23 Out, 2017

Arquivo de Wales - Fair Play

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Francisco IsaacMarço 12, 201713min0

A uma jornada do final das Seis Nações, a selecção da Rosa já confirmou o bicampeonato com uma vitória “magistral” ante a Escócia, enquanto que o País de Gales recuperou “parte” da sua Honra e os Les Bleus realizaram uma exibição “curiosa” em Roma. 4 pontos sobre a 4ª jornada das Seis Nações

A última palavra antes do ponto final foi dada nesta 4ª jornada…e essa palavra é “Inglaterra”. Domínio claro, uma equipa que se ultrapassa a cada jogo e um seleccionador que reina supremo na Europa.

A Irlanda “pregou” a surpresa da ronda, com uma derrota por 22-09 frente ao País de Gales que estava de modos que “apagado” nestas Seis Nações. Um jogo impulsivo, dinâmico e que valerá a pena rever.

Itália fica com a “colher de pau” (prémio relativo à equipa que só soma derrotas na competição) com mais um jogo perdido, desta vez ante a França de Novés que parece estar a trabalhar na direcção correcta… mas que futuro?

O JOGADOR: JOSEPH VINDICATED WITH A BULLDOZING EXHIBITION

Se há jogadores que foram contestados pela imprensa e adeptos ingleses, foram Dylan Hartley (capitão), George Ford (abertura) e Jonathan Jospeh (centro do Bath).

Este último não foi a opção mais discutida, mas não deixaram-se de levantar dúvidas sobre a qualidade do centro, falando-se que Elliot Daly poderia ter ficado no lugar do jogador do Bath.

Ora, chegamos à 4ª jornada das Seis Nações, num jogo altamente decisivo para a “escolha” do Campeão da competição e Joseph acaba o encontro como o MVP para o painel de juízes da RBS.

Como? Em números “rápidos” foi isto que se traduziu a exibição de Jonathan Joseph: três ensaios, uma assistência, 150 metros “galgados” e ainda cinco placagens, uma delas determinante para evitar uma “saída” de ataque rápido que iria dar ensaio para os scots.

Em “texto corrido”, podemos explicar que Joseph foi o jogador que mais quis ganhar o jogo.

As jogadas que resultam no seu ensaio (ou que dão para assistência) parecem quase cópias, com uma boa movimentação, onde há um falso entre o 9 e 10, recebendo Ford (Farrell também assumiu esta responsabilidade por uma vez) a oval para depois existir um passe curto/média para a entrada do centro inglês… imparável, quando embalado.

A Escócia tem “largas culpas” em não ter conseguido ler o pormenor e a jogada, já que podiam ter “fechado” o espaço que Joseph explorou com veemência.

Porém, há que dizer que numa delas ainda houve um “esboço” de uma tentativa de parar Joseph, só que saiu falhada.

Isto porque o centro executou com perfeição os básicos de receber a bola, meter o pé para dentro (simulando ou não uma finta) e explodir naquele último terço do terreno.

No 3º ensaio da Inglaterra foi “bonito” a forma como o centro entra, se apercebe da oposição que tinha até à área de validação.

Não havia outra forma de contornar senão bater o pé, obrigar três defesas a deslizarem e quase a irem na sua direcção e depois transmitir a bola a Anthony Watson (regresso à selecção neste jogo) para o ensaio.

Joseph foi sublime na execução do plano de jogo, entregando-se por completo à equipa e à sua nação, com uma exibição que ficará sempre como aquela que ajudou garantir mais um título para a Inglaterra.

Merecerá ser o nº13 dos British&Irish Lions?

O JOGO: METER EM LOOP O PAÍS DE GALES-IRLANDA ATÉ…PARA SEMPRE?

Jogo esgotante em Cardiff entre o País de Gales e a Irlanda. Um encontro sempre “brutal” em intensidade, em entrega e sacrifício, especialmente para os Dragões Vermelhos.

A selecção galesa não teve umas Seis Nações ao seu gosto, apesar de exibições bem conseguidas em certos períodos de jogo… infelizmente, claudicou sempre na 2ª parte seja contra a Inglaterra ou Escócia.

Por isso, Rob Howley não teria outra solução senão que pôr um “travão” à Irlanda e voltar às vitórias para serenar as críticas e os ânimos dentro do seu território.

Indo ao confronto de “titãs”, o País de Gales foi sempre mais eficaz, mais esclarecido daquilo que queria do jogo: pontos. Isto apesar da Irlanda ter começado melhor com três pontos para Sexton (jogo mais “mediano” do abertura) a castigar uma falta galesa.

A selecção do Trevo ainda teve uma oportunidade muito clara para ensaio, com uma excelente quebra de linha de CJ Stander (melhor asa da competição?) que só foi parado nos últimos 6/7 metros por Halfpenny com uma placagem “pouco” comum.

E é neste ponto que se encontra uma equipa no meio de um ano “complicado”… na defesa! O País de Gales aguentou 19 minutos de alta pressão irlandesa, defendeu como podia, conseguiu contrariar as tentativas de Sexton e Henshaw e demonstrar que eram um só.

Aos 19′ “bateu o gongo” a favor dos galeses… a melhor jogada da jornada, onde pudemos ver toda a qualidade que brota nos Dragões, com excelente entrada de Williams, um belo apoio de Webb e um passe de mestre de Halfepnny, para que o “louco” George North entrasse em modo tanque na área de ensaio.

Depois as duas formações foram “beliscando-se” mutuamente, com tentativas de quebras de linha que eram paradas com placagens muito físicas ou em que as estratégias de jogo esbarravam na “fome” de defender de ambos.

Até ao final dos 1ºs 40′ houve só mais uma penalidade para cada colocando o resultado em 08-06… o que significou jogo em aberto para a 2ª parte.

A Irlanda tentou de todas as formas chegar ao ensaio e até conseguiu-o por uma vez, contudo uma acção ilegal de Henshaw (obstrucção no maul) levou a Wayne Barnes a optar pela anulação de ensaio e a dar um folêgo especial ao País de Gales.

Os galeses no entretanto já tinham somado outro ensaio, por North mais uma vez, a seguir a um bom maul dinâmico e a um passe rápido de Webb para o ponta.

A Irlanda sentiu dificuldades em ultrapassar a terceira-linha galesa, onde Moriarty, Tipuric e Warburton castigaram os irlandeses não só com boas placagens, também com turnovers (de excelência o trabalho e comunicação entre o placador e o apoio defensivo que trabalham imediatamente sob o corpo do adversário) mas com paragens estratégicas no “ar” que lhes garantiam uma formação ordenada.

Para além disso, a pressão em “boca de lobo” permitia sempre tirar a velocidade de Zebo do jogo ou a capacidade de criar do par de centros do Trevo.

Havia o risco de Conor Murray entrar pela defesa a dentro, só que era um dia “sim” em termos de garantias defensivas dos XV que estavam dentro de campo.

Merecida a vitória galesa, que deu tempo para marcar o ensaio final por Jamie Roberts, após uma boa carga de Faletau ao pontapé de Sexton, o que permitiu ao centro captar a bola e entre quase-tropeções e agarrões lá conseguiu chegar à área de validação.

Esgotante, físico e táctico, com uma dinâmica de pulsar o jogo que era, no mínimo, desconcertante. Um obrigado à entrega dos galeses e irlandeses, que ainda estão na luta pelo 2º lugar da competição.

O DUELO: O EMBATE DOS P’S… PARISSE VERSUS PICAMOLES

Franceses viajaram até Roma para defrontar os cínicos legionários de O’Shea que na há duas semanas tinham feito aquela “maldade” táctica à Inglaterra… daria para fazer aos Bleus?

De forma rápida, podemos dizer que não. A táctica aplicada pelo irlandês nos “seus” italianos só funciona a espaços e a própria França deve ter estudado bem essa possibilidade.

Por isso, havia que enfrentar os gauleses olhos nos olhos, aplicando um rugby muito duro, estratégico (jogo fechado e que obrigou os visitantes a defender por largos minutos) que procurava “amarrar” o maior brilhantismo francês.

Mas o que nos interessa não são movimentações, jogadas, placagens, formas tácticas ou estratégias, pois houve algo acima disso… o duelo entre duas lendas: Sergio Parisse, o carismático e “irritante” capitão italiano, e Louis Picamoles, o frio e decisivo vice-capitão francês.

Parisse é um autêntico bravo italiano, é um lutador por natureza, um líder autoritário por escolha dos seus pares e que “ama” os jogos contra a França, sente-os como ninguém.

Picamoles tem no seu jogo físico e clássico de nº8 tudo aquilo que muitos defesas temem: resiliência e insistência. É um jogador que emana uma confiança que “embriaga” os seus colegas de equipa.

Por isso, duas lendas das duas nações encontravam-se em cada formação ordenada, em cada alinhamento, em vários rucks e várias jogadas em campo aberto.

Parisse começou melhor com um ensaio aos 3 minutos de jogo que levantou as bancadas do Estádio Olímpico de Roma e que até aos 19′ deu uma ténue vantagem aos transalpinos.

Parisse estava a comandar bem a sua Itália, “amordaçando” a portentosa formação ordenada francesa que estava desejosa de crivar o seu domínio.

Porém, a chegada dos ensaios franceses acabou com o “sonho” de Parisse que até tem responsabilidades (partilhadas) no 1º ensaio francês, ao deixar Fickou escapar quando o podia ter agarrado.

Picamoles não falhou na hora de placar, parando por duas vezes Gori e Canna quando o 9 e 10 tentaram escapar por entre jogadores franceses, parando-os no lugar e impondo o seu aspecto físico e técnico.

Picamoles terminou o encontro com 14 placagens (partilhou o MVP de jogo com Camille Lopez) e dois turnovers, tendo ainda conseguido fazer com que a França “pilhasse e roubasse” três alinhamentos e duas formações ordenadas dos da casa.

Parisse, por sua vez, não podia ficar atrás de Picamoles e no final do jogo, a sua acção no ruck que vai dar o segundo ensaio italiano, foi fundamental.

Não tivesse se apercebido das “mãos” de Picamoles (como vêem até parece propositado)  e a Itália tinha perdido a bola num turnover. Parisse foi a dois rucks de forma consecutiva e que acabaram por dar mais uns pontos à causa italiana.

Um duelo de lendas, jogadores que se farão mitos sobre como jogaram no passado que tivemos o prazer de ver.

Ensaio de Parisse entre os 00:12-18 / Ensaio de Picamoles entre 1:45-1:50

O TREINADOR: EDDIE JONES TAKES YOU TO HIS NEW ERA

18 vitórias de forma consecutiva, o mesmo recorde que os All Blacks têm na mão e que a Inglaterra agora partilha também. Eddie Jones subiu em 2016 ao trono inglês e agora assume o World Rugby Throne… é o seu ano, mais uma vez.

Quando várias “vozes” diziam que a Inglaterra tinha falhas em termos de execução táctica nos pós-rucks, quando vários criticavam a escolha de Jones em manter Hartley não só como capitão mas também no XV ou quando diziam que Eddie Jones era um homem “sozinho” numa Ilha, agora também vão ter que ajudar a calcetar o caminho por onde ele vai andar.

É um exagero total da nossa parte, mas é um exagero que merece existir. Eddie Jones sobreviveu a tudo o que a França (jogo muito “puxado” fisicamente), País de Gales (dominados em certos momentos pelos Dragões), Itália (ainda hoje os risos de O’Shea se fazem ecoar em Twickenham) e, agora, Escócia apresentaram para lhe roubar as Seis Nações.

Todavia, o seleccionador inglês para além de ficar a rir, ainda confirmou a Calcutta Cup com uma exibição espectacular que meteu os escoceses sem argumentos para contestar uma derrota por 61-21.

Quando se dizia que a Inglaterra ia passar um mau bocado contra a selecção liderada por Vern Cotter, bem Eddie Jones fez questão de nos dar mais uma exibição de gala que marca a 18ª vitória consecutiva da Inglaterra… nunca antes a selecção de sua Majestade pôde estar tão orgulhosa dos seus homens (bem talvez no Mundial de 2003).

Os avançados foram “assustadoramente” eficazes, com Nathan Hughes a realizar um jogo monstruoso, ou o facto de Hartley ter sido um líder com L grande, ou ainda o caso de Launchbury ter acabado o jogo com 22 placagens (outra exibição divinal do 2ª linha) o que prova o efeito Jones (e da sua equipa técnica) nesta Inglaterra.

Contra a Escócia foi um “festim” de jogo, uma incrível exibição perante um pálido adversário, que se vê/viu barafustado por lesões de algumas peças nucleares.

Mas não teve a Inglaterra também vários lesionados nos primeiros jogos? E não os ultrapassou, conquistando vitórias contra Gales e França?

Robshaw não participou nesta competição, Haskell, Watson, ambos os Vunipola, Courtney Lawes, Tom Wood só jogaram a partir do 2º/3º jogo o que prova que quando se tem 45 jogadores (era este o tamanho do grupo de trabalho inicial da Inglaterra) à altura tudo é possível…e estão à altura porque Eddie Jones assim ajudou-os a elevar a sua capacidade técnica, táctica e mental, pondo-os no topo do Mundo.

Acima de tudo é algo enervante ver os vários fãs, adeptos, comentadores e outros a festejarem a táctica da Itália, mas ninguém foi capaz de dizer uma palavra de apreço à forma como Jones conseguiu contornar o problema na 2ª parte, o que prova que Eddie Jones mantém-se igual: “irritante”, sem grandes apaixonados e um treinador à parte.

Agora resta a Irlanda, que espera pacientemente em Dublin para voltar a parar uma selecção com um recorde… nos Internacionais de Inverno pararam a Nova Zelândia em Chicago, conseguirão evitar que a Inglaterra se afirme como a selecção que irá deter o recorde mundial de vitórias consecutivas (no Tier1)?

O novo Imperador da Inglaterra (Foto: RFU)

 


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