22 Mai, 2018

Entrevista a Mário Bonança

João BastosAgosto 5, 201714min0

Entrevista a Mário Bonança

João BastosAgosto 5, 201714min0
«Fica a mágoa de nunca ter ido a um Mundial de Águas Abertas»

Mário Bonança anunciou recentemente o fim da sua carreira. O Fair Play foi conversar com o nadador do Sporting, internacional desde 2007, sobre a sua longa carreira e a sua vida que continuará ligada às piscinas


Mário, anunciaste recentemente a tua despedida da alta competição. Foi uma decisão que já estava tomada há algum tempo?

MB: Foi uma decisão que já tinha tomado no início desta época. O objectivo era começar a trabalhar depois de concluído o doutoramento, e como a defesa da tese foi em Abril, a ideia seria sempre fazer a época até Julho e terminá-la no Campeonato do Mundo de Budapeste, que não foi possível.

O objectivo agora é preparar a próxima época. Em Janeiro surgiu o convite de integrar a equipa técnica do Sporting e na próxima época vou coadjuvar o Professor Carlos Cruchinho.

Agora ainda vou nadar as provas do circuito nacional de águas abertas.

Apesar de teres atingido o objectivo dos Mundiais, esta época correu-te bem, culminando com o título de vice-campeão dos 5km. Esses bons resultados não te fizeram reconsiderar a decisão de terminar a carreira?

MB: Esta época foi especial por saber que era a última. Fica sempre o amargo da despedida, mas também de dever cumprido porque até ao fim me bati pelas primeiras classificações.

Em relação ao campeonato do mundo, a prova dos 10 km [nos nacionais] não me correu tão bem como esperava e depois há outros aspectos que são determinantes. Deveríamos ter uma maior experiência competitiva a nível internacional. Essa experiência é fundamental para depois respondermos melhor em competições como Europeus ou Mundiais de águas abertas.

Foi também por aí que não consegui a qualificação, mas não considero que tenha feito uma má época.

Essa experiência internacional consegue-se participando em etapas da Taça do Mundo e da Taça da Europa?

MB: Exactamente. Acho que a FPN tem feito um trabalho excelente ao nível dos nadadores juniores. De resto, estão a decorrer os campeonatos da Europa de Juniores e os resultados estão a ser bastante positivos.

Acho que também em anos anteriores, a Federação tem feito um bom trabalho de base para permitir aos nadadores juniores estarem em bom plano nas competições internacionais. Acho que o problema é quando se chega ao escalão sénior e aí acho que tem havido algum desleixo.

Percebo que nem sempre os orçamentos são os mais adequados ao desenvolvimento da modalidade, mas é fundamental que os nadadores seniores consigam adquirir maior experiência internacional.

Reconheço que há um esforço que está a ser feito. Vamos ver se no futuro trará frutos.

Na próxima época haverá o Campeonato da Europa em Glasgow, já com a permissão de utilização dos fatos térmicos, espero que a FPN, para o ano, aposte nos seniores porque também eles merecem um voto de confiança.

Já consegues olhar em retrospectiva para a tua carreira e escolher o ponto alto?

MB: Sim. Claramente os campeonatos da Europa, um de juniores e dois absolutos e, particularmente, o de Piombino, onde fui 20º nos 10 km. Este foi, sem dúvida, o ponto alto da minha carreira.

Depois participei noutras competições internacionais, como Taças do Mundo e Taças da Europa. Estive muito bem na Taça do Mundo de Santos, em 2013. Também estive na etapa da Taça da Europa em Eilat, 2011…enfim, tive várias classificações interessantes a nível internacional ao longo da minha carreira.

Mário em Piombino | Foto: Arquivo Pessoal

Fica a mágoa de nunca ter ido a um Mundial de Águas Abertas.

E há algum objectivo que tenha ficado por cumprir? Algum que lamentes não ter conseguido?

MB: Fica a mágoa de nunca ter ido a um Mundial de Águas Abertas.

A nível interno, consegui cumprir quase todos os objectivos. Fui campeão nacional nas provas de fundo em piscina e nas águas abertas só me faltou o título nacional aos 10 km. Fui campeão nacional dos 5 km várias vezes, quer indoor, quer outdoor. 

Ficou de facto a mágoa de não ter conseguido ir a uns campeonatos do mundo, mas pode ser que como treinador consiga cumprir esse objectivo.

Fora das piscinas a tua vida também está muito ligada à natação. És treinador e fazes investigação ligada à natação. Mesmo sem competir, vais continuar a sentir o cheiro a cloro, daqui para a frente?

MB: Sim, claro. Há dois anos abracei o projecto de fazer parte da equipa técnica da natação adaptada do Sporting. Foi sem dúvida uma experiência muito enriquecedora. É muito gratificante trabalhar com nadadores com diferentes limitações mas depois ver o nosso trabalho a dar frutos.

Estive estes dois anos a trabalhar com o Rui Gama e esta época surgiu o convite do responsável pelo departamento técnico do Sporting, que me honrou muito, e assim vou poder continuar ligado à natação e ao Sporting.

Mário com Rui Gama | Foto: Luís Filipe Nunes

Passar de colega a treinador será uma gestão fácil?

MB: Existe um núcleo de nadadores mais velhos no Sporting, com quem eu tenho maior ligação, e que percebem esta transição, até porque no passado já houve outro exemplo, que foi o David Ferro que foi nosso colega e depois nosso treinador e foi uma transição que foi bem conseguida.

Com a colaboração de todos, penso que vai correr tudo bem e vamos trabalhar para os atletas terem as melhores condições possíveis para treinar e desenvolver as suas capacidades.

O que nos falta é experiência internacional para lutar por uma classificação no primeiro terço da tabela em grandes eventos internacionais, como Europeus, Mundiais ou Jogos Olímpicos.

Este ano apresentaste a tua tese de doutoramento em alto rendimento em águas abertas, uma vertente à qual estás ligado há muitos anos. Como vês a evolução das águas abertas em Portugal?

MB: Tivemos duas participações do Arseniy Lavrentyev em Jogos Olímpicos (Pequim e Londres), a Daniela Inácio também esteve em Pequim e agora no Rio tivemos a Vânia Neves.

Isto mostra que existe potencial nos nadadores portugueses e que existe trabalho dos nadadores das águas abertas.

O que nos falta é experiência internacional para lutar por uma classificação no primeiro terço da tabela em grandes eventos internacionais, como Europeus, Mundiais ou Jogos Olímpicos.

Não é possível atingir-se esse objectivo quando numa época, a nível internacional, se faz a etapa da Taça do Mundo de Setúbal, porque é cá, a etapa em Abu Dhabi e, dependendo das épocas, no início do ano na Argentina.

Isto é muito pouco para nadadores que queiram chegar a Julho a uns Mundiais ou uns Europeus e queiram ficar no primeiro terço da tabela.

É muito difícil consegui-lo só com treino e estágios. É importante a experiência competitiva.

Para além disso, os nadadores que estão presentes nos grandes eventos internacionais, são também os que participam nas Taças do Mundo e nas Taças da Europa, para além destas se disputarem em diferentes condições, dependendo do local da prova, por isso a bagagem seria muito superior se tivéssemos a oportunidade de nadar mais provas a nível internacional.

A variabilidade de factores que existe durante uma prova de águas abertas só pode ser preparada num contexto competitivo. Normalmente junta-mo-nos em estágios, treinamos em piscina e, cá em Portugal, nadamos num lago ou uma barragem, mas nunca é a mesma coisa, porque é o nosso núcleo de treino e não estamos a simular uma prova, estamos a treinar.

Também foste dos primeiros participantes em campeonatos nacionais de AA. Em termos organizacionais, depois de já termos um maior número de provas internas, o passo a dar agora é mesmo apostar nos nadadores internacionais?

MB: Sim, a FPN fez um trabalho excelente com os nadadores juniores. Dá-lhes opções de participação em provas como o Open de Espanha ou no Open de França, tudo isto com vista à preparação para os Campeonatos da Europa ou do Mundo que haja nesse ano.

Eu acho que os nadadores seniores também poderiam ter a oportunidade de participar em provas como essas, que são bastante competitivas. O ideal seria sempre participar numa Taça do Mundo ou Taça da Europa, mas há que encontrar alternativas que se encontram mais perto e mais baratas.

Existindo essas alternativas, não percebo porque não se exploram. Depende tudo da organização que a FPN pretende no planeamento da época desportiva.

Sem dúvida que internamente evoluímos bastante. O regresso do circuito nacional é uma mais-valia para todos os nadadores, não só para os nadadores de águas abertas, mas também para a natação pura porque podem preparar melhor o início da época desportiva e a modalidade é promovida, cativando mais nadadores da piscina.

O gosto pela disciplina cultiva-se desta maneira.

O passo seguinte é, efectivamente, apostar nos nadadores internacionais.

Manténs o registo de inédito de ter sido três vezes consecutivas campeão nacional dos 5 km indoor. É uma prova à tua medida?

MB: Tendo em conta que a ganhei três vezes, acho que se pode considerar que sim [risos]. Das três vezes que ganhei, bati o record nacional. É uma prova que é compreensível que não seja nadada a nível internacional porque serve para as Federações avaliarem o comportamento dos nadadores numa prova mais longa.

Eu acho que é uma prova importante, apesar de muitos atletas não gostarem dela. É importante para que os treinadores e seleccionadores tenham a noção dos ritmos dos nadadores que vão seleccionar e qual o seu potencial para uma prova de águas abertas.

É uma competição que serve de treino e de referência.

Mas dos 5km indoor para as águas abertas há factores externos que as tornam muito diferentes. A tua tese focou precisamente a influência desses factores numa prova de AA. Na tua opinião e na tua experiência, qual é o mais preponderante?

MB: O factor temperatura da água é o mais preponderante. Com a autorização da utilização dos fatos isotérmicos, este factor vai ter menos influência no decorrer da prova, permitindo que os nadadores que tenham maior dificuldade em aguentar águas mais frias, partam numa situação mais igualitária.

Há nadadores que não gostam de nadar com fatos térmicos, mas isso é uma questão que se ultrapassa com treino. É uma questão de adaptação a um fato.

Estou convencido que se os nadadores portugueses se adaptarem durante esta época à utilização do fato, podem chegar ao Campeonato da Europa em Glasgow e fazer boas prestações. O mesmo se aplica para os nadadores juniores, uma vez que ainda não se sabe onde será o Campeonato do Mundo.

O argumento muitas vezes usado contra a utilização dos fatos isotérmicos é perder-se a componente de imprevisibilidade nas águas abertas, face às condições de cada prova. Qual é a tua opinião?

MB: Essa vertente contextual não é assim tão alterada porque nas águas abertas não há só o factor temperatura. Há outros factores que vão influenciar a prestação dos nadadores. Por isso, a imprevisibilidade continua a existir.

Com o fato térmico é uma questão de adaptação e, acima de tudo, de segurança, que foi o principal critério utilizado pela FINA para a implementação desta medida.

Foto: Simone Fragoso

E na piscina, foste uma base da construção de uma equipa que hoje é hexacampeã nacional. O Sporting, hoje, tem nadadores que te possam substituir como referência para os mais novos?

MB: Claramente. O Sporting tem nadadores como o Alexis Santos, o Pedro Pinotes, apesar de estar a trabalhar a tempo inteiro e mesmo assim mantém contacto com a equipa. Estes dois nadadores, somado à minha presença, deixará no Sporting um legado de grande nível. 

Estou a lembrar-me de nadadores formados no clube como o António Gama, o Tiago Costa que este ano voltou a nadar com a equipa principal, em Lisboa. São atletas que vão manter o nível e a excelência de resultados do Sporting e vão continuar a ser campeões nacionais de clubes, com certeza!

Tem sido esse o nosso lema: não cometer erros. Foi algo que aprendemos ainda quando estávamos na 2ª divisão.

Participaste na conquista de todos os seis campeonatos do Sporting. Todos eles foram bastante disputados, mas há alguma edição que recordes como a que soube melhor ganhar?

MB: O quinto foi o mais difícil, aquele que foi disputado em Coimbra contra o Estrelas de São João de Brito. Foi onde cometemos mais erros e por nossa culpa colocá-mo-nos numa posição complicada e foi até à última jornada a lutar pelo título.

Nos outros campeonatos não foi tanto assim. No último ano houve uma luta acesa [com o Benfica] mas mantive-mo-nos sempre à frente e sabíamos que se não cometêssemos erros iríamos ganhar.

Tem sido esse o nosso lema: não cometer erros. Foi algo que aprendemos ainda quando estávamos na 2ª divisão. A partir do momento em que subimos para a 1ª divisão ganhamos sempre e o nosso objectivo é continuar a ganhar para incutir nos nadadores mais jovens a cultura vencedora do Sporting.

Nesses campeonatos de 2015 também o treinador teve um papel fundamental com as alterações que operou durante os campeonatos.

MB: Na verdade nesses campeonatos o Professor Carlos Cruchinho estava hospitalizado e os capitães tiveram de assumir a responsabilidade de fazer as alterações. Eu, o Alexis e o Pinotes tivemos um papel muito importante e acho que correu tudo às mil maravilhas. As alterações correram na perfeição e permitiram-nos chegar ao 5º título consecutivo.

Foto: Luís Filipe Nunes

Na hora da despedida fizeste uma referência especial aos teus adversários. Os nadadores de águas abertas comungam de espírito de união e respeito muito grande. As dificuldades que são inerentes à disciplina também ajudam a fomentar esse espírito?

MB: Sim, nós treinamos todos juntos e perseguimos um objectivo comum. Nas águas abertas há uma prova de equipas mas que nem sempre nadamos, mas o mais importante é que qualquer nadador de águas abertas sabe que não consegue nada sozinho e, por isso, o nosso grupo é muito coeso e tentamos sempre treinar o máximo de vezes possível juntos.

Fomentamos muito esse espírito de grupo.

No seguimento da pergunta anterior, esta torna-se redundante, mas temos de a fazer na mesma: há Fair Play nas águas abertas?

MB: Sim, existe uma grande camaradagem e um Fair Play que eu considero que é superior ao da natação pura. Numa prova de águas abertas nadamos uns contra os outros, há muito contacto físico e por isso o Fair Play tem de ser muito mais evidente para percebermos que tudo isso faz parte da modalidade.

Muito obrigado Mário, e boa sorte, agora para a carreira de treinador.

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