Já é histórico o patamar de Jorge Jesus no Flamengo e no Brasil?

Rafael RibeiroJulho 20, 20207min0

Já é histórico o patamar de Jorge Jesus no Flamengo e no Brasil?

Rafael RibeiroJulho 20, 20207min0
A passagem do treinador português durou um ano, e o período mais títulos do que derrotas a frente do Flamengo. Qual o patamar que Jorge Jesus alcançou na história do Rubro-Negro e do futebol brasileiro?

O Fair Play discute a seguir a importância da passagem do treinador pelo Brasil. Seja pela qualidade apresentada pela equipa enquanto comandada por ele, pela sequência de títulos dadas ao Flamengo, ou mesmo pela relevância de sua rápida passagem para os campeonatos brasileiros e sul-americanos que disputou. Mesmo não sendo unanimidade para os adeptos benfiquistas, neste lado do oceano era praticamente certo que tanto diretoria quanto adeptos flamenguistas torciam para sua permanência, e não é difícil entender o motivo.

Para entendermos o impacto de Jorge Jesus e seus jogadores durante esta passagem, é preciso enumerar os títulos conquistados pelo Fla. São cinco conquistas, número maior do que a quantidade de derrotas do treinador pela equipa carioca (Jorge Jesus deixou o comando com 57 partidas, sendo 43 vitórias, 10 empates e apenas quatro derrotas – aproveitamento de 81,2%). Conquistas muito comparáveis ao período glorioso de Paulo César Carpegiani, na década de 80, em que o Fla também conquistou uma Libertadores da América (81), o Mundial de Clubes (81), o Campeonato Carioca (81) e o Brasileirão (82).

Talvez o feito só não seja equivalente pela conquista do Mundial de Clubes por Carpegiani. Ex-jogador da equipa, tão logo anunciou sua aposentadoria dos relvados para assumir o cargo de treinador (no próprio ano de 81) e já conseguiu feitos muito relevantes, até deixar a vaga em 83. Mesmo com um aproveitamento inferior (155 jogos: 94 vitórias, 34 empates e 27 derrotas – aproveitamento de 67,9%), a equipa que contava com Júnior, Andrade, Adílio e Zico conseguiu o que Rafinha, Arrascaeta, Bruno Henrique e Gabigol não. Mas eis o que fizeram:

Brasileirão de 2019

O primeiro título foi o nacional, conquistado depois de 10 anos (Foto: Wagner Meier/Getty Images)

Ao estrear na décima rodada da competição, Jorge Jesus levou o Flamengo ao título nacional de forma impecável. Foi apenas o segundo estrangeiro a ganhar o Brasileirão (primeiro europeu) e certamente isso não é algo a ser desprezado. Mostrou que, mesmo não sendo um treinador de primeira prateleira na Europa, ainda está a frente do que o futebol brasileiro (seus treinadores e dirigentes) pode apresentar em competição direta com outros países. Foram apenas duas derrotas do português, uma contra o Bahia, por 3-0, e contra o Santos, já tendo sido campeão, por 4-0, ambas fora de casa.

O plantel flamenguista se mostrou superior aos demais, mas não foi apenas demérito das outras equipas em não rivalizar diretamente com o Flamengo pelo título de 2019. O Palmeiras, apontado como um dos principais rivais, não conseguiu boa sequência e ficou pra trás na reta final da competição, deixando o vice-campeonato até mesmo para o surpreendente Santos de Jorge Sampaoli, que mesmo em um desempenho agradável, ficou 16 pontos atrás do Fla de Jorge Jesus. Muito se falava que Jorge Jesus não teria o hábito de rodar o plantel e dar chances para todos os jogadores, mas o que se viu foi um bom aproveitamento até de jogadores considerados reservas.

Libertadores de 2019

Além do segundo estrangeiro a levar o Brasileirão, também foi o segundo europeu a levar a Libertadores (Foto: Divulgação/Conmebol)

O principal título da era Jorge Jesus foi a competição continental. Ao terminar a fase de grupos em primeiro lugar, mas com a mesma quantidade de pontos de LDU (EQU) e Peñarol (URU), a fase eliminatória foi exemplar. Mesmo começando os oitavos de final com derrota (2-0 para o Emelec-EQU) e depois devolvendo o 2-0 no Rio de Janeiro para se classificar nos pênaltis, Jorge Jesus ficou invicto desde então e conquistou a taça sul-americana depois de 38 anos para os rubro-negros.

Ao despachar o Internacional (2-0 na primeira mão e 1-1 na segunda mão) e nas semifinais o Grêmio (1-1 na primeira mão e 5-0 na segunda mão) mostrou ainda mais o poder do Flamengo frente aos demais brasileiros. Simbolicamente, o 5-0 sobre a equipa do sul campeã de 2017, ainda mais em um capítulo a parte contra o treinador Renato Portaluppi, deixou os adeptos ainda mais confiantes na conquista do título. A final contra o River Plate, primeira final única da competição em estádio neutro (como acontece com a Champions League) guardou as maiores emoções da história de JJ no Flamengo. Perdendo por 1-0 até os 89 minutos, um empate e uma virada épica aos 92 minutos (ambos os gols de Gabriel Barbosa) sacramentaram a conquista como a mais importante nas últimas décadas.

Mais títulos, agora em 2020

A conquista do Campeonato Carioca foi o 5º título do Mister, mas também marcou sua despedida do Brasil (Foto: Reprodução)

A Supercopa do Brasil de 2020 marcou não apenas o terceiro título de Jesus, mas o primeiro título da competição depois de sua reinvenção, já que ela havia sido criado em 1992 e retornou apenas no começo deste ano, colocando o campeão do Brasileirão contra o campeão da Copa do Brasil (Athletico Paranaense). 3-0 para o Flamengo em jogo único e mais um título para o Mister. Mesmo com a derrota do Mundial de Clubes para o Liverpool, os adeptos já comemoravam outra conquista em pouco espaço de tempo. Já a Recopa Sul-americana foi o título disputado contra o Independiente Del Valle (EQU), que coloca o campeão da Libertadores frente ao campeão da Copa Sul-americana. A primeira mão terminou em 2-2 no Equador, mas no Brasil a vitória por 3-0 selou o quarto título, segundo em 2020.

Por fim, o Campeonato Carioca conquistado recentemente, após o período de paralisação das atividades devido à pandemia do Coronavírus, mostrou que o Flamengo continua em alta, mesmo enfrentando competidores de menor qualidade no campeonato estadual. É fato que muito se questionou da qualidade técnica do time desde a volta às atividades. Mesmo vencendo o primeiro turno (Taça Guanabara), acabou perdendo o segundo turno (Taça Rio) e forçando duas mãos para decidir o campeão, contra o Fluminense, em uma clara queda de rendimento. Em meio aos boatos de uma possível despedida e um acerto com o Benfica, 1-0 na primeira mão e 2-1 na segunda mão foram os resultados que colocaram o quinto título nas mãos do treinador.

Por um curto período, somado aos acertos da administração flamenguista (no que se refere ao acerto financeiro de suas dívidas e da criação de uma equipa forte), Jorge Jesus foi o comandante certo para um plantel de qualidade se comparado aos demais times brasileiros, e está sim em uma prateleira diferenciada dos treinadores comuns que por aqui passaram. Sem nomes relevantes como Diego Alves, Rafinha, Gérson, Arrascaeta, Bruno Henrique e Gabigol, talvez Jesus tivesse menos sorte por aqui, mas sem dúvida sua gestão com o plantel foi importantíssima para que o rendimento fosse de alto nível. Procurando por um substituto, o Flamengo terá o mesmo desempenho? Não se sabe, e é provável que, caso tenha, demore algum tempo para que o time se adeque a um novo trabalho, que já estava estabilizado com Jesus. Seja Marco Silva, Sampaoli, Renato Gaúcho ou até mesmo Rogério Ceni, todos terão a sombra de Jorge Jesus e seus resultados surpreendentes.

 


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