17 Ago, 2017

Salvador Vassalo, “O rugby tem uma cultura de respeito única.”

Francisco IsaacFevereiro 3, 201711min0

Salvador Vassalo, “O rugby tem uma cultura de respeito única.”

Francisco IsaacFevereiro 3, 201711min0

Salvador Vassalo, um dos líderes do Grupo Dramático e Sportivo de Cascais, revelou o seu passado, falou sobre os jogadores-exemplo, da sua (futura) passagem pela Austrália e do sentimento de ser Lobo. O asa português de 23 anos partilha as suas opiniões, dificuldades e objectivos. Uma entrevista do Fair Play

fp: Salvador, quantos anos te ligam ao “teu” Cascais? E qual foi a razão (ou razões) que te levaram para o Dramático?

SV. Comecei a jogar aos 7 sendo que parei 1 ano, portanto pode se dizer que há 16 anos que jogo e que estou ligado ao Cascais… As razões para ter começado foram bastante simples, o meu pai. Nessa altura os meus pais mudaram se de Lisboa para Cascais e pouco tempo a seguir já estava inscrito e a ir aos treinos.

fp: Sempre foste apaixonado pelo rugby? Houve, em algum momento, uma vontade de desistir da modalidade?

SV. Tal como disse comecei a jogar aos 7 e penso que foi aos 10 que parei de jogar durante 1 ano. Nessa altura comecei a ter treinos de ténis e a jogar futebol pela escola, para além disso o Cascais não estava muito bem em termos de organização e com poucos miúdos para treinar. Acho que me fez bem por que para além de ter praticado outros desportos, continuei no ténis por mais uns anos, quando voltei não larguei mais o rugby e aí sim, comecei a tornar-me um apaixonado por este desporto.

fp: Consegues nos contar um episódio da tua vida enquanto jogador de rugby?

SV. Ao longo dos anos já têm sido vários,

fp: Sempre jogaste a asa/8? Se não fosse na 3ª linha, aonde gostavas de ter jogado?

SV. Sim, joguei praticamente sempre a essas 2 posições menos algumas vezes quando era mais novo em que também jogava a 2ª linha, o que tem voltado a acontecer nos últimos anos tanto no Cascais como na selecção um bocado por força das circunstâncias. Se não fosse nenhuma dessas posições acho que gostava de jogar a 13, pelo confronto físico que existe e por muitas das vezes são quem consegue perfurar a linha adversaria, ou então a 15, pelo sentido táctico que acho que é preciso ter.

Nada passa por Vassalo (Foto: Pai Conde Fotografia)

fp: Jogaste ou viste jogar algum atleta que te tenha marcado como exemplo?

SV. Já tive oportunidade de jogar ao lado e contra jogadores que respeito muito e que considero grandes exemplos, o Vasco Uva, João Correia, Gonçalo Foro, Diogo Mateus entre outros. São apenas alguns que pelo acumular dos anos têm grande mérito e que tive a sorte de aprender com todos vários deles, mas penso que existem outros jogadores que mesmo sendo um bocado mais novos também se têm revelado grandes jogadores e grandes exemplos.

fp: Ainda jogas com algum amigo/colega teu dos teus primeiros anos? E adversários, há algum que te lembras desde sempre?

SV. Acho que desde que comecei, com 7 anos, apenas o Nuno Bettencourt se mantém a jogar, de resto tive a sorte de o meu grupo de amigos se ter formado no rugby quando tinha 13/14 anos sendo que grande parte ainda se mantêm a jogar. Adversários tive sempre alguns da minha idade com quem jogo contra desde há muitos anos e de quem sou muito amigo, o Tomas Appleton e Vasco Fragoso Mendes são dois exemplos disso.

fp: Tens gostado de trabalhar com o Tomaz Morais? Ele puxa por vocês nos treinos?

SV. Tenho gostado muito de trabalhar com o Tomaz, já tinha treinado com ele algumas vezes nas selecções mas nunca o tinha tido como treinador principal. Tem puxado muito realmente, e um excelente motivador e tem exigido muita da equipa, tanto a nível físico como de detalhe técnico e táctico. Trouxe uma excelente organização em termos de estrutura da equipa.

fp: Vamos agora até às selecções nacionais… lembras-te do primeiro jogo que fizeste com as Quinas ao peito?

SV. Lembro-me! O primeiro oficial foi contra a Namíbia em 2014 que correu bastante bem, estreámos vários jogadores nesse jogo e foi um bom começo. Mas antes já tinha jogado jogos pelas selecções mais jovens que me marcaram bastante.

fp: Como tem sido o teu progresso até 2016? Achas que podes/deves ir mais além?

SV. Até agora acho que o progresso que tenho feito tem corrido bastante bem, tem sido mais ou menos consistente pelo menos. Fiz as selecções jovens todas em que me correu bastante bem, depois de começar a treinar com os seniores fui ganhando oportunidades até me estrear. Acho que o “ir mais além” acima de tudo passa por ser consistente e continuar a trabalhar bem, tanto com o clube como com a selecção e as oportunidades penso que irão aparecer.

Um Cascais mais dominador (Foto: Miguel do Carmo Fotografia)

fp: Este ano estamos na 3ª divisão da Europa… achas possível a subida já em 2017?

SV. Acho. Claramente que sim, temos mais do que qualidade para isso.

fp: Estamos a regressar ao espírito Lobo que nos marcou durante vários anos? O que é que vocês têm feito para que a selecção cresça?

SV. Penso que sim, claramente. Acho que não temos feito nada do outro mundo para ser sincero, acima de tudo acreditamos todos muito na equipa técnica e estamos confiantes que se vai manter esse pensamento. Foram buscar pessoas que conhecem bem a realidade do que e o rugby em Portugal e isso é essencial para as coisas correrem bem. Acho que nós jogadores para além de um grupo que se dá todo muito bem temos feito o que nos compete, treinar muito e bem. Os resultados vão aparecer.

fp: Com 23 anos, ainda pensas em sair de Portugal? Há algum país que reúna as condições para tentares a tua sorte como jogador?

SV. Como já disse vou agora tentar uma experiência de 6 meses na Austrália, vou jogar por um clube na região de Sydney que é a mais competitiva. Apesar de que já tenho planos para a partir de Setembro começar o Mestrado, portanto acho que esse sonho que tinha de mais novo de ter uma experiência profissional no rugby já não me parece realista. Claro que não fecho a porta a nada, mas parece-me muito complicado.

fp: O quão é difícil conciliar estudos/trabalho com os treinos?

SV. Não é fácil, mas também não é nada de impossível. Quando ainda estava no secundário e comecei a ter uma carga de treinos muito grande sabia que mesmo entrando na faculdade não queria abdicar de jogar rugby ao nível mais alto que conseguisse, e fui falando sobre isso com os meus pais. O meu pai sempre me disse uma coisa, não há tempo para tudo, portanto se eu fazia essa escolha teria de abdicar de outras coisas. Abdica-se sim, mas com disciplina acabamos por ter tempo para quase tudo. Claro que isso nem sempre corre como queremos e eu atrasei-me na faculdade precisamente pela falta de tempo que muitas vezes tinha, quer seja em viagens com a selecção ou treinos no clube.

fp: Conseguiste sempre fazer uma boa gestão do teu tempo? Que conselhos podes dar aos jogadores de formação?

SV. Tentei sempre fazer, quando se tem uma vida mais ocupada essa boa gestão acaba por ser uma inevitável. O conselho que posso dar é que definam bem as prioridades, há tempo para quase tudo se esse tempo for bem gerido. Eu aprendi um bocadinho à minha custa. Não se pode é achar que se vai ter uma vida como as dos outros que não têm esse tipo de compromisso, podemos nos atrasar um bocado na faculdade ou não ter tempo para estar sempre a beber um copo ou jantar e sair a noite com amigos, mas o que se ganha é muito melhor e mais valioso que isso.

Vassalo ao serviço dos Lobos (Foto: João Peleteiro Fotografia)

fp: Costumas ver rugby internacional? Tens alguma equipa que sigas mais atenção? (Em caso Positivo) Porque é que a segues?

SV. Sim vejo, em minha casa com o meu pai e os meus irmãos vamos acompanhando muito. Para além da Nova Zelândia, que são irrepreensíveis a jogar gosto, muito da Austrália, apesar de não lhes ter corrido tão bem este ano adoro o bom rugby que jogam e aprende-se muito a vê los jogar na minha opinião.

fp: Se pudesses escolher, que jogador gostavas de placar?

SV. Ben Smith da Nova Zelândia, por ser tão difícil de parar.

fp: Richie McCaw ou David Pocock?

SV. Adoro os dois, mas terá de ser McCaw pela influência discreta que tem num jogo.

fp: Trocas uma boa placagem por uma oportunidade de ensaio?

SV. Trocava, no final de contas estamos ali é para ganhar o jogo e marcar bons ensaios.

fp: Porquê o rugby? E como convencerias alguém a entrar para a modalidade?

SV. A mim de certa maneira foi-me “imposto”, mas o que diria para aconselhar alguém, é que é um desporto onde é realmente verdade que se criam grandes amizades, acho que isso vem da intensidade física dos jogos, do que se sofre dentro de campo e pelo respeito que é preciso ter no papel que cada um tem. É muito difícil haver uma estrela numa equipa que decida os jogos, isso acontece noutros desportos, ali como são tantas posições tão diferente dependemos realmente de todos. Para além disso acho que tem uma cultura de respeito que hoje em dia dificilmente se encontra.

fp: Deixa uma mensagem para os apoiantes, colegas e amigos do GDS Cascais e do rugby português.

SV. Que venham ver os jogos e se envolvam, estamos outra vez numa trajectória crescente, tanto no Cascais como em Portugal. O campeonato está mais competitivo e com bons jogos e a selecção cada vez a jogar melhor e com muita juventude, talento e vontade de trabalhar!

Salvador Vassalo, tem sido uma das novas lendas do GDS Cascais, tendo atingido um estatuto de respeito, prestígio e espírito de sacrifício que poucos o conseguem ter. Prestes a partir para terras australianas, vamos ver o asa a crescer e a ganhar outras competências, fundamentais para o futuro do rugby português.

Por Portugal (Foto: Arquivo do Próprio)


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