19 Ago, 2017

Victoria Kaminskaya. “Duvidaram do que podia fazer fora do CAR”

João BastosMaio 15, 201714min0

Victoria Kaminskaya. “Duvidaram do que podia fazer fora do CAR”

João BastosMaio 15, 201714min0

O Fair Play entrevistou a olímpica Victoria Kaminskaya. A nadadora do Estrelas de São João de Brito, treinada pelo Professor Júlio Borja, tem estado em evidência em 2017 tendo já batido seis recordes nacionais absolutos.

fpVictoria, nasceste na Rússia mas vieste para Portugal muito nova. Ainda guardas memórias desta transição? Como foi e como chegaste à natação?

VK: Tenho bastantes memórias do tempo que vivi na Rússia, são coisas que não se esquecem. Mas sinceramente não me lembro muito do momento em que recebi a notícia que iria mudar de país.

Só me lembro do meu pai me dizer que iríamos mudar, fizemos um jantar de despedida com as pessoas mais próximas e de repente já estava no avião. Foi a primeira vez que andei de avião e fiquei impressionada porque o avião era mesmo muito grande (risos).

Cheguei a Portugal na idade de ingressar na escola primária e tinha muito tempo livre. Como os meus pais sempre me incentivaram a praticar desporto, fui vendo que modalidade queria praticar.

Uma vez que tinha amigas que praticavam natação, foi essa modalidade que me chamou mais a atenção e foi assim que comecei a nadar.

fpO teu primeiro record nacional veio no escalão de juniores e daí para cá já bateste 48 recordes nacionais individuais. Neste momento, em Portugal, só tens uma adversária ao teu nível, que és tu própria?

VK: Quando era mais jovem, no escalão de juniores, ainda tinha algumas adversárias mais velhas, e também da minha idade, que tinham um nível semelhante ou superior ao meu.

Com o passar dos anos fui evoluindo gradualmente e as minhas adversárias mais velhas começaram a abandonar e com naturalidade comecei a não ter adversárias ao mesmo nível em Portugal.

Houve uma mudança de geração e agora estão a aparecer nadadoras mais novas que estão a evoluir bem e, quem sabe, se daqui a uns tempos não estarão a disputar as provas comigo.

fpE a nível internacional, não falhas uma grande competição desde 2012. Vês o topo cada vez mais próximo?

VK: Sim. Anteriormente os meus objectivos eram fazer os mínimos e participar nas grandes competições.

Agora a minha preocupação não é só fazer os mínimos. Os objectivos passam por alcançar resultados de relevo, como alcançar meias finais ou mesmo uma final num campeonato europeu ou mundial.

Foto: COP

fpQual é o teu grande objectivo de carreira?

VK: Alcançar um resultado nunca antes alcançado por uma nadadora portuguesa, seja em campeonatos do mundo ou em Jogos Olímpicos.

Assim como tinha o sonho de ir aos Jogos Olímpicos, este é um sonho que tenho: deixar a minha marca na natação portuguesa. Pode acontecer ou não, mas é algo que persigo diariamente.

fpO Rio de Janeiro marcou a tua estreia olímpica. Como foi essa experiência?

VK: Foi muito boa. Não por encontrar os melhores atletas do mundo em várias modalidades, mas por estar entre eles. A sensação de fazer parte de um grupo tão restrito, numa competição em que o acesso é tão difícil, foi muito boa!

Os Jogos são verdadeiramente uma competição do outro mundo. Não estamos rodeados apenas dos melhores atletas da natação, mas de todas as modalidades.

É engraçado observar as rotinas e culturas dos vários atletas. A postura, forma de vestir, os comportamentos, a alimentação, etc…

Por exemplo, as ginastas eram facilmente identificáveis. Para além de serem todas muito baixinhas, magrinhas e sempre muito maquilhadas, têm uma postura muito característica que as torna inconfundíveis.

Na aldeia olímpica era sempre motivo de alegria passar pelos elementos da comitiva portuguesa. Foi uma experiência espectacular.

fpE qual o balanço das duas provas que nadaste lá?

VK: Eu nadei os 200 e 400 estilos e, em termos de resultados, ficaram aquém das minhas expectativas.

Eu vou para as provas para melhorar sempre e na altura fiquei desiludida, mas depois reflecti e percebi que estar numa competição daquela dimensão e saber lidar com os nervos da estreia deu-me uma bagagem e uma experiência que não tinha antes, por isso o balanço desta participação, para a minha carreira, é sempre positivo.

fpJá este ano, deixaste o CAR e começaste a treinar com o Estrelas e com o Prof. Júlio Borja. Porquê esta mudança?

VK: Importa referir, em primeiro lugar, que esta mudança se deveu unicamente à universidade. Estive dois anos dedicada em exclusivo à natação e achei que não podia estar mais quatro anos sem estudar.

Tenho alguma margem para voltar atrás se algo não correr como previsto e preparar da melhor forma o ciclo olímpico.

É importante deixar isto bem claro porque cheguei a ouvir comentários que esta mudança significava que não queria treinar tanto ou que estava farta da natação. Inclusivamente, muitas pessoas duvidaram daquilo que eu podia fazer fora do CAR.

Penso que estou a demonstrar o contrário e a provar que nunca deixei a natação de parte.

Posso não estar dedicada em exclusivo à natação, mas eu sou focada em tudo o que faço e esforço-me diariamente para atingir tudo aquilo que quero. Por isso, definitivamente Tóquio está nos meus objectivos a longo prazo.

Foto: Facebook Estrelas Sjb

fpEste ano já baixaste por duas vezes os recordes nacionais dos 200 e 400 estilos e dos 200 bruços. Estes tempos são só para abrir o apetite para o resto da época?

VK: Espero que sim, mas em qualquer prova que eu nade e que me sinta em forma, eu faço por melhorar os meus resultados, independentemente de ser uma grande competição ou não.

Há objectivos para as competições principais da época, mas não ando um ano inteiro obcecada com o facto de apontar o meu melhor para essas provas. Aproveito todas as oportunidades para tentar os meus recordes pessoais.

Gosto de estabelecer objectivos para cada prova que faço, objectivos esses que têm de ser realistas e ter em consideração o momento da época e o estado de forma em que me encontro.

Até ao final da época vou continuar a fazer as coisas como tenho feito até aqui e acho que é a melhor forma para continuar a evoluir.

fp: Essa estratégia também te retira pressão nos momentos chave da época. Aconteça o que acontecer, esta época já vai correr bem com os resultados que já obtiveste?

VK: É claro que o momento alto da época são os mundiais. É mais uma competição onde tenho de estar bem.

fpQuais são os objectivos para os mundiais?

VK: Como já tinha referido, o objectivo é melhorar os meus tempos.

Pode-se pensar que é um objectivo simples, mas torna-se algo complexo tendo em conta os tempos que preciso de fazer para isso.

Tenho quase a certeza que se melhorar os meus tempos e nadar bem, posso conseguir uma boa classificação.

Claro que nunca sabemos o estado de forma das nossas adversárias, mas se melhorar fico bastante feliz. Tendo por base os resultados de Kazan’2015 e Barcelona’2013 vejo que uma boa classificação está ao meu alcance, se nadar no meu melhor.

fpA FPN estabeleceu como objectivos para Budapeste, pelo menos, dois lugares nos 16 primeiros. Pelo menos um desses lugares já está reservado para ti, não achas?

VK: Se estiver reservado, eu aceito. (risos).

Fora de brincadeiras, estamos com uma equipa muito forte este ano e todos vamos fazer os possíveis para atingir os 16 primeiros nas nossas provas.

Se forem mais nadadores a ficar nos 16 primeiros, é melhor para a equipa.

Mas eu nunca gostei de prever essas coisas. Claro que temos de ser ambiciosos, mas também temos de ser realistas e ver como as coisas nos vão correr.

fpÉs especialista em todos os estilos. Qual é o que mais gostas de nadar?

VK: É bruços, sem dúvida.

Desde o início foi um estilo que me foi fácil de aprender e é aquele que tenho maior prazer e facilidade em nadar.

Não sei porque assim é, uma vez que os meus melhores tempos são mesmo nas provas de estilos, mas apesar disso continuo a preferir as provas de bruços.

Foto: FPN

fp: O Fair Play escreveu um artigo onde realçava os resultados que Portugal obtém, actualmente, nas provas de estilos. Vês alguma explicação?

VK: Eu li esse artigo e achei bastante interessante, mas nunca me dei ao trabalho de encontrar uma explicação para isso.

Penso que nestes mundiais haverá resultados interessantes da equipa portuguesa, não só nas provas de estilos.

fp: E como se treina para se nadar todos os estilos ao mais alto nível?

VK: Treino todos os estilos em separado e em simultâneo.

Nalgumas alturas da época dou maior ênfase a determinado estilo, mas nunca deixo de treinar os quatro. Nem que seja em séries de pernas, braços ou drills, os quatro estilos estão sempre presentes no treino.

Noutras alturas da época treino todos os estilos ao mesmo tempo, com a mesma importância e a mesma intensidade.

Essencialmente, no início da época treino as técnicas em separado e mais próximo das competições introduzem-se séries de estilos.

fp: Nunca invejaste os teus colegas que só treinam crawl?

VK: Eu gosto muito de nadar estilos. Nunca me farto, estou sempre a mudar e a tentar melhorar a técnica que estou a nadar pior.

Há sempre aspectos a melhorar nalgum estilo que são diferentes dos que tenho de melhorar noutro e por isso o treino é sempre muito diversificado. 

fpNo último ciclo olímpico tiraste 10 segundos ao record dos 400 estilos e 3 ao dos 200. A continuar assim, que Victoria podemos esperar em Tokyo?

VK: Nem eu sei. Nestes últimos quatro anos evoluí bastante e é sempre mais difícil melhorar.

Não só a nível técnico ainda há muita margem para melhorar a todos os estilos, mas principalmente em crawl.

Vou trabalhar sobre eles e vamos ver como vou chegar a Tóquio.

Mas ainda me lembro dos Nacionais do Jamor em 2012, quando nadei para 4’50 os 400 estilos e foi record nacional e agora nado para 4’40…foram fantásticos estes 4/5 anos.

fpEste ano, em Antuérpia, não ficaste muito longe de bater Katinka Hosszu. Ela é mesmo uma nadadora à parte do resto do mundo?

VK: É. Não sei como ela consegue competir quase todos os fins-de-semana e todas as provas do programa.

Em Antuérpia fez isso mesmo. Quando foi nadar os 400 estilos já estava completamente estoirada e cansada e mesmo assim nadou para 4’40.

Para ela, 4’40 é um mau tempo, mas para mim é bom e foi muito positivo ter nadado essa prova ao lado dela porque estava a vê-la ao meu alcance e fui sempre tentando não a deixar fugir, porque sabia que mesmo que ela estivesse a fazer uma má prova para os padrões dela, para mim seria sempre um bom tempo se chegasse perto dela.

Faz todo o sentido o nickname que inventou para ela: é mesmo uma Iron Lady.

fp: É uma das tuas referências? Até por nadar as tuas provas?

VK: Sim. Ela e a Mireia Belmonte são as minhas referências.

Pódio dos 400 metros estilos do Open de Espanha. Mireia Belmonte no 1º lugar, Victoria Kaminskaya no 2º e Anja Krevar no 3º | Foto: FPN

fpPara terminar, a nossa pergunta da praxe: Achas que há Fair Play na natação?

VK: Sinceramente, sinto que não há muito fair play na natação.

Apesar de vermos os atletas nas bancadas a puxar pelos colegas e no final das provas os nadadores cumprimentarem-se ainda dentro de água, para mim isso não significa fair play.

A natação pura é um desporto essencialmente individual e muito competitivo onde cada centésimo conta, e a nível internacional eu sinto que há muito individualismo e vejo os nadadores apenas preocupados com os seus próprios resultados.

Isto acontece por ser um desporto individual e porque dentro de água nós queremos sempre superar os colegas que nadam ao nosso lado.

E isto leva-me a outro ponto, que é a questão do doping. Ainda há pouco tempo foi revelado que atletas de topo recorriam ao uso de substâncias dopantes para serem os melhores, e obviamente a utilização dessas substâncias deturpam os resultados desportivos e é o maior anti-fair play que existe na natação.

Nos treinos sim, há fair play. Os atletas mais fortes incentivam os menos fortes, mas a um nível mais elevado os nadadores treinam sozinhos, por isso nem aí se aplica.

Muito obrigado, Victoria e votos de muito sucesso para o futuro!


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