24 Ago, 2017

Vídeo-árbitro em Portugal: uma mudança desafiante

Daniel FariaMaio 28, 20178min0

Vídeo-árbitro em Portugal: uma mudança desafiante

Daniel FariaMaio 28, 20178min0

O futebol português inicia hoje uma nova era, com a estreia do vídeo-árbitro, na final da Taça de Portugal entre Benfica e Vitória de Guimarães, no Jamor. Com os árbitros “debaixo de fogo” – imagem recorrente no futebol luso, onde se discute por vezes mais arbitragem do que futebol – conseguirá a tecnologia “refrear” os ânimos e ser uma espécie de “porto seguro” que permita amenizar as vozes contestatárias que tantas vezes se erguem contra a arbitragem?

A principal palavra que se coloca a partir de hoje é mudança. Para o bem ou para o mal, o vídeo-árbitro mudará a visão do futebol em Portugal, culminando na tão desejada “revolução tecnológica”. Para além da mudança, a palavra desafio está presente. Toda a mudança constitui um desafio que os árbitros e comunidade futebolística portuguesa terão que saber lidar, adaptando-se a uma nova realidade que conjuga tecnologia e futebol.

O sistema, a cargo dos árbitros Artur Soares Dias e Jorge Sousa, vai estar “instalado numa ‘régie’” e permitirá aceder a “todos os ângulos de câmara disponíveis no estádio”.

Portugal é pioneiro

O nosso país torna-se deste modo pioneiro nesta tecnologia, uma vez que o jogo de hoje que decide o vencedor da Taça de Portugal 2016/2017, assume-se como a primeira final em provas nacionais, a nível mundial, a recorrer oficialmente ao vídeo-árbitro.

Estádio do Jamor apadrinhará o vídeo-árbitro em Portugal (Foto: FPF)

O passo decisivo foi dado a 5 de março de 2016, no 130º encontro anual realizado em Cardiff, quando o International Board decidiu autorizar a introdução deste recurso. Portugal foi um dos primeiros seis países a avançar, a par de Austrália, Brasil, Estados Unidos, Alemanha e Holanda.

Os australianos foram os primeiros a adoptar o sistema, e espera-se que, para além de Portugal, se juntem à revolução tecnológica Holanda e Alemanha. De resto, os árbitros portugueses já foram experimentando o sistema na Cidade do Futebol, em Oeiras.

De relembrar que a Federação Portuguesa de Futebol confirmou a 7 de Abril a utilização do vídeo-árbitro no embate entre vitorianos e “encarnados”, o primeiro jogo oficial do país a recorrer ao sistema de comunicação entre o árbitro de campo e os árbitros a cargo das imagens em directo.

Árbitros portugueses têm experimentado a tecnologia pelo menos desde o ano passado. (Foto: antoniotadeia.com)

Objectivo é errar menos

“Queremos claramente que os árbitros errem cada vez menos e esta ferramenta, estamos convencidos, será muito importante para diminuir a margem de erro”, foram as palavras de Fernando Gomes, da FPF, na ocasião.

Isso mesmo. Errar cada vez menos. Porque a perfeição não existe, ao contrário do que muitos adeptos do “desporto rei” possam pensar, relativamente à tecnologia “ligada” à arbitragem. O vídeo-árbitro não vai eliminar os erros a 100%. Estamos a falar de seres humanos. E como se sabe, os seres humanos falham. E quem controla a tecnologia do vídeo-árbitro? Pois. São pessoas.

Falando mais concretamente no funcionamento do vídeo-árbitro, os vídeo-árbitros assistentes (VAR), vão poder intervir em situações como a validação de golos, a marcação de grandes penalidades, a atribuição de cartões vermelhos e possíveis erros na identificação de jogadores castigados.

A tecnologia intervém principalmente nas situações especificadas na imagem. (Foto: FIFA)

Engane-se quem ache que os VAR poderão intervir quando quiserem. Até porque isso levaria a um desperdício de tempo útil de jogo, que não é o que se pretende.

Trocando por miúdos: o recurso ao vídeo-árbitro pode ser decidido pelo árbitro, através do sistema de intercomunicações, ou podem ser estes assistentes a recomendar ao juiz que reveja uma decisão tomada no decurso do jogo. Seguidamente, os vídeo-árbitros, devidamente instalados numa sala de operações, revêm o lance e informam o árbitro da decisão que acham ser a correcta. O “homem do apito” pode depois decidir rever ele próprio a jogada junto à linha lateral ou simplesmente aceitar a recomendação dos auxiliares.

Sistema não é perfeito

Outra situação serão os fora-de-jogo. Estes lances não serão analisados pelo vídeo-árbitro, a não ser que resultem em golo. Em contrapartida, este sistema pode funcionar como incentivo aos “bandeirinhas” para que deixem prosseguir as jogadas que suscitem dúvidas, pois em caso de golo irregular, a decisão poderá ser revertida pelo olhar da tecnologia.

“O vídeo-árbitro deve ser usado em situações muito específicas: golos, penáltis, vermelhos – mas apenas directos, não por acumulação de amarelos, e identidade trocada”, destacou David Elleray, director técnico do International Board.

Amostragem de cartões é um dos campos onde a tecnologia pode intervir. (Foto: RR Sapo)

O inglês admitiu ainda que há uma situação que não pode ser resolvida: “Se um golo resulta de um canto mal assinalado, o vídeo-árbitro nada pode fazer e temos de aceitar, pois as leis dizem que a partir do momento em que o árbitro dá ordem para o recomeço do jogo já não pode voltar atrás.”

“O sistema não é perfeito, há desafios”, reconheceu Elleray, dando o exemplo das bolas paradas. Apresentou como exemplo um lance muito semelhante ao ocorrido no último dérbi no Estádio da Luz, quando o primeiro golo do Benfica resultou de uma jogada em que o Sporting pediu penálti. “Com o vídeo-árbitro, as pessoas teriam de aceitar que o golo fosse anulado caso o árbitro entendesse que tinha havido penálti do outro lado.”

Intervir o menos possível

Outro ponto que já se falou atrás, é a possível perda de tempo no acto da decisão. Os críticos do sistema apontam a perda de tempo que o recurso ao vídeo-árbitro pode provocar. “Não queremos ter 10 intervenções por jogo. Em testes que estamos a fazer nos EUA, houve três interferências em 10 jogos”, assegurou o antigo árbitro inglês. “Não queremos que os árbitros digam ‘Não sei se é penálti ou não, quero ver repetição’.”

Intervir o menos possível, é um dos objectivos do vídeo-árbitro. (Foto: clicrbs.com.br)

Por outras palavras, a revisão ocorre apenas quando o vídeo-árbitro – ou outro assistente – der indicação clara de um erro flagrante ou o próprio árbitro suspeita que perdeu algo importante. “O árbitro deve aceitar a decisão em factos objectivos. Em questões subjectivas (se é vermelho ou amarelo, ou se foi mão na bola ou bola na mão), terá de ser sempre o árbitro a ver e a decidir”, explicou Elleray.

“Exemplo e inspiração”

Por outro lado, o presidente da FIFA, Gianni Infantino, mostrou também o seu agrado pelo sistema ser adoptado em Portugal, dizendo-se “muito satisfeito” pela implementação do vídeo-árbitro na I Liga portuguesa de futebol na próxima temporada, uma situação que deve servir como “exemplo e inspiração para todos”. Como se sabe, anunciou também, no final de Abril, que a tecnologia do vídeo-árbitro será utilizada no mundial de 2018, na Rússia.

Infantino congratulou Federação Portuguesa de Futebol pela oficialização do vídeo-árbitro. (Foto: RR Sapo).

Por fim, uma questão-chave: A indicação do vídeo-árbitro sobrepõe-se à do árbitro? A resposta é um redondo não. A decisão final sobre qualquer lance que possa estar em causa cabe sempre ao árbitro da partida. Isto para dizer que o sistema do vídeo-árbitro não será infalível, como muita gente pensa. O futebol e decisões inerentes ao mesmo, estarão sempre ligadas a um fenómeno complexo. O vídeo-árbitro procurará somente ajudar os árbitros a errarem menos. Erros irão sempre existir, e é essa a essência da arbitragem. Só errando é que os árbitros têm a necessidade de evoluir, corrigindo esses mesmos erros e tornando-se um agente desportivo confiável e com credibilidade.


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