19 Ago, 2017

Alan Pearey, “A integridade no rugby é única”

Francisco IsaacJaneiro 6, 201717min0

Alan Pearey, “A integridade no rugby é única”

Francisco IsaacJaneiro 6, 201717min0

Alan Pearey, um dos editores e directores da Revista da Rugby World Magazine, partilhou os seus conhecimentos com o Fair Play: desde a discussão sobre as promoções e descidas, à evolução da modalidade, o jornalista ainda deu a sua opinião à forma como se faz jornalismo desportivo na actualidade. Uma entrevista do Fair Play

Nota: Esta entrevista tem duas versões, sendo a primeira em português e a segunda em inglês;

Note: This interview has two versions, first in Portuguese and the following in English

fp: Alan obrigado por falar com o Fair Play. É este um bom ano para se ser um adepto de rugby da Inglaterra e jornalista? Até onde conseguirá a Inglaterra ir nos próximos anos?

AP. É uma altura excelente para ser adepto da Inglaterra. Depois de 14 vitórias sucessivas, todas excepto uma sob a liderança de Eddie Jones, a equipa inglesa está perto de alguns recordes ilustres. A vitória contra a França a 4 de Fevereiro quebraria um recorde inglês de todos os tempos, enquanto que repetição do Grand Slam de 2016 elevaria o número de vitórias a 19 – ultrapassando o número da Nova Zelândia.

É irónico que o sucesso esteja a acontecer sob a tutelagem do seu primeiro treinador estrangeiro (australiano) mas isso é o que acontece num deporto profissional – escolhe-se a melhor pessoa para o lugar independentemente de nacionalidade.

A minha única preocupação é se a Inglaterra chegou ao seu máximo cedo demais. As Seis Nações e Grand Slams são óptimos, mas hoje em dia o grande prémio é o Mundial e isso está a mais de dois anos e meio de distância. É aí que precisamos que a Inglaterra esteja no seu melhor.

fp: O rugby foi a sua primeira paixão desportiva? Ou isso surgiu depois?

AP. Na minha infância o futebol era o meu desporto favorito. O meu grande interesse surgiu com o Mundial de 1974 na Alemanha e eu comecei a subscrever a revista Shoot!.

Todavia, o rugby logo me começou a interessar. O meu pai estava imerso no desporto, como atleta da equipa de Atletismo da Grã-Bretanha na década de ’50 e mais tarde trabalhando para a RFU. Eu costumava ir ver jogos a Twickenham e era sempre muito especial. Não só os internacionais, mas também os Middlesex Sevens e as finais da Taça John Player. A minha paixão pelo rugby começou na década de ’70 muito antes de começar a escrever sobre o assunto.

fp: Praticou rugby por alguns anos, correcto? O quão importante foi isso para a sua carreira enquanto jornalista/analista de rugby?

AP. Sim, comecei a jogar rugby na escola a partir dos 11 anos de idade, mas também, mais tarde, na Universidade. Isso ajudou quando comecei a escrever sobre o assunto, mas não foi essencial.

O nível a que eu joguei não tem qualquer comparação com o nível dos profissionais. Até o rugby amador hoje em dia é muito diferente do rugby que eu joguei porque as regras mudaram bastante e agora há mais ênfase em placagens ao peito por oposição às placagens às pernas.

fp: Era mais fácil começar uma carreira de jornalista nos anos ’90? Tem algum conselho para jornalistas ‘novatos’?

AP. Na realidade eu comecei a escrever relatos para jornais no meio da década de ’80, enquanto estudava Desporto e Gestão no âmbito da Universidade. Escrevia de graça para um jornal semanário local em Londres e em troca ganhei preciosa experiencia. O jornal dava-me um press pass e pagava-me algumas despesas de deslocação. O jornalismo é uma área tão popular de se trabalhar que, inicialmente, temos de estar dispostos a trabalhar de graça. O importante é fazer contactos em algum lugar e provar que temos algo a oferecer.

Uma boa atitude é crucial, mais até do que conhecimento de causa sobre o assunto a tratar. Parece óbvio , mas é necessário aparecer a horas e estar disposto a trabalhar a sério, não passar o tempo inteiro ao telefone a fazer chamadas pessoais. A formação é importante também, eu devo ter feito coisas de maneira diferente por causa de toda a formação que tive – como sub-editing, law e shorthand – enquanto já estava a trabalhar a tempo inteiro.

Alan Pearey (Foto: Arquivo Pessoal)

fp: Vivemos na Era Digital. Está mais difícil a sovrevivência do media tradicionais? Como se conseguem ajustar às necessidades do leitor?

AP. O ritmo de mudança no mundo dos media tem sido extraordinário. Quando trabalhei na Rugby World tínhamos meia página dedicada à ‘Internet’! O nosso site era algo à parte, algo a que não prestávamos muita atenção porque não nos trazia muito lucro. Hoje em dia as nossa vendas em papel continuam a ser maiores que as digitais, mas a cada ano que passa essa pequena diferença é cada vez menor. Os jovens estão habituados a consumir conteúdos nos seus telemóveis ou nos seus tablets e os media têm de responder a essas vontades.

fp: A Rugby World Magazine é a maior e mais bem sucedida revista de rugby no mundo. Têm planos para se diferenciar de alguma nova maneira?

AP. Nós esperamos já ter muito com que atrair novos leitores, como por exemplo os nossos profiles de jogadores, fotos impressionantes, conhecimento sobre técnicas de treino e colunistas sérios. Sempre tentamos celebrar o espírito do rugby, mas lutaremos sempre pelos nossos valores fundadores.

Por exemplo, Rugby World considera a promoção e a relegação como algo sacrossanto porque o rugby é um deporto de sonhos – ou pelo menos um desporto em que existe a hipótese de os alcançar.

Por muitos argumentos económicos que possam existir nós nunca gostamos de ringfencing, que cria inúmeros jogos sem qualquer sentido.

O sucesso dos Exeter nunca poderia ter acontecido se o acesso à Primeira Divisão Inglesa não fosse permitido. Eles têm sido uma lufada de ar fresco.

fp: Como podem os jornalistas desportivos lutar contra o fenómeno ‘fake news’?

AP. É difícil. As redes sociais têm trazido coisas boas e coisas más, uma das piores tem sido a pressão que é colocada em cima de jornalistas para que consigam certo número de visualizações por página – o que nos leva a ter certos ‘spins’ de notícias de maneira absolutamente ridícula em redes como o Twitter. Acho que os leitores logo se apercebem dessas tácticas.

fp: Acha que as redes socias são o futuro do jornalismo desportivo? Ou teremos que encontrar um médio-termo?

AP. A exigência por jornalismo de qualidade na sua forma tradicional nunca irá morrer. As redes sociais têm tudo que ver com rapidez e espontaneidade, mas não conseguem dar conteúdo sério e complexo, o tipo de artigos que só se fazem com tempo e investigação.

Algumas pessoas gostam de se sentar com uma chávena de café e ler algo interessante e isso nunca irá mudar, graças a Deus.

fp: Há alguma ausência de um espírito de Fair Play no desporto? Está o rugby a perder a camaradagem e os valores que o fizeram um desporto tão extraordinário?

AP. Definitivamente não. Existe uma integridade no rugby que não vejo noutros desportos. Por exemplo, o futebol ainda não abordou de maneira séria a prática comum das ‘fitas’ feitas por jogadores – não há nenhum castigo sério para jogadores que ‘mergulham’ para conseguir penaltis ou que exageram lesões para prejudicar o adversário.

No rugby quando este tipo de coisa acontece as autoridades castigam com mão pesada. Pascal Pape, antigo 2ª linha francês, acabou de receber uma penalização por ter caído de maneira teatral depois de uma gentil tapada na cara. Muito bem feito e ele com certeza aprendeu a lição.

Nunca precisas de segregar adeptos no rugby – fãs de equipas rivais ficam lado a lado vendo as suas equipas.  

fp: É difícil ser jornalista desportivo em Inglaterra?

AP. Hoje é mais difícil do que já foi no passado. A indústria impressa está a contrair, ao mesmo tempo que cada vez mais pessoas mudam para formato digital, mas isso também traz novas oportunidades. Existem empregos agora que não existiam anteriormente – editores web, editores de vídeo ou analistas de dados.

Se eu fosse adolescente agora não sei se escolheria o jornalismo porque é um ‘animal’ muito diferente. O que sei é que adorei a minha vida de trabalho. Tem me levado a tantos cantos do Reino Unido e da Europa, mas também a mais longe – Nova Zelândia, Austrália, áfrica do Sul, Japão, Hong Kong, Dubai, Bermudas.

Vejamos, este ano viajei até à Itália para aprender sobre equipamento de treino, à França para ver Sevens, a Portugal para descobrir a alegria do Beach Rugby. Onde quer que vás encontras pessoas fantásticas com um amor comum ao rugby. É nessas alturas que não me consigo ver a fazer outra coisa.

Artigo de Alan Pearey sobre o Beach Rugby Figueira (Foto: João Peleteiro Fotografia)


ENGLISH VERSION

fp: Alan thank you for talking with Fair Play. Is this a good year to be an England rugby fan and journalist? How far can England go in the next couple of years?

AP. It’s an excellent time to be an England rugby supporter. After 14 successive wins, all but one of them under new head coach Eddie Jones, they are within sight of some illustrious records. Victory over France on 4 February would break the all-time England record, while repeating their 2016 Grand Slam would take their run to 19 wins – surpassing the mark set recently by New Zealand.

It’s ironic that their success is happening under their first foreign coach (Australian) but that is professional sport – you choose the best person for the job regardless of nationality.

My only concern is that you wonder if they might peak too early. Six Nations titles and Grand Slams are all very well but the big prize nowadays is the World Cup, and that is more than two and a half years away. That’s when you want England to be at their best.        

fp: Was rugby your first sports passion? Or it just came after some time working with it?

AP. Football was my favourite sport for much of my childhood. My interest began with the 1974 World Cup in Germany and I subscribed to Shoot! magazine.

However, rugby soon grew on me. My father was steeped in the game, being an England trialist in the 1950s and later working for the RFU. I used to attend matches at Twickenham and they were always special occasions. Not just Internationals but events like the Middlesex Sevens and John Player Cup finals.

So my passion for rugby started in the 1970s really, long before I ever wrote about the sport.    

fp: You played rugby for some years, right? How important was it to your sports journalist/analyst career?

AP. Yes, I played rugby throughout my school life from the age of 11 onwards, and also at university. That helped when I started writing about the game but it wasn’t essential.

The level I played at bears no comparison to the professional game. Even the current amateur game is quite different to the rugby I played, because the laws have changed a lot and there’s greater emphasis now on slam tackles as opposed to soak tackles. 

fp: Was it easier to start as a journalist in the 90’s? Do you have any advice for new “freshman” journalists?

AP. I actually started writing newspaper reports in the mid 1980s, whilst I was studying for a sports and business degree. I wrote for free for a local weekly paper in London and in return acquired valuable experience. The paper would give me a press pass and some travel expenses.

Journalism is such a popular área to work in that you have to be willing to work for free initially. It’s about getting your foot in the door somewhere and proving you have something to offer.

A good attitude is crucial, more important even than knowledge of the subject. It sounds obvious but you need to turn up for work on time and be ready to knuckle down, not start making personal calls on your mobile.

Training is important too of course, but I may have done things a bit differently because all the training courses I did – such as sub-editing, law and shorthand – I took whilst already in full-time employment.

fp: We live in the Digital Era now. Is it getting harder for the traditional media to survive? How can it adjust to the new needs of the reader?

AP. The pace of change in the media world hás been extraordinary. When I first worked on Rugby World, we had a half-page devoted to ‘the Internet’! Our website was a sideline, something we didn’t spend much time on because few people looked at it and it didn’t bring us any revenue.

Today, revenue from our print sales still outweighs digital income but with each passing year the balance shifts a little more. Younger people are used to consuming content on their phone or tablet, and media publishers have to respond to that.   

Alan Pearey (Foto: Arquivo Pessoal)

fp: Rugby World Magazine is the biggest and most successful rugby magazine in the World. Are you planning to differentiate yourselves in a new way?

AP. We hope we already provide plenty to attract readers, such as powerful player profiles, stunning photos, coaching insights and hard-hitting columnists. We have always tried to celebrate the spirit of rugby – but we will fight for our core beliefs.

For example, Rugby World regards promotion and relegation as sacrosanct because sport is about achieving dreams – or at least having the chance to achieve them. Whatever the economic arguments, we have never liked ringfencing, which creates a lot of meaningless games.

Exeter’s rise could not have happened had access to England’s top flight been shut off. They have been a breath of fresh air to the Premiership.          

fp: How can sports journalists fight off the fake news momentum?

AP. It’s difficult. Social media hás brought good and bad, and one negative is the pressure on journalists to hit certain figures for page views – which can mean taking news ‘spin’ to ridiculous levels on platforms like Twitter. I think readers quickly see through such tactics.       

fp: Do you think social media is the future for Sports media? Or do we have to find a middle ground?

AP. The demand for quality journalism in its traditional form will never die. Social media is about speed and spontaneity but it doesn’t deliver considered and insightful content, the sort of articles that take time to research and write.

Some people like to sit down with a cuppa and have a good read, and that will never change, thank goodness.

fp: Is there an absence of a Fair Play spirit in Sports? Is rugby losing the comradery, companionship and values that made it such an outstanding game?

AP. Definitely not. There is an integrity about rugby that I don’t see in other sports. For instance, football still hasn’t grasped the nettle that is play-acting – there is no real deterrent for players who dive in a bid to win a penalty or who exaggerate an injury to get an opponent booked or sent off.

In rugby, when such incidents occur the authorities clamp down hard. Pascal Pape, the former France lock, has just received a warning for falling in a theatrical manner after a gentle slap on the face. Quite right too, and I’m sure he has learned his lesson.

And you never need to segregate supporters in rugby – rival fans stand side by side and share the experience of watching their team.    

fp: How hard is it to be a Sports Journalist in England?

AP. It’s more difficult than it was. The print industry as a whole is contracting as more and more people switch to digital formats, but that also brings opportunities. There are jobs now that didn’t exist before – for web editors or vídeo editors or data analysts.

If I was a teenager again now and trying to choose a career to follow, I don’t honestly know if I would pick journalism because it’s a very different animal.

What I do know is that I’ve loved my working life. It hás taken me to all corners of the UK and Europe but also further afield – to New Zealand, Austrália, South África, Japan, Hong Kong, Dubai and Bermuda.

For instance, this year I visited Italy to learn about training equipment, France to watch sevens, and Portugal to discover the joy of beach rugby. Everywhere you go you meet great people with a shared love of rugby. At such times I can’t envisage wanting to do anything else. 

Artigo de Alan Pearey sobre o Beach Rugby Figueira (Foto: João Peleteiro Fotografia)


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