco Farioli viveu uns primeiros meses absolutamente imaculados e, embora a qualidade do futebol fosse caindo, foi eficaz na segunda volta e mais consistente que os adversários, que tremeram mais e falharam em determinados momentos que estavam obrigados a acertar. Há vários subtemas relacionados com esta conquista, uns mais importantes que outros. Os protagonistas? Sem dúvida André Villas-Boas, Francesco Farioli e os próprios atletas, que provaram ser um grupo coeso, afastando um fantasma chamado Ajax 2024/25.
Os dragões mostraram uma face completamente distinta da da última época, com Martín Anselmi longe de convencer, um Andoni Zubizarreta bem longo do que se esperava e um projeto sem uma linha a seguir-se. O sucesso deve-se a essa mudança, uma cara completamente lavada, que como disse antes, se justifica por alguns fatores, dentro e fora do campo.
Um dos pontos chave do êxito foi o mercado de transferências de inverno, no qual o FC Porto deu uma autêntica aula aos adversários de como se movimentar. Sporting e Benfica falharam na maioria dos alvos, enquanto que os azuis e brancos deram tiros certeiros. Foram poucas as mudanças, mas serviram para acrescentar. Uma janela que deve ser aproveitada para aperfeiçoar, não para rebelar. Oskar Pietusewski já se falava como alvo dos dragões algumas semanas antes. Foram investidos 10 milhões de euros no polaco, mas o extremo mostrou que pode ser o dono da esquerda do ataque do FC Porto nos próximos anos. Ambientou-se rapidamente, com a ajuda de Jan Bednarek e Jakub Kiwior, contribuindo com 18 encontros, três golos e duas assistências. Em termos de preço/qualidade, poucos reforços em Portugal foram melhores: oito milhões de euros, que hoje são reduzidos a trocos. Aos 18 anos, tem tudo para continuar a crescer de Dragão ao peito. Francesco Farioli sabia que precisava de um jogador para o posto, com Borja Sainz a apresentar um baixo rendimento já a meio da época. Tiro certeiro de André Villas-Boas, naquele que foi o único nome a chegar envolvendo dinheiro na transferência.
O outro atleta a chegar ao Dragão a título definitivo foi Thiago Silva, depois de finalizado seu contrato com o Fluminense. Foi um segundo capítulo dourado, depois de uma primeira passagem que não funcionou. O defesa sabia para o que vinha: somar minutos, liderar um balneário e sonhar com a presença no Mundial 2026. Cumpriu dentro de campo e fora dele, mas Carlo Ancelotti não o recompensou. Foi meio ano de azul e branco onde mostrou a sua qualidade, ainda que aos 41 anos e com rivais como Bednarek e Kiwior para a sua posição. O central fez 1082 minutos de topo, mostrando pormenores que já tinha exibido nas Big 5. Poucos seriam os portistas que não aceitariam a sua continuidade, mas a despedida tornou-se numa realidade. Impossível encontrar um sucessor para o sul americano.
Já no meio campo, Francesco Farioli percebeu que tinha de encontrar um elemento com um perfil físico, um médio que enchesse o campo e que ao mesmo tempo chegasse à área recorrentemente. Seko Fofana, outrora estrela do Lens (que o levou para o Al Nassr), chegou cedido do Rennes e valeu pontos. O costa-marfinense, não sendo um titular indiscutível, ajudou e de que maneira o FC Porto a atingir os objetivos, com golos a Braga, Famalicão e Sporting, que geraram cinco pontos, em encontros complicados. O atleta conquistou os adeptos, que pedem a sua continuidade, mas o seu salário não deve permitir que se mantenha de azul e branco. Além disso, não é um ativo que se possa valorizar. André Villas-Boas teria que olhar para Seko Fofana como um jogador que finalizaria a sua carreira no FC Porto. Ainda assim, estará o Rennes disposto a deixar sair o jogador por uma verba baixa?
Também cedido, devido à lesão de Luuk de Jong, chegou Terem Moffi, um nome que acabou por desiludir parte da massa adepta, dadas as expectativas criadas. O nigeriano já tinha trabalhado com Francesco Farioli no Nice, mas a relação no Dragão não correu da melhor maneira. O ponta de lança viu as suas responsabilidades crescerem com a lesão grave de Samu Aghehowa e não encaixou com o sistema, preterido mais tarde para o banco, com Deniz Gul a assumir o posto de titular. Foram apenas dois golos em 15 jogos e uma certeza de que o seu futuro será longe da Invicta. Ainda assim, tratando-se de um empréstimo, não há grandes críticas a apontar, somente a certeza de que o FC Porto terá de ir ao mercado.
Um dos outros pontos que afetou (e de que maneira) a temporada do FC Porto foi a morte. Os dragões ainda estavam abalados com o falecimento de Pinto da Costa em fevereiro de 2025, quando foram surpreendidos com a partida ‘temprana’ de Jorge Costa. Um símbolo do clube e da cidade, um dos grandes capitães dos dragões. O antigo lateral direito não era ‘um qualquer’, longe disso. Representava os valores do FC Porto como poucos. Fazia parte do dia a dia do clube, sendo o Diretor para o Futebol e o braço direito de André Villas-Boas. A 5 de agosto de 2025 sentiu-se mal no Olival e não voltou a acordar. Hoje, onde quer que esteja, estará a celebrar o título conquistado, depois de anos em que os nortenhos foram mais criticados do que nunca. Um falecimento abala, faz chorar, cria dor. Mas também une, obriga a pensar no passado e no que a vítima fez de positivo. O balneário do FC Porto quis honrar Jorge Costa, que os guiou a uma época de sucesso. Em parte, o êxito é dele. O antigo lateral direito foi a inspiração e exemplo de muitos, como Diogo Costa, Alberto Costa ou Rodrigo Mora.
Não foi o único terramoto que este grupo de trabalho viveu. Borja Sainz viu a mãe partir e os colegas ‘agarraram-no’. O grupo de trabalho não deixou cair ninguém e tal caraterística guiou o FC Porto a uma época que poucos esperavam em julho.
O título dos azuis e brancos é celebrado em várias dimensões e tem várias justificações. Duas foram apresentadas neste texto, mas não nos podemos esquecer que o bom resultado é fruto de uma grande quantidade de fatores.
Foto de Destaque do FC Porto.



