De nove jogos temperados com igual número de vitórias a dois pontos em três rondas, o Feyenoord regressa ao limbo entre a ilusão (da conquista) e o fantasma (de mais uma decepção). Os bons feelings do óptimo arranque de 2016/2017 tiveram sustentação – mas serão eles capazes de se auto-alimentar para garantir o doce sabor do título que foge desde 1999?
Giovanni van Bronckhorst não viveu esse ano de glória – comandados por Leo Beenhakker, os vermelhos e brancos venceram a liga holandesa com 15 pontos de avanço sobre o Willem II –, pois que já havia saído para o Rangers no defeso anterior. Mas é este antigo lateral esquerdo um dos principais responsáveis pela ascensão e cada vez maior consideração que o Feyenoord acumula enquanto competidor pelo título.
‘Gio’, à semelhança do ano passado, tem optado por dispor a equipa próxima de um 4231. À estabilidade táctica juntou-se a permanência das unidades mais relevantes e acrescentou-se um trio que se tem revelado fundamental no upgrade dos donos do De Kuip: Brad Jones (ex-NEC, veio acautelar a ausência de Vermeer devido a grave lesão e é tremendamente competente na saída dos postes), Steven Berghuis (emprestado pelo Watford, aportou criatividade e repentismo ao lado direito do ataque) e Nicolai Jörgensen (ex-Copenhaga, um ‘9’ que elevou o jogo associativo do Feyenoord, destacando-se pela sua veia goleadora – é o melhor marcador da Eredivisie, com 8 golos em 12 jogos).
Não sendo uma equipa brilhante, empolgante ou completamente dominadora – à semelhança da esmagadora maioria das turmas holandesas, apresenta défices no processo defensivo, com uma indesmentível tendência para a marcação H-H –, o Feyenoord tem vindo a apresentar um futebol mais pensado e ligado do que na época anterior. Há vários factores que confluem para essa evidência.
Por um lado, a afirmação plena do ‘velhinho’ Kuyt como elemento de ligação entre os sectores intermédio e avançado. É o homem de 36 quem ocupa esse espaço pelo corredor central, afirmando-se verdadeiramente como a alma mater da equipa, futebolística e espiritualmente falando. Mantém toda a sua entrega ao jogo e – ate pela sua experiência – sabe sempre o que fazer com a bola, oferecendo inteligência à criação ofensiva – ademais, preserva a capacidade de surgir em zona de finalização (3 golos em 9 jogos), ligando muito bem com Jörgensen.
Dirk Kuyt (Foto: omroepwest.nl)
De facto, este avançado dinamarquês de 25 anos terá de ser visto como um plus em relação a Kramer. Alia a imponência física (1,90 m) e, por isso, a capacidade de servir como jogador-alvo (desde logo nas saídas de bola) a um à-vontade com a bola interessante, que potencia a capacidade que tem para recuar e se envolver no jogo colectivo, oferecendo destreza na movimentação, qualidade nos apoios frontais e fiabilidade na hora de segurar e esperar que a equipa se aproxime.
Finalmente, a dupla El Ahmadi- Vilhena tem sustentado muita da capacidade do Feyenoord de se superiorizar aos seus opositores. O primeiro destaca-se pela qualidade nas coberturas defensivas e pela segurança/tranquilidade que transmite no controlo do espaço central (revelando-se ainda muito equilibrado na integração no processo ofensivo) – fabulosa a forma como se exibiu na vitória no clássico diante do PSV, em Eindhoven; já Vilhena, de raízes angolanas, tem perfume no seu pé esquerdo, evidenciando-se pela qualidade de passe e pelo poderoso remate (a que acrescenta a skill da bola parada), sendo perceptível a nuance táctica que oferece à equipa com não raras trocas posicionais com Toornstra, um médio versátil muitas vezes utilizado a partir do flanco esquerdo. São estes dois homens que, nas costas de Kuyt, permitem que o Feyenoord tenha um jogo mais pensado, pausado e fluido do que em momentos precedentes.
Um perfil de jogo colectivo mais integrado e conectado – não se vê actualmente os fortes centrais em espaço aéreo Botteghin e Van der Heijden a libertar de forma directa a bola de modo tão assíduo quanto anteriormente, por exemplo – mas que mantém alguns vícios do passado, como sejam a (ainda) excessiva propensão para atacar pelas bandas (bons valores como Elia, Berghuis e o rato atómico Basacikoglu também assim o ‘obrigam’, para além da capacidade de galope por parte do lateral direito Karsdorp) e alguma negligência no momento defensivo (vislumbrada na recepção ao Roda JC, apesar da folgada vitoria, ou diante do Go Ahead Eagles).
Durante o exercício de 2015/2016, o conjunto de Roterdão guindou-se aos lugares de decisão mas uma queda considerável pós-interregno de Inverno (com derrotas consecutivas) voltou a adiar o longo sonho da reconquista da Eredivisieschaal. Agora o arranque com o registo interno de 9 vitórias em outros tantos jogos elevou o conjunto de Roterdão a figura principal, considerando que, tal performance, neste século, ainda não havia sido alcançada por qualquer outro emblema. Porém, tal élan parece desvanecer-se …
A derrota diante do Go Ahead Eagles poderá ter reaberto feridas não totalmente cicatrizadas (Foto: Sportfeed)
Os dois pontos conquistados nas últimas três jornadas desbarataram uma liderança que aparentava ser sólida. E pior poderia ser caso os mais directos perseguidores não tivessem também eles tropeçado – o PSV conquistou 7 em 9 pontos (segue em 3º) e o Ajax logrou 5 em 9 (segue em 2º). Sobretudo nas duas últimas partidas observaram-se circunstâncias com que os rotterdammers ainda não se haviam debruçado: diante do Heerenveen, os pupilos de Gio depararam-se com uma equipa que quis jogar e ter bola, condicionando imensamente o jogo dos homens de Roterdão e ameaçando com propriedade a baliza de Jones; e na derrota diante do Go Ahead Eagles, ficaram expostas as debilidades de um plantel que não resistiu à ausência do duplo pivot El Ahmadi-Vilhena (para além do keeper Jones), sendo ainda tremendamente penalizado por falhas defensivas comprometedoras (como o erro individual de Van der Heijden) e pela inoperância em termos ofensivos para dar a volta ao contexto negativo.
A pausa para os jogos competitivos das selecções é assim recebida, em Roterdão, com tons de alívio. O Feyenoord necessita de reencontrar-se, e sobretudo espantar o espectro negativo que sempre se abate a cada ciclo – por mais pequeno que seja – de resultados negativos. Um aspecto que terá muito mais que ver com questões psicológicas e motivacionais do que puramente tácticas. Ainda que neste último campo também haja espaço para crescer. É que mesmo com um plantel inferior em termos de soluções relativamente aos crónicos candidatos Ajax e PSV, Giovanni van Bronckhorst deverá garantir o regresso da solidez exibicional evidenciada nas primeiras semanas de 2016/2017. E assim talvez a longa espera termine.
Aos 33 anos, é um dos jogadores mais emblemáticos da Liga NOS. Construiu uma carreira a pulso até se tornar líder em campo de uma das equipas que mais cresceu no contexto português nos últimos anos. O seu exemplo vale, porém, por outros aspetos. Acaba de concluir o Mestrado em Ciências do Desporto e tem-se dedicado àquela que define como a sua causa: a da gestão das carreiras desportivas. Eis Ricardo Monteiro – ou melhor, Tarantini.
. Como é que o Ricardo José Vaz Alves Monteiro se transformou em ‘Tarantini’?
T. O culpado foi o futebol. É uma alcunha do tempo em que jogava no Sporting da Covilhã, dada por Virgílio Martins (adjunto de João Cavaleiro). Hoje, com exceção de pais e irmãs, toda a gente me chama e conhece-me por Tarantini.
. Passou pelo Sporting da Covilhã e pelo Gondomar antes de atingir a divisão maior. O que lhe ficou desses tempos? O que oferecem os escalões inferiores do futebol nacional a um jovem futebolista sénior?
T. Além desses também o Portimonense. O tempo no Sporting da Covilhã foi diferente, pois além de ter tido uma carreira profissional conciliei uma carreira académica. Naquela altura, o Sporting da Covilhã estava a tentar relançar-se outra vez nos campeonatos profissionais e foi uma luta a todos os níveis. Senti as dificuldades que são pertencer a um clube que quer voltar a crescer, sair dos problemas financeiros e ainda por cima num clube que vive no interior. A ida para o Gondomar e Portimonense foram passos importantes, para um jogador que tinha como objetivo chegar ao escalão principal. Os escalões inferiores devem ser olhados como mais uma etapa e oportunidade de quem pretende chegar mais acima. Os escalões inferiores dotam os jogadores de comportamentos que jamais serão conhecidos por outros. O futebol é como uma pirâmide, em que só chegam, permanecem e continuam os mais fortes. A 1ª Liga é apenas metade do caminho.
. Chegou ao Rio Ave em 2008/09, época que marcou o regresso do clube ao principal escalão do futebol português. Que avaliação faz relativamente à evolução do emblema vila-condense desde esse momento?
T.Uma evolução brutal. Só quem conhece o Rio Ave por dentro percebe o que foi feito e o que está a ser para tornar este clube um dos melhores de Portugal. Sé é o melhor, não é; se há coisas por fazer, certamente que sim; mas as poucas pessoas que cá trabalham têm isso em mente, tornar o Rio Ave mais competitivo. As recentes campanhas da equipa ajudaram a dar força na mudança. Para o Rio Ave continuar a crescer falta o aumento da massa associativa, falta mais gente nos estádios, faltam mais rioavistas. Acredito que há uma nova geração a aparecer, aquela que viu o Rio Ave a ganhar mais vezes.
. Alguma vez sentiu que a mentalidade de um treinador poderia prejudicar a equipa? Ou seja, alguma vez percepcionou que a forma como o treinador queria que a equipa jogasse ficava aquém do potencial da mesma e não permitia a evolução dos jogadores?
T.Obviamente que todos os jogadores sabem quando tiveram ou estão a ter um melhor rendimento, e aí sim é quando o treinador e a equipa estão a tirar o melhor desse jogador. Mas são inúmeros os fatores que condicionam isso. Não existe uma só forma de ganhar. Enquanto jogador tenho de ter a capacidade de perceber e conseguir adaptar-me às ideias do treinador. Depois posso conseguir ou não. Caso não consiga estou mais perto de não jogar ou até de ter uma performance mais fraca. Podemos é sentir (no jogo) que as ideias são boas ou más, mas aí cabe ao treinador conseguir compreender o que é melhor para a equipa e para cada jogador. Porque no final só pode haver uma voz de comando e o comandante é sempre o treinador.
. O que diria ou como avaliaria o seu trajecto enquanto futebolista se ele terminasse hoje?
T.Eu fui sempre um homem de objetivos. E ao analisar pelos objetivos intermédios posso dizer que apenas ainda não consegui jogar na seleção nacional. Pois quando era miúdo queria ser profissional, quando me tornei profissional queria jogar na 1ª Liga. E quando aqui cheguei pensei em permanecer e depois chegar à seleção nacional. Se calhar foi aqui o meu erro, deveria ter percebido mais cedo que podia chegar ainda mais acima. Depois vieram os timings do futebol: nas minhas melhores épocas tinha contrato ainda com o Rio Ave e aí não tive o que outrora tive, alguém que acreditasse que podia jogar a outro nível. Não fico a lamentar, fico a pensar que não sou suficientemente bom para lá chegar, pois se pensasse o contrário estava a pensar como muitos outros, a lamentar.
. O regresso à Universidade foi como que um regresso ao passado – à Covilhã e à Universidade da Beira Interior – ou uma projecção do futuro?
T.Sem dúvida uma visão para o futuro. Capacitar-me para o que ai vem, e acredito que serão coisas boas, ainda melhores.
. Qual o maior desafio e/ou dificuldade que teve de enfrentar na conciliação entre o estatuto de estudante e atleta?
T.Não tenho nada que possa dizer que foi impossível. Foi fácil? Não foi. Mas prescindindo de muitas coisas e tendo um compromisso forte com aquilo que pretendemos, é sem dúvida o primeiro passo para se conseguir. Temos de estar completamente focados com os nossos objetivos – eu quis e fui atrás.
. Considerando a sua experiência, julga que deveria haver outra atenção para com os atletas que pretendem não abdicar de uma carreira escolar/académica? Caberá aos clubes, nas suas academias, facilitar e fomentar essa formação?
T.Pela minha experiência, é preciso primeiro que os desportistas queiram mesmo uma carreira escolar/académica. O problema de hoje em dia é o facilitismo. Todos querem alcançar o que quer que seja o mais facilmente possível. É preciso ir atrás, pois se não fosse difícil toda a gente conseguia. Se não fosse difícil jogar ao lado de Cristiano Ronaldo, toda a gente jogava. E depois sim, vêm as condições e a mentalidade de quem tem o poder de decisão, que têm de estar alinhadas com essa vontade.
. No seu site pessoal aborda uma causa que o move. Que causa é esta e de onde é originária? E como julga que pode intervir a este nível?
T.É uma causa, uma atitude que sempre esteve presente em toda a minha vida. Sempre tive uma preocupação com o que iria fazer na vida. Quando me tornei profissional comecei a perceber que o problema era e continua a ser mesmo real.
Neste momento tenho três objetivos com este projeto: – dar continuidade, com mais qualidade e informação a palestras educativas em clubes, universidades e instituições interessadas na temática; – conseguir quantificar o problema em Portugal, através da realização de diversos estudos; – e encontrar parceiros que possibilitem a criação e divulgação de testemunhos inspiradores nas diferentes modalidades.
Acredito que se as instituições não pegarem nisto a sério, esta ideia vai morrer. Vou intervir dentro das minhas possibilidades, dos meus recursos, até quando achar que sou útil para esta causa.
. Sente que há sensibilidade por parte dos seus colegas de profissão relativamente a estas questões?
T.Uma coisa é achar que eles são sensíveis à questão, outra coisa é se eles fazem algo para mudar. De um modo geral, se a resposta à primeira é sim, à segunda é não.
. A dado momento, na sua tese de mestrado, refere que “um dos grandes objetivos deste trabalho foi fornecer ao treinador dados quantificáveis e aplicáveis, identificando e caraterizando quais as relações mais estáveis que caraterizam o sucesso defensivo em situações de ‘passe entre linhas’ no futebol”. O Mestrado foi o primeiro passo no seu futuro pós-futebol? Equaciona a possibilidade de vir a ser treinador?
T.Sim, o mestrado foi o primeiro passo a pensar no futuro, outros já dei e continuo a dar. Ser treinador é uma grande possibilidade, no entanto não sei se algum dia vai acontecer ou quando. Tal como os jogadores, também os treinadores têm uma profissão em que são avaliados semanalmente. É uma carreira muito difícil, está sempre a ser posta à prova. Para quem tem essa vontade têm de se preparar o melhor possível, para quando a oportunidade aparecer.
. Que sonho ainda lhe falta cumprir, pessoal e futebolisticamente falando?
T.Tirando a seleção nacional, ganhar um título por um clube dito mais pequeno, como por exemplo o Rio Ave.
O Fair Play agradece a pronta disponibilidade do Tarantini para a realização da entrevista, desejando-lhe as maiores felicidades a nível profissional e pessoal.
(Todas as fotos inseridas no corpo do texto foram gentilmente disponibilizadas pelo Tarantini)
Não foi só mudar; foi mudar e inovar. O arranque de época sinuoso do Ajax obrigou o seu (novo) técnico a deambulações. Mais do que tácticas, as alterações situaram-se no xadrez das peças, com Bosz a fazer de proscritos peças renovadas, úteis e versáteis.
Não sendo unânime, a escolha de Peter Bosz para suceder a Frank de Boer no comando técnico do Ajax foi recebida com o devido entusiasmo. Visto como sendo próximo de Cruyff numa certa visão sobre o jogo, Bosz tinha (sobretudo) como trunfo a impactante campanha realizada com o Vitesse na primeira metade da época transacta, período durante o qual a equipa de Arnhem praticou um futebol vistoso, atraente e de evidente vocação ofensiva – quiçá o melhor conjunto esteticamente falando da 1ª volta em 2015/2016.
O arranque em Amesterdão não foi, de todo, fácil. Em pleno Agosto, e em onze dias, o Ajax sofreu duas derrotas e empatou em mais duas ocasiões, caindo, desde logo, na Liga dos Campeões, diante do Rostov (o empate em casa, num jogo em que o Ajax teve um caudal de jogo ofensivo tremendo condicionou a 2ª mão, onde o descalabro em terreno russo foi total). Mais, o empate em casa diante do Roda e a derrota também em plena Arena de Amesterdão às mãos do Willem II tiveram contornos de humilhação, que estamos a falar, respectivamente, do último e antepenúltimo classificados da Eredivisie neste momento.
Todavia, a conjuntura mudou. Mesmo sem deslumbrar em várias partidas (como na vitória frente ao Vitesse por 1-0 ou no triunfo por 2-0 diante do Heracles), o Ajax parece ter encontrado um determinado fio condutor … na instabilidade, procurando a normalidade aqui mesmo.
Vejamos. Comparando a equipa titular que enfrentou o Sparta de Roterdão na 1ª jornada (vitória por 3-1) com aquela que derrotou o Utrecht por 3-2 na última jornada, só encontramos três repetentes! E dois deles a jogar em posições adaptadas. Nem sequer está aqui em causa a janela de transferências ainda em pleno funcionamento no momento do arranque da Eredivisie, que Milik já havia saído para o Napoli – perda significativa, inquestionavelmente – e apenas Cillessen – péssimo arranque de época, com culpas diversas em vários golos sofridos – haveria de deixar Amesterdão (rumo a Barcelona).
Daley Sinkgraven (Foto: zimbio.com)
Bosz engendrou a mudança procurando tornar a equipa mais capaz de agredir ofensivamente, dotando-a de soluções de maior criatividade e levando-a a ser mais imprevisível no último terço do terreno. As alterações mais significativas aconteceram por via dos nomes de Sinkgraven e de Schone. Num duplo sentido: primeiro, porque nenhum deles fora considerado de forma relevante por De Boer na última temporada; e depois, porque foram introduzidos na equipa em posições e papeis que nunca haviam experimentado em momento anterior.
Sinkgraven é um médio criativo de 21 anos. Habituado a pisar os terrenos de um ‘8’, destaca-se pelo perfume do seu futebol, pelo toque de bola e pelo tom de criação e invenção que dá a cada movimento no jogo. Já havia sido testado também descaído sobre a faixa esquerda ofensiva do terreno, mas o novo técnico do Ajax quis mais – recuou-o, recuou-o, recuou-o, a ponto de o vermos agora estabelecido como o novo defesa lateral esquerdo do conjunto de Amesterdão. É ainda curto o espaço temporal decorrido para se perceber se tal opção dará frutos; o jovem holandês oferece grande qualidade do ponto de vista técnico à ala esquerda, para além de critério e repentismo, incorporando-se com sabedoria no momento ofensivo. Ademais, tem demonstrado capacidade em termos defensivos no duelo individual mas ao nível posicional as suas carências são óbvias e claras – um aspecto a que Bosz deve atender se vir em ‘Sink’ potencial para ser o defesa esquerdo da sua equipa.
Por sua vez, Schone é um jogador já feito. Aos 30 anos, o internacional dinamarquês passou a sua carreira a deambular entre a posição ‘10’ e a ala direita. Bosz, no entanto, tinha outros planos para ele – o trintão tem ocupado a posição de elemento mais recuado do trio de meio-campo e tem-se revelado uma agradável surpresa. Dotado de capacidade técnica e com qualidade de passe qb, é ainda um elemento muito compenetrado, e tem servido de elo de ligação ao jogo da equipa, com muita intervenção na fase de construção (a última partida perante o Utrecht foi um claro exemplo disso). Não se pode menorizar ainda o aspecto da idade – numa equipa tão jovem quanto o Ajax (a esmagadora maioria dos jogadores tem entre 19 e 24 anos), Schone traz consigo a experiência e a calma necessárias em muitos momentos. E acrescenta ainda no aspecto da bola parada ofensiva, não sendo, no entanto, de menorizar uma certa incapacidade para suster o ímpeto atacante do adversário pela falta de rotinas defensivas – algo que leva a que seja substituído em momentos em que as cautelas defensivas são redobradas.
A influência de Schone e de Sinkgraven no jogo colectivo do Ajax, diante do Utrecht (Imagem: 11tegen11)
Mantendo o 433 que é quase a pele do Ajax desde há longos anos, Bosz tem mexido sobretudo nas peças utilizadas, com largas alterações em relação à época transacta. Dijks, Riedewald, Gudelj e sobretudo Tete, Bazoer e El-Ghazi têm visto o seu espaço diminuído consideravelmente, também em função da chegada dos reforços Sánchez, Ziyech e Traoré e da afirmação do jovem Dolberg.
Depois de um inicio titubeante, o Ajax estabeleceu-se já na 2ª posição da Eredivisie e poderá afirmar-se como a verdadeira concorrência face ao super Feyenoord (8 vitória em 8 jogos). Para além disso, depois da queda para a Liga Europa, os Ajacieden venceram os dois primeiros jogos da fase de grupos, uma marca que não era atingida desde 1995/96! No mínimo, inspirador. Tal e qual como o carácter inventivo de Peter Bosz. A ver se os frutos colhidos serão os desejados …
O pontapé de sonho – e do sonho – de Éder tem uma dimensão que hoje, mais de um mês e meio depois, continua a ser impossível de descortinar. O clímax de uma trama que foi escrita da forma mais inaudita possível e realizada da forma mais improvável possível. Ter-se-á festejado pouco tamanha a grandeza daquele sucesso?
Dentro da lógica de que “é apenas futebol”, o Rio’2016 devolveu-nos à Terra, fazendo-nos entender que, desportivamente, Portugal é apenas uma potência no futebol e em duas ou três outras modalidades colectivas, como o hóquei em patins, o futsal ou o futebol de praia. Por muitas e diversificadas razões – e, muitas vezes, com os atletas a serem os menos culpados –, a nossa baliza de actuação limita-se a resultados medianos com um ou outro momento brilhante, aqui e ali, em Los Angeles ou Pequim.
O futebol é a excepção. O título europeu colou-se-nos na pele sem que sequer nos apercebêssemos. Os assomos de realidade tomam-nos quando, num qualquer tasco alfacinha, solicitamos um prego no pão e, desviando o olhar, percebemos o poster de vinte e três lusitanos a erguerem uma brilhante e torneada taça – somos nós?; ou quando um qualquer turista, numa tentativa inócua de ser mais amistoso, invoca o nome ‘Eder’ vislumbrando a possibilidade de nos retirar um sorriso – somos nós?; ou ainda quando pelas webs da vida nos deparamos com um qualquer artigo de um meio internacional que acaba com ‘Por qué ganaron la final? Porque la Euro se lo debía’ – somos nós? Somos nós!
2016 mudou o nosso eterno estatuto de ‘quase’ e transformou 23 nomes que tantas desconfianças levantavam (e levantaram) em reis do Olimpo. Voltaram a sentir essa condição ontem, no Porto, que acarinhados e empolados pelos nortenhos o foram; e depois quando o Presidente Marcelo lhes conferiu a Ordem de Mérito – e como a denominação faz realmente sentido! O jogo de hoje frente a Gibraltar marca o epílogo de uma comemoração que se prolongará sentimentalmente por muito tempo, enquanto a História etiquetará este 1 de Setembro de 2016 como “o primeiro jogo em casa de Portugal enquanto nação futebolística vitoriosa”. Enquanto Campeão da Europa, claro.
(Foto: CNN)
Catalisar o sucesso
Se a ressaca do triunfo em terras gaulesas se vai ‘curando’, cabe à Federação Portuguesa de Futebol (FPF) transformar o sucesso atingido num acontecimento menos improvável de voltar suceder no futuro. Em suma, criar condições para que a vitória lusa não tenha sido mais do que um mero acaso. Em termos federativos, é certo que o futebol português aparenta ter dado um passo em frente de forma consistente no pós-Madaíl/Scolari. Passou, por um lado, a olhar-se de outra forma para as categorias de base e para a aposta no jogador nacional e, por outro, a preocupação com as infraestruturas tem sido ponto central na actividade da FPF, como o comprova a edificação da Cidade do Futebol, junto ao Complexo Desportivo do Jamor.
Desta perspectiva, o futuro pode encarar-se com optimismo. De facto, e olhando apenas às performances de 2016, para além do título a nível sénior no Europeu de França, há que demonstrar regozijo pelo título alcançado pelos sub-17 no Europeu da categoria; pelas meias-finais atingidas no Europeu sub-19; e até pela presença nos quartos-de-final do Torneio Olímpico, com uma selecção repleta de imprevistos e dificuldades na sua composição. E podemos ainda recuar um ano, até ao Europeu Sub-21, em que Portugal saiu derrotado apenas na final, com um desaire diante da Suécia nas grandes penalidades. Na maioria dos casos – e valha esta ressalva –, para além dos resultados de sucesso, Portugal exibiu qualidade no seu processo futebolístico com variadíssimas demonstrações de um futebol atraente.
Ainda assim, há espaço para melhorar. Talvez o exemplo mais utópico mas, igualmente, mais sintomático do que deve ser o pensamento de uma estrutura federativa seja aquele que os germânicos adoptaram com tremendo sucesso nos últimos anos. E que passa pela definição clara de uma forma de jogar, transversal a todos os escalões e categorias, cimentando um processo que desembocará (desejavelmente) na integração das individualidades no escalão máximo da Mannschaft de forma perfeitamente natural e harmoniosa. E, aliada a esta visão, a concepção de um determinado perfil de jogador com certas valências e competências – muito mais centradas hoje no aspecto técnico e cognitivo do que no físico e condicional como em tempos idos. Um plano absolutamente abrangente, edificado de forma encadeada e executado sem desvios. Fazê-lo quando há uma base de recrutamento da dimensão da alemã será, no entanto, bastante mais fácil do que no contexto português. Mas seria interessante se a FPF pudesse encarar o título europeu como o catalisador de uma forma mais coerente e congruente de olhar para as diversas Selecções nacionais, da base ao topo.
Ainda que fora do enquadramento federativo, a conquista do Europeu de 2016 deveria servir como a melhor alavancagem possível para a promoção, dinamização e organização da própria Liga. Olhando aos 23 que estiveram em França, 20 deles já passaram pela (hoje) Liga NOS. Haverá melhor publicidade do que essa?
Em suma, sendo da competência de uma ou de outra entidade – ou, melhor ainda, em cooperação –, seria relevante:
(E)Levar o nome da Liga NOS mais longe, com a marca que hoje representa, através de contratos de patrocínio e parcerias, tornando-a tanto quanto possível num produto apelativamente mais próximo das Big5 (e quão importante seria a possibilidade da eterna questão da negociação dos direitos televisivos centralizar-se e ser da competência da Liga);
Apostar no jogador português, zelando pelo seu acompanhamento nos escalões mais jovens e evitando (ou restringindo) a proliferação de atletas estrangeiros que invadem mesmo as camadas jovens dos maiores (e mais preparados) clubes;
Tornar a actuação das instâncias disciplinares da FPF mais célere, transparente e sensata (a nomeação de José Manuel Meirim para Presidente do CD alimenta essa expectativa neste âmbito);
Agilizar a justiça desportiva, sendo que a criação do Tribunal Arbitral do Desporto cria a ilusão de maior celeridade e especialização na tramitação de determinados processos.
(Foto: indianexpress.com)
That feeling …
Certamente que qualquer um dos pontos mencionados anteriormente (e tantos outros sobre que valeria a pena reflectir…) acabou por ter, de forma directa, uma quota mínima de importância na vitória em território francês. Mas quão mais candidatos a cada competição e a cada torneio nos poderíamos tornar com um maior nível de organização e estruturação do nosso futebol?
Importa no presente, olhando ao espelho da Taça Henri Delaunay, criar bases para que um sucesso retumbante como este (que ainda vivemos) tenha reais e fundadas expectativas de ser repetido. Por ora, é normal que a embriaguez não tenha ainda passado, que o orgulho se mantenha no pico máximo e que o Estádio do Bessa se engalane para receber uma Selecção Portuguesa com um ressoante equipamento vermelho hoje mais completo: com o logo de Rei da Europa na camisola.
Talvez quando outros repetirem este nosso sucesso seja possível – como diria Pessoa – intelectualizar a emoção. Hoje, ser campeão europeu é nem sequer perceber que se é campeão europeu.
Percorrendo a grande Europa do futebol, vislumbra-se a bola com a marca 2016/2017 começando a rolar. Generalizando, nas grandes Ligas, os favoritos à glória sempre se repetem. Todavia, de quem se pode esperar o melhor perfume futebolístico? De quem aguardar que encante (com ideias novas e diferentes) mesmo que possa acabar sem vencer?
Sevilha
Dois vencedores uniram-se na capital da Andaluzia. Por um lado, o próprio clube que vem de 3 vitórias consecutivas na Liga Europa (mas de um banal 7º lugar na Liga Espanhola em 2015/2016); por outro, o romântico Sampaoli, argentino de nascença mas herói no Chile, selecção por quem venceu a Copa América, tornando-a numa das mais respeitadas nações futebolísticas a nível mundial. A mescla destes dois mundos faz brotar água na boca, com o Sevilha a mostrar princípios entusiasmantes desde já, mesmo que as derrotas na Supertaça Europeia (frente a Real Madrid) e Espanhola (diante de Barcelona) tenham deixado marca.
Mas não abalaram uma identidade que ‘Sampa’ pretende instituir desde o 1º dia. A mutabilidade do sistema táctico é uma evidência – ainda mais compreensível pela fase da época que vivemos e pela busca das soluções mais adequadas – mas o propósito da equipa sevilhista é indesmentível. Passa por ter o máximo de tempo de bola possível, sabendo fazer ‘campo grande’ (capacidade para dar largura mas sem deixar de ter apoios frontais e curtos), e, nos momentos sem bola, pauta-se por um pressing a campo inteiro, tentando asfixiar o adversário. A ávida vontade de ter bola passa por uma reacção à perda musculada e por uma constante pressão em relação ao adversário. A louca careca de Sampaoli promete um futebol frenético, entusiasmante e próprio de quem quer ser protagonista.
Contra o Barcelona …… ou diante do Granada, o pressing alto é uma das características do novo Sevilha de SampaoliJorge Sampaoli (Foto: en.as.com)
Napoli
A afinada orquestra de Sarri surpreendeu a Itália e a Europa em 2015/2016. A conquista do Scudetto não se efectivou, que a qualidade individual da Juventus superou a superior valia colectiva da turma comandada por este ex-bancário, figura sui generis do Calcio. Sem Higuain para o novo exercício – perdido, lá está, para a Juventus -, nem por isso deixará de se ver um Napoli com uma identidade bem vincada (tal como Sarri já tinha instituído no Empoli) e assente numa estrutura táctica próxima do 433.
As marcas distintivas desta renascido Napoli passam, sobretudo, pela organização defensiva, com uma última linha bastante subida no terreno e actuando de forma perfeitamente coordenada e harmónica, encurtando espaços e percebendo os timings para o exacto controlo da profundidade – como se todos estivessem ligados por um e mesmo fio condutor. Do ponto de vista ofensivo, a quantidade de apoios e linhas de passe (muitas delas frontais) e a forma como procura jogar de forma apoiada e segura, em combinações curtas, tornam o futebol do Napoli extremamente atractivo e enleante, com soluções várias para fugir à pressão do adversário. Se os princípios colectivos já encantaram – e não obstante a tremenda perda que foi a saída de Pipita Higuain -, as contratações Milik (Ajax), Zielinski (Empoli) e Giaccherini (Sunderland) prometem elevar a qualidade individual para a nova época da equipa que mora no coração de Maradona.
A coordenação da linha defensiva e o controlo da profundidade são traços evidentes no Napoli de SarriVariabilidade de linhas de passe com diversos apoios frontais
Maurizio Sarri (Foto: espnfc.com)
Fiorentina
Não deixa de ser curioso perceber que o Calcio merece honras de destaque num espaço de bom futebol. Para isso contribui também a Fiorentina, do português Paulo Sousa. O emblema viola começou 2015/2016 a grande nível, encantando e chegando mesmo a ocupar o topo da classificação durante alguns momentos. A queda acabou por surgir quando os índices de finalização decaíram (Kalinic teve uma relevante queda no seu rendimento) e a capacidade de surpreender os adversários (também por insuficiências do plantel) diminuiu.
Todavia, o perfume de um interessante futebol perdura ainda em Florença. As melhores fases da Fiorentina aconteceram quando o português enveredou por um original 3421, ainda que as incursões pelo 433 (ou 4231) tenham sido assíduas (e muitas vezes opção em termos de organização defensiva). O conjunto de Sousa valeu sobretudo pelo futebol ofensivo que se dispôs a praticar, com um controlo sobre a bola e sobre o jogo constantes, num futebol ligado e largo (contributo fundamental dos laterais/alas) e com sapiência para enveredar por rápidas desmultiplicações ofensivas quando o jogo assim exigia. Do ponto de vista defensivo, não sendo uma equipa perfeita em organização, procura condicionar o jogo do seu adversário, tentando assíduas superioridades numéricas e rápidos reposicionamentos defensivos (melhor na transição do que em organização). A ausência da perda de elementos-chave é uma boa noticia para Sousa, que, à excepção de Astori (Cagliari) e Carlos Sánchez (Aston Villa), optou por uma politica de recrutamento de jovens valores (Dragowski, Hagi, Diks ou Toledo). A Fiorentina continuará a ser, por certo, um baluarte do bem jogar, mas pode, até, fazer mais e melhor do que na temporada passada.
O 3421 perfeitamente definidoA largura oferecida pelos laterais/alas é um aspecto fundamental no modelo de jogo da Fiorentina de Paulo SousaA mutabilidade táctica da Fiorentina (Fonte: Outside of the Boot)
Paulo Sousa (Foto: gazettaworld.com)
Manchester City
O nome mais óbvio da lista. Aquele que poderá provocar uma revolução no staus quo da Premier League. Pep Guardiola iniciou uma nova era em Barcelona e inovou em Munique, (quase) sempre acompanhado de títulos. Em Manchester – com muito dinheiro envolvido, é certo -, já começa a mostrar ao que vai, sendo expectável que o City suba tremendamente o nível no que à qualidade colectiva diz respeito.
Pelo que já se viu, Guardiola parece disposto a introduzir um 433 – muito mutável, aproximando-se até de um 4141 – em Manchester. Os princípios basilares, porém, manter-se-ão: uma propensão ofensiva constante, com a preocupação de criação de constantes linhas e apoios; colocação de unidades entre linhas e por dentro, procurando cobrir todos os espaços do terreno com possibilidades para jogar; e bloco coeso, subido, com sectores próximos, procurando recuperar tão rápido quanto possível o esférico. Para além disso, as pequenas idiossincrasias de Pep começam a ganhar aplicabilidade: o inicio da construção com 3 homens, com o recuo do #6; mais à frente é comum verificar-se os laterais em terrenos interiores, com os extremos completamente abertos (relação lateral-extremo, com um dentro e outro fora); e a adaptação de jogadores, como é o caso de Kolarov que arrancou a época a jogar no eixo da defesa. Pela inovação, pela promessa de qualidade colectiva e pela superior valia das individualidades (Nolito, Gundogan e Stones são reforços, para além dos promissores Sané, Gabriel Jesus e Zinchenko), este City levanta todas as expectativas.
No City de Guardiola, muitas vezes os laterais (Zabaleta e Kolarov neste caso) ocupam espaços interioresSaída a 3, com os laterais novamente colocados por dentro (aqui Sagna e Clichy). Kolarov actua no eixo central defensivo.
Sem a Laranja no Euro’2016, este foi um longo Verão na Holanda. Que termina hoje. 18 equipas voltam à acção para mais uma edição de uma competição que é jogada desde 1888. Com um campeão à prova de bala, com um Ajax em reconstrução e com um Feyenoord à procura de quebrar um prolongado jejum; mas com mais, muito mais, num campeonato que se revela a cada ano um viveiro de novos talentos. Uma por uma, todas as equipas ao detalhe, com as estrelas e as pérolas a seguir. Eis a Eredivisie 2016/2017.
PSV
2015/2016: Campeão
Estrela: Luuk de Jong
A seguir: Gastón Pereiro
Treinador: Phillip Cocu
Estádio: Philips Stadion (35 600 lugares)
Títulos: 23
O PSV arrancou 2016/2017 tal como havia terminado 2015/2016: a vencer. O triunfo na Supertaça diante do Feyenoord (1-0) ajudou a confirmar que os homens de Cocu partem na linha da frente para o ataque ao título. O cenário catastrofista que apontava para a saída de vários elementos preponderantes apenas teve concretização nos casos de Jeffrey Bruma (Wolfsburg) e de Van Ginkel (regressado ao Chelsea depois do empréstimo). Em sentido contrário, Daniel Schwaab chegou a custo zero proveniente do Estugarda e o talentoso Hidde Jurjus (De Graafschap) perfila-se como a alternativa a Zoet na baliza. Mantendo praticamente incólume a base da equipa, Cocu deverá continuar a apostar num 433 que, apesar de pouco espectacular, destaca-se pelo pragmatismo e eficácia. O PSV é, actualmente, uma equipa muito adulta, que não titubeia e que tem laivos de matreirice. Confirmar a hegemonia interna é o objectivo dos Boeren para 2016/2017, ao mesmo tempo que tentarão chegar mais longe do que os Oitavos-de-Final na Champions.
(Foto: Twitter Hector Moreno)
Ajax
2015/2016: 2º lugar
Estrela: Davy Klaassen
A seguir: Riechedly Bazoer
Treinador: Peter Bosz
Estádio: Amsterdam ArenA (53 502 lugares)
Títulos: 33
O reinado de Frank de Boer terminou. Depois de levar o Ajax a um tetracampeonato, o técnico holandês saiu após perder dois títulos para o PSV, o último dos quais de forma quase dramática, tendo em conta que aconteceu na última jornada de 2015/2016. Para o seu lugar chegou Peter Bosz, responsável pelo fascinante futebol apresentado pelo Vitesse na 1ª metade de 2015/2016 (haveria depois de sair para Israel). A transição, porém, não tem sido suave – a pré-época contou com várias derrotas e exibições frouxas, e o Playoff da Champions foi ultrapassado a muito custo (triunfo sobre o PAOK por 3-2 no agregado). Há, pois, muitas incógnitas em Amesterdão, também devido à saída do influente Milik (Napoli) e de 2ªs linhas relevantes como Fischer (Middlesbrough), Van der Hoorn (Swansea) ou Van Rhijn (Club Brugge). À excepção de Heiko Westermann (Betis), o Ajax reforçou-se sobretudo com jovens como Mateo Cassierra (Deportivo Cali) e Davinson Sánchez (Atlético Nacional), para além de ter promovido à equipa A o promissor Kasper Dolberg – ou seja, tudo apostas a médio-longo prazo, que não garantem a competitividade necessária no imediato. Peter Bosz terá de dar tão rápido quanto possível uma nova identidade à equipa ajacied, esperando ainda por possíveis reforços que venham trazer profundidade e outra qualidade ao elenco de uma turma muito jovem mas que tem, ainda assim, como objectivo o resgate do título.
(Foto: Facebook Ajax)
Feyenoord
2015/2016: 3º lugar
Estrela: Dirk Kuyt
A seguir: Tonny Vilhena
Treinador: Giovanni van Bronckhorst
Estádio: De Kuip (51 177 lugares)
Títulos: 14
1999 já lá vai há muito tempo. Mas é exactamente desde essa altura que o Feyenoord não saboreia o doce momento de erguer a Eredivisie. São já 17 anos num ciclo que, em 2015/2016, pareceu próximo de ter o seu fim; todavia, os homens de Roterdão soçobraram de forma gritante no inicio da 2ª volta, apenas conseguindo recuperar até ao último lugar do pódio. Para a nova temporada o Feyenoord corre mais uma vez por fora. Tem, no entanto, a vantagem de não ter sofrido nenhuma baixa significativa, tendo ainda o mérito de ter conseguido recrutar nomes interessantes como Brad Jones (NEC), Nicolai Jörgensen (Copenhaga) e o internacional holandês Steven Berghuis (empréstimo por parte do Watford). Falta, no entanto, uma certa star quality, um elemento diferenciador que permita aos donos da Banheira de Roterdão dar um passo em frente para se assumirem como reais candidatos. A época começou com um desaire na Supertaça às mãos do PSV, onde foi mais uma vez notória a predilecção por jogar pelos flancos (Elia será muito importante), com Kuyt a assumir-se como o elo de ligação entre o meio-campo e o ataque, numa estrutura de 4231 de que Giovanni van Bronckhorst não deverá abdicar.
(Foto: Facebook Feyenoord)
AZ Alkmaar
2015/2016: 4º lugar
Estrela: Ron Vlaar / Markus Henriksen
A seguir: Joris van Overeem
Treinador: John van den Brom
Estádio: AFAS Stadion (17 023 lugares)
Títulos: 2
Que AZ Alkmaar teremos em 2016/2017? O que terminou a 1ª metade de 2015/2016 em 10º lugar ou o que fez uma tremenda 2ª volta a ponto de chegar ao 3º lugar e de ter feito 47 golos em 17 jogos? Boa questão! Os problemas defensivos – principal responsável pelo descalabro no 1º semestre de 2015/2016 – desapareceram em Janeiro com a chegada de Vlaar e, tendo em conta a contração de Rens van Eijden (NEC), deverão manter-se ao largo de Alkmaar. Todavia, Haye (Willem II), Ortiz (Monterrey) e, principalmente!, Janssen (Tottenham) deixaram o clube, ficando o AZ com um problema para resolver na zona do #9. Friday (Lillestrom) e Weghorst (Heracles) representam um investimento de 3M€ para tentar debelar este problema, e um deles tenderá a assumir a posição mais adiantada num esquema que deverá alternar entre o 433 e o 4231. Até ver, a época do AZ arrancou da melhor forma, tendo ultrapassado o PAS Giannina na 3ª pré-eliminatória da Liga Europa.
(Foto: Facebook AZ Alkmaar)
Utrecht
2015/2016: 5º lugar
Estrela: Sébastien Haller
A seguir: Kristoffer Peterson
Treinador: Erick Ten Haag
Estádio: Stadion Galgenwaard (23 750 lugares)
Títulos: 1
Quase tudo o que havia a ser dito em relação ao Utrecht já aqui o foi. 2015/2016 acabou por ser uma época algo inglória para os comandados de Ten Haag, na medida em que a Taça da Holanda e o apuramento para a Liga Europa lhe fugiram no último momento. O desafio para a nova época passa por confirmar as boas indicações deixadas na última Eredivisie, tentando, desta feita, ter mais sucesso na etapa final. Não será fácil, todavia: o Utrecht tem sido um alvo preferencial do mercado, sendo que nos últimos dias Timo Letschert (pilar defensivo) acertou a sua ida para o Sassuolo. Já antes disso, Bednarek (De Graafschap), Kum (Roda JC) e Boymans (Al-Shabab) haviam deixado o clube, ainda que, em abono da verdade, tenham sido sempre 2ªs escolhas para Ten Haag. Até final de Agosto o desafio passa por tentar sobreviver, segurando as restantes pérolas, como Strieder, Ramselaar e, principalmente, Haller. Caso contrário, e mesmo que Peterson tenha regressado depois do empréstimo ao Roda JC e Joosten possa confirmar todo o potencial que demonstra, os Utregs terão mesmo de lutar para se regenerar. Até ver, David Jensen (Nordsjaelland) é a única entrada confirmada.
(Foto: Facebook Utrecht)
Heracles Almelo
2015/2016: 6º lugar
Estrela: Iliass Bel Hassani
A seguir: Vincent Vermeij / Brandley Kuwas
Treinador: John Stegeman
Estádio: Polman Stadion (12 400 lugares)
Títulos: 2
O bonito sonho vivido em 2015/2016 terá continuidade? Cabe aos pupilos de John Stegeman responder. A verdade é que o Heracles fez muito mais do que o que lhe era exigido e já neste inicio de nova época, pese embora o afastamento da Liga Europa às mãos do Arouca, deixou indicações muito interessantes. Algo que não será mais do que consequência da manutenção da estrutura-base, em que se destaca apenas a saída da máquina de golos Wout Weghorst para o AZ Alkmaar. Mas os homens de Almelo não dormiram: entre Excelsior (Kuwas e Van Mieghem) e De Graafschap (Propper e Vermeij), o Heracles recrutou 4 elementos com critério e que lhe poderão trazer maior profundidade e qualidade ao elenco já de si muito homogéneo. O 433 será para manter, com Bel-Hassani como patrão do meio-campo e da equipa, e com extremos muito ágeis e imprevisíveis, a procurar assiduamente as diagonais nas costas das linhas defensivas contrárias. Será difícil ao Heracles repetir a performance da época passada – andou durante imenso no top4 – mas, pelo menos em termos teóricos, tudo está a fazer para que o conto de fadas tenha novos episódios.
(Foto: Facebook Heracles)
Groningen
2015/2016: 7º lugar
Estrela: Albert Rusnák
A seguir: Juninho Bacuna
Treinador: Ernest Faber
Estádio: Euroborg (22 500 lugares)
2015/2016 foi um ano de grande instabilidade para os moradores do Euroborg. A equipa sofreu muito na 1ª metade fruto da presença na Liga Europa, com altos e baixos contantes e com o técnico de então, Van de Looi (hoje no Willem II), a anunciar, ainda em Janeiro, a sua saída no final da temporada. Curiosamente, o cenário melhorou a partir daí e o Groningen ainda foi a tempo de chegar ao 7º lugar. Hoje sob o comando de Ernest Faber (ex-NEC) e sem figuras relevantes e com peso no balneário como Rasmus Lindgren (Hacken) e Michael de Leeuw (Chicago), os verdes e brancos mantêm um poder ofensivo assinalável (Rusnák, Drost, Idrissi, Bacuna ou Sorloth) a que acrescentaram o interessante Van Weert (Excelsior) e um jovem avançado italiano proveniente da Juventus de seu nome Nicolò Pozzebon, para além do internacional norueguês Ruben Jenssen (Kaiserlauten). Com um elenco com potencial, resta perceber se Faber replicará o 4231 com que fez o NEC atingir plenamente os seus objectivos; em Groningen, porém, a fasquia a atingir chama-se Liga Europa.
(Foto: Facebook Groningen)
PEC Zwolle
2015/2016: 8º lugar
Estrela: Ryan Thomas
A seguir: Hachim Mastour
Treinador: Ron Jans
Estádio: MAC³PARK Stadion (12 500 lugares)
O período dourado iniciado em 2013 parece não ter fim. De lá para cá, o PEC venceu uma Taça, uma Supertaça, atingiu um 6º lugar em 2014/2015 e, no último exercício, quedou-se pelo 8º posto. É, assim, uma das equipas com um crescimento mais interessante no contexto holandês. Um dos obreiros de tal feito é Ron Jaans, o técnico que parte para esta nova época com renovadas ilusões de repetir as últimas campanhas. As saídas de Van Hintum (Gaziantepspor), Lam (Nottingham Forest), Bouy (retornado à Juventus) e Veldwijk (regressado ao Nottingham Forest) podem preocupar mas a turma de Zwolle conseguiu recrutar os interessantes Verdonk (Feyenoord), Mastour (AC Milan) e manter Menig (Ajax) – todos por empréstimo –, sabendo ainda que tem o promissor Ryan Thomas finalmente recuperado de uma complicada lesão. Jaans irá por certo manter o 4231, esperando-se que Achahbar (ex-Feyenoord) possa assumir como #9. Se o plano A não resultar, Jaans pode sempre experimentar o B, com Stef Nijland como arma secreta, alargando a frente ofensiva e aproximando a equipa de um 442 (ou, em alguns momentos, 424).
(Foto: Facebook PEC Zwolle)
Vitesse
2015/2016: 9º lugar
Estrela: Valeri Qazaishvili
A seguir: Milot Rashica
Treinador: Henk Fraser
Estádio: Gelredome (25 500 lugares)
A 9º posição na última época teve um sabor demasiado amargo para o Vitesse. Uma das equipas que melhor qualidade no seu futebol apresentou e que, durante largo tempo, andou próximo do topo da tabela acabou por não resistir à saída do técnico Peter Bosz, em Janeiro, e Rob Maas jamais conseguiu agarrar a equipa. Para a nova temporada, Henk Fraser (vindo do ADO Den Haag) é o homem escolhido e terá como objectivo voltar a colocar o Vitesse na rota europeia. As manutenções de Room, Kashia, Nakamba, Qazaishvili e Rashica são boas notícias, às quais se juntam a chegada de Foor (NEC) e de Van Wolfswinkel (Norwich). O avançado ex-Sporting, de 27 anos, tem, em Arnhem, a oportunidade de relançar a sua carreira, cabendo-lhe substituir Solanke, que, tal como Brown, regressou ao Chelsea. Os Blues, porém, voltaram a ceder Baker e Nathan, que terão de mostrar mais nesta nova temporada. O VItesse apresenta um plantel equilibrado e que dá garantias, pese embora as saídas importantes de Diks (Fiorentina), Ibarra (América) e Oliynyk (sem clube). Resta saber se Fraser repristinará o perfume futebolístico da 1ª volta de 2015/2016 ou se apostará num estilo mais pragmático (como era o futebol do seu ADO Den Haag).
(Foto: Facebook Vitesse)
NEC Nijmegen
2015/2016: 10º lugar
Estrela: Gregor Breinburg
A seguir: Dario Dumic
Treinador: Peter Hyballa
Estádio: Goffertstadion (12 500 lugares)
Em 2015/2016, a fantástica performance da 1ª volta não encontrou espelho na 2ª metade e o NEC acabou por quedar-se pelo meio da tabela, fora da zona europeia. Todavia, isso não apaga, por um lado, a grande força apresentada a jogar em casa (4ª equipa com melhor pontuação neste capítulo) e, por outro, o interesse em muitas das suas individualidades. Resultado? Debandada. Saiu o treinador Ernest Faber (Groningen), bem como Jones (Feyenoord), Kane (de regresso ao Chelsea), Foor (Vitesse), Santos (Alavés) e Limbombe (Club Brugge). Sobram, pois, muitas dúvidas, desde logo em relação ao novo líder – Peter Hyballa é um alemão que já passou pelos escalões de formação de Borussia Dortmund, Wolfsburg e Bayer Leverkusen. Mas com tantas saídas relevantes a sua tarefa avizinha-se muito complicada – como, aliás, o testemunha a pré-época com vários resultados pesados frente a Hannover 96, Zulte Waregem e até Achilles ’29. Se na transacta temporada o NEC foi uma surpresa (pelo menos a tempo parcial), por ora é apenas uma incógnita. Por certo toma-se, porém, que o português Janio Bikel continue a ser peça preponderante no meio-campo dos de Nijmegen.
(Foto: Facebook NEC)
ADO Den Haag
2015/2016: 11º lugar
Estrela: Mike Havenaar
A seguir: Danny Bakker / Dennis van der Heijden
Treinador: Zeljko Petrovic
Estádio: Kyocera Stadion (15 000 lugares)
Títulos: 2
A tranquilidade de 2015/2016 poderá dar lugar ao sobressalto em 2016/2017? É a dúvida-desafio que o ADO Den Haag enfrenta. Perdeu o seu timoneiro – o bom trabalho de Henk Fraser redundou em convite do Vitesse – e para o seu lugar recrutou Zeljko Petrovic, um sérvio que já fora adjunto no Feyenoord, Sunderland, West Ham, Hamburgo e na própria selecção sérvia. Ah, e que teve uma breve passagem por Portugal, em 2006/07, onde orientou o Boavista durante 7 jogos. Em Haia há também hesitações em relação à defesa depois das saídas do keeper Hansen (Ingolstadt) e dos defesas Wormgoor (Aalesunds FK) e Zuiverloon (ainda sem clube), sendo que na frente o trio Duplan-Havennar-Schaken permanece intacto e é garante de bastantes golos. Crentes de que a concretização ofensiva possa suplantar alguma da instabilidade no sector recuado (por via das inúmeras mexidas), os pupilos do mecenas Hui Wang (investidor chinês que recuperou o clube) procurarão garantir ao ADO mais uma época inconvulsa na Eredivisie.
(Foto: Facebook ADO Den Haag)
Heerenveen
2015/2016: 12º lugar
Estrela: Sam Larsson
A seguir: Jerry St. Juste
Treinador: Jurgen Streppel
Estádio: Abe Lenstra Stadion (26 100 lugares)
A temporada transacta foi de decepção para o Heerenveen – se é verdade que nunca se deixou cair em posição intranquila, também nunca foi capaz de se imiscuir na luta pela Europa. O carismático Foppe de Haan deu lugar a Jurgen Streppel (Willem II) no comando técnico da equipa e o conjunto que actua no Abe Lenstra Stadion parte com expectativas interessantes para 2016/2017. Primeiro, porque, à excepção do capitão Joey van den Berg (Reading), não perdeu nenhum elemento-chave; depois, porque Schaars (PSV) e o iraniano Reza Ghoochannejhad (emprestado pelo Charlton) têm tudo para acrescentar qualidade à equipa, sendo potenciais titulares. Juntando estes a nomes como Mulder, St. Juste, Cavlan, Thern, Larsson e Zeneli, o Heerenveen apresenta condições para construir uma equipa competitiva e que abra possibilidades para entrar na corrida europeia.
(Foto: Facebook Heerenveen)
Twente
2015/2016: 13º lugar
Estrela: Hakim Ziyech / Kamohelo Mokotjo
A seguir: Enes Ünal
Treinador: René Hanke
Estádio: De Grolsch Veste (30 205 lugares)
Títulos: 1
Não é que a vida corra bem ao Twente mas só o facto de poder arrancar 2016/2017 na Eredivisie já é, por si só, uma grande vitória. Aos problemas financeiros acresceram-se os problemas directivos e o clube de Enschede esteve na corda-bamba para perder a autorização para competir no escalão máximo do futebol holandês; à ultima da hora, porém, a decisão da KNVB foi revertida e … eis o Twente na Eredivisie! Mas agora sem Bruno Uvini (regressou a Nápoles), Felipe Gutierrez (Bétis) e Jerson Cabral (Bastia). Todavia, em Enschede permanece uma pérola escondida – por quanto tempo? Hakim Ziyech continua a ser alvo dos mais insistentes rumores mas (ainda) não saiu e, caso realmente fique, será em tono dele que a equipa será (re)construída. Jovens valores como Andersen, Ter Avest, Mokotjo, Oosterwijk e Ünal (promissor avançado turco emprestado pelo Manchester City) tentarão dar o mínimo de garantias a René Hanke para este segurar os cavalos vermelhos na Eredivisie.
(Foto: Facebook Twente)
Roda JC
2015/2016: 14º lugar
Estrela: Tom van Hyfte
A seguir: Abdul Ajagun
Treinador: Giannis Anastasiou
Estádio: Parkstad Limburg Stadion (19 979 lugares)
Títulos: 1
Eis mais uma revolução! Em Janeiro último as instalações do Parkstad Limburg Stadion viveram um corrupio com entradas e saídas em catadupa; pouco mais de meio ano depois, o Roda volta a revirar a casa. A saída de Kalezic já era pública e para o seu lugar chegou o ex-treinador do Panathinaikos: o grego Giannis Anastasiou. Muitos dos protagonistas da campanha (desequilibrada) de 2015/2016 também viram o seu futuro deixar de se pintar de amarelo mas resta saber se Inceman, Faik, Juric, Poepon ou Van Duinen terão substitutos de valia. Aparentemente, Kum (Utrecht), Auassar (Excelsior) e Bouwers (Borussia Monchegladbach) são adições satisfatórias, sendo que este último regressa ao Roda para fechar a carreira onze anos depois de ter partido rumo à Alemanha. Resta saber se Anastasiou terá o condão para, ao mesmo tempo que dá o seu cunho à equipa, perceber que os primeiros tempos poderão não ser suaves. O Roda é, bem assim, uma das verdadeiras incógnitas para esta edição da Eredivisie.
(Foto: rodajc.nl)
SBV Excelsior
2015:/2016: 15º lugar
Estrela: Ryan Koolwijk
A seguir: Terell Ondaan
Treinador: Mitchell van der Gaag
Estádio: Woudestein (4 500 lugares)
Depois da saída da comando técnico de Alfons Groenendijk, o nosso bem conhecido Mitchell van der Gaag assumiu o lugar e o desafio. Que não é menos do que hercúleo. Depois de dois 15ºs lugares consecutivos, o Excelsior alimenta a esperança de não ter de conviver de novo com a corda no pescoço. Todavia, a saída de várias peças fulcrais do plantel como Fischer (Go Ahead Eagles), Kuwas (Heracles) ou Van Weert (Groningen) parece longe de estar colmatada, sendo o Excelsior um dos conjuntos com mais indefinições e susceptível de maiores interrogações no arranque da nova temporada. Sobra um destaque: aquele que vai para um dos reforços do conjunto de Roterdão, de seu nome Fredy, extremo internacional angolano que já passou por Portugal, onde fez carreira no Belenenses.
(Foto: sbvexcelsior.nl)
Willem II Tilburg
2015:/2016: 16º lugar; Salvou-se no Playoff depois de ultrapassar Almere City e NAC Breda
Estrela: Erik Falkenburg
A seguir: Jari Schuurman
Treinador: Erwin van de Looi
Estádio: Koning Willem II Stadion (14 700 lugares)
Títulos: 3
Várias mudanças em Tilburg depois de uma época decepcionante. À cabeça, Jurgen Streppel deixou o clube rumo ao Heerenveen, assumindo-se Erwin van de Looi (Groningen) como novo treinador. Depois, os empréstimos de Hupperts e Andersen terminaram, sendo que também Ondaan e Nemec rumaram a outras paragens. Uma mudança considerável numa equipa que apresenta acrescentos interessantes, como são os casos dos jovens Lieftink (Vitesse), Haye (AZ), Fran Sol (Villarreal) e do também promissor Schuurman (emprestado pelo Feyenoord). É possível que chegue mais gente para a defesa assim como para dar largura ao ataque do Willem II (que se deverá dispor em 4231), ataque esse que contará com o internacional sub-19 português Asumah Ankra e com o nigeriano Bartholomew Ogbeche, quiçá o melhor reforço depois da lesão que o impediu de dar o seu contributo à equipa durante alguns meses.
(Foto: Facebook Willem II)
Sparta Rotterdam
2015:/2016: Vencedor da Jupiter League
Estrela: Thomas Verhaar
A seguir: Craig Goodwin e Zakaria El Azzouzi
Treinador: Alex Pastoor
Estádio: Het Kasteel (10 599 lugares)
Títulos: 6
Um dos históricos de Roterdão e do futebol holandês regressa em 2016/2017 à Eredivisie depois de, em 2015/2016, ter garantido de forma relativamente tranquila o título do 2º escalão. E as perspectivas não deixam ser interessantes: o Sparta não só não perdeu nenhum elemento vital da sua campanha na transacta temporada, como ainda acrescentou elementos com elevado potencial. Bart Vriends (Go Ahead Eagles), Craig Goodwin (apelidado de Bale australiano e proveniente do Adelaide United), Zakaria El Azzouzi (emprestado pelo Ajax) e David Mendes da Silva (antigo internacional holandês de origem cabo-verdiana) têm capacidade para acrescentar qualidade e profundidade ao plantel liderado por Pastoor. Se a capacidade de fogo de Thomas Verhaar se mantiver (24 golos e 17 assistências em 2015/2016) e os bons resultados da pré-temporada tiverem seguimento (empataram com o Groningen a 3, por exemplo), o Sparta pode ser uma das surpresas a despontar na Holanda.
(Foto: Facebook Sparta Rotterdam)
Go Ahead Eagles
2015/2016: 5º na Jupiter League; Garantiu a subida depois de ultrapassar Venlo e De Graafschap no playoff de promoção
Estrela: Leon de Kogel
A seguir: Sam Hendriks
Treinador: Hans de Koning
Estádio: De Adelaarshorst (10 400 lugares)
Títulos: 4
O clube com um dos nomes mais exóticos do panorama competitivo holandês está de regresso à Eredivisie. Hans de Koning pegou na equipa em Fevereiro de 2016 numa altura em que esta nem sequer sonhava com a possibilidade da subida de divisão; porém, o caminho foi sustentado e redundou em felicidade extrema. Mas os tempos agora não se avizinham fáceis … A saída do central e capitão Bart Vriends é uma baixa significativa, colmatada(?) pelo recrutamento de Sander Fischer (Excelsior). No meio-campo, um duo proveniente de Breda – Kevin Brands e Joey Suk – tentará dar a consistência necessária a esse sector, num conjunto que deverá actuar próximo de um 4231. A esperança da manutenção passará certamente e em grande dose pelo nº9 Leon de Kogel, ele que marcou 24 golos na última temporada com a colorida camisola das Águias.
Da instabilidade inicial à afirmação como um dos emblemas mais atraentes da Eredivisie 2015/2016, o Utrecht foi conduzido pela mão de Ten Haag, um holandês que bebeu em Munique. Com vários elementos assediados pelo mercado, qual a base de onde parte o Utrecht para encarar 2016/2017?
Quando em Março deste ano, nas vésperas de receber o Utrecht, Foppe de Haan, lendário técnico do Heerenveen (e que agora, aos 72 anos, deu por finalizada a sua carreira), apelidou o seu adversário de “mini Bayern de Munique” até poderia estar a exagerar. Como em outras partidas da anterior época, o Utrecht acabou mesmo por sair vencedor (0-4 foi o score final), sinalizando os 3 pontos com um futebol atractivo e tacticamente assente numa estrutura pouco vista na Eredivisie.
O óbvio elo de ligação ao clube da Baviera centra-se no nome de Erick Ten Hag. O actual técnico do Utrecht treinou, em 2013/2014 e 2014/2015, a equipa secundária do Bayern de Munique (onde conquistou o título regional da Baviera), tendo, por isso, tido a oportunidade de beber de Guardiola. Aos 46 anos, voltou à Holanda – do seu currículo já constavam passagens por PSV e Twente como treinador adjunto – para pegar no Utrecht e o balanço é bastante interessante.
Em 2015/2016, o arranque não foi auspicioso, é certo, e contou com algumas aventuras tácticas que não correram bem – o 532 inicial não soltava suficientemente o potencial da equipa e não foi bem-sucedido mesmo pensando em termos ‘resultadistas’. A mudança foi-se operando à medida que Rico Strieder consolidou a sua presença na equipa – o médio alemão veio com Ten Hag desde a Baviera e é um daqueles jogadores que guia a equipa de forma tão discreta quanto eficaz, dando e mostrando os caminhos certos para esta percorrer. Estabelecendo-se como #6, o Utrecht cresceu a partir daqui, ensaiando um 442 losango perfeitamente original na Liga holandesa.
Não se afirmando como uma equipa obcecada com a posse de bola, o Utrecht revelou-se um conjunto a procurar sair de forma apoiada, com várias soluções possíveis para o passe curto, privilegiando um futebol interligado. Porém, destacou-se ainda por ser um todo suficientemente descomplexado para abdicar de um estilo que, por certas insuficiências técnicas, lhe poderia ser contraproducente. E aqui emergiu Sébastien Haller: o avançado francês foi o jogador-alvo quando a equipa não conseguiu sair a jogar desde trás, optando, então, por esticar jogo. Aos 21 anos, alia uma dimensão física tremenda (187 cm e 82 kg) a uma vertente técnica que o transforma no plus da equipa, sabendo reter bola e aguardar pelos companheiros, servir através de jogo aéreo ou arrancar, ele mesmo, explosivo e com notável capacidade de drible (nos últimos 5 jogos, em 30 dribles tentados, saiu vitorioso em 22) – o que, tudo somado, já lhe valeu comparações com Thierry Henry. Não esquecendo os golos: 17 em 33 jogos.
Sébastien Haller em acção (Foto: voetbal.com)
O conjunto de Ten Hag foi, no entanto, mais do que Haller. O meio-campo apresentou-se muito compacto, procurando invariavelmente que os actores que habitavam nesse espaço estivessem bastante próximos. Para além de Strieder, o destaque vai para Bart Ramselaar: aos 19 anos, já foi chamado à Laranja, e tal convocatória apenas foi o corolário de uma época de grande nível. Um #8 que enche todos os recantos do campo, com uma qualidade técnica assombrosa e fiel ao estilo do ‘recebe-toca-e-procura’, sempre disposto a servir de linha de passe ao seu colega mais próximo. A verdadeira intensidade cerebral. Actuando mais pela direita, foi ainda fundamental nas coberturas aos laterais, tal como Ludwig do lado oposto. Muitas vezes, em processo defensivo, o Utrecht abdicou do seu 442 losango, organizando-se num 433 puro, com a dupla avançada (normalmente Haller e Barazite, outro interessante jogador) a fechar os corredores laterais dos adversários, e o elemento do espaço #10 (tendencialmente o capitão Janssen) fixando-se no miolo do terreno, sendo relevante a sua acção na procura do condicionamento do jogo do adversário.
Fazendo jus à tradição holandesa, o Utrecht não foi uma equipa exemplar do ponto de vista defensivo. A linha mais recuada não se mostrou imune à abertura de espaços entre as suas unidades, e houve alguma exposição ao erro até pela enraizada tendência de seguir mais o homem do que a bola. Não obstante, foi neste sector que despontou mais um elemento entretanto chamado à selecção holandesa. Com 22 anos, e participando na totalidade dos jogos da edição da Eredivisie, Timo Letschert emergiu como o esteio defensivo do Utrecht, evidenciando-se pela sua agressividade, capacidade de impulsão e arrojo, tendo ainda qualidade técnica suficiente para conduzir e arriscar no passe.
Se, numa perspectiva estética, o clube da cidade do rio Reno foi uma das mais agradáveis surpresas da edição 2015/16 da Eredivisie, tal acabou por ter também materialização na (dura) frieza dos números. O Utrecht logrou um 5º lugar final – a melhor classificação do século, igualando 2000/01 e 2012/13 –, o que lhe permitiu ainda buscar um lugar na Liga Europa por intermédio da Nacompetitie (playoff disputado entre os 5º, 6º, 7º e 8º classificados da Eredivisie). Todavia, acabou por soçobrar diante do Heracles – de forma algo surpreendente, até –, sentindo em demasia a ausência de Ramselaar e Letschert no embate decisivo. Por outro lado, marcou ainda presença na final da Taça da Holanda (perdida para o Feyenoord), depois de ter eliminado o campeão PSV em Eindhoven. No fundo, uma época protagonizada por uma equipa com a impressão digital de Ten Hag – ele que acabou por vencer o Prémio Rinus Michels, troféu que premeia o melhor treinador do contexto holandês em cada temporada.
Para a nova época, a expectativa passa por perceber se o Utrecht conseguirá manter a sua espinha dorsal – Letschert, Strieder, Ramselaar e Haller. Apesar de diversas movimentações e de incontáveis rumores, até ao momento Ten Haag não viu partir nenhuma destas peças essenciais. De relevante apenas as saídas de Christian Kum (lateral esquerdo utilizado sobretudo na 2ª metade da época) e de Ruud Boymans (ponta-de-lança autor de vários golos importantes mas sempre encarado como 2ª opção). Pelo contrário, a porta do Stadion Galgenwaard apenas se viu abrir para o retorno de Kristoffer Peterson, jovem extremo sueco que evoluiu positivamente no Roda JC na 2ª metade de 2015/2016.
Se, até ao final da janela de transferências, não for desmembrado na sua corporização, conseguindo ainda acrescentar alguma harmonia defensiva à performance da última época, então o Utrecht tem, definitivamente, tudo para ser uma das mais belas ideias a seguir na próxima Eredivisie.
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