18 Ago, 2017

O Diário do Atleta – Francisco “Mini” Vieira ep. I

Francisco IsaacJulho 16, 201716min0

O Diário do Atleta – Francisco “Mini” Vieira ep. I

Francisco IsaacJulho 16, 201716min0

O Diário do Atleta regressa com Francisco G. Vieira, ou “Mini” como é conhecido em terras da Invicta! O formação português, ex-CDUP, conta os seus primeiros tempos em Inglaterra e a experiência total ao jogar num dos países do Rugby ao serviço dos Titans. O episódio I

Depois de ter finalizado contrato com o Gran Sasso Rugby, o meu futuro estava ainda por definir. A dúvida sobre o meu futuro pairava, apesar de ter bem claro aquilo que queria para a mim neste momento: ser jogador profissional de Rugby. Contudo, ainda sem nenhuma proposta em cima da mesa, como se iria desenrolar esse objectivo? Voltar para Itália? Para o Gran Sasso? Para outro clube? Conseguir um contrato profissional em Inglaterra? França? Ou adiar o sonho por mais uns tempos e continuar o meu desenvolvimento no CDUP ? 

Tinha uma proposta para a National One (3a divisão) mas decidi adiar a minha resposta, e em boa hora, porque uma semana depois recebi um telefonema do meu agente enquanto aproveitava um dia de sol numa das praias do Porto.

“Tenho um clube do Championship interessado em saber da tua disponibilidade para os representares na próxima época estás interessado?”

Respondi que sim e que podia avançar com o processo. Rotherham Titans RUFC, seria a minha nova casa. Um clube histórico no Championship e um dos clubes com mais sucesso nesta divisão.

Depois das sempre difíceis despedidas de família, namorada e amigos, estava a aterrar em Manchester por volta das 23:30 de dia 11 de Junho, onde à minha espera com um cartaz com o meu nome, estava um dos Vice-Presidentes do clube, Matt Cockton, para me levar até Rotherham. Como ainda não tinha encontrado casa, fiquei 2 dias num hotel que tem uma parceria com o clube e onde cheguei por volta da 1 da manhã.

O Matt (VP) ao me deixar no hotel perguntou-me a que horas queria que me viesse buscar ao que respondi, já ciente do horário dos treinos, 8/8:30 da manhã uma vez que não queria chegar atrasado ao meu primeiro treino. Disse-me que ninguém esperava que fosse treinar de manhã tendo eu chegado tão tarde contudo insisti que queria começar a horas o meu primeiro dia.

Assim foi e combinámos que me viria buscar às 9 da manhã. Já pronto e de pequeno-almoço tomado decidi subir rapidamente ao meu quarto e nisto tive o primeiro cheirinho da pontualidade britânica, às 9:01 estava a receber uma chamada para o quarto dizendo que estavam no lobby à minha espera para me levarem para o clube.

Depois de conhecer alguns elementos do staff e as pessoas que fazem o clube funcionar, o treinador adjunto Nick Rouse, que jogou contra os Lusitanos XV na Amlin Cup, levou-me a conhecer o ginásio e o preparador fisico, Muaz Buaben(“Mu”).

Depois de um treino leve de ginásio, eram horas de almoçar e voltar para o clube, altura em que conheci mais jogadores, mais pessoas do staff e o treinador principal, Andy Key (“Kiwi”).

O treino da tarde, mais direccionado para o condicionamento físico e por isso muita corrida, consistiu em 4 séries de 6 minutos, onde durante esses 6 minutos era suposto correr de uma linha de ensaio à outra o máximo número de vezes. Apesar de ter estado com os Sevens há pouco tempo, este treino custou bastante e ainda mais quando nos primeiros minutos, não conseguia “fugir” de um dos pilares e de um talonador que me acompanhavam no grupo da frente.

Depois de 3 séries feitas, com 1 minuto e meio de descanso entre elas, o Preparador Físico informou-me que para mim já chegava e que podia descansar, ao que imediatamente perguntei porquê! Disse-me que era por ser a minha primeira semana (os treinos tinham começado na semana anterior mas eu só me juntei ao grupo uma semana mais tarde) e que todos tiveram direito ao mesmo benefício.

Por muito desejado que fosse esse descanso, rejeitei e insisti que não queria tratamento especial e que iria acabar o treino com o resto da equipa.

Estou num campeonato 100% profissional e isso exige mais de mim”

Surpreendi-me a mim próprio ao ter este pensamento numa altura em que o racional não costuma aparecer e fiquei bastante contente por ter feito a quarta série com o resto da equipa. 

Segundo dia e primeiro feedback por parte do treinador! Disse me que gostou dos meus “boxkicks” e que era um “futebolista”, no bom sentido da palavra, ou seja, que tinha um bom contacto com do pé na bola e sabia onde acertar mas que apenas precisava de trabalhar a consistência do movimento e consequentemente o ponto de queda da bola. Gostei bastante da minuciosidade com que olhou para este “skill” fulcral num médio-formação, ao invés de apenas olhar para o resultado final.

No mesmo dia tive um primeiro cheirinho daquilo que é um treino numa “Wattbike”. Novamente no treino da tarde, o tema foi condicionamento mas desta vez um pouco mais complexo, o que implicava o uso da mão, e estando ainda de gesso na mão esquerda não poderia participar, contudo há sempre alguma coisa que podemos fazer e no meu caso foi a “Wattbike“.

Depois de recebermos as instruções sobre o nosso treino, eu e o meu novo amigo Fijiano Ifereimi Boladau (que partiu o rádio do antebraço direito há pouco tempo) marchámos até ao Ginásio. Quando acabámos os respectivos treinos, estava em tão mau estado das pernas que não consegui descer uma pequena rampa de acesso ao campo de treinos , para o divertimento do “Mu” que parecia estar a adorar o meu estado de sofrimento. 

Foto: Francisco G. Vieira

Uma vez que o Hotel estava cheio a partir de quarta-feira, precisava de arranjar um sitio para ficar até encontrar a minha própria casa. Amavelmente, o Allan McHale, Director-Geral do clube, ofereceu-me um quarto na sua casa pelo tempo que fosse preciso e sendo assim, terminado o dia de treinos levou-me para sua casa onde me apresentou à sua mulher, filho e neto.

Mais uma vez a tradição britânica apanhou-me de surpresa, e eram seis da tarde quando começámos a jantar! Nem correu mal até porque depois de um exaustivo dia de treinos e especialmente uma tarde dura, um lanche reforçado era mesmo o que precisava! 

Já jantado, o Allan convidou-me para o acompanhar novamente ao clube mas desta vez para assistir a uma das famosas “Titans Tuesday“. Explicou-me que o principal objectivo desta rubrica era passar o jogo do fim de semana na tela grande e assim dar oportunidade aos adeptos, que não puderam viajar com a equipa, de ver o jogo do fim de semana, podendo, ou não, a visualização ser acompanhada por alguém da equipa técnica a falar do jogo.

Foto: Francisco G. Vieira

Contudo, estando na pré-época e ainda sem jogos, aproveita-se para se darem palestras e para os jogadores terem a oportunidade de se apresentarem e se darem a conhecer ao público. Neste dia a estrela da noite era o nosso chefe do departamento de Fisioterapia, David Swift, que ia dar uma palestra sobre os testes que são feitos aos jogadores na pré-época e em que sentido se podem evitar certas lesões mediante os resultados obtidos nestes testes.

Para a sorte do “Swifty”, e meu azar, eu estava presente e automaticamente qualifiquei-me para ser a cobaia de serviço para realizar os testes a frente dos adeptos. Como se já não bastasse, ao meu segundo dia no clube já estar a expor as minhas eventuais fraquezas, pediu-me que tirasse a t-shirt para avaliar possíveis diferenças entre alturas dos ombros ou curvaturas excessivas na coluna.

Apesar do meu desconforto acabei por tirar a t-shirt e imediatamente alguém do publico disse “Arranjem-lhe um bife e umas batatas fritas rápido!!” Momento cómico, que me fez rir bastante e ajudou a quebrar o gelo e a deixar-me um pouco mais à vontade! No fim, e algumas gargalhadas depois, numa onda de simpatia, a grande maioria dos adeptos presentes fizeram questão de me vir cumprimentar e desejar o maior sucesso nos Titans!

Ao terceiro dia, fui ver uma casa que me agradou, mas ao saber que não tinha wifi instalado, impossibilitando por isso contactos com Portugal, risquei a casa da lista.

Porém, o Matt, que me foi buscar ao aeroporto, ofereceu-se para colocar o wi-fi em seu nome até eu estar acomodado (era necessário ter um cartão bancário inglês associado) e, também por não querer abusar da minha estadia em casa do Allan, acabei por aceitar esta proposta e, ao quarto dia, mudei-me para a minha nova casa.

Ainda sem internet e televisão as minhas viagens até ao clube eram regulares para abusar do wi-fi e ver uns jogos de rugby, ou pelo menos tentar! Sempre que entrava alguém na clubhouse, faziam questão de me cumprimentar e perguntar se estava bem, se precisava de alguma coisa, e que de certeza que ia adorar jogar pelos Titans! Até hoje ainda ninguém me deixou pagar seja o que for no bar do clube.

Na segunda semana, tivemos a primeira sessão de reuniões individuais com o staff técnico, pediram para falar um pouco sobre mim e sobre aquilo que poderia trazer à equipa

Finalizaram dizendo que estavam super agradados comigo e com os extras que trouxe e que não estavam à espera, e umas das coisas que me ficou é que claramente foi me dito que, como médio de formação esperavam que fosse um dos jogadores mais fit, nada que já não estivesse à espera! Contudo, o que me veio à cabeça foi que todos aqueles treinos de condicionamento doíam.. E muito! E ainda não me distanciava o suficiente para ser claramente o mais fit da equipa, ou seja, iria de ter de puxar ainda mais por mim se quisesse ser o indiscutível dono da camisola 9. 

Ao décimo dia recebi o n.29 no equipamento de treino (números entregues por ordem alfabética), fui o primeiro a chegar ao estádio e vi os treinadores todos no escritório a aplaudirem-me! Primeiro achei que fosse por ter chegado tão cedo, mas quando entrei percebi que era por ter vestida a camisola de Inglaterra!  “Eu sabia que o íamos converter” disse o Kiwi em tom de brincadeira, e a minha resposta foi óbvia “(risos) Não, não, nada disso! Sou português!! Só gosto é da camisola!!”.

O novo “kit”! (Foto: Francisco G. Vieira)

Depois de um treino extra antes do treino de recuperação que íamos ter no relvado do estádio, foram-nos entregues os Kits de treino da Scimitar Sports, uma marca nova onde um dos donos já jogou no GDD há muitos anos atrás e fez questão de me abordar e falar um bocadinho sobre o rugby nacional e queria saber como estava o campeonato português agora. 

Um ultimo episódio caricato acontece todas as sextas feiras quando temos um treino extra de boxe e devido à minha limitação da mão, só pude jogar com a minha mão direita. igualmente limitado está o meu grande amigo número 8 Fijiano de 1,90m e 115 kg . Uma visão algo cómica ver-me a aguentar os socos dele, que, felizmente, só pode usar a mão esquerda!!

 Do ponto de vista mais táctico, temos tido poucos treinos de rugby, mas o pouco  treino táctico que temos tido é sempre acompanhado de uma lição teórica antes com vídeo ou, no mínimo uma explicação calma e detalhada daquilo que é pretendido. Durante os treinos somos filmados por um drone e por câmaras frontais e/ou traseiras, onde os vídeos são colocados numa pasta privada para que possamos aceder e observar e eventualmente discutir coisas a melhorar! 

Uma semana tipo tem sido:

  • Segunda feira, treino de ginásio e de skills de manhã, almoço por volta do meio dia e meia no clube e treino da tarde a começar as 14:30h com exercícios de coordenação e manipulação da bola seguido de treino de condicionamento fisico até as 16h. Depois andar um bocadinho pelo centro da cidade e vir para casa ler, falar com Mãe e namorada e preparar o jantar.
  • Terça-feira, igual ao treino de segunda mas, normalmente, é o dia mais intenso da semana com os treinos de condicionamento a serem mais focados na intensidade e menos na duração.
  • Quarta-feira, treino de recuperação com exercícios de alongamento assistido, treino de equilíbrio e manipulação da bola com o dia a acabar no almoço. Todas as quartas, um grupo de jogadores (grupo diferente todas as semanas) vai dar uma aula de Rugby às escolas, tarefa que ainda não me calhou e por isso tenho aproveitado para tratar de coisas necessárias à minha estadia aqui, como conta bancária, compras, número de segurança social, entre muitos outros. 
  • Quinta-feira, semelhante ao ao dia de segunda e terça mas com um foco mais em treino de circuito, fazer muitas coisas diferentes e obrigar a cabeça a pensar em momentos de fadiga extrema, com exercícios de  skill no descanso entre as séries.
  • Sexta feira treino de ginásio de manhã seguido por aula de boxe de 1 hora e almoço, a tarde livre de sexta feira é geralmente usada para o Team Social, onde nos juntamos todos e vamos fazer coisas fora do rugby como por exemplo jogar bowling, ping pong ou simplesmente conviver no clube. 

Durante o fim de semana, ao sábado de manhã vou ver os Lions à clubhouse e ao Domingo faço um treino de recuperação para me preparar para mais uma semana de treinos de pré-época. 

O passado e presente dos Titans (Foto: Francisco G. Vieira)

Os primeiros jogos amigáveis começam em Agosto e jogamos contra o sheffield , os Newcastle Falcons e o Coventry. O campeonato começa dia 3 Setembro contra o Nottingham Rugby no Clifton Lane, nosso estádio e o primeiro jogo da fase de grupos da British and Irish Cup inicia-se a 13 de Outubro também em Clifton Lane contra o Connacht. 

Podem seguir alguns dos nossos treinos de ginásio através da conta de instagram @therugbygym


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