23 Nov, 2017

Arquivo de GDS Cascais - Fair Play

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Francisco IsaacJunho 6, 20177min0

O Total Rugby de Luís Supico volta em força, agora com o tema “Rugby Português, o que queremos?” onde apresenta problemas e soluções para a modalidade em Portugal. 

Numa embrulhada de vários jogadores e sem ter a certeza de ser ensaio, o árbitro escocês John Dallas decide dar uma Formação Ordenada à equipa da casa, impedindo o empate a meio da segunda parte de forma controversa à Nova Zelândia (os “kiwi” a afirmar que a bola passou a linha, os “galeses” a garantir que ficou curto) num jogo que ficou para a história numa digressão que definiu, historicamente, o futuro do Rugby.

Estávamos em 1905 e a Nova Zelândia faz a sua primeira digressão pelas ilhas Britânicas, passando por França e América do Norte no caminho de volta e jogando, no total, 35 jogos. Resultado final: 34 vitórias e 1 derrota, com Gales, no tal jogo controverso.

Apesar dos números (34 vitórias em 35 jogos, 976 pontos marcados e 59 sofridos, numa altura em que os ensaios valiam 3 pontos), das inovações (diz-se que o jogo com Gales foi o primeiro onde foi cantado o hino de um país num evento desportivo, resposta espontânea do capitão, jogadores e por consequência dos 47 mil adeptos Galeses ao Haka) e estreias (primeiro jogo internacional de sempre de França), a digressão ficou conhecida como a primeira onde se designou a equipa kiwi como os “All Blacks”. A razão? Há duas versões:

A mais natural – no fim da digressão um jornalista Inglês escreveu um artigo de opinião intitulado “porque triunfaram os All Black“, nome retirado do equipamento (todo preto, excepto a folha de feto prateada);

A romântica – conhecidos pelo jogo à mão e facilidade de jogo dinâmico (típico jogo das linhas atrasadas), um jornal ia publicar uma notícia sobre a vitória dos “All Backs” (sinónimo de uma equipa que joga como se fossem todos das linhas atrasadas) mas um erro de impressão adicionou uma letra e ficou “All Blacks”.

É fácil ver qual foi verdadeiramente a razão (a primeira), como é fácil ver qual prefiro (a segunda); e aqui entra o rugby Português.

Desengane-se quem pense que este é um artigo de bota-abaixo: o titulo é apelativo e a altura propícia, mas há mais no rugby que subidas ou descidas temporárias de divisão. Os problemas do rugby Português são maiores que isso, são de identidade.

Durante anos vimos o jogo ao pé e de avançados Sul-Africano, o jogo à mão Francês e Galês, o virtuosismo Neo-Zelandês como uma marca própria, onde se identifica (goste-se ou não) mais-valias únicas que são trabalhadas durante anos, décadas ou, no caso acima, desde sempre. Faz parte do seu ADN. Coisa do qual já tivemos vislumbres mas nunca conseguimos, realisticamente, desenvolver – o que é, na verdade, o jogo Português?

Durante algum tempo tentou-se, enquanto foi possível e o dinheiro existiu em maior quantidade, profissionalizar (via jogadores) a elite do rugby Português. Pensou-se que seria aí o próximo passo de desenvolvimento, já que lá fora era o que se fazia. Não funcionou.

Agora que o dinheiro desapareceu, deram-se vários passos atrás para se poder dar outros à frente. Também não funcionou.

A meu ver tudo o que seja tentado, mesmo com êxito, será sempre apenas e só um remendo num buraco que existe no rugby Português – a falta de identidade de jogo e do jogador Português. E isso só começará a existir quando tivermos três pontos estratégicos bem definidos e alinhavados:

RUGBY NAS ESCOLAS

É imperativo que o rugby seja um desporto nuclear e obrigatório nas escolas. Só com a sua divulgação nas escolas é que iremos crescer verdadeiramente em número de jogadores, visibilidade, capacidade financeira, etc.. Só trará frutos visíveis entre 5 a 10 anos depois de começar e se for feito de forma consistente e contínua;

MUDANÇAS NOS CAMPEONATOS

Passar os escalões para números ímpares (sub18 de 2º ano entram na faculdade na passagem para o escalão Challenge, perdendo-se muitos miúdos aí: ao mudar para sub19 iriam ter o seu 2º ano de escalão já na faculdade, facilitando a sua conciliação);

Escalões sub19 e sub17 com Sevens no princípio (Setembro/Outubro), depois Regional (até Dezembro) como qualificação para o Nacional, que seria a partir de Janeiro (Sevens a começar porque as equipas começam com poucos jogadores e no fim do ano os miúdos já estão saturados, Regional com 4 séries – Norte e Centro, Sul 1 / 2 / 3 – de 7/8 equipas cada, a 1 volta, passando 2 equipas de cada série para o Nacional (total de 8 equipas) a duas voltas e as que não passam em 2 séries a uma volta cada, dando cerca de 21 jogos no Regional e Nacional / Série B por equipa, com a vantagem de haver sempre a hipótese de qualquer uma se qualificar para o Nacional todos os anos já que não há campeonatos fechados);

Campeonato Nacional (Divisão de Honra) manter 10 equipas ou aumentar para 12, 1ª Divisão ser regional dividido em Norte e Sul (menos custos em viagens), com subida de 2 equipas, seja uma por divisão ou por play-offs entre os melhores classificados de ambos, 2ª Divisão deixar de existir para passar a haver um escalão de equipas de Rugby Social (amigáveis com a chancela e árbitros da FPR para equipas novas ou com jogadores que só gostam de se reunir ocasionalmente para terem o prazer de jogar, sem grandes objectivos competitivos, mas com a hipótese de se candidaterem a subir à 1ª Divisão fazendo um jogo com o ou os últimos classificados da sua zona regional no caso de haver interesse da FPR e das equipas em questão);

 

(SEMI-)PROFISSIONALIZAÇÃO DA ESTRUTURA

Quanto mais amador o desporto, mais (e melhores) profissionais precisa ter, principalmente na estrutura: treinadores, fisios, directores de equipa, pessoal administrativo têm de ter todas as capacidades e tempo para tirar pressão aos jogadores, que são amadores e têm outras preocupações. Infelizmente parece-me que esta e outras profissionalizações no rugby não serão no meu tempo de vida (e vou viver até bem tarde…) mas penso ser possível replicando o que a Groundlink já faz com alguns jogadores do Cascais e fez com o Caldas: os técnicos da estrutura teriam um trabalho diário, com salário da empresa e disponibilidade de tempo para dedicarem ao clube, graças a horários flexíveis da empresa – benefícios fiscais para as empresas que se propõem a isso, por forma a ficarem todos a ganhar?

Tendo nós a sorte de conseguir conciliar estes três pontos, podemos passar para o segundo problema: o que queremos identificado como o jogo / jogador Português? Somos mais fortes, altos, espertos, rápidos, táctica ou tecnicamente mais evoluidos que os outros? Ou temos de ver outros pontos de vista?

Faz 112 anos que a identidade da Nova Zelândia foi dada a conhecer ao mundo – está na altura de começarmos nós a trabalhar a nossa.

Um espectáculo até quando? (Foto: Miguel Rodrigues Fotografia)

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Francisco IsaacNovembro 23, 201616min0

Numa Europa com cada vez mais portugueses a conquistá-la, Diogo Hasse Ferreira partiu em direcção de Terras de Sua Majestade. Pilar formado no GDS Cascais, decidiu dar o salto para Inglaterra com 16 anos, estando, agora, nos Sale Sharks, uma das equipas da principal divisão de rugby inglesa. Fiquem a conhecer Diogo Hasse Ferreira

fpDiogo… Inglaterra, Selecção Nacional, muito aconteceu num espaço de meses. Como te sentes?

DHF. De um certo modo, concretizado. Por outro lado, nada está garantido… é tudo a meio termo. Estou envolvido com a selecção sénior, o que era um dos meus objectivos. Fui lá para fora para ser profissional, já entrei no “sistema”… mas ainda tenho de assegurar o meu lugar, ainda estou longe do objectivo final. Tenho uma grande ambição em conseguir atingir esse nível.

fpSentes saudades de Portugal? O que te fez ir para fora?

DHF. Sinto bastantes saudades… faz parte. Já tinha ido com 16 anos, na altura foi uma experiência nova, uma descoberta… estamos longe de tudo o que conhecemos. Mas agora estou a fazer aquilo que quero fazer. Quero ser profissional e uma das vantagens é que estava e estou apaixonado pelo desporto. Quero ser melhor a cada dia que passa. O balanço que posso fazer, até a este momento, é positivo.

fpConta-nos a tua experiência em Sale. Como te receberam?

DHF. Eu entrei para uma Escola secundária que estava liga à Academia deles de sub-18. Daí dei o salto para a Academia! Sempre fui bem tratado… da Academia para a equipa sénior só um punhado de jogadores é que conseguem um contrato profissional (na minha altura fomos quatro, já no seguinte só dois tiveram essa sorte)… em 30. Na altura consegui, depois de muita luta, vontade e coragem. Tive um grande apoio desde sempre, bem aceite e integrado. Eles sabem da minha ambição e dos meus objectivos. Não me posso queixar! Na Academia sénior dos Sharks, há uma vantagem: o plantel é menor que as restantes equipas do Aviva Premiership. O que possibilita treinarmos com os melhores durante toda a semana, como foi o meu caso quando estive ao lado do Mike Phillips. Passei o Verão a treinar com eles e é um excelente ambiente, ajudam-me com tudo.

fpTendo noção que o nível é largamente diferente, aonde sentiste mais dificuldades? E houve algo que os surpreendeu?

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Uma nova alcateia (Foto: João Peleteiro Fotografia)

DHF. Foi mais a intensidade… a maior diferença é de facto a intensidade, a velocidade de jogo/treino. Qualquer jogador queria e conseguia pôr o jogo andar mais rápido. No início tive dificuldades em “apanhá-los”… mas depois de muito trabalho consegui chegar ao que se pretendia. Repara que há muito talento em Portugal, há jogadores que teriam sorte lá mas falta-nos, talvez, mais compromisso, mais trabalho. Em termos tácticos não acho que estejamos muito atrás. Precisamos de mais tempo de treino. Em termos de surpreender, eles não esperavam um jogador português tão forte fisicamente, a nível do treino de força. Eles trabalharam muito nesse aspecto comigo para que conseguisse passar do “cru” para o “real”. A paixão que sentia pelo jogo, a forma como entrava em campo e lutava pelas oportunidades, a forma de estar… eles gostaram desses aspectos e seguiram-me sempre com atenção.

fpJá tiveste uma hipótese de ir ao plantel principal dos Sale Sharks?

DHF. Em termos de jogo ainda não. Tenho noção que vai ser difícil. Nos treinos, como disse, estamos sempre juntos. Especialmente na minha posição será difícil, para já, chegar lá. Eles têm noção que estou a acabar o curso. Mais cedo ou mais tarde, (espero que mais cedo) espero chegar ao plantel principal.

fpComo é a tua vida em Sale? As tuas rotinas, o teu dia-a-dia?

DHF. Em Sale é completamente diferente quando estou na Universidade (Ciências do Desporto em Durham). Nos Sharks é outra vida… podemos treinar 2ª e 3ª de manhã, com ginásio, treino individual e de equipa. Há uma refeição “comunal”, todos juntos. Depois temos tempo livre, que é usado para o que quisermos. Durante a época não há massacre físico, há outro planeamento, outras ideias. 4ª é dia livre, 5ª treino igual ao de 2ª. Na sexta-feira, normalmente, há um captains run que pode variar. E no fim-de-semana jogamos pelos clubes-satélites. Jogo pela Universidade (um acordo com essa unidade de ensino com os Sharks), um nível que se pode equiparar à 3ª divisão inglesa, com vários semiprofissionais. Entre os Sharks e os Durham são três horas de distância.

fpObjectivos para 2017?

DHF. Posso dizer desde já que como equipa da faculdade nós queremos ganhar a nossa liga (BUCS SuperLeague), tem uma visibilidade muito grande nos clubes profissionais. Costuma ser um foco de recrutamento. Com Portugal é complicado traçar… eu sou ambicioso e isto é um sonho… mas não quero estar a dizer que vou jogar na equipa principal, mas claro que gostava muito e vou agarrar a oportunidade se ela surgir, com todas as minhas forças. Quero fazer parte da equipa. Com os Sharks, em termos de jogos é complicado, mas vou jogando na A-League (parecido com a Challenge portuguesa). Quero conseguir a renovação de contrato, para na próxima época estar lá encima.

A Portuguese Shark (Foto: Facebook do Próprio)
A Portuguese Shark (Foto: Facebook do Próprio)

fpEm relação à Selecção Nacional… como tem sido a nova experiência?

DHF. Não estava à espera que o ambiente fosse tão bom… há sempre um nervosismo de ir treinar com os seniores. Não sabemos como vão correr as coisas, desconhecemos por completo quem são os colegas, etc. Mas tem sido excelente. Tenho gostado bastante, somos uma selecção nova, com focos de liderança mais experiente. Em termos físicos e de jogo, os nossos treinadores estão a trabalhar muito no rugby positivo. Quando fui ao estágio há umas semanas atrás não esperava estas ideias, fui surpreendido com tudo isto.

fpFoste um dos jogadores que deixou uma “marca” no Campeonato do Mundo de sub-20, “B”. És o mesmo jogador ou modificaste em alguma maneira?

DHF. É certo que modifiquei e vejo isso. Dois dos treinadores da selecção sénior destacaram isso: o Martim Aguiar e o o João Pedro Varela (há dois anos atrás meu treinador de então dos sub-20), que tem uma visão positiva do jogo, notou uma diferença em mim porque na altura não era um jogador tão activo, tão ritmado. Com a ida para os Sharks evolui muito, modifiquei-me, sou um jogador muito diferente. Se não houvesse uma evolução era mau sinal!

fpE como vês a nossa selecção? Achas que voltaremos ao convívio dos “grandes”?

DHF. Tudo a seu tempo, a ambição existe! Essa é a nossa ideia. Mas como jogador, não sou ninguém para definir os objectivos da federação. Temos de ser realistas, do onde estamos e para onde queremos ir.

fpA experiência e ideias novas que os jogadores que estão no estrangeiro trazem podem e devem ser importantes para Portugal?

DHF. Acho que sim, sinto que é verdade. Na formação ordenada trabalhamos mais e de forma diferente. Eu por exemplo aprendi novas técnicas, novas ideias. Na Selecção temos uma equipa técnica que sabem o que estão a fazer e têm tido atenção. A Formação Ordenada é um ponto fundamental do jogo de rugby, é daí que podes ganhar o jogo. Há vários exercícios e drills que me foram transmitindo que passam pelas rotinas de jogo. É preciso ter tempo para trabalhar tudo e em Portugal, por vezes, não há tanto tempo para trabalhar em todos os sectores. Estamos muito focados no jogo corrido. Na minha experiência em três épocas (esta é a 4ª) é de uma aprendizagem enorme, bastante maior que os meus colegas da mesma idade, que ficaram por cá.

fpAgora, indo um pouco ao teu passado… quando começaste a jogar? E porquê, já agora?

DHF. Comecei a jogar em 2008, em Cascais. Na altura foi por pura curiosidade, era um “rapaz grande”, e um dos meus colegas picou-me para ir experimentar a modalidade. Éramos leigos, achámos que lá por sermos grandes que iríamos logo fazer a diferença. Tentei vários desportos e nenhum me correu bem, verdadeiramente. Na altura estava parado, não fazia nenhuma modalidade. Em termos de recordações lembro-me quando era sub-12, quando entrei, e tínhamos torneios ao fim-de-semana… recordo-me de um dos primeiros, em que sabia pouco do que andava a fazer… era maior que a maioria dos meus colegas ou adversários, o que me ajudava a fazer a diferença. Por outro lado, tive vários colegas de equipa que me ajudaram bastante e foram-me dando a confiança. A melhor imagem que tenho do início é ter entrado com a bola e os meus colegas terem-se colado a mim e termos ido para a frente. Os valores do rugby apaixonaram-me logo, em Cascais estava bastante presente, fez-me apaixonar pelo desporto. Era um ambiente positivo, forte e apaixonado pelo rugby, pela equipa e clube. Fui ficando pelo compromisso, evoluí e fui aprendendo a jogar cada vez melhor.

A geração que precisamos (Foto: João Peleteiro Fotografia)
A geração que precisamos (Foto: João Peleteiro Fotografia)

fpSempre te viste como pilar ou gostavas de ter ido parar a outra posição?

DHF. Não sei sinceramente… fiz um torneio de sub-14 a nº8. Quando brincamos, digo sempre que gostava de jogar à ponta, por achar que sou rápido (risos). Mas, na realidade, não tenho grandes fantasias…gosto muito de ser pilar.

fpJogador que mais gostaste de jogar com até hoje?

DHF. Os Sharks fazem um uso da A-League como forma de pôr a jogar jogadores seniores que estiveram lesionados, alguns internacionais. Mas gosto de voltar atrás no tempo, gostava de voltar a jogar com os meus colegas do passado, que cresceram comigo. Podem nem ser muito conhecidos de rugby, há um ou dois que jogaram comigo nas selecções jovens que gostava de voltar a partilhar. O António Vidinha é um dos casos que está a jogar comigo na selecção (ainda não joguei mas treinamos juntos).

fpSentes saudades do teu GDS Cascais? O que achas que podem fazer esta temporada?

DHF. Tenho saudades do Cascais… é uma casa, é a minha “segunda” família, estão sempre de braços abertos. Fazem-me questão de mostrar isso todas as vezes que os encontro ou falo com eles. Até porque se jogasse em Portugal seria aí que estaria a jogar. Quando estou cá sigo-os, vou falando com um ou dois jogadores, mas não posso ter tanta atenção como gostava. Sei que as coisas estão a correr bem, há um novo burburinho dentro da equipa, há ambição.

fpGostarias de trabalhar com o Professor Tomaz Morais?

DHF. Gostava sim. É uma experiência única, porque é um treinador com muito valor, é um privilégio. Tive a oportunidade de trabalhar com ele em ocasiões esporádicas, quando ele ia ao Cascais. Tem um conhecimento amplo.

fpQue jogador te identificas mais no cenário internacional?

DHF. Dan Cole, dos Tigers da Selecção inglesa. É o tipo de pilar com que me identifico, é o tipo de jogo que é mais parecido com o meu. Gosto de o ver jogar. Aprendo sempre algo com os jogos dele. Tive a oportunidade de treinar com o Cipriani nos Sharks e de facto, ele trás um brilhantismo, skill ou conhecimento que muda por completo o jogo. Treina bem, joga melhor ainda, é um rugby que gosto de ver. O Tommy Taylor que está nos Wasps, que foi dos Sharks, era um jogador que me “ensinou” muito… uma capacidade de trabalho gigante, inspirava-nos a todos.

Welcome to Durham (Foto: Facebook do Próprio)
Welcome to Durham (Foto: Facebook do Próprio)

fpVês jogos internacionais?

DHF. Sim, sempre que posso ver o jogo dos Sharks vou. Não há qualquer despesa (risos), eles até fazem questão de estarmos nas bancadas.

fpVês-te a jogar noutro país?

DHF. Bem, em primeiro lugar estou aonde quero estar. Gosto muito de Inglaterra. Claro que gostava de ir parar ao Hemisfério Sul, mas tudo a seu tempo.

fpDe onde vem a força da vossa geração, que tem jogadores como o António Vidinha, do Vasco Ribeiro, Duarte Diniz ou tu?

DHF. Vem lá de cima… vem das lendas, dos mais velhos, sempre os admirámos. Queríamos ser iguais a eles. E para isso, tínhamos de trabalhar mais e melhor todos os dias. Fomos percebendo os sacrifícios que queríamos fazer mas não tínhamos intenções de parar… os nossos objectivos são outros! No Cascais, foi-nos incutido um sentido forte de trabalho e compromisso, havia uma ambição profunda no clube. Se eu quero ser Lobo tenho de trabalhar, tenho de dar o meu melhor, não posso “encostar-me”. É excelente ver que os jogadores da minha idade ou mais novos trabalham de uma forma impecável, pois queremos todos ser parte de algo que no futuro mude o rugby português.

fpPortugal num Mundial?

DHF. Sim, sem datas… mas sim acredito que sim. É preciso ser realista, claro… há argumentos para acreditar: o trabalho dos mais jovens, que tem vindo a ser cada vez mais, o talento que surgiu daí. A ambição que é um factor fulcral para o acreditar que é possível atingir. Temos todas as “ferramentas”, falta só a mentalidade e o querer, manter o nosso compromisso. Há todo um processo de reconstrução. Não podemos dar um passo maior que a perna.

Na altura que Diogo Hasse Ferreira disponibilizou-se para discutir temas e responder às nossas questões, ainda não tinha recebido notícia se iria ser  convocado para o jogo entre Portugal e Bélgica. Felizmente, para o grande pilar, Martim Aguiar e o restante staff técnico da Selecção, deram a merecida convocatória para fazer parte dos 23, conseguindo a sua primeira internacionalização aos 20 anos.

Um novo Lobo (Foto: João Peleteito Fotografia)
Um novo Lobo (Foto: João Peleteito Fotografia)

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Francisco IsaacNovembro 7, 201617min0

Um líder, uma lenda, um símbolo e um treinador de renome nacional e internacional: Tomaz Morais. O antigo seleccionador Nacional e, agora, treinador do GDS Cascais revela-nos algumas ideias, confidências e propostas para e do rugby português. Uma entrevista do Fair Play

fp. Desde já queremos agradecer ao Professor Tomaz Morais por conversar com o Fair Play. Pegando no “nosso” nome, os valores do fairplay e desportivismo no desporto, estão em franco crescimento ou estamos a deparar-nos com um retrocesso nesses “campos”?

TMQuero acreditar que existe, apesar de se terem tornado comuns alguns comportamentos que vão contra esses princípios e valores nos últimos tempos, com algumas situações caricatas nos diferentes escalões, envolvendo jogadores, treinadores, juízes de linha, dirigentes, etc. Não podemos tolerar, aceitar nem desistir da essência do rugby, não podemos “educar” só os jogadores para os aspectos técnico-tácticos… para uma necessidade permanente de ganhar a todo o custo… há que fazer valer e prevalecer os valores e princípios da modalidade e do desporto em geral. O respeito, a competitividade saudável e amizade marcam o rugby. Jamais poderemos desistir deles!

fp. Em Portugal como estamos em termos dos valores do rugby? Os atletas, treinadores, dirigentes e, mais importante de todos, os adeptos entre os anos 80 até aos dias de hoje estão mais dentro do código de honra da modalidade?

TMMuito sinceramente acho que temos a má percepção do passado. Tratamos esses anos (80-90) como algo antiquado, fora de moda e que já não reúne a importância devida. Repara que eu próprio gosto de rever jogos, análises e ideias desses anos, para usá-los novamente nos dias de hoje. O desporto é cíclico, o que foi útil um dia pode vir a ser outra vez. Sinto que houve um retrocesso na questão do compromisso, postura e na paixão pelo treino. Estamos pior na entrega… Por outro lado, evoluímos nas condições estruturais e nas metodologias de treino, as estruturas estão mais “profissionais” e especializadas, há um acesso à informação muito maior. O trabalho dos treinadores da actualidade passa muito por interpretar, estudar, processando toda essa essa informação existente e que esta muito acessível, para conseguir por em prática nos treinos tudo o que pretendem passar física, técnica e taticamente.

Sempre no meio da luta (Foto: Miguel do Carmo)
Sempre no meio da luta (Foto: Miguel do Carmo)

fpApesar de já não estar em funções na Federação Portuguesa de Rugby, mantem uma ligação com a nova geração de treinadores nos cursos da ARS. O entusiasmo de ensinar é o mesmo? E sente alguma diferença nos conhecimentos básicos entre a nova geração e as mais antigas, por assim dizer?

TMUma das coisas fundamentais para o treinador é o respeito que tem de ter pelos jogadores. Há dois factores importantes: as questões técnico-tácticas, ou seja, o conhecimento, compreensão de jogo e a competência para delinear a estratégia a seguir; e o factor humano. Há que saber lidar com os jogadores, conversar com eles, compreendendo as suas dificuldades e necessidades, estabelecendo o desejável equilíbrio emocional para que se possam satisfazer a jogar rugby. Nota que a geração de treinadores do tempo do João Paulo Bessa, José Mendes, Minhoto, Sérgio Franco, José Ricardo, entre outros, era uma geração de homens, que trabalharam por todos os escalões dos clubes por onde passaram, lidando com vários jogadores, enfrentando as “guerras” diárias, reagindo perante situações adversas permanentemente. Para transpores isto tudo e conseguires o melhor de ti, tens de ter uma relação pedagógica e didáctica com os atletas, saber que tipo de treino se adequada para cada escalão. Infelizmente, ainda vemos alguns treinadores de escalões de formação a quererem impor modelos e tipologias de treino de seniores nos seus atletas e equipas. É um erro brutal! Temos de respeitar as etapas de crescimento e desenvolvimento motor, cognitivo e afectivo das crianças e jovens, há que existir sustentabilidade física e emocional!

fpSente saudades de jogar? Este regresso ao GDS Cascais, é um quase retornar ao passado?

TMSempre! Eu sou só treinador porque o meu corpo não me deixou jogar mais. É o melhor que podemos dar ao rugby. Em relação ao regresso ao Dramático, não é um retornar ao passado, mas sim o início de uma nova etapa! A experiência de vida diz-nos que nunca voltamos ao passado. A minha ideia, e da minha equipa técnica, passa por tentar implementar uma filosofia de jogo assente em princípios básicos de verticalidade, que seja transversal a todo o club, dando prazer a quem joga e a quem vê, mantendo as bases de dinamismo que foram edificadas nos últimos anos, recuperando a identidade dos anos 90, altura em que o Cascais melhor jogava, tendo chegado a impor um domínio a nível nacional através de um rugby técnico muito bonito, veloz e eficaz.

fpLembra-se do seu melhor jogo como atleta? E qual é a melhor lembrança que tem desses tempos?

TMBem… tenho várias boas memórias dessas épocas. Lembro-me de um jogo no Estádio da Luz, numa jornada final que decidia o campeão nacional de então. Começámos a perder, com alguns pontos entregues de “bandeja”, mas no final acabámos por ganhar o encontro, numa jogada que começou na nossa área de validação e terminou na do Benfica… melhor que tudo é que foi na bola de jogo. Nesse dia o SL Benfica tinha encurtado o campo para limitar o jogo do Cascais, que gostava de fazer uso de movimentações mais rápidas (risos)… foi um combate único entre grandes jogadores, que fora do campo mantinham grandes amizades. Depois lembro-me de um jogo contra o CDUL no pelado do antigo Guilherme Salgado… eu era ainda júnior mais fui promovido à equipa titular sénior… nesse jogo como primeiro centro fui incumbido de parar ass arrancadas de formação ordenada do Bernardo Marques Pinto e do Xico Lupi Belo… para um miúdo de 18 anos era uma missão titânica. Houve ainda as “Super “Taças Ibéricas que ficaram para sempre na memória! Se me perguntarem qual era a competição que eu ficava mais ansioso por ver chegar, seria sem dúvida os Lisboa Sevens, um torneio espectacular que chegou a ver o Eric Rush e outras lendas do desporto em Portugal (o GDS Cascais perdeu uma final para a equipa de Rush, que era a equipa internacional de convites Bahrein Warblers).

Tomaz Morais com a oval (Foto: Facebook do Próprio)
Tomaz Morais com a oval (Foto: Facebook do Próprio)

fpEntre 1990 e 2016, quais foram as posições que mais evoluíram? Os pilares correm mais agora? E os médios de abertura estão mais “duros” ou ainda tentam “fugir” ao contacto?

TMHouve uma evolução em várias posições! Os pilares são mais móveis e gostam de fazer a diferença no jogo ao largo, os aberturas estão mais dispostos à prática defensiva, os formações agora limpam “corpos” no ruck e os pontas aparecem por todo o campo, de forma a fazer a diferença no ataque à linha de vantagem como penetradores. Os jogadores de agora querem fazer coisas novas, trabalhar outros skills e participar em outras funções… por outro lado, há alguma tendência a não irem ao limite das suas capacidades físicas, o que é um aspecto negativo… temos de ir além do 100%, há que bater os limites físicos de cada um. O Rugby atual é um jogo de uma dimensão técnica, tática, física e mental infinita!

fpAntes de viver o Mundial 2007 como seleccionador, teve a oportunidade de ir a outros mundiais? Chegou a ver Jonah Lomu a jogar?

TMNão, curiosamente nunca fui a um Mundial de XV antes do 2007 ou depois desse. Em relação à 2ª pergunta, sim tive a oportunidade de conhecer o Jonah Lomu. Nos anos de 1993/1994, Portugal tinha ido ao Hong Kong Sevens e decidimos fazer um treino contra a Nova Zelândia uns dias antes do Torneio. Quem estava do outro lado? Jonah Lomu. Sozinho fez uma série de “estragos” à nossa linha de jogadores… chegámos até a perder um dos nossos jogadores para o torneio (risos)! Era/É o jogador mais marcante da modalidade, por várias razões. Primeiro pela forma como ele jogava rugby, a paixão que metia dentro de campo e a qualidade física e técnica que possuía. Isso possibilitou que o rugby ganhasse outra dimensão, com uma campanha de marketing e publicidade à volta dele que catapultou a modalidade para outros patamares. Voltei a estar com ele em 2015, num jantar de gala do Hong Kong Sevens, antes da participação da selecção portuguesa nesse torneio. Ele lembrou-se dessa altura e confidenciou que seguia a selecção portuguesa de 7’s, dizendo que tínhamos grandes qualidades e uma capacidade para “chocar” o Mundo. O Pedro Netto (treinador da Selecção na altura) e eu passámos esta mensagem aos nossos jogadores… que no fim-de-semana conseguiram conquistar um empate frente aos All Blacks dos 7’s. Lomu voltou a falar connosco e estava incrivelmente radiante com a nossa prestação. Momento demasiado que nunca esquecerei!

Uma mito entre lendas (Foto: Luís Cabelo Fotografia)
Uma mito entre lendas (Foto: Luís Cabelo Fotografia)

fpAgora um desafio à memória: equipa que mais gostou de jogar contra? E que equipa mais gostou de ver a jogar?

TMComeço pelo final… há duas equipas que me marcaram: a Nova Zelândia de 2011-2016, com o seu estilo de jogo impressionante, com um rugby magnífico, com um core de trabalho de ponta. E a selecção sul-africana de 1995, que marcou a modalidade pela forma como conquistou aquele mundial, unindo toda uma nação. Também há a França da altura do Serge Blanco, que era um primor a ver jogar. Agora equipas que joguei contra devo dizer que todos os jogos contra a Geórgia são as minhas memórias favoritas… a batalha entre o rugby semiprofissional/profissional e o rugby amador, com duas equipas que sentiam a paixão e o fervor de lutar dentro das linhas de jogo, era sempre inesquecível. Alguns jogos da caminhada para o Mundial vão resistir às “forças do tempo”, como o jogo fora contra a Rússia, Georgia, Roménia e Uruguai.

fpApós ter abandonado, por lesão, a vida de atleta, como foi saltar para o banco de suplentes como treinador? 

TMPara mim foi um dilema não poder jogar… muito complicado. Estava habituado à rotina de chegar ao final do dia e calçar as botas para seguir para o treino. Estava a começar o estágio de Professor de educação física e houve a oportunidade de ir treinar os juniores do GD Direito (pela mão e convite do António Mota). Meti toda a minha energia nos treinos, fiz uma evolução do rugby lúdico juntando o treino físico, metendo os jogadores num sítio que era raro tê-los: o ginásio. Naquela(s) equipa(s) do Direito houve uma preocupação em trabalhar todos os aspectos físicos, elevando o nosso compromisso, tendo chegado a treinar 4x por semana.

fpAlguma grande recordação do início da carreira?

TM1978… no primeiro treino que fui e que tive a bola nas mãos. Só queria fugir com ela! Dei-me bem desde o início com a modalidade. Eram outros tempos, atenção… repara, nós saíamos de Cascais todos equipados, botas incluídas, metíamos no comboio e íamos até Lisboa para jogar no Estádio Universitário de Lisboa. No primeiro jogo que joguei, marquei logo um ensaio e deixou-me uma boa recordação do meu início. Agarrou-me ao jogo até hoje!

fpCom tantos anos de relação com o rugby, faltou uma experiência no estrangeiro? Qual teria sido o país de eleição para continuar a carreira de treinador?

TMÉ verdade. Faltou a tal ida para fora… não faltaram oportunidades. A seguir aos Hong Kong Sevens recebi um convite para ir para Escócia, mas como estava a começar a minha vida profissional recusei. Há pouco anos atrás, o Brasil convidou-me para ser o seleccionador e DTN deles, mas como estava com obrigações e funções na Federação Portuguesa optei por ficar por cá.

Uma geração de mentalidades (Foto: Facebook do próprio)
Uma geração de mentalidades (Foto: Facebook do próprio)

fpO regresso ao GDS Cascais foi sempre um desejo?

TMSim, com certeza que foi sempre um desejo meu voltar à casa onde fui muito feliz. Queria fazer parte de uma nova era do Cascais… acredito muito nestes jogadores, nesta equipa, sentem o Dramático com uma intensidade alta.  São uma verdadeira família. Chegar ao treino pela primeira vez foi um prazer indiscritível. Sabes depois de vários anos a treinar nas seleções nacionais e a fazer parte da estrutura do rugby português, obriga-nos a ter certas barreiras impostas… treinar um clube é diferente. A minha grande preocupação é saber se tenho o material para o treino em dia e se os jogadores não faltam (risos)!

fp. Sente uma grande diferença entre o Cascais de 90’s e o Cascais de 2016? A parceria com a Groundlink tem sido positiva?

TM. É uma ligação e relação bastante positiva. Estamos numa fase de redefinição, já que vários dos jogadores que estão a trabalhar na estrutura da Ground Link estão com bastante trabalho e não têm tanto tempo para marcar presença nos treinos, mas após esta fase de expansão da empresa tudo voltará ao normal ou melhor! Este GDS Cascais pode fazer jus ao Dramático dos anos 90, com um rugby de alta qualidade, uma entrega em prol do colectivo sem esquecer os detalhes técnicos. Acredito que o trabalho começado nas últimas temporadas vai surtir grandes efeitos nos próximos anos.

fp. Acha que o rugby português tem futuro? Há uma consciência colectiva de termos que evoluir ou ainda estamos dedicados aos nossos “cantinhos”?

TM. Temos que continuar a repensar, de levar a discussão para o espaço público, de trabalharmos todos em conjunto e com sentido de colectivo. O rugby português tem de estar sempre acima de todos nós, para que todos possam sair beneficiados. Ou seja, há que criar um “caminho” que todos consigam percorrer e retirar vantagens disso mesmo. O nosso valor ou imagem mais importante são os Lobos e a Alcateia, não podemos deixá-los cair. Temos que voltar a colocar Portugal no lugar que lhe pertence e onde estava há pouco tempo tanto em sevens, como no no XV.

fpÉ da opinião que devia de existir uma colaboração e cooperação maior entre o Mundo Universitário e o desporto de Alto Rendimento? Viu muitos atletas a sacrificarem a sua vida pessoal para conseguir equilibrar os estudos com as exigências da modalidade?

TM. Sem dúvida que deve existir uma ligação melhor e maior entre a FPR e clubes e FADU e Universidades. O rugby português nasceu no meio universitário, não podemos esquecer esse passado. É importante que ambas as federações se juntem e comecem a realizar um trabalho com “olhos” para o futuro. As sinergias têm de ser iguais, sem nunca esperar que o rugby universitário vá “engordar” as equipas/clubes nacionais e, também, que não devem ser só os jogadores desses mesmos clubes a representarem as equipas da Universidade.

fp. Voltará Portugal a pisar os relvados de um Mundial?

TM. Penso que sim. A História tem tido a capacidade de nos proporcionar grandes feitos… e o rugby português o fará outra vez. Sem pressão excessivas, sem promessas e sonhos com data limite, os Lobos voltarão a ir a um Mundial. Temos de ter consciência que precisamos de raça, alma e atitude com um sistema de jogo forte baseado num modelo nosso, criado e desenvolvido por nós, em que a nossa “marca” fique bem patenteada! Já o tivemos e com sucesso, precisamos de o ter novamente!

fp. Uma última questão… voltará o GDS Cascais a inscrever o seu nome na Placa de Campeões Nacionais?

TM. Estamos a trabalhar para isso… agora poderá ser um erro tremendo tornar isso uma obsessão imediata. Temos de consolidar a estrutura, ter uma equipa estável, com várias soluções, auto motivada e ter meios próprios que possibilitem que o colectivo consiga criar algo diferente. Mas claro que gostava de ser campeão com o Dramático… de forma consistente e equilibrada! 

O desafio do Cascais (Foto: Facebook do próprio)
O desafio do Cascais (Foto: Facebook do próprio)

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Francisco IsaacNovembro 5, 20167min0

A selecção portuguesa de sub-18 perdeu frente às Escolas da Irlanda, num jogo com duas partes distintas; Vasco Morais, Diogo Cabral e Manuel Mendes em alto destaque; Irlanda só fez a diferença na 2ª parte com Iwan Hughes a espalhar o “terror”.

Jogo histórico entre Portugal e Irlanda, no escalão de sub-18, realizado no CAR Jamor. Com as bancadas polvilhadas de adeptos, já que a chuva deu tréguas e permitiu que ambas as equipas tivessem outra liberdade de movimentos, os jovens Lobos de Portugal deram sinais muito positivos neste “início” de caminhada para o Campeonato de Europa do escalão.

Notem que o mais importante deste jogo não é em si o resultado (12-46), mas a forma como a selecção portuguesa se apresentou perante uma das melhores formações de rugby do planeta: carácter forte, personalidade de raça e talento “escondido”. O primeiro ensaio português prova isso mesmo, onde uma boa formação ordenada (a 1ª linha demonstrou uma capacidade de choque acima da média), possibilitou espaço e tempo a Vasco Morais (MVP do jogo para o Fair Play) para atirar um atrevido up and under, que a equipa irlandesa não conseguiu “decifrar”, possibilitando a José Maria Leal da Costa meter o “pé no pedal” e aparecer a tocar, subtilmente, a oval no limiar da linha de fora.

Rui Carvoeira tinha prometido que o “jogar no risco e arriscar” iria ser uma norma para estes sub-18 (ao jeito do que já tinha sido a geração anterior que conquistou o 3º lugar no Campeonato de Europa de sub-18 realizado em Lisboa). E, os seus jogadores não o defraudaram. É  certo que nem sempre correu bem, mas a ideia destes jogos de preparação é exactamente essa: saber até onde podem arriscar e como o podem fazer.

Por outro lado, a avançada trabalhou com qualidade (Manuel Nunes foi fiel ao que nos tinha garantido, boas placagens e uma defesa segura) nos primeiros 35 minutos de jogo, o que significou problemas para a equipa irlandesa que ainda assim conseguiu virar o resultado na 1ª parte (12-15).

O 2º ensaio de Portugal (bela intercepção do “mágico” Vasco Morais) proveio de outra ideia de jogo que a equipa técnica, de Rui Carvoeira, João Mirra e Francisco Branco (um trio que promete resultar), deseja ter em “excesso”: pressão alta e sufocante na defesa. Enquanto houve “pulmão e ar”, os portugueses fizeram da pressão uma “arma” útil, que os irlandeses tiveram dificuldades em lutar contra.

Na segunda parte, a entrada do “eléctrico” Iwan Hughes (dos melhores jogadores desta geração de irlandeses, jogador do Bristol e um dínamo ofensivo de excelente qualidade), a queda física dos atletas lusos (os dois treinos que antecederam o jogo, exigiram muito dos jovens lobos) e a vontade dos irlandeses em não saírem de Lisboa sem a vitória fizeram a diferença.

Sempre melhor nos alinhamentos (Portugal perdeu 4 dos 6 que dispôs nestes segundos 35 minutos), mais frescos e lúcidos na saída do ruck e ainda mais curiosos no explorar da linha de vantagem (Hughes conseguiu abrir a defesa portuguesa por 4 vezes), o resultado foi crescendo em favor da selecção do Trevo.

Com um 12-46 final, o comum adepto poderia dizer que se trata de uma derrota pesada. Se nos ficarmos pela observação só dos números, sem olhar para o conteúdo, poderíamos aceitar essa constatação. Todavia, há que ir além da “paixão” pelos números e atacarmos o âmago da questão: há ou não qualidade nesta geração de sub-18.

No risco pelo ensaio (Foto: João Peleteiro Fotografia)
No risco pelo ensaio (Foto: João Peleteiro Fotografia)

Em resposta a esta pergunta, facilmente respondemos: sim. A equipa técnica tinha revelado que era uma geração mais física, mais “bruta” e mais “forte”, com um talento mais refreado e sem tanta exuberância, em comparação com os sub-18 anteriores. Contudo, os jogadores nacionais provaram que o talento reside dentro deles, com uma série de detalhes bem “engraçados”, que irritaram de certa forma a equipa da Irlanda.

Findado o jogo, o Fair Play teve acesso a alguns dos protagonistas do jogo, que responderam às nossas questões (um agradecimento público a Rui Carvoeira e Francisco Branco pela abertura e disponibilidade em nos dar esta possibilidade).

Diogo Cabral, capitão destes sub-18, revelou que “a parte física fez a diferença. São algo maiores do que nós e depois geriram melhor o esforço na 2ª parte. Mas faz parte.”

Continuou por dizer que “fizemos uma grande entrada, demos tudo e quisemos surpreende-los. Devíamos ter cuidado a desenvolver o nosso jogo aberto, onde eles sentiram maiores dificuldades em lidar connosco.”

Quando questionado se o grupo se manteve uno e forte até ao apito final, a resposta do centro foi de raça, “claro. Somos uma família… só queremos jogar juntos, ganhar juntos! Temos uma vontade enorme de crescer e aprender. Vamos ter que ser mais consistentes a jogar.”

Continuou, “arriscámos sempre que possível. É todo um processo… jogar rápido, criar fases de jogo dinâmicas e irmos para além dos limites. Temos de saber jogar com as nossas capacidades físicas e técnicas, só assim faremos a diferença. O nosso estilo de jogo só vai melhorar daqui para a frente.”

Deixámos uma pergunta “mordaz”… conseguiria Portugal outro resultado daqui a uns 6 meses? Cabral, ao jeito do que deve ser o espírito da Alcateia afirmou que “Sem dúvida. Seria completamente diferente, começámos agora uma caminhada que só pára no final de Abril. Estamos focados em dar o nosso melhor.”.

Antes de regressar para o balneário (juntando-se aos seus colegas nas limpezas, algo que é imperativo nesta equipa) pediu para que chegasse a seguinte mensagem “agradecer ao público que aqui veio. Fizeram a diferença. Para nós isto só dá vontade de trabalhar mais e melhor. Obrigado!”.

Lobos com fome (Foto: Luís Cabelo Fotografia)
Lobos com fome (Foto: Luís Cabelo Fotografia)

De seguida, Vasco Morais, médio de abertura da selecção (jogador do CF “Os Belenenses” com mais de 9 anos de serviço), sentou-se e discutiu algumas ideias connosco.

Iniciámos por perguntar de aonde tinha vindo aquele pontapé do 1º ensaio de Portugal, no qual afirmou que “ninguém está à espera naquele momento que façamos aquilo. Já é algo que faço a algum tempo e costuma correr bem. Vimos que os irlandeses estavam desatentos e arriscámos…correu bem!”.

E onde nasceu esta paixão pelo rugby? “Bem, a minha irmã frequentava as piscinas do Belenenses. E eu sempre que ia lá, tentava ver os treinos… comecei a gostar, apareceu-me o bicho e pedi à minha mãe que me deixasse experimentar. E assim foi!”.

Revelou-nos que “já joguei a defesa e a formação. São posições diferentes, com sentidos de jogo também diferentes. A abertura tenho a responsabilidade de gerir o jogo, fazer a bola girar, de guiar a equipa. Mas é me indiferente a posição, quero é jogar!”.

E o grupo é coeso? “Sem dúvida! Somos um verdadeiro grupo… podemos jogar em clubes diferentes, mas sempre que nos juntamos há uma harmonia perfeita. Temos uma grande vontade em treinar, jogar e estar juntos.”.

Por fim, agradeceu o apoio ao público, “foram importantes. Eu tento não me focar nas bancadas, para mim interessa-me é o jogo!”.

Vasco Morais e Diogo Cabral juntaram-se ao convívio pós-jogo, num descanso muito merecido. A selecção portuguesa de sub-18 regressa aos trabalhos a 19 de Dezembro com um treino bi-diário para preparar o jogo do dia seguinte frente ao Methodist College.

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Francisco IsaacNovembro 4, 20168min0

Rui Carvoeira e a sua equipa técnica volta a pegar numa nova “fornada” de jogadores sub-18: o novo futuro de Portugal começa a sua preparação para o Campeonato da Europa do escalão. Quem são, quais os objectivos e, mais importante de tudo, como apoiá-los? Fique a conhecer os novos jovens Lobos

O futuro do rugby português passa pelo Estádio Nacional neste sábado, dia 5 de Novembro, quando os jovens Lobos sub-18 enfrentarem a Irlanda (especificamente, as Escolas da Irlanda, que compõe os melhores jogadores a nível escolar do país do Trevo) com o início de jogo marcada para as 17:00.

Antes de irmos ao “agora”, viajemos, subtilmente, até Abril de 2016 altura em que Portugal conquistou o 3º lugar no Campeonato da Europa de Sub-18. Jogos de alto nível frente à Alemanha (vitória por números “gordos”), um jogo de alto equilíbrio frente à Geórgia (derrota injusta) e um “bronze” ante a Bélgica (jogo sufocante) permitiram que Portugal, pela primeira vez na sua História em sub-18, subisse ao pódio como uma das melhores formações europeias. Verdade que as equipas das Ilhas Britânicas não se dignaram a comparecer (motivado pela descida de divisão da Escócia, situação na qual a RFU/Federação Inglesa não aceitava), mas em nada tirou o espectacular 3º lugar.

Mas o tempo passou, a geração do Bronze subiu de escalão (a maioria integra o trabalho dos sub-20 de Luís Pissarra e João Pedro Varela) e agora é necessário algo novo para manter o trabalho de excelência dos técnicos nacionais.

Desde Maio que a equipa de Rui Carvoeira, com o apoio de Francisco Branco, tem vindo a trabalhar junto da ARS e das selecções regionais/nacionais de sub-17 para encontrar um novo grupo de trabalho, bem alargado, que fizesse jus ao passado recente da Selecção sub-18.

Master and Commander (Foto: Luís Cabelo Fotografia)
Master and Commander (Foto: Luís Cabelo Fotografia)

Passaram os meses de Maio (encontros inter-regionais), Junho (jogos frente a Academias inglesas), Julho (participação em torneios de Beach Rugby de forma a garantir um training camp diferente), Agosto (participação no Campeonato da Europa de sub-18/19) e Setembro até chegarmos a Novembro de 2016, mês que marcará o baptismo duro dos jovens Lobos.

A equipa do Fair Play disponibilizou-se para conhecer e dar a conhecer ao público estes novos atletas, percebendo de onde vêm, quais as condições de trabalho e que ideias e objectivos estabeleceram para 2016/2017.

Fomos recebidos pelo Professor Rui Carvoeira, que nos recebeu como sempre: vontade de falar, discutir ideias, passar noções dos processos e o que esperar desta nova geração de sub-18.

FairPlay: Como se apresenta esta nova “fornada” de jogadores de sub-18? Diferente da anterior?
Rui Carvoeira: Sem dúvida. São mais “físicos”, têm outro poder no choque, a nossa primeira-linha tem uma capacidade diferente, temos segundas-linhas com outra altura. Falta-lhes, talvez, um pouco mais de talento, mas é um aspecto que com os treinos e jogos de preparação será melhorado!

FP: E a preparação até aqui como foi?
RC: Começámos no Natal de 2015, onde as selecções da Associação Rugby do Sul nos proporcionaram a criação de um grupo de trabalho largo e forte. Dos 60 iniciais (que foram entrando uns e saindo outros) agora estão 30 e poucos. Fizemos vários estágios, alguns jogos, treinámos várias vezes e nos envolvemos em diversas actividades. Daqui até Abril ainda vamos treinar e nos reunir bastantes vezes… é um grupo capaz e que tem desejo de trabalhar.

Grupo capaz e com vontade de trabalhar

FP: E qual é o vosso objectivo?
RC: Em termos melhorar e consolidar princípios e processos, formas de jogo e ideias. A longo prazo é o que queremos para eles… vão ter que saber viver os 70 minutos, de lutar por eles a cada instante, nunca baixar o ritmo ou intensidade. É fundamental que eles percebam o espírito de sacrifico e quererem ir mais além.

FP: E que surpresas vai ter o grupo de trabalho? O que é preciso eles quererem mais?
RC: Num dos próximos estágios, faremos um Estágio Não-desportivo, ou seja, será mais focado para o team building, para o espírito de coesão de grupo, importante neste momento. Nós queremos manter a ideia de jogar no risco, deles quererem arriscar com a bola na mão, de sujeitarem-se à pressão da profundidade de jogo. Apesar de hoje (sexta-feira) estarmos mais focados na defesa, é a nossa vontade manter o princípio do risco e do ataque rápido.

FP: Alguma diferença entre este grupo de 2016/2017 do anterior?
RC: Bem, são mais “conservadores”, mais fechados… mas é fruto da idade. Com os jogos e estágios vão começar a falar mais, a sair mais da “casca”.

Os skills em acção (Foto: Luís Cabelo Fotografia)
Os skills em acção (Foto: Luís Cabelo Fotografia)

De seguida, fomos agraciados com dois capitães da selecção. Diogo Cabral (CF “Os Belenenses”) e Manuel Nunes (RC Montemor).

O 1º joga na posição de centro e já vai na sua 8ª época como jogador da modalidade. Manuel Nunes é campeão Nacional de sub-18 pelo RC Montemor, ocupando a posição de 3ª linha.

Manuel Nunes confidenciou que “é uma responsabilidade imensa saber que estamos a usar as camisolas de grande referências do rugby português. Temos de dar o nosso melhor.”

Diogo Cabral sustentou que “tenho um orgulho imenso fazer parte da História do rugby português. O Professor Rui Carvoeira tem vindo a passar a mensagem que temos de ser diferentes dos outros todos, que não somos iguais. Somos a referência, temos de dar o exemplo dentro e fora de campo.”

Ambos apoiaram a ideia de que esta é uma selecção “unida e que gosta de jogar junta. Apesar de estarmos em diferentes equipas, o minuto que entramos no balneário somos todos do mesmo clube. Há uma grande amizade!”.

Manuel Nunes que vai para a sua 9ª temporada como jogador do Montemor, deixou escapar que “gosto da placagem e do contacto. Sempre gostei de placar. É a minha forma de contribuir para a equipa”.

Uma equipa Unida com grande Espírito

Por outro lado, Diogo Cabral, ao bom jeito da escola do Belenenses, disse que “sou um jogador focado na linha de vantagem… gosto de explorar a velocidade, de procurar o espaço e fazer a diferença nele.”

Quando questionados sobre qual a qualidade que têm de aperfeiçoar, foram ambos explícitos “talvez a parte física… temos de ir para além daquele limite. Só assim faremos a diferença no campo.”.

Manuel Nunes gostava de “elevar o nível, melhorar o que já está feito, assumir a responsabilidade da geração anterior!”, ao qual Cabral acrescentou “somos gerações diferentes, vimos o Mundial com outra “fome”, gostamos de jogar um rugby mais veloz, com outra vontade técnica.”

Curiosamente, ambos são apaixonados pelo Super Rugby, “os offloads, a forma como atacam a linha ou como gostam de jogar.”.

D. Cabral ainda fez menção que nesse sentido, Pedro Silva, seu antigo treinador fez-lhe a diferença no processo de aprendizagem.

Em termos de apoio nas bancadas, Manuel Nunes gostava de ter apoio do público português já este sábado porque “é importante para nós… com o apoio crescemos, tornamos-nos gigantes e a confiança é outra.”, já Diogo Cabral afirma “que é sempre bom ter público, mas o nosso foco é o jogo.”.

Antes de nos despedirmos, questionámos a ambos qual seria o melhor futuro do rugby português para eles, “oportunidade de competir com as selecções mais fortes…. e quem sabe ser profissional da modalidade.”.

Após um treino de aperfeiçoamento de defesa, discussão de ideias e de objectivos, a equipa portuguesa  partiu para os balneários para um breve descanso, já que no dia há o grande jogo contra a equipa das Escolas da Irlanda.

Entre a vontade de mostrarem o seu melhor rugby, o nervosismo de saltar cá “para fora” com a camisola das Quinas e o excitamento por poder desafiar os irlandeses para um desafio de placagem, a selecção liderada por Rui Carvoeira prepara-se, concentrada e motivada, para o jogo de amanhã às 17:00 no Estádio Nacional, especificamente no CAR Jamor (campo junto à pista de atletismo com acesso por cima). Os vossos Lobos precisam do vosso apoio!

A lista de convocados de Portugal: goo.gl/rytF8I
A lista de convocados da Irlanda: goo.gl/Gdg289

A jovem alcateia (Foto: Luís Cabelo Fotografia)
A jovem alcateia (Foto: Luís Cabelo Fotografia)


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