24 Ago, 2017

Bernardo Rosmaninho, “Portugal tem futuro no Mundo da Oval!”

Francisco IsaacNovembro 18, 201624min0

Bernardo Rosmaninho, “Portugal tem futuro no Mundo da Oval!”

Francisco IsaacNovembro 18, 201624min0

Para além dos jogadores, treinadores, dirigentes ou antigas Lendas do desporto, há um detalhe importante para qualquer modalidade: a narração e comentários nos jogos. Bernardo Rosmaninho, comentador da Eurosport, tem sido uma das “vozes” do rugby em Portugal. As opiniões, ideias e críticas ao rugby internacional e português.

fp. Bernardo… regressar ao booth da Eurosport para comentar e narrar os jogos da França. Qual é a sensação? Achas que devia ser uma aposta séria por parte do canal?

BR. Olá Francisco e saudações a toda a equipa e fãs do Fair Play. A sensação de voltar a comentar na Eurosport, sobretudo para narrar um conjunto de jogos destes, é de enorme felicidade e orgulho.

Claro que custa, tanto na Eurosport como nos restantes canais de sinal aberto em Portugal onde também comento rugby, ver a modalidade negligenciada e, pior ainda, ver que por contraste, nos canais pay-per-view, as transmissões até são empilhadas todas à mesma hora e sem qualquer preocupação com as consequências disso: a dispersão de audiências, um menor valor do produto e uma lógica de “encher chouriços” que não nos prejudicando (mais rugby na TV é sempre melhor), no cômputo geral, em pouco nos beneficia.

Desde que comecei a comentar jogos, faz cerca de 7 anos, que constato, tal como o resto da nossa comunidade, que os jogos de rugby na TV em sinal aberto são um evento esporádico, para não dizer uma gota num mar de outras transmissões desportivas, podendo (e devendo, na minha opinião) a Eurosport, por força da sua enorme relação histórica com a modalidade e da imagem muito positiva que tem junto do público, aproveitar esta lacuna na programação desportiva televisiva para voltar a fazer uma aposta consistente no rugby e com isso conquistar uma nova geração de telespectadores.

fp.O rugby e a Eurosport têm uma ligação mais profunda daquilo que as pessoas se lembram. O que se tem feito nos últimos anos?

BR. A ligação entre o rugby e a Eurosport começa com a criação da estação, em 1989, e mantém-se aos dias de hoje. Como Portugal não tem a mesma programação dos canais Eurosport que, por exemplo, a França e o Benelux, a Grã-Bretanha ou a Alemanha e os Países Nórdicos, tudo regiões que têm programação autónoma, estamos pelo menos parcialmente condicionados àquilo que é programado para a nossa região.

Nas últimas três décadas, a Eurosport transmitiu, no rugby, jogos de Campeonatos do Mundo, tanto em seniores masculinos como femininos e em juniores, e fez a cobertura de Campeonatos da Europa via tanto o 6 Nações ‘B’ como nos Sub-18 e nos Sevens. A nível de Clubes, a Eurosport sempre acompanhou os três principais campeonatos de França, o Top14, a ProD2 e o Fed1. Se isto não são exemplos de uma ligação profunda e continuada, ninguém os tem.

Infelizmente, nos últimos cinco/dez anos, as transmissões de rugby da Eurosport têm sido menos frequentes e a Portugal já não chega a cobertura das competições de clubes em França e, mais recentemente, dos Campeonatos do Mundo de Juniores, do Circuito Europeu de Sevens, do Campeonato do Mundo Feminino e Universitário, do Torneio das Nações do Pacífico, isto para não falar do Rugby Europe Championship (o torneio que apelidamos de 6 Nações ‘B’ onde Portugal até esta época, competia, tendo sido despromovido para o terceiro escalão europeu, o Rugby Trophy, que espero que os Lobos vençam já em 2017).

Estou a falar de provas que até 2016 (este ano ainda se transmitiu, por exemplo, o Mundial Universitário) foram comentadas por mim na Eurosport e que, progressivamente foram deixando de passar em Portugal.

fp.E o que gostavas de fazer?

BR. O que é que eu gostava de fazer, perguntas-me? Gostava que se apostasse na transmissão regular e constante da nossa modalidade na Eurosport (mesmo que fosse, inicialmente, apenas na Eurosport 2). Para criar uma audiência e sensibilizar o público que assiste ao desporto em geral, já para não falar da própria comunidade portuguesa de rugby, de que um canal está a investir na promoção do Rugby é preciso voltar a transmitir, durante um período mínimo de vários anos, várias competições ao longo da temporada e fazer o trabalho apropriado de comunicação das mesmas aos restantes media. Na Eurosport francesa estas provas ainda passam e se em Portugal voltarmos a ter estas e outras competições e conseguirmos sensibilizar as pessoas do rugby para a importância de verem os jogos, de visitarem, fazerem ‘like’ e comentarem os posts no facebook da Eurosport Portugal (fb.com/eurosportPT), podemos dar um contributo gigantesco para termos alternativas de qualidade e acessíveis à transmissão deste desporto no nosso país.

fp.Em relação aos Jogos de Outono, que esperas da França frente à Austrália? Aonde podem os Les Bleus ganhar o jogo?

BR. Espero que a França, frente à Austrália, seja consistente. E com isto quero dizer que a Austrália não vai dar à França, como a Samoa deu, tantas oportunidades para os gauleses praticarem aquele rugby que os tornou apelativos, o rugby ‘champagne’, aberto e alucinante, do qual o França v Nova Zelândia do Rugby World Cup de 1999, a melhor reviravolta e, provavelmente, o melhor jogo de sempre num Mundial, é fenomenal exemplo (youtu.be/LzuyAwxo2qE). Portanto, num desafio em que ambas as equipas estão em crescendo e procuram por melhores dias (e melhores exibições), espero que a França consiga fazer uma exibição sem muitos erros, que limite o jogo dos três-quartos Australianos e seja dominante nos avançados, o sector fundamental para uma vitória da equipa da casa.

O ‘quinze’ Europeu, após um Mundial de 2015 que terminou de forma desastrosa (a derrota às mãos dos All Blacks por 62-13 nos quartos-de-final é elucidativa), teve um Seis Nações 2016 horrendo (o quinto lugar só não foi pior porque a Itália perdeu todos os seus jogos) e fez uma digressão à Argentina e (até agora) um teste com a Samoa com resultados positivos mas, perante adversários de topo, inconclusivos.

Guy Nòves, Seleccionador Nacional desde Janeiro de 2016, tem feito um bom trabalho com a renovação da França e colocou os seus avançados a jogar de forma bem melhor, mas ainda tem um conjunto que a defender tem lacunas, e que nos três-quartos tem talento mas também não tem enorme eficácia face à quantidade de oportunidades que cria. Se a França quer vencer, os seus médios (Maxime Machenaud, o formação; e o abertura que substituir François Trinh-Duc, que está lesionado) têm que pelo menos não comprometer e os seus avançados têm que ser dominantes.

No meio da "confusão" (Foto: Luís Cabelo Fotografia)
No meio da “confusão” (Foto: Luís Cabelo Fotografia)

fp.E qual pode ser o jogador-nuclear nesse encontro?

BR. Jogadores nucleares? Vejam bem a exibição do capitão Guilhem Guirado (este pode ser um momento importante para o veterano talonador), do três-quartos centro fenomenal Wesley Fofana (para mim o homem do jogo contra a Samoa) e por fim, do ponta Virimi Vakatawa, que até em Marte já deve ter fãs. Vakatawa tem que fazer a diferença neste sábado.

Não quero deixar de falar um pouco sobre a Austrália. Os ‘Wallabies’ foram à final do último Mundial e tiveram um Rugby Championship (o antigo Torneio das Três Nações, expandido em 2012 com a inclusão da Argentina) positivo. O Seleccionador Nacional, Michael Cheika, que teve um primeiro ano formidável, levando a Austrália à vitória no Rugby Championship de 2015 e à final do Rugby World Cup desse ano, parece-me estar a tentar organizar uma equipa que tem imenso talento, mas onde as peças por vezes não encaixam, sobretudo nos três-quartos, com atletas como Quade Cooper a revelarem-se elementos difíceis de acomodar no ‘quinze’ dos antípodas.

Nesta digressão à Europa a Austrália derrotou no primeiro jogo o País de Gales por claros 32 a 8, e sobreviveu a uma excelente Escócia para manter o objectivo do Grand Slam vivo numa vitória por 23 a 22. Este não será o teste mais difícil dos homens do hemisfério sul nesta janela internacional, mas será um daqueles embates em que se os ‘Wallabies’ não estiverem no seu melhor podem escorregar frente a uma França que tem definitivamente algo a provar.

fp.Quade Cooper ou Bernard Foley? E porquê?

BR. Evitei responder quais os jogadores a ter em conta da Austrália na pergunta anterior porque achei que esta vinha a caminho Francisco (risos). Bernard Foley.

O debate é interessante e válido, na medida em que ambos os jogadores são polivalentes, são usados no Super Rugby na mesma posição (médio de abertura) e têm fãs que os defendem de forma acérrima.

Michael Cheika, o seleccionador australiano, já os usou ao mesmo tempo e já rodou a camisola 10 por ambos. Se formos honestos temos que conceder que apesar de Quade Cooper ser um jogador de uma criatividade e disponibilidade ofensiva sensacional, ele não só é demasiado inconstante, como tem grandes fragilidades a defender, não por ser um mau defensor mas por ocasionalmente comprometer a equipa com falhas de posicionamento e de placagem.

Bernard Foley não tem um tecto, em termos de potencial, tão grande como Quade Cooper, mas não só é um melhor organizador de jogo como é bem mais constante, e pese embora também não ser um defensor de excelência ou um mestre no jogo ao pé, garante muito mais estabilidade na posição de médio de abertura.

Outros argumentos poderiam ser usados em defesa de Quade Cooper (o bom entendimento com Will Genia, o formação titular) ou de Bernard Foley (o recente momento de forma) mas o facto de neste momento ambos os jogadores estarem bem melhores a gerir o jogo da equipa, e da Austrália estar actualmente melhor preparada para causar calafrios às defesas adversárias, deve-se sobretudo ao bom trabalho da equipa técnica, em especial do treinador (ofensivo e de três-quartos) Stephen Larkham (ex-internacional com 102 jogos pelos ‘Wallabies’, médio de abertura desta selecção nos Mundiais de 1999, 2003 e 2007). E se esta equipa técnica decidiu claramente apostar no Foley como o titular com a camisola verde e dourada número 10, quem sou eu para os contrariar?

fp.Achas que os Les Bleus estão no caminho da recuperação? Qual seria a mensagem para os fãs dos gauleses que darias?

BR. Os ‘Bleus’ estão a fazer uma recuperação em termos de forma e de estilo de jogo e uma gradual renovação no seu ‘quinze’ rumo ao Mundial de 2019 e, até ver, parece-me que estão no bom caminho. Creio que os fãs da França sabem que este processo, por menos habituados que estejam a ver a sua selecção nacional a ter que passar por ele, demora tempo.

Ainda estamos a três anos do próximo Mundial e a França, tal como as outras nações do hemisfério norte, beneficia do facto de não ter, por contraste com a Austrália (por exemplo), um calendário anual tão exigente a nível competitivo. Dito isto, estes três testes de Novembro não são nada fáceis e Guy Nòves quer sobretudo elevar e dar consistência ao jogo da sua equipa.

O actual seleccionador inglês, Eddie Jones, após o Grand Slam da Inglaterra no 6 Nações, disse à sua imprensa que estava confortável com o facto do conjunto da rosa só defrontar os All Blacks a 2018. Disse isto daquele que é o adversário da França (a Nova Zelândia) para o terceiro teste, com quem a Irlanda joga duas vezes nesta janela de testes internacionais de fim-de-ano! Não restem dúvidas que Guy Nòves quer preparar a sua equipa para o próximo Seis Nações; agora só com o apoio dos fãs (e dos media, digo eu) franceses é que esta selecção pode ter uma vida menos agitada até que chegue, na primavera do próximo ano, o verdadeiro teste, o Torneio das Seis Nações de 2017, que na minha opinião deve decidir o futuro do antigo treinador do Stade Toulousain à frente dos destinos desta Selecção Nacional.

Bernardo Rosmaninho e Paulo Duarte (Foto: Do próprio)
Bernardo Rosmaninho e Paulo Duarte (Foto: Do próprio)

fp.Para o jogo da Nova Zelândia falaremos na próxima semana… mas achas que os franceses já estão com a cabeça nesse encontro?

BR. Não, de maneira alguma. Desde o Mundial de 1999, onde a França e a Austrália disputaram a final (a Austrália venceu por 35-12, celebrando o seu 2º e último, até aos dias de hoje, título de campeã do mundo), estes conjuntos defrontaram-se 18 vezes (contando com esse jogo). Sabes quantas vezes a França venceu? Cinco. E quantas vezes a Austrália foi derrotada em sua casa pelos gauleses entre 1999 e 2016? Zero!

Estes testes existem como forma de dar uma preparação gradual a uma selecção para os desafios maiores que aí vêm (o próximo Seis Nações). A Austrália não é a Nova Zelândia, isso é certo, mas por isso é que os All Blacks são o terceiro e último teste. Desde 2014 que os ‘Bleus’ e os ‘Wallabies’ não se defrontam (nesse jogo, a 14 de Novembro de 2014, também disputado no Stade de France, palco do encontro deste sábado, a França venceu por 29 a 26).

Acredita, eles sabem que o confronto e o ritmo competitivo destas equipas vai ser diferente (a Austrália vem de um Rugby Championship em que ficou em 2º lugar; a França de uma digressão à Argentina enquanto se disputavam as finais do Top14, e de um jogo contra a Samoa) e esse é o principal desafio. Igualar, esta semana, a intensidade e o ritmo dos australianos para que, na próxima semana e só então, com muita arte e engenho, se possa sonhar com uma vitória frente aos All Blacks.

fp.É importante existir esta vontade de darmos à comunidade meios que possibilitem um aumentar de cultura da modalidade?

BR. É sempre um prazer terminar esta conversa com o rugby português. Claro que temos futuro no Mundo da Oval! Esta iniciativa da Eurosport é um exemplo de uma miríade de acções que é preciso tomar se queremos ter um futuro como uma nação de topo (pelo menos do Top-20) do rugby mundial.

Foi em 1999 que pela primeira vez a World Rugby (então IRB ou International Rugby Board) reconheceu a prática da modalidade ao mais alto nível como profissional, dando início à era moderna do desporto da bola oval. Vinte anos depois, em 2019, disputaremos, no Japão, o nono Rugby World Cup. Ao olharmos para o rugby em Portugal será que encontramos muitas diferenças entre aquilo que era na altura e é agora a nossa modalidade? Mais importante, será que em 2019 seremos ainda uma nação da terceira divisão Europeia e Mundial ou aspiramos a mais do que isso?

Vemos o rugby como um exercício quasi-elitista entre amigos e (boas) famílias, uma brincadeira que o tempo, a carolice e o sacrifício de muitos transformou numa prática semi-organizada e semi-profissional, ou reconhecemos entretanto que temos que olhar de forma diferente para alguns sectores da nossa modalidade em Portugal sobre os quais mais teimamos falar mas onde só muito lentamente se muda algo?

Falo, e a nomenclatura pode mudar conforme a quem perguntes, da componente mediática, competitiva e internacional do Rugby em Portugal.

Falamos todos os anos de mudar a estrutura dos Campeonatos, sobretudo nos seniores. Mas será que já se pensou que é preciso um compromisso de pelo menos um ciclo olímpico (4 anos) para que se consiga: 1) tirar ilações acerca da melhoria e eficácia ou não do sistema implementado; 2) permitir aos clubes, aos media e aos parceiros institucionais (Juntas e Câmaras Municipais, Entidades Públicas que cedem campos, carrinhas e até verbas para a prática desportiva) que se habituem e tenham uma estrutura competitiva compreensível e estável à volta da qual podem planear as suas actividades e iniciativas; 3) desenvolver algum tipo de crescimento sustentável e de preparação internacional, e organizar provas internacionais cá em Portugal com médias de assistência superiores a 100 pessoas nas bancadas? Estas são apenas algumas noções mas parece-me óbvio que a nossa organização competitiva não só deixa muito a desejar, como deixa jogadores (sobretudo os jovens, os das divisões inferiores e o rugby feminino), pais, clubes e patrocinadores em “águas de bacalhau” ano após ano.

O mesmo acontece com os media em Portugal. Os nossos jovens têm uma quantidade cada vez maior de desportos a competir com o rugby pela sua atenção e tempo. O que é que temos para lhes oferecer em termos de conteúdo mediático? Um vídeo de 2007 dos Lobos a cantar o hino? O website da FPR? As redes sociais dos Clubes?

É ridículo como de 1999 para cá o tipo de projectos que ainda subsistem são, com nomes e pessoas diferentes, algumas revistas online, blogues pessoais, páginas de facebook e umas crónicas nos diários desportivos (ah, e rugby português em canais fechados a pagar). Como é que não olhamos para o Surf, para o Futsal, para o Bodyboard, para o Andebol, para o Basquetebol, para o Corfebol, para o Ténis e para o Padel, para os E-Sports e para outros desportos que não nomeei aqui (para os quais ano após ano perdemos atletas que poderiam estar a experimentar e a praticar rugby) e chegamos em segundos à embaraçosa conclusão que todas estas modalidades têm pelo menos um ou dois websites dedicados em exclusivo ao acompanhamento, compilação de dados e promoção da modalidade, com conteúdos de multimédia apelativos e pessoais, em vez de jogos completos e streamings que só 10 pessoas vão ver!?

Numa modalidade em que não se faz muito conteúdo de multimédia criativo, onde não consegues entrar num balneário de um clube ou selecção num pré ou pós jogo (apesar de as transmissões internacionais que vemos, e falo por exemplo da última da Eurosport e das próximas, começarem com um plano de uma câmera dentro do balneário de cada selecção; e de nos Sevens faz quase décadas! que podemos, ao intervalo, ouvir o discurso dos treinadores e ver os jogadores bem de perto a interagirem), onde andamos literalmente “às moscas” em termos de assistência média nas bancadas, onde temos um desporto lindo, com boas pessoas e bons intervenientes, um desporto de família e amigos, onde podemos e devemos apostar em trazer pessoas novas, primeiro (porque é mais fácil) aos jogos das selecções nacionais e depois aos dos clubes; continuamos a apostar em afastar espectadores (e por inerência praticantes, parceiros e verbas) ao marcarmos (por exemplo) X número de jogos ao mesmo tempo, no mesmo dia, enquanto as nossas Selecções jogam!

Em vez de resumos, boas crónicas, transmissões em canal aberto divertidas, vídeos de eventos e de iniciativas giros, que mostrem o que se faz (e quem o faz) durante o ano, boas fotos (e temos fotógrafos tão bons no rugby português!), em vez de informação e notícias em barda, o que é que chega aos media e ao grande público?

Chega por vezes o trabalho esforçadíssimo de alguns projectos nas áreas acima mencionadas, das quais dou como exemplos a nível do jornalismo pessoal o blogue Mão de Mestre, a nível do registo fotográfico o Rugby Photo Store e a um nível mais organizado e institucional a antiga página de râguebi no P3 do Público e agora um espaço multimodalidades como o Fair Play, mas infelizmente também chegam as notícias do costume (vazias de conteúdo e informação útil), chegam transmissões e streamings ou em sinal fechado ou de má qualidade (ou pior, ambas) que não interessam a ninguém; em vez de uma boa divulgação, do investimento na promoção das finais, quer seja das Selecções ou dos Clubes, mas não só dos seniores masculinos, de vários escalões e da presença das pessoas e das marcas nas bancadas. Os jogos e os resumos podem vir depois, mais tarde, na TV ou online, para consumo do nosso público nacional e internacional, mas essa não é a prioridade. A prioridade tem de ser colocar as pessoas a ver, a ler e a jogar bom rugby, tem que ser a de dar força a uma estrutura e a um conjunto de infraestruturas sobre as quais podíamos e ainda podemos investir mais e melhor.

Mais um convidado em sua "casa" (Foto: Do próprio)
Mais um convidado em sua “casa” (Foto: Do próprio)

fp.Temos futuro no Mundo da Oval?

BR. Claro que sim, se aceitarmos que o Mundial de 2007 já passou e que estamos (quase) de volta à estaca zero, portanto importa agora lutarmos pelo rugby nacional, pelo bom trabalho de formação e resultados que Clubes, Associações Regionais e Selecções (em especial as jovens) fizeram entretanto, pelos clubes que, fora das grandes cidades, fora de Lisboa em especial, cresceram e se implementaram ao longo de Portugal e pelas pessoas que, com mais ou menos sacrifício, vão contribuindo, vão acrescentando dentro e fora de campo com tempo e dinheiro, com organização, com apoios e acima de tudo, com muita paixão pela oval e pelo emblema que vestem.

Claro que sim, se compreendermos que os árbitros são uma parte essencial da formação e crescimento de uma modalidade e que têm que ser correctamente remunerados e acarinhados, não encostados ou enxovalhados como um veículo de que até precisamos mas onde sobretudo se descarregam as frustrações sobre o mau nível do rugby jogado quando este nunca vai melhorar se não se der espaço aos árbitros para também melhorarem.

Claro que sim, se a nossa comunidade aceitar que quem joga lá fora tem, inevitavelmente, um nível competitivo mais exigente e está à priori a jogar a um nível mais alto do que aqui dentro, e que é para a ProD2, para o Top14, para o Championship e para a Premiership, para os outros países do Seis Nações que os nossos jovens devem ir jogar se querem ser profissionais, se queremos, à semelhança da Geórgia e da Roménia (por exemplo), ter um futuro e uma presença regular nos Mundiais de Rugby.

Claro que sim, se os nossos dirigentes pararem de importar estrangeiros a granel de cada vez que existe dinheiro ou como via para substituir um bom trabalho de formação, isto enquanto ao mesmo tempo tratamos como mercenários os jogadores portugueses no estrangeiro, em especial os luso-descendentes, aquela gente que não vivendo cá sente por vezes Portugal bem mais do que nós e faz das tripas coração para poder competir pela Selecção.

Claro que sim, se fizermos dos media um parceiro ao qual se abre as portas (e os balneários) da modalidade e dos investimentos nessa área uma resposta inteligente a uma oferta que cada vez é maior e mais competitiva em vez da constante e mentecapta canibalização de espaços e janelas de atenção mediática entre Clubes, Selecção e entre os vários escalões competitivos.

Notem que, no que a este entrevistado concerne, fundei após o Mundial de 2007 um dos primeiros websites e lojas virtuais dedicados em exclusivo ao rugby, o Rugby Portugal (agora inactivo) e dediquei, como comentador, fotógrafo e cronista (amador, por respeito aos excelentes profissionais que abundam no nosso desporto), os meus últimos anos à promoção do rugby português. Falei do multimédia porque esse é o meio do futuro e a Xperience Sports Media, empresa onde tenho uma participação, continua a ser responsável por alguns dos bons exemplos que dei via os seus vídeos, mas existem mais exemplos, têm que existir, porque só assim o trabalho dos media, como o rugby, melhora e cresce.

Claro que sim, se formos inclusivos, trouxermos gente nova e espectadores novos para os jogos de rugby e não só o deste sábado à noite (20h) entre a França e a Austrália na Eurosport 2 ou o do sábado seguinte (à mesma hora) contra os All Blacks. Se reconquistarmos espaços, na TV pública, nos media, no desporto escolar, na atenção do público, onde a modalidade já esteve, chegaremos não só a um novo Campeonato do Mundo, mas também teremos um futuro sustentável enquanto comunidade.

Obrigado e um abraço.

Podem ouvir o Bernardo Rosmaninho sábado às 20:00 na Eurosport no jogo entre França e Austrália, no qual o Fair Play fez a sua antevisão.

A voz do Rugby na Eurosport (Foto: Do próprio)
A voz do Rugby na Eurosport (Foto: Do próprio)


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