O Dinamo Zagreb está mais do que habituado a correr sozinho, pondo os olhos na meta e esquecendo quem vem atrás. Arranca, impõe um ritmo moderado e, no final, celebra sem ter precisado de conhecer os seus próprios limites. A história repete-se todos os anos. Há 11 anos. Esta época, contudo, o maior emblema da Croácia começou a passo de caracol e terá de suar para superar a mais forte concorrência da década.
Zlatko Kranjcar não durou muito no Maksimir. A pesada derrota frente ao Rijeka, líder do campeonato, por 5-2, precipitou o pedido de demissão do antigo seleccionador croata, que tinha a árdua tarefa de suceder ao tricampeão Zoran Mamic. Face à inexistência de ideias no futebol praticado, percebeu-se desde cedo que a relação entre o treinador e o Dinamo terminaria assim que os maus resultados surgissem.
Em Zagreb, paciência não faz parte do léxico. Na presidência de Zdravko Mamic, entre 2003 e 2016, passaram pelo comando do clube 15 treinadores, sendo que apenas Zoran Mamic, o seu irmão, conseguiu estar mais do que duas temporadas ao leme da equipa. Um técnico que chega ao Dinamo sabe previamente o que vai encontrar, e que ganhar pode não ser suficiente.
Escolhido por Zoran Mamic, que substituiu o irmão na presidência, Zlatko Kranjcar, pai do futebolista Niko Kranjcar, teve dificuldades inesperadas a nível interno. Frente a oponentes de valia inferior, que defendem com 11 jogadores atrás da linha da bola, o Dínamo foi sempre uma equipa pouco ou nada criativa, sem arte para desequilibrar a estrutura adversária. Com pouca capacidade de jogar por dentro, os campeões tornavam-se bastante previsíveis e dependentes de iniciativas individuais.
Num clube como o Dinamo, que detém a hegemonia no plano nacional, o papel do treinador por vezes é secundário, já que a qualidade individual do plantel costuma ser suficiente para ultrapassar todos os obstáculos que surgem no caminho. Zlatko Kranjcar complicou o que, à partida, parecia simples. Construiu uma equipa com demasiadas preocupações defensivas e acabou por não valorizar devidamente os melhores jogadores que tinha à disposição.
É ponto assente que o Dinamo tem de assumir a iniciativa em praticamente todos os encontros que disputa no campeonato croata. Assim sendo, a ideia de jogo do treinador terá obrigatoriamente de privilegiar a vertente ofensiva, dotando o colectivo de soluções para jogar em ataque continuado. Poderia pensar-se que Kranjcar, um técnico com bastante experiência, conhecia a realidade da liga melhor do que ninguém mas, em vez disso, provou ser um erro de casting.
As duvidosas opções de Kranjcar

Foram raras as ocasiões em que Kranjcar abdicou de um trinco com um perfil defensivo (como Benkovic ou Jonas, também utilizados como centrais), o que acabou por retirar qualidade à equipa na saída de bola e na ligação entre sectores. Tendo em conta a postura dos adversários que defrontam o Dinamo, sobretudo no Maksimir, era perfeitamente dispensável a presença de um jogador que pouco oferece ao nível da construção naquela posição.
A pouca fluidez no jogo do campeão croata foi uma constante enquanto Kranjcar esteve à frente da equipa. Muita posse, pouca ou nenhuma capacidade de criar situações para marcar. Este cenário de apatia colectiva acabou por prejudicar Ante Coric, provavelmente o jogador mais talentoso do plantel. Depois do destaque que teve na última temporada, era expectável que ganhasse ainda mais protagonismo e se tornasse na principal figura da equipa, emprestando a sua criatividade e rapidez de execução.
Estranhamente, este início de época mostrou uma sombra de um jovem com futebol a mais para a liga da Croácia. Coric precisava de ser desafiado, de ter novos estímulos para poder crescer enquanto jogador, e Kranjcar não acompanhou essas necessidades. Ao invés de dar ao médio um papel central na equipa, transmitindo-lhe uma mensagem de confiança, prescindiu dele em partidas teoricamente complicadas – como as da Liga dos Campeões – e terá contribuído para a sua desmotivação. Perdeu aquele que, à partida, tinha condições para ser o desbloqueador que faltou à equipa do Dínamo.
As eliminatórias europeias dificultaram a missão de Kranjcar. Para fazer face aos compromissos internacionais, o treinador do Dinamo procurou gerir o plantel, mudando o sistema e as peças de jogo para jogo. Apesar de ter sido bem sucedido, ultrapassando o Dínamo Tbilisi e o RB Salzburgo para chegar à fase de grupos, sofreu as consequências por ter sido obrigado a fazer essa rotação. Sem uma base definida, a equipa não atingiu a estabilidade necessária e foi notória a falta de identificação dos jogadores com as ideias que Kranjcar pretendia aplicar. O problema habitual em clubes como o Dinamo, demasiado fortes no próprio país mas sem argumentos para brilhar no plano europeu, não foi bem resolvido.
Foi escolhido para ser o treinador da continuidade, mas o descalabro em Rijeka tornou impossível a permanência de Kranjcar à frente da equipa. Mesmo sem ter culpas exclusivas, o técnico somou alguns deslizes inadmissíveis e perdeu o crédito que possuía. Para o seu lugar chegou Ivaylo Petev, antigo seleccionador búlgaro. Um treinador mais jovem e com outra frescura nas ideias, que parece apostado em corrigir os erros do seu antecessor. Paulo Machado tem jogado à frente da defesa e Ante Coric vai recuperando o nível que mostrou na época passada. Não muda tudo, mas coloca o Dinamo num passo mais apressado na corrida pelo título.






