24 Ago, 2017

George Stilwell. “O que torna o rugby quase único? Os seus valores e o seu espírito”

Francisco IsaacJunho 16, 201715min0

George Stilwell. “O que torna o rugby quase único? Os seus valores e o seu espírito”

Francisco IsaacJunho 16, 201715min0

O RC Santarém é um dos clubes, em Portugal, que melhor representa verdadeiro espírito do rugby. George Stilwell, presidente dos “Cavaleiros” e um eterno apaixonado pela oval, explicou os processos e conquistas dos últimos seis anos, o que ainda há por fazer e o que gostava de ver a acontecer. Uma entrevista em exclusivo do Fair Play

fpFim de quatro anos a liderar os destinos do RC Santarém e a pergunta é a do costume: satisfeito com o trabalho realizado? O que faltou por fazer e que gostava de o ter feito? E o que deve ser continuado nos anos que se seguem?

GS. Devo começar por dizer que foram 6 anos, equivalente a dois mandatos.

É óbvio que nunca estamos satisfeitos e achamos sempre que poderíamos ter feito mais. Não foi por falta de vontade, mas a carolice tem limites e as ajudas também têm a tendência a aparecer mais quando já temos alguma projecção regional e nacional. Ou seja, poderíamos ter feito mais se tivéssemos tido melhores condições desde o início para as concretizar.

Gostaríamos de ter deixado pronto mais um campo de forma a conseguirmos poupar um pouco o nosso de relva natural e que tanto trabalho dá a manter. Também gostaria de ter lançado a primeira pedra num edifício com balneários, ginásio, salas de reuniões etc…para o qual há um projecto já feito. Julgo que estes dois projectos devem continuar a ser objectivos prioritários do RCS, para além dos objectivos desportivos e sociais e o de reforçar a implantação em Santarém.

fpRespira-se rugby em Santarém? As relações entre o clube e a autarquia são positivas?

GS. Mais do que respirar… come-se, bebe-se e vive-se rugby em Santarém. A adesão das famílias é enorme e crescente, o que se comprova pelo campo cheio de crianças nos dias de treinos. Acho que neste momento RCS é um nome incontornável no desporto em Santarém, o que é um grande feito tendo em conta que o rugby não é propriamente um desporto muito conhecido e popular em Portugal.

As relações com a autarquia têm sido sempre excelentes se bem que, como deverá acontecer com todos, queremos e esperamos sempre mais. A nossa ambição e vontade de concretizar nem sempre se coadunam com a maior lentidão e burocracia inerente a uma autarquia, mas temos conseguido algumas coisas importantes. É preciso lembrar que o RCS está, quase exclusivamente às suas custas, a valorizar e qualificar um espaço que é da cidade.

Um pequeno pormenor tem falhado que é o atraso na assinatura do protocolo de cedência do campo e espaços limítrofes para usufruto do RCS nas próximas décadas. É um documento importante que já foi negociado, aprovado e que já deveria estar assinado. Gostaria de ter sido eu a assiná-lo… mas enfim.

fpNão há recandidatura para 2017, correcto? O que espera do futuro do RC Santarém a seguir à sua presidência?

GS. A Presidência é um cargo no papel. Assim como assinei protocolos também semeei relva, enchi bolas, servi cervejas e limpei valas. Fui apenas mais um num grupo que se dedicou de corpo e alma ao clube. A nossa missão foi essencialmente entusiasmar os atletas e as famílias, de modo a todos sentirem orgulho em pertencer a este clube e em praticar este desporto. Foi o de tentar desmascarar o mito do rugby como desporto violento e de elites. Foi o de criar uma cultura e uma escola de rugby em Santarém. O que mais me orgulha é ouvir jovens a dizer aos pais “entrar no rugby foi a melhor coisa que me aconteceu”.

O que se espera é a continuação deste estado de espírito, é a consolidação dos valores do rugby, é o desenvolvimento de um estilo de jogo próprio e universalmente reconhecido e é a constante promoção do espírito de lealdade e fair-play. É claro que isto apenas será conseguido se tivermos infra-estruturas que proporcionem as condições óptimas. Mas para lá caminhamos…

fpQuais são as maiores dificuldades para um clube como o RC Santarém? E o modelo de campeonato vigente permite uma gestão e sobrevivência “financeira” mais cómoda para clubes de menor dimensão?

GS. É óbvio que as maiores dificuldades são de ordem financeira. É difícil para um clube pequeno crescer e criar as melhores condições quando esgota grande parte dos seus recursos em deslocações. Apenas dois exemplos: a) a nossa equipa de sub-18 irá disputar uma final contra uma equipa de Lisboa e a FPR marcou o jogo para a Moita da Anadia. São cerca de 400 quilómetros para uma equipa e mais de 500 quilómetros para a outra. b) na próxima época a nossa equipa sénior irá percorrer mais de 2500 quilómetros apenas na primeira fase do campeonato (e haverá de certeza outras equipas a viajar ainda maiores distâncias). Se a esta despesa juntarmos o que as equipas de formação irão gastar, vimos como é difícil sobreviver e fazer mais pelo rugby nacional. Em contraste, os maiores clubes terão a vida bem mais fácil. Não é de facto fácil a um clube de rugby (sobre)viver fora de Lisboa.

fpEm termos de números de atletas, está satisfeito com a formação? Houve bons resultados em torneios e competições?

GS. Como já referi os resultados sociais não poderiam ser melhores. Os resultados desportivos são igualmente muito bons e, principalmente, melhores cada ano. Vencemos inúmeros jogos e torneios contra equipas dos “grandes” de Lisboa. É preciso referir que criamos equipas extremamente competitivas com 15 ou 17 jogadores, quando as nossas adversárias têm lotes de 30 ou 40.

Infelizmente o valor da formação dos clubes pequenos da província não é divulgado nem reconhecido pelos decisores e muito menos pelos grandes clubes. Mais uma vez um exemplo flagrante: a nossa equipa de sub-12 ganhou todos os jogos que disputou em convívios e torneios pelo país todo, mas quando foi jogar num torneio em Lisboa percebeu-se como se menospreza as equipas da “província” – foi colocada no grupo das equipas mais fracas (o que podemos considerar como o 4ª pote num sorteio). O que aconteceu foi que os primeiros jogos de suposta qualificação foram entre as melhores equipas do torneio. Ou seja, jogou-se a final no início da competição. Será difícil estabelecer um ranking nestes escalões?

fpJá há um maior “olhar” das equipas técnicas da Selecção Nacional? Sente que o RC Santarém tem tido a possibilidade de provar que tem jogadores jovens de nível para as selecções nacionais?

GS. Todos os anos temos mais e mais jogadores a serem chamados aos treinos e estágios de todos os escalões de formação. Não há dúvida que os nossos atletas têm talento e uma escola própria e bem consolidada. Agora se isso se reflecte na chamada para a selecção, já é outra questão. Mais uma vez ser fora de Lisboa não ajuda. Não admira portanto que os melhores jogadores achem que têm de ingressar nos maiores clubes para terem hipótese de progredir e chegar às selecções.

fpE a equipa sénior, qual é o futuro? Os jogadores estão prontos para um desafio diferente ou ainda há muito por onde crescer?

GS. Há sempre lugar para crescer. Acho que nem os All Blacks diriam que não podem crescer mais. Os seniores do RCS têm feito avanços admiráveis nestes últimos anos e não queremos ficar por aqui. No entanto, temos de ser realistas e por isso acho que no futuro próximo será o de consolidar os escalões de formação, fazê-los sentir-se como parte do clube e perceberem o seu potencial mas também (ou talvez, sobretudo) a sua responsabilidade. Quando os bons resultados nos escalões de formação começarem a cimentar-se haverá menos hipóteses de perder jogadores para as equipas de topo e portanto maior certeza de um futuro brilhante e promissor nos seniores.

De uma coisa nos orgulhamos – quase 100% dos jogadores seniores são “feitos em casa”, apesar de muitos já terem passado no tempo da universidade por clubes de Lisboa. Mas quase todos voltam.

Os Cavaleiros de Santarém (Foto: Manel Inez Fotografia)

fpA saída de António J. Abreu foi uma surpresa? Esta situação prova, de certa forma, que os clubes não têm relações tão sérias e profissionais como seria suposto terem?

GS. Eu talvez esteja antiquado, mas lembro-me bem do tempo em que todo o rugby era amador e em que alguém jogava sempre pelo seu clube quase de benjamim a veterano. É óbvio que o rugby tinha de evoluir e que melhorou em termos competitivos com a profissionalização, mas temo que alguns valores tenham sido arrastados na enxurrada. Podemos negociar e conversar com duas caras sem pudor.

 A sede de ganhar começou a superar a lealdade, a sinceridade e o fair-play. Começa a valer quase tudo.

Por exemplo, devo dizer que não concordo com a prática de contratar jogadores (estrangeiros ou não) apenas para a fase final de um campeonato que normalmente deveria premiar a equipa mais regular, estável e constante. Desprezar jogadores que treinaram e esforçaram-se para levar a equipa a um lugar de topo e substitui-los por estrelas de ocasião, não me parece bem. Em muitos campeonatos estrangeiros há regras que evitam esta prática obrigando a que todos os jogadores usados numa fase final tenham de ter feito pelo menos 5 ou 6 jogos na fase de apuramento. A manter-se esta prática, beneficiamos os clubes com mais recursos e desencorajamos os nossos jovens atletas a lutarem por um lugar na equipa.

fpQuem será o novo homem do leme do RC Santarém?   

GS. Como disse, o leme do RCS é manejado por todos os que quiserem colaborar. É claro que há uma figura que tenta dar o exemplo e coordenar os diversos elementos. Esse papel será agora representado pelo Nuno Serra.

fpA saída da presidência do RC Santarém não marca o fim da sua ligação com o clube, correcto? Há quantos anos está ligado aos Cavaleiros e como começou esta relação duradoura?  

GS. É claro que continuarei a ligado ao clube na forma que for considerada mais útil. Pelo menos como treinador de um escalão de formação, já que sigo um grupo de miúdos extremamente talentosos e com um enorme potencial, desde que eles começaram com 5 ou 6 anos.

Eu liguei-me ao RCS praticamente desde que vim para Santarém nos primeiros anos deste século. Primeiro a ajudar os treinos dos meus filhos mais velhos (todos actuais ou ex jogadores do RCS) e depois como membro da Direcção. Já treinei sub-8, sub-10, sub-12 e espero este ano subir com o tal grupo para os sub-14. Fui ainda jogador (incluindo, durante vários anos, como capitão) até há duas épocas.

Da união se faz o futuro (Foto: Arquivo do próprio)

fpChegou a ser treinador no clube? E prefere treinar jogadores já na sua fase final (seniores) ou prefere estar envolvido com as camadas jovens?  

GS. Só treinei escalões de formação e é com esses que acho que sou mais útil ao clube.

fpAcha que o rugby português tem valências para voltar a ir a um Mundial? O que tínhamos de fazer, na sua opinião, para conseguirmos ter mais jogadores, adeptos e um desenvolvimento superior?    

GS. Ver resposta acima acerca de práticas que desincentivam os nossos jovens. Acho que é preciso proporcionar melhores condições a mais equipas de forma que elas possam evoluir e manter os seus jogadores mais talentosos. Enquanto estas equipas apenas forem vistas como incubadoras de alguns jogadores a serem aliciados por um dos grandes, não haverá grande evolução no rugby nacional.

Volto a referir que apenas resguardando os valores do desporto e do rugby e apostando – mesmo perdendo temporariamente alguma capacidade competitiva – nas equipas mais pequenas e nos jogadores nacionais, se conseguirá fazer crescer o rugby em Portugal. Quando as famílias de todo o país tiverem gosto e orgulho em colocar os seus filhos no rugby, o número de praticantes aumentará. Quando o rugby for um desporto popular e nacional… a valorização financeira virá por arrasto.

fpPerguntas rápidas: África do Sul, Nova Zelândia ou Austrália? E porquê?  

GS. Inglaterra. Guess why.

fpJohny Wilkinson ou Stephen Larkham?  

GS. Johny Wilkinson

fpEddie Jones ou Sir Graham Henry?  

GS. Eddie Jones, porque parece estar a trazer a minha Inglaterra outra vez ao top.

fpQual a melhor equipa sénior do RC Santarém?  

GS. A que está em campo…

Jfpogador(es) que representa(m) melhor o espírito dos Cavaleiros?  

GS. Não é possível responder a esta pergunta sem ser injusto para os outros centenas de jogadores actuais e passados, crianças, jovens e adultos. No entanto, arrisco nomear um porque sei que todos os outros se sentirão representados por ele: o Pedro Monteiro, não só porque é o fundador e sócio nº1 do clube mas porque deixa tudo em campo.

fpQue mensagem gostava de deixar aos adeptos, seguidores, jogadores, treinadores do RC Santarém? E para a comunidade do rugby em geral?  

GS. Transcrevo aqui uma passagem da mensagem que escrevi para o jantar dos 20 anos do clube:

“O que torna o rugby quase único? Os seus valores e o seu espírito.

No rugby aprendemos a defender o amigo que caí na placagem; aprendemos a levantar o colega para que ganhe as bolas nas alturas; aprendemos a ficar no anonimato quando passamos a bola para outro marcar o ensaio. No rugby não só aprendemos a cair como a levantar; não aprendemos a ser estrelas, mas parte de uma equipa; não aprendemos a ser brutos, mas sim corajosos. Aprendemos a derrubar com dureza o inimigo para a seguir o ajudar a levantar. Aprendemos a bater palmas ao adversário quando ainda dói a placagem que dele sofremos.

É por tudo isto que as famílias gostam de ver os seus filhos a jogar rugby. Não só porque o rugby os faz desportistas completos e mais resilientes, mas também porque os ajuda a formarem-se como melhores pessoas.”

É isto que acredito e que espero se mantenha como lema do RCS.

O Fair Play agradece o tempo e disponibilidade de George Stilwell. Um Homem, com H grande, um verdadeiro apaixonado pela modalidade e um eterno “insatisfeito” pelo que se pode fazer a cada dia. Um exemplo para o rugby Nacional.

O agora (Foto: Manel Inez Fotografia)


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