21 Ago, 2017

Viagem a San Sebastián: a Real Sociedad

Bruno DiasDezembro 14, 20169min0

Viagem a San Sebastián: a Real Sociedad

Bruno DiasDezembro 14, 20169min0

Com quase meio campeonato disputado, a Real Sociedad apresenta-se como uma das equipas mais entusiasmantes e imprevisíveis da La Liga. Entre o futebol positivo que apresentam, e a irregularidade que os caracteriza, é difícil prever qual a posição que ocuparão no final da temporada. Mas até lá, serão uma equipa que vale a pena acompanhar.

Ao fim de 15 jornadas, a Real Sociedad ocupa a 5ª posição da La Liga, com 26 pontos, pontuação que partilha com o Villarreal, que se encontra no 4º lugar, uma posição que dá acesso à pré-eliminatória da Liga dos Campeões. Classificação bastante positiva nesta altura da temporada, que corresponde plenamente àquelas que seriam as ambições de todos os adeptos no início da temporada, e que passam pelo regresso da Real às competições europeias.

Após um início titubeante na La Liga, com uma derrota por 3-0 em casa frente ao Real Madrid e com apenas 7 pontos em 6 jornadas, a Real estabilizou e arrancou para as posições cimeiras da tabela. 5 vitórias nas 6 jornadas seguintes – incluindo uma vitória por 2-0, no Anoeta (a “casa” da Real, autêntica “fortaleza” que dificulta, e muito, a vida a qualquer adversário), frente ao Atlético Madrid – colocaram os “Txuri-urdin” (alcunha de origem basca, que se refere às cores utilizadas pelo clube: o branco e o azul) em lugares europeus. Dois períodos de jogos marcadamente distintos, que caracterizam o rendimento de uma equipa que consegue atingir o brilhantismo e a mediocridade quase com igual facilidade.

E as três últimas jornadas são o reflexo perfeito disso: em casa, frente ao Barcelona, a Real Sociedad fez a melhor exibição da temporada, e saiu do jogo com um 1-1 que soube, claramente, a pouco, face à superioridade demonstrada em campo (e que até poderia estar manifestada no resultado final, não fosse a equipa de arbitragem ter anulado, indevidamente, aquele que seria o 2-1, a Carlos Vela). Na jornada seguinte, no Riazor, estádio do Deportivo, a Real saiu vergada a uma pesada derrota por 5-1, num jogo inteiramente dominado pela equipa da Corunha. Cinco dias volvidos, e vitória por 3-2 frente ao Valencia, no Anoeta, num jogo dominado pela equipa da casa e que até poderia ter tido outra dimensão, se a eficácia na finalização tivesse sido outra. Uma imprevisibilidade de rendimento que, embora possa custar caro, a longo prazo, confere interesse a qualquer jogo desta equipa.

Eusebio Sacristán é o “timoneiro” da formação basca [Foto: elrincondelareal.com]
 

O futebol da Real

A qualidade de jogo apresentada pela Real Sociedad é um dos principais motivos – se não mesmo o principal – pelos quais vale a pena ocupar 90 minutos da vida a vê-los jogar. São treinados por Eusebio Sacristán, técnico de 52 anos que fez parte da lendária “Dream Team” do Barcelona, comandada pelo mítico Johan Cruyff, e que passou praticamente 15 anos no clube, como jogador e treinador. Não é, portanto, uma surpresa constatar que Eusebio tem no sangue a filosofia catalã, baseada na posse de bola e na utilização da mesma como instrumento para dominar o jogo e alcançar a supremacia sobre qualquer adversário.

É essa ideologia que ele procura reproduzir nesta Real. Normalmente em 4x3x3 (que, ocasionalmente, pode variar para um 4x2x3x1), é uma equipa que procura, sempre que possível, atacar pelo corredor central e jogar de forma apoiada, de pé para pé, em qualquer zona do terreno. Aqui, há que realçar a qualidade dada na saída de bola pelos centrais (sobretudo por Iñigo Martínez), que procuram fazê-la chegar com qualidade e pelo chão a terrenos mais adiantados, e inclusive pelo guarda-redes Rulli, que também faz da distribuição um dos seus pontos fortes. Também a utilização que a Real faz dos corredores laterais, embora seja significativa, tem apenas como objectivo o descongestionamento do corredor central e, no último terço, a utilização do cruzamento como meio de chegar ao golo, mas apenas quando existe uma presença efectiva de jogadores seus na área, que torne essa acção perigosa e realmente eficaz. Importante, aqui, a qualidade de decisão e o critério com bola exibido pelos seus laterais (Carlos Martínez ou Elustondo pela direita, Berchiche pela esquerda).

No meio-campo, a aposta recai habitualmente num trio de médios que se destacam pelo equilíbrio que conferem à equipa, através de uma boa capacidade de trabalho sem bola, e de uma qualidade de passe acima da média quando a têm. O papel de Illarramendi, Zurutuza e Xabi Prieto (o trio mais utilizado por Eusebio) é o de conferir fluidez à circulação de bola, procurando sempre o caminho mais simples para a fazer chegar ao último terço (mas tendo sempre em conta o valor da posse de bola, e o quão importante é circulá-la com segurança), sendo que possuem também grande importância na forma como a equipa reage, rapidamente, à perda da bola, e consegue pressionar de forma relativamente organizada no meio-campo adversário, complicando bastante a tarefa a equipas que pretendem sair a jogar de forma curta e apoiada. Esta estrutura apenas se altera durante o jogo, com a entrada de Canales para o jogo, um médio ofensivo bastante criativo e que possui claramente mais apetências ofensivas do que defensivas.

Já o ataque da Real Sociedad pauta-se por uma mentalidade jovem e arrojada. A partir da direita, Carlos Vela funciona como um avançado móvel e que percorre toda a frente de ataque. É o jogador mais preponderante da equipa, e é nele que os adeptos mais confiam nos momentos decisivos. O mexicano está no ponto mais alto da carreira até ao momento, e transformou-se num jogador que alia imensa qualidade a uma regularidade exibicional bastante apreciável.

Do outro lado, está a jóia da formação do clube, Mikel Oyarzabal. Com apenas 19 anos, tem um futuro muito promissor pela frente. É já internacional A espanhol, tendo feito o seu único jogo em Maio deste ano, num jogo amigável frente à Bósnia. Um extremo que representa a escola espanhola ao seu melhor nível. Apresenta qualidade com ambos os pés (embora o esquerdo seja o seu pé predominante), sente-se à vontade em espaços curtos, onde pode explanar toda a sua qualidade no drible, e possui também um entendimento do jogo digno de destaque, pela forma como encontra, com facilidade, linhas de passe que aproximam a equipa da baliza adversária. Não sendo um avançado, como Vela, é um jogador com características para poder jogar nos três corredores, e serve como um excelente complemento ao mexicano.

E depois, há o brasileiro Willian José na frente de ataque. O avançado brasileiro, de 25 anos, já tinha deixado boas indicações na temporada passada, ao apontar 9 golos em 30 jornadas pelo Las Palmas. Esta época, no entanto, finalmente “explodiu”, e tem demonstrado todo o talento que há muito lhe era reconhecido. Com 14 jogos realizados no campeonato, já igualou os mesmos 9 golos da época passada. Uma marca que lhe permite ser o actual goleador da Real, bem como um dos melhores marcadores da La Liga.

Forte fisicamente (possui uma velocidade e agilidade surpreendentes para um jogador com 1,89m), com elevada qualidade técnica e de remate fácil, Willian é a referência da Real na área e um avançado bastante completo, que oferece múltiplas soluções à equipa e cria perigo de diversas formas aos seus adversários. Apesar daquilo que a sua altura poderia indicar, é um avançado móvel. É frequente vê-lo sair da zona dos centrais, procurando participar nas fases de construção e criação da equipa. No fundo, Willian é o sucessor perfeito de Jonathas, goleador da Real na época passada, que foi transferido para a Rússia (para o Rubin Kazan), e jogador que partilha muitas das suas características.

Willian José tem sido uma das principais referências da Real nesta temporada [Foto: skysports.com]
 

Destaque: Iñigo Martínez

Apesar de existirem equipas com orçamentos significativamente superiores na La Liga, e com todas as condições para conseguir ter nas suas fileiras os melhores jogadores do campeonato, é na Real Sociedad que mora um dos melhores centrais a actuar em Espanha na actualidade.

Internacional A pela selecção espanhola (3 jogos realizados, tendo-se estreado num jogo amigável frente ao Equador, em Agosto de 2013), Iñigo Martínez é um jogador que se destaca, não só pelas qualidades associadas naturalmente a um central – como a capacidade de desarme ou a competência em aspectos como o jogo aéreo ou o sentido posicional –, mas sobretudo pela panóplia de opções que possui quando tem a bola em seu poder. Dono de uma qualidade de passe soberba, tanto curto como longo, com uma visão de jogo invulgar para um central e com uma qualidade técnica acima de qualquer suspeita, em todas as acções, Iñigo é o esteio da defesa da Real, e um dos pilares da equipa.

Com 25 anos (faz 26 em Maio), está na altura perfeita para “dar o salto” e demonstrar todo o seu valor num clube de outra dimensão, pois possui a qualidade necessária para o fazer. Mas tendo renovado recentemente com a Real Sociedad (em Abril do presente ano), e sendo um dos jogadores mais acarinhados (a Real é o único clube que conheceu na carreira, e aquele onde já conta praticamente com 200 jogos oficiais) e valorizados do plantel, é de esperar que os interessados sejam obrigados a “abrir os cordões à bolsa” para o retirar da formação basca. Mas ele valerá, certamente, esse esforço.

Seja pelos jogadores talentosos que alberga, pelo futebol positivo que pratica ou simplesmente por empatia com o clube, acompanhar os jogos da Real Sociedad é uma experiência que vale o tempo investido. Apesar da sua irregularidade, a equipa basca promete estar na luta pelos lugares europeus até final, numa La Liga que esta época se apresenta recheada de equipas talentosas e tacticamente interessantes.


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