23 Out, 2017

Arquivo de Eddie Jones - Fair Play

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Francisco IsaacMarço 19, 20178min0

Ponto final nas Seis Nações com a Inglaterra a ficar a 5 pontos do recorde mundial de vitórias da World Rugby, a França e País de Gales no maior jogo de sempre e a Escócia sob a criatividade de Finn Russell. Estes são os últimos 4 pontos das Seis Nações 2017

Ponto final nas Seis Nações, onde finalmente tivemos o “prazer” de ver a supra defesa irlandesa a impedir a Selecção da Rosa de chegar às 19 vitórias consecutivas.

Joe Schmidt não deu títulos à Irlanda entre 2016 e 2017, mas parou por duas vezes as tentativas de recorde mundial.

A França e País de Gales foi um encontro “estranho” especialmente nos 20 minutos-extra de jogo, que colocaram Wayne Barnes sob “fogo” questionando alguns processos do juiz de jogo.

A Escócia Itália foi uma “formalidade” com os escoceses a festejarem a vitória por 5 pontos bónus que lhes dão o 2º lugar partilhado com França e Irlanda.

A DEFESA: IRLANDA ANTI-RECORDES MUNDIAIS

Recuemos até 6 de Novembro de 2016. Localização? Chicago, Estados Unidos da América.

Irlanda e Nova Zelândia encontram-se em território americano para gladiarem-se num jogo intenso e que podia marcar a 19ª vitória consecutiva dos All Blacks.

A selecção do Trevo realiza, talvez,  sua maior exibição dos últimos 10 anos, conquistando uma vitória imemorável frente aos bicampeões mundiais.

A 18 de Março de 2017, alguns meses depois desses incrível jogo, a Irlanda voltou a receber um pretendente ao recorde mundial de vitórias: a Inglaterra.

Como antes, a Irlanda não se deixou impressionar por esta vontade do seu adversário e impôs o seu ritmo de jogo, que iria impedir dos bicampeões das Seis Nações de chegar à área de ensaio pela 1ª vez em 14 meses!

Com uma defesa que soube “atacar” o espaço de acção de Jonathan Joseph (nunca teve oportunidade para furar a linha), maniatar a criatividade de Ford e “sufocar” a avançada inglesa, os irlandeses foram acreditando numa vitória fundamental para o seu futuro.

As 110 placagens realizadas (a Inglaterra foi obrigada a fazer quase 180, o que prova que o jogo irlandês não foi só defesa e defesa) e a leitura de jogo na defesa foram dois “passos” importantes na vitória por 13-09.

Mais, na ausência de Heaslip (lesionado), Peter O’Mahony jogou na posição 6 e foi um regozijo para os “olhos” a forma como o asa apanhou Watson ou Farrell quando estes tentaram encontrar uma “fagulha” por onde passar.

A atacar a Irlanda foi “fria”, controlou as emoções do jogo, lutando fase a fase, sem arriscar um último passe que poderia permitir o criar da instabilidade no jogo pela Inglaterra.

CJ Stander terminou o encontro com 20 carries, um máximo neste encontro e o que prova o uso “excessivo” dos avançados para conquistar e/ou garantir território.

A Selecção da Rosa não conseguiu reunir argumentos “válidos” para ir ao ensaio ou à vitória, ficando-se pelo ponto de bónus defensivo.

Eddie Jones no final do encontro afirmou que “Não há desculpas. A Irlanda foi melhor e soube pôr fim às nossas tentativas de ataque.”, o que ajuda ainda à tese que a selecção da casa foi superior em um jogo de recordes.

A Irlanda foi imune a recordes, antes e agora, com exibições de alta classe defensiva e um ataque inteligente e bem formatado.

A POLÉMICA: WAYNE BARNES O VILÃO DA NOVA AGINCOURT?

20 minutos-extra no França-País de Gales, o que deverá ser um quase recorde a nível de extensão de tempo de jogo. A razão? Sucessivas faltas e paragens na formação ordenada.

A França estava a perder por 13-18 frente aos galeses e dispuseram de uma última formação ordenada já nos últimos 5 metros. Optaram por ir à formação ordenada, sector onde os gauleses dominavam com clareza.

O País de Gales sofreu 20 minutos de resets da formação ordenada, cometendo também penalidades quando a França conseguia tirar a bola da FO sem falta.

Por isso, nos últimos 25 minutos de jogo (dos 75 aos 100) foi um “festim” de faltas atrás de faltas, com a equipa da casa a tentar “arrancar” um ensaio de penalidade.

Estranhamente, Wayne Barnes nunca deu o ensaio de penalidade, apesar de ter gozado por duas oportunidades nesse sentido.

Duplamente estranho, Wayne Barnes permitiu que Atonio saísse de jogo com uma lesão na cabeça (o que permite a entrada de um suplente no imediato) quando o pilar não apresentava qualquer sinal de lesão nesse sentido.

Mais uma vez, um dos árbitros de elite da World Rugby conseguiu estar no meio de muita controvérsia, já que nunca assinalou a falta que um dos pilares da França cometeu na Formação Ordenada, ficando-se sempre por achar que a o ónus da culpa provinha dos galeses.

Ao fim de 20 minutos, a França conseguiu sair da formação ordenada e chegar ao ensaio por Damien Chouly após uma insistência de picks. O pontapé de Lopez pôs fim ao jogo e a vitória sorriu a Guy Novés.

Rob Howley, seleccionador interino do País de Gales, estava surpreendido com várias situações de jogo que saíram impunes pela equipa de arbitragem, sem nunca esquecer que o País de Gales podia ter feito muito melhor.

Serão os árbitros do mundo do rugby imunes a críticas? Wayne Barnes no espaço de 12 meses volta a estar no meio de controvérsia, polémica e muitas críticas à sua forma de actuar.

Estes foram os últimos 20 minutos da França-País de Gales…os “extra”

O JOGADOR: FINN RUSSELL “MARCA” VIAGEM PARA A NOVA ZELÂNDIA

Os Irish&British Lions estão quase aí a chegar e Finn Russell (finalmente) acordou, prometendo lutar pelo lugar de nº10 da lendária selecção das Ilhas Britânicas.

No jogo frente à Itália, Finn Russell foi dos poucos jogadores a pôr um pouco de cor num jogo algo acinzentado de ambas as formações.

Finn Russell esteve “presente” nos 4 ensaios da sua equipa, tendo marcado um deles a a partir de uma boa entrada no espaço, embalado em que a defesa italiana não conseguiu defender.

Russell e Hogg voltaram a formar uma dupla de génios com a oval nas mãos, transformando o jogo quando tinham espaço para ambos correrem com a bola. Desenharam jogadas, criaram espaços e deram a oportunidade de ir ao ensaio por 4 vezes.

Rusell ainda converteu três pontapés (dois deles de difícil execução), foi um “sábio” no jogo ao pé, desenhou várias movimentações e marcou os ritmos da Escócia no fecho das Seis Nações.

Se tem lugar a nº10 na Selecção comandada por Warren Gatland… só o tempo o dirá, mas com Russell temos “magia”, capacidade de criar e a alma escocesa de lutar por cada centímetro com sonho de conquistar metros.

O ADEUS: THANK YOU MR. VERN COTTER

Em 2018 haverá uma mudança significativa nas Seis Nações… a ausência de Vern Cotter no booth de treinador da Escócia.

O homem com o “olhar mais frio” do Mundo da Oval, despediu-se da sua Escócia pondo fim a quatro anos como seleccionador da equipa de Stuart Hogg, Finn Russell, Tommy Seymour, Jonny Gray, entre outros tantos.

Fundamentalmente, foi Cotter que “transformou” a boa matéria prima escocesa numa selecção com capacidade não só para assustar as suas vizinhas, mas também de ter capacidade de lutar por títulos e recordes.

Stuart Hogg pode agradecer ao seleccionador pela paciência que teve, moldando-o como um dos melhores defesas a nível mundial.

Finn Russell pode agradecer ao Stern Cotter pela forma como o “ensinou” a ler melhor o jogo, em montar a equipa e dar ritmo às linhas atrasadas.

Vern Cotter trouxe toda uma nova forma de actuar, uma postura mais “agressiva”, de lutar sempre no contacto (e no chão), de conquista nas fases estáticas, de conseguirem se superar quando tudo parece “perdido”.

Em suma, a Escócia que nos tira “do sério” com aqueles momentos espectaculares de jogo tem de agradecer ao homem que lhes deu outra forma de jogar, mas que também soube reconhecer os seus erros em horas mais “duras” (o último lugar nas Seis Nações 2015).

Em 2017 todos os adeptos “sonhavam” com uma vitória escocesa nas Seis Nações, pois as grandes exibições realizadas frente ao País de Gales e Irlanda (vitórias) ou França (derrota por detalhes) davam espaço para essa Utopia do Rugby.

Não foi possível ter esse desfecho, mas Cotter tem de ter orgulho na selecção que formou, nos jogadores que moldou e no espírito que imbuiu os seus homens.

Fair Play para Vern Cotter, um homem que só pensava em “ganhar” pela Escócia como podem ver

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Francisco IsaacMarço 12, 201713min0

A uma jornada do final das Seis Nações, a selecção da Rosa já confirmou o bicampeonato com uma vitória “magistral” ante a Escócia, enquanto que o País de Gales recuperou “parte” da sua Honra e os Les Bleus realizaram uma exibição “curiosa” em Roma. 4 pontos sobre a 4ª jornada das Seis Nações

A última palavra antes do ponto final foi dada nesta 4ª jornada…e essa palavra é “Inglaterra”. Domínio claro, uma equipa que se ultrapassa a cada jogo e um seleccionador que reina supremo na Europa.

A Irlanda “pregou” a surpresa da ronda, com uma derrota por 22-09 frente ao País de Gales que estava de modos que “apagado” nestas Seis Nações. Um jogo impulsivo, dinâmico e que valerá a pena rever.

Itália fica com a “colher de pau” (prémio relativo à equipa que só soma derrotas na competição) com mais um jogo perdido, desta vez ante a França de Novés que parece estar a trabalhar na direcção correcta… mas que futuro?

O JOGADOR: JOSEPH VINDICATED WITH A BULLDOZING EXHIBITION

Se há jogadores que foram contestados pela imprensa e adeptos ingleses, foram Dylan Hartley (capitão), George Ford (abertura) e Jonathan Jospeh (centro do Bath).

Este último não foi a opção mais discutida, mas não deixaram-se de levantar dúvidas sobre a qualidade do centro, falando-se que Elliot Daly poderia ter ficado no lugar do jogador do Bath.

Ora, chegamos à 4ª jornada das Seis Nações, num jogo altamente decisivo para a “escolha” do Campeão da competição e Joseph acaba o encontro como o MVP para o painel de juízes da RBS.

Como? Em números “rápidos” foi isto que se traduziu a exibição de Jonathan Joseph: três ensaios, uma assistência, 150 metros “galgados” e ainda cinco placagens, uma delas determinante para evitar uma “saída” de ataque rápido que iria dar ensaio para os scots.

Em “texto corrido”, podemos explicar que Joseph foi o jogador que mais quis ganhar o jogo.

As jogadas que resultam no seu ensaio (ou que dão para assistência) parecem quase cópias, com uma boa movimentação, onde há um falso entre o 9 e 10, recebendo Ford (Farrell também assumiu esta responsabilidade por uma vez) a oval para depois existir um passe curto/média para a entrada do centro inglês… imparável, quando embalado.

A Escócia tem “largas culpas” em não ter conseguido ler o pormenor e a jogada, já que podiam ter “fechado” o espaço que Joseph explorou com veemência.

Porém, há que dizer que numa delas ainda houve um “esboço” de uma tentativa de parar Joseph, só que saiu falhada.

Isto porque o centro executou com perfeição os básicos de receber a bola, meter o pé para dentro (simulando ou não uma finta) e explodir naquele último terço do terreno.

No 3º ensaio da Inglaterra foi “bonito” a forma como o centro entra, se apercebe da oposição que tinha até à área de validação.

Não havia outra forma de contornar senão bater o pé, obrigar três defesas a deslizarem e quase a irem na sua direcção e depois transmitir a bola a Anthony Watson (regresso à selecção neste jogo) para o ensaio.

Joseph foi sublime na execução do plano de jogo, entregando-se por completo à equipa e à sua nação, com uma exibição que ficará sempre como aquela que ajudou garantir mais um título para a Inglaterra.

Merecerá ser o nº13 dos British&Irish Lions?

O JOGO: METER EM LOOP O PAÍS DE GALES-IRLANDA ATÉ…PARA SEMPRE?

Jogo esgotante em Cardiff entre o País de Gales e a Irlanda. Um encontro sempre “brutal” em intensidade, em entrega e sacrifício, especialmente para os Dragões Vermelhos.

A selecção galesa não teve umas Seis Nações ao seu gosto, apesar de exibições bem conseguidas em certos períodos de jogo… infelizmente, claudicou sempre na 2ª parte seja contra a Inglaterra ou Escócia.

Por isso, Rob Howley não teria outra solução senão que pôr um “travão” à Irlanda e voltar às vitórias para serenar as críticas e os ânimos dentro do seu território.

Indo ao confronto de “titãs”, o País de Gales foi sempre mais eficaz, mais esclarecido daquilo que queria do jogo: pontos. Isto apesar da Irlanda ter começado melhor com três pontos para Sexton (jogo mais “mediano” do abertura) a castigar uma falta galesa.

A selecção do Trevo ainda teve uma oportunidade muito clara para ensaio, com uma excelente quebra de linha de CJ Stander (melhor asa da competição?) que só foi parado nos últimos 6/7 metros por Halfpenny com uma placagem “pouco” comum.

E é neste ponto que se encontra uma equipa no meio de um ano “complicado”… na defesa! O País de Gales aguentou 19 minutos de alta pressão irlandesa, defendeu como podia, conseguiu contrariar as tentativas de Sexton e Henshaw e demonstrar que eram um só.

Aos 19′ “bateu o gongo” a favor dos galeses… a melhor jogada da jornada, onde pudemos ver toda a qualidade que brota nos Dragões, com excelente entrada de Williams, um belo apoio de Webb e um passe de mestre de Halfepnny, para que o “louco” George North entrasse em modo tanque na área de ensaio.

Depois as duas formações foram “beliscando-se” mutuamente, com tentativas de quebras de linha que eram paradas com placagens muito físicas ou em que as estratégias de jogo esbarravam na “fome” de defender de ambos.

Até ao final dos 1ºs 40′ houve só mais uma penalidade para cada colocando o resultado em 08-06… o que significou jogo em aberto para a 2ª parte.

A Irlanda tentou de todas as formas chegar ao ensaio e até conseguiu-o por uma vez, contudo uma acção ilegal de Henshaw (obstrucção no maul) levou a Wayne Barnes a optar pela anulação de ensaio e a dar um folêgo especial ao País de Gales.

Os galeses no entretanto já tinham somado outro ensaio, por North mais uma vez, a seguir a um bom maul dinâmico e a um passe rápido de Webb para o ponta.

A Irlanda sentiu dificuldades em ultrapassar a terceira-linha galesa, onde Moriarty, Tipuric e Warburton castigaram os irlandeses não só com boas placagens, também com turnovers (de excelência o trabalho e comunicação entre o placador e o apoio defensivo que trabalham imediatamente sob o corpo do adversário) mas com paragens estratégicas no “ar” que lhes garantiam uma formação ordenada.

Para além disso, a pressão em “boca de lobo” permitia sempre tirar a velocidade de Zebo do jogo ou a capacidade de criar do par de centros do Trevo.

Havia o risco de Conor Murray entrar pela defesa a dentro, só que era um dia “sim” em termos de garantias defensivas dos XV que estavam dentro de campo.

Merecida a vitória galesa, que deu tempo para marcar o ensaio final por Jamie Roberts, após uma boa carga de Faletau ao pontapé de Sexton, o que permitiu ao centro captar a bola e entre quase-tropeções e agarrões lá conseguiu chegar à área de validação.

Esgotante, físico e táctico, com uma dinâmica de pulsar o jogo que era, no mínimo, desconcertante. Um obrigado à entrega dos galeses e irlandeses, que ainda estão na luta pelo 2º lugar da competição.

O DUELO: O EMBATE DOS P’S… PARISSE VERSUS PICAMOLES

Franceses viajaram até Roma para defrontar os cínicos legionários de O’Shea que na há duas semanas tinham feito aquela “maldade” táctica à Inglaterra… daria para fazer aos Bleus?

De forma rápida, podemos dizer que não. A táctica aplicada pelo irlandês nos “seus” italianos só funciona a espaços e a própria França deve ter estudado bem essa possibilidade.

Por isso, havia que enfrentar os gauleses olhos nos olhos, aplicando um rugby muito duro, estratégico (jogo fechado e que obrigou os visitantes a defender por largos minutos) que procurava “amarrar” o maior brilhantismo francês.

Mas o que nos interessa não são movimentações, jogadas, placagens, formas tácticas ou estratégias, pois houve algo acima disso… o duelo entre duas lendas: Sergio Parisse, o carismático e “irritante” capitão italiano, e Louis Picamoles, o frio e decisivo vice-capitão francês.

Parisse é um autêntico bravo italiano, é um lutador por natureza, um líder autoritário por escolha dos seus pares e que “ama” os jogos contra a França, sente-os como ninguém.

Picamoles tem no seu jogo físico e clássico de nº8 tudo aquilo que muitos defesas temem: resiliência e insistência. É um jogador que emana uma confiança que “embriaga” os seus colegas de equipa.

Por isso, duas lendas das duas nações encontravam-se em cada formação ordenada, em cada alinhamento, em vários rucks e várias jogadas em campo aberto.

Parisse começou melhor com um ensaio aos 3 minutos de jogo que levantou as bancadas do Estádio Olímpico de Roma e que até aos 19′ deu uma ténue vantagem aos transalpinos.

Parisse estava a comandar bem a sua Itália, “amordaçando” a portentosa formação ordenada francesa que estava desejosa de crivar o seu domínio.

Porém, a chegada dos ensaios franceses acabou com o “sonho” de Parisse que até tem responsabilidades (partilhadas) no 1º ensaio francês, ao deixar Fickou escapar quando o podia ter agarrado.

Picamoles não falhou na hora de placar, parando por duas vezes Gori e Canna quando o 9 e 10 tentaram escapar por entre jogadores franceses, parando-os no lugar e impondo o seu aspecto físico e técnico.

Picamoles terminou o encontro com 14 placagens (partilhou o MVP de jogo com Camille Lopez) e dois turnovers, tendo ainda conseguido fazer com que a França “pilhasse e roubasse” três alinhamentos e duas formações ordenadas dos da casa.

Parisse, por sua vez, não podia ficar atrás de Picamoles e no final do jogo, a sua acção no ruck que vai dar o segundo ensaio italiano, foi fundamental.

Não tivesse se apercebido das “mãos” de Picamoles (como vêem até parece propositado)  e a Itália tinha perdido a bola num turnover. Parisse foi a dois rucks de forma consecutiva e que acabaram por dar mais uns pontos à causa italiana.

Um duelo de lendas, jogadores que se farão mitos sobre como jogaram no passado que tivemos o prazer de ver.

Ensaio de Parisse entre os 00:12-18 / Ensaio de Picamoles entre 1:45-1:50

O TREINADOR: EDDIE JONES TAKES YOU TO HIS NEW ERA

18 vitórias de forma consecutiva, o mesmo recorde que os All Blacks têm na mão e que a Inglaterra agora partilha também. Eddie Jones subiu em 2016 ao trono inglês e agora assume o World Rugby Throne… é o seu ano, mais uma vez.

Quando várias “vozes” diziam que a Inglaterra tinha falhas em termos de execução táctica nos pós-rucks, quando vários criticavam a escolha de Jones em manter Hartley não só como capitão mas também no XV ou quando diziam que Eddie Jones era um homem “sozinho” numa Ilha, agora também vão ter que ajudar a calcetar o caminho por onde ele vai andar.

É um exagero total da nossa parte, mas é um exagero que merece existir. Eddie Jones sobreviveu a tudo o que a França (jogo muito “puxado” fisicamente), País de Gales (dominados em certos momentos pelos Dragões), Itália (ainda hoje os risos de O’Shea se fazem ecoar em Twickenham) e, agora, Escócia apresentaram para lhe roubar as Seis Nações.

Todavia, o seleccionador inglês para além de ficar a rir, ainda confirmou a Calcutta Cup com uma exibição espectacular que meteu os escoceses sem argumentos para contestar uma derrota por 61-21.

Quando se dizia que a Inglaterra ia passar um mau bocado contra a selecção liderada por Vern Cotter, bem Eddie Jones fez questão de nos dar mais uma exibição de gala que marca a 18ª vitória consecutiva da Inglaterra… nunca antes a selecção de sua Majestade pôde estar tão orgulhosa dos seus homens (bem talvez no Mundial de 2003).

Os avançados foram “assustadoramente” eficazes, com Nathan Hughes a realizar um jogo monstruoso, ou o facto de Hartley ter sido um líder com L grande, ou ainda o caso de Launchbury ter acabado o jogo com 22 placagens (outra exibição divinal do 2ª linha) o que prova o efeito Jones (e da sua equipa técnica) nesta Inglaterra.

Contra a Escócia foi um “festim” de jogo, uma incrível exibição perante um pálido adversário, que se vê/viu barafustado por lesões de algumas peças nucleares.

Mas não teve a Inglaterra também vários lesionados nos primeiros jogos? E não os ultrapassou, conquistando vitórias contra Gales e França?

Robshaw não participou nesta competição, Haskell, Watson, ambos os Vunipola, Courtney Lawes, Tom Wood só jogaram a partir do 2º/3º jogo o que prova que quando se tem 45 jogadores (era este o tamanho do grupo de trabalho inicial da Inglaterra) à altura tudo é possível…e estão à altura porque Eddie Jones assim ajudou-os a elevar a sua capacidade técnica, táctica e mental, pondo-os no topo do Mundo.

Acima de tudo é algo enervante ver os vários fãs, adeptos, comentadores e outros a festejarem a táctica da Itália, mas ninguém foi capaz de dizer uma palavra de apreço à forma como Jones conseguiu contornar o problema na 2ª parte, o que prova que Eddie Jones mantém-se igual: “irritante”, sem grandes apaixonados e um treinador à parte.

Agora resta a Irlanda, que espera pacientemente em Dublin para voltar a parar uma selecção com um recorde… nos Internacionais de Inverno pararam a Nova Zelândia em Chicago, conseguirão evitar que a Inglaterra se afirme como a selecção que irá deter o recorde mundial de vitórias consecutivas (no Tier1)?

O novo Imperador da Inglaterra (Foto: RFU)

 

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Francisco IsaacDezembro 5, 201610min0

Inglaterra e Nova Zelândia, as maiores potências do momento de ambos Hemisférios; Porquê? Quais foram os números? E como ultrapassar potenciais crises? Uma lição de Eddie Jones e Steve Hansen. Artigo feito em parceria com Entre-Linhas

O rugby internacional fechou com nova vitória da Inglaterra frente à Austrália, o que significou um ano imaculado da selecção liderada por Eddie Jones.

O treinador que já passou por quase todas as grandes selecções mundiais virou o rugby inglês  de “pernas” para… o chão, já que a selecção de Sua Majestade não concedeu qualquer derrota ou empate em 14 jogos jogados.

Isso mesmo, 14 jogos, 14 vitórias, três Grand Slams (Seis Nações, Tour de Verão na Austrália e Internacionais de Outono), 399 pontos marcados (41 ensaios, o que significa 205 pontos), 189 sofridos e um domínio absoluto em 95% dos jogos jogados.

2016 pode ter sido um ano com vários marcos infelizes para os ingleses (seja na Política, Música, Sociedade ou Cinema), mas na modalidade da bola Oval foi perfeito.

Um ressurgimento espectacular após quatro anos de Seis Nações pouco consistentes ou um Mundial, em casa, para esquecer (eliminação logo na fase-de-grupos), marcam esta nova era do rugby inglês.

A entrada em cena de Eddie Jones, com a chegada de Paul Gustard (o mestre da Wolf Pack dos Saracens, uma das equipas com melhor apresentação defensiva a nível Mundial) para adjunto, meteram a Inglaterra na fast lanedos títulos, recordes e exibições de calibre excepcional.

A recriação de Haskell (Foto: Dave Hunt)
A recriação de Haskell (Foto: Dave Hunt)

Desde 1992 que nada era assim visto por terras inglesas, o que nos deixa altamente expectantes para o que aí vem em 2017.

A Inglaterra segue para as Seis Nações 2017 como a grande favorita à vitória (não obstante atenção à Irlanda, Escócia e França, todas elas no caminho ideal para criarem surpresas na competição) e se conseguir 5 vitórias em 5 jogos, conseguirá ultrapassar o feito da maior Selecção de todos os tempos… a Nova Zelândia.

A nação que milita no Hemisfério Sul teve, também, um ano espectacular. Em 15 jogos jogados, somaram 14 vitórias e uma derrota. Mas temos de construir a linha dos acontecimentos para melhor perceberem em como é que a equipa comandada por Steve Hansen (melhor treinador para a World Rugby em 2016) atingiu o recorde de 18 vitórias consecutivas (um recorde para o Tier 1, já que é Malta que detém o recorde máximo com 24 vitórias, só que joga nas divisões internacionais inferiores).

Tudo começou com o Mundial de 2015, iniciado em Setembro desse ano e findado em Novembro.

Os All Blacks “varreram” a maior competição de clubes a nível Mundial, desde a fase-de-grupos (4 vitórias, 174 pontos marcados e uns meros 49 sofridos), aniquilaram a selecção da França por 62-13 (Julian Savea imitou Lomu com três ensaios recheados de velocidade, agilidade e força bruta), “sobreviveram” à raça dos Springboks (curiosamente, parece que foi nesse Mundial a última grande aparição dos sul-africanos para os próximos anos) e não vacilaram na final frente aos “vizinhos” da Austrália (34-17).

Posto fim ao Mundial e ao ano de 2015, várias lendas dos All Blacks decidiram enveredar pelo caminho de Mitos e retiraram-se dos jogos internacionais… temeu-se pelo “fim” do domínio neozelandês, pois como é que seria possível ultrapassar as ausências de Dan Carter (recordista de pontos a nível mundial com 1299 pontos), Richie McCaw (o asa e capitão atingiu as 148 internacionalizações, um recorde absoluto), Kevin Mealamu, Ma’a Nonu e Conrad Smith?

Bem, Steve Hansen deu uma daquelas “respostas” que só um neozelandês sabe dar: mais 10 vitórias em 10 jogos. Os internacionais de Verão “engoliram” o País de Gales com três vitórias (121 pontos marcados e 49 sofridos), com Beauden Barrett (melhor jogador do ano para a World Rugby), Malakai Fekitoa, Ryan Crotty, Sam Cane e Ardie Savea a corresponderem às expectativas.

No Rugby Championship não tiveram adversário à altura, com 5 vitórias em 5 jogos, dizimando todas as formações do Hemisfério Sul (Argentina, África do Sul e Austrália) com um jogo absolutamente categórico.

A Argentina e África do Sul ainda aguentaram os jogos até ao intervalo, mas quando cronómetro batia os 55 minutos, vinha aí uma avalanche de camisolas “negras” que não tinha forma de ser parada.

A única derrota consentida em 2016 foi em Chicago, frente à Irlanda. No Soldier Field, em plenos Estados Unidos da América, 64 mil pessoas pagaram para ver um jogo de rugby, o que demonstrou, em parte, o entusiasmo com que a modalidade é recebida. Mas essa nem foi a maior surpresa, já que a Irlanda decidiu fazer a desfeita, conquistando uma vitória por 40-29 aos bi-campeões mundiais.

Um jogo incrível da Selecção do Trevo pôs fim ao recorde… e lançou a questão? Afinal então existe forma de parar a Nova Zelândia? Sim, existe… mas a execução desse plano não é nada fácil, aliás é uma missão de muita provação, sacrifício e vontade.

Em Chicago, a Irlanda conseguiu estender a sua intensidade física até aos 70 minutos, mantendo uma defesa altamente pressionante que criava dificuldades nas fases dinâmicas, algo que perturbou as movimentações ofensivas neozelandesas.

Para além disso, a Irlanda não falhou nas formações ordenadas, não consentiu erros no alinhamento e aproveitou todas as oportunidades que teve para chegar à área de validação.

Mas há muito mais para além desses pormenores, já que a Irlanda na placagem soube parar a “oval” de se “mexer”, ou seja, bloqueou-a de forma a que os formações da Nova Zelândia não conseguissem dar continuação a um jogo rápido.

A Nova Zelândia continuou a jogar no risco, mas cada vez mais de forma caótica, sem uma organização pura e dura como manda as leis do staff dos All Blacks. A queda enviou uma “mensagem” para todas as outras grandes potências… “há forma de parar a Nova Zelândia!”.

Muitas vezes uma derrota ajuda a “crescer” e a aperfeiçoar erros que não se podem cometer, ou, pelo menos, obriga a que a equipa se aperceba que não pode perder o foco e a intensidade. Veja-se o último jogo frente à França, um encontro em que os All Blacks tiveram de suar para sair com a vitória do Saint-Denis, em Paris.

A selecção dos Les Bleus, comandada desde 2016 por Guy Novès, realizou uma exibição de champagne, com um rugby altamente intenso, de aproveitamento de fases rápidas e de risco total.

Infelizmente, não marcaram nas 5 oportunidades que dispuseram, já que quatro delas terminaram num avant (mérito para a defesa neozelandesa que soube ter paciência para forçar o erro gaulês) ou foram empurrados para a fora.

Nesse jogo valeu a grande defesa dos bi-campeões mundiais… o foco voltou, a concentração estava de regresso e o reboot do recorde recomeçou.

Abolish your Hopes (Foto: Rugbyrama)
Abolish your Hopes (Foto: Rugbyrama)

Mas ao fim de tantos dados e informações, de tantos pontos e recordes, qual das duas é a selecção mais dominante em 2016? E qual delas vai manter a forma em 2017?

É muito difícil apontarmos o futuro… mas a Inglaterra continuará a espalhar o terror no Hemisfério Norte e a Nova Zelândia irá manter o seu domínio no do Sul.

Para os ingleses as Seis Nações de 2017 serão uma prova mais intensa e que exigirá total compromisso das “tropas” de Eddie Jones.

A França está em busca de um revivalismo que os leve não só às vitórias mas às exibições que se exige de uma selecção francesa; a Escócia já tem o seu roster ideal de jogadores, mas falta consistência ao longo dos 80 minutos de jogo; a Irlanda, outra das selecções surpreendentes em 2016, derrotou a África do Sul, Austrália e Nova Zelândia, o que prova que há nova “sede” de títulos.

O País de Gales está em fase de transição e não será nada fácil ultrapassar esse momento (ficará Gatland muito mais tempo ao serviço dos Dragões?).

Já do outro lado do Globo, a Nova Zelândia reina suprema e serena no topo, pois a África do Sul precisa, urgentemente, de uma nova direcção federativa que ponha cobro às más políticas locais; a Austrália tem uma série de jovens de altíssima qualidade que começam a encaixar-se com os mais experientes; e a Argentina não consegue passar, para já, do estilo actual de jogo que tanto dá alegrias como grandes desilusões.

Os ingleses têm um rugby híbrido, com a “agressividade” física natural europeia (com um profundo trabalho nos detalhes das formações ordenadas ou alinhamentos) e a estratégia de jogo ao pé que caracteriza os europeus com a velocidade de movimentos e técnica de pormenor do Hemisfério Sul.

Eddie Jones trouxe essa “mistura” alquímica que tem vindo dar resultados espectaculares para o rugby inglês, como se tratasse de um perfume irresistível de copiar.

Para além disso, o seleccionador inglês faz jus ao que a sua equipa demonstra em campo, com uma tenacidade memorável (quantas vezes vê-se o australiano a puxar pela equipa no aquecimento de uma forma “louca”), uma defesa dos seus interesses “agressiva” (em Junho de 2016, Jones veio defender o seu nº10, George Ford, que tinha sido alvo de apupos num jogo por ter falhado alguns pontapés) e um plano genial de jogo que tem açambarcado todos os grandes críticos do rugby inglês.

O trabalho de Jones foi, sem dúvida, mais difícil e aterrorizador que o de Steve Hansen, uma vez que teve de refazer a “selecção”, recuperar os jogadores a nível psicológico, montar o tipo de jogo que lhe interessava e garantir vitórias pelo caminho.

Não tiramos mérito a Hansen, atenção, pelo contrário, já que manter a “bitola” de conquistas não é nada fácil para uma selecção que está habituada a só ganhar. Procurar novas soluções, conseguir que “elas” entrem que nem uma “luva” e garantir, também, vitórias é uma incumbência que tira a “respiração” a qualquer um.

Mas tanto Hansen, como Jones, são dois dos melhores treinadores de sempre que já tivemos o prazer de ouvir, ver e perceber. São muito poucos, aqueles que conseguem ter um domínio tanto no “terreno”, como nos jogos psicológicos ou na reformulação das suas selecções.

Entre eles somam títulos e mais de duas centenas de jogos como seleccionadores, com 85% de vitórias em toda a carreira (juntos).

Por isso quem domina e quem é o maior? Ambos. É esta a beleza do Mundo da Oval, que vive agora num equilíbrio de “monstros”, que vão ter o seu duelo só em 2018, uns meses antes do Mundial de 2019.

Até lá ficamos pelos jogos, ficamos pelos números e pelas análises de performance.

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Francisco IsaacNovembro 6, 201614min0

A Selecção da Inglaterra estagiou entre 30 de Outubro a 4 de Novembro no Algarve, no fantástico centro de estágio do Brown’s. O Fair Play foi convidado a marcar presença para perceber do que se trata esta vinda, os seus motivos e ainda discuti-los com Eddie Jones, o seleccionador da Rosa.

O desporto Mundial vive “ludibriado” pela pompacircunstância dos maneirismos e costumes do futebol. Entre os gritos do “golo” ou do “chuta, chuta”, da divisão total entre adeptos e estruturas, da complexidade de vivências dos jogadores com os seus seguidores e de um profissionalismo que exagera em certos detalhes, existem outros Universos, que denotam outra qualidade e outro carinho.

Neste caso, falamos do rugby e da Selecção Inglesa, que vieram para Portugal à procura de paz, sossego, bom tempo, boa comida e uma base de ataque para os amigáveis que estão aí à “porta”. O Fair Play foi convidado a marcar presença no estágio da selecção comanda por Eddie Jones… o convite consistia em assistir a um treino dos jogadores ingleses, para percebermos como trabalham diariamente na Selecção e, também, para nos sentarmos com Eddie Jones.

Brown’s: a “casa” de Eddie Jones

O local de estágio? Brown’s Resort. Um espectacular complexo desportivo/lazer em Vilamoura, apetrechado com um ginásio de ponta (com piscinas), dois campos de rugby de excelente qualidade e toda uma estrutura que deixaria muitos centros de estágio ou de alto rendimento com inveja. A família Brown (o resort começou com Alan Brown) tem tentado dar um pouco de si pelo rugby português, que apesar de terem perdido o seu Vilamoura XV Rugby Club (os apoios, comunicação e trabalho da Federação com o sul de Portugal não foram os melhores nos últimos 20 anos), mantêm uma postura fantástica com o rugby português.

Pelo Brown’s já passaram as lendárias selecções da Austrália, Argentina (2015, no qual o GD Direito teve a oportunidade de jogar contra), Irlanda, ou clubes como Northampton Saints, Saracens, Clermont, Bath, entre outros, demonstrando o quão apetecido é este “fruto” da família Brown’s.

Por isso, entendemos logo o porquê de Eddie Jones gostar tanto de estar neste Resort (é a 3ª vez que o treinador traz uma equipa sua para estagiar neste complexo), mas, mesmo assim, fizemos essa pergunta a Tim Percival, o director e gestor de comunicação da Selecção Inglesa. Percival respondeu claramente:

“É óbvio, não? Excelente tempo, excelentes condições, as pessoas são fantásticas, os adeptos que perceberam que estávamos aqui não abusaram da sua presença, antes pelo contrário! Era importante sairmos de Inglaterra, darmos uma volta, dar a conhecer aos jogadores outras paragens e tirar a pressão de cima deles. Sair de casa faz bastante bem a qualquer um, especialmente às equipas que são alvo de uma pressão da imprensa sem igual.”.

O director de comunicação ainda perdeu algum tempo com o Fair Play, a explicar os procedimentos, como funciona a estrutura, entre outros trâmites. A abertura com que nos recebeu foi sensacional, demonstrando um lado humano que, por vezes, nos esquecemos que existem nestas estruturas altamente profissionais – ou pelo menos aquelas que tentam demonstrar que não o são.

Depois surgiu o mestre da companhia, Eddie Jones. Apertámos-lhe a mão, aparentando uma boa disposição e altamente enérgico para o treino que se avizinhava, dizendo “vocês vieram no melhor dia possível… treino de alta intensidade! Qualquer dúvida, falamos no final!”. Conversámos brevemente e depois o homem que já guiou quase todas as grandes selecções mundiais, foi “obrigado” a sair de cena, já que estava atrasado para uma reunião com a equipa.

Aguardámos uns momentos até que fomos chamados para ir para o treino. Tivemos acesso, por momentos, ao ginásio do Brown’s, munido de todo o material de alta performance no qual Courtney Lawes ia fazendo uso (está com uma pequena lesão ao nível do joelho). Finalmente, chegámos ao campo no qual já se encontravam todos os jogadores… os avançados a trabalhar os alinhamentos, enquanto que os três-quartos iam testando as combinações e movimentações que podem vir a dar ensaios nos jogos de Outono. O que nos impressionou foi a forma como trabalhavam… sim, viram-se bolas (poucas) perdidas no alinhamento ou avants (raros), ou erros de passe ou de outro género, mas a comunicação era sempre clara, directa e positiva.

Era notório o sentido de apoiar sempre o colega que errava ou de emendar o erro fazendo a linha de defesa mexer ou de voltar a repensar o ataque, sem grandes espectáculos de gritos e conversas desnecessárias. Após o treino de secções Paul Gustard lançou um jogo (só com blocagem) com a intenção de treinar a defesa… a intensidade foi, realmente, alta e propícia a choques e encontros de 3º grau, exactamente o que se pretendia. Gustard ou Jones interrompiam brevemente para assinalar algum erro (maioria das vezes deixavam jogar), com um dos treinadores da Inglaterra a assumir o papel de juiz jogo… não se ouviu uma palavra de discussão ou de discórdia para com o homem do apito.

Robshaw indica o caminho (Foto: Getty Images)
Robshaw indica o caminho (Foto: Getty Images)

Depois, fomos informados por Tim Percival que a selecção inglesa ia simular uma “ida ao balneário, para depois saírem directos para a 2ª parte do jogo” com uma intensidade bem mais alta. Não só isso, como também, o seleccionador inglês decidiu “brincar” com a cabeça dos seus jogadores… com a utilização de bolas de futebol e treino de corrida nas linhas laterais. Como funcionava isto? Bem, o jogo decorria com placagem e alguma disputa no ruck (o grande interesse era tentar garantir a bola no contacto, mas já lá iremos), usando a bola oval para tentar chegar ao ensaio ou a quebra de linha (raramente deixavam os jogadores ir até à linha de ensaio, o objectivo era garantir que as fases de defesa aconteciam com exactidão e que o ataque aproveitava, no 1º momento, a abertura de espaços para sair a jogar).

De repente, Eddie Jones apitava e lançava uma bola de futebol noutro ponto do campo, o que obrigou aos jogadores a estarem sempre altamente focados no trabalho de campo. Não havia tempo para discutir com o colega do lado, pois era necessário era montar a linha, defender com clareza e garantir o apoio ao colega do lado. E de repente, pela 2ª vez, o preparador físico chamava, aleatoriamente, nomes para irem fazer treino de corrida enquanto o jogo prosseguia… isto tudo durante 30 minutos sensivelmente.

Intensidade Alta: Live or… Live!

Mesmo com o cansaço, suor e esforço todo, nunca se viu uma desatenção (os avants com a bola de futebol aconteceram mais para o final do treino, mas notem o quão difícil é jogar rugby com outro tipo de bola) ou uma conversa menos própria para o terreno de treino/jogo. No final, Eddie Jones apitou e pediu mais dois minutos de trabalho… chegava agora aquilo que ele chamou de “Joguem com e contra o Caos! A defesa tem de garantir sempre o seu melhor assim como o ataque”. Os jogadores voltaram a simular uma ida ao balneário e quando entraram no relvado, mais uma vez, foram dois minutos de “inferno”… Jones com 4 bolas de rugby, apitou e ia lançando o jogo em diferentes pontos e canais, obrigando os jogadores a correrem e mostrarem todo o seu melhor trabalho. O caos nunca conseguiu ganhar à Selecção inglesa que provou estar no seu melhor pico de forma.

Antes do regresso às boxes, ainda houve tempo para treino específico de pontapé, recepção de bola no ar (os ingleses fizeram-se acompanhar de uma máquina que dispara as bolas de rugby para o ar, voando 10/20 metros para cima e tinham de ser apanhadas com classe), alinhamento, formação ordenada, placagem e recuperação. Tudo isto decorreu com um profissionalismo exemplar (os jogadores estavam completamente concentrados), em que notámos a liberdade que Eddie Jones e a sua equipa técnica dava aos jogadores… são eles que decidem o que fazer e como fazer no treino.

Posto isto, o treino terminou e tivemos a possibilidade de nos sentar durante 20 minutos com o seleccionador inglês. O australiano fez questão de não negar as suas raízes inglesas e pediu um chá, algo que era costume já no Japão e em outros países por onde passou.

Farrell over the... football? (Foto: Getty Images)
Farrell over the… football? (Foto: Getty Images)

FairPlay: Obrigado por nos receber na sua “casa”… é a sua 3ª vez aqui! Porquê?
Eddie Jones: Bem, boa comida, bom tempo (o Verão aqui está para ficar!), as pessoas são incríveis e calorosas e o Brown’s é um sítio espectacular para se estar!

FP: Terceira vez em Portugal, certo? Última vez foi com os Saracens?
EJ: Correcto! Já vão alguns anos… na altura tinha mais cabelo (risos). Adoro Portugal, voltar aqui é sempre aquele desejo que tenho, mas é sempre difícil conjugar gostos com trabalho!

FP: Vamos recuar até Junho, pode ser? Como foi ganhar à Austrália?
EJ: Vê, foi fantástico para os jogadores que mereciam mais que todos aquilo. Eu não senti nada de especial, adorei o meu tempo nos Wallabies mas o tempo passa. Quando és um profissional tu adoras todas as equipas que treinas. O mês na Austrália foi desafiante, divertido e foi bom ver os jogadores a crescerem!

FP: Houve um momento que definiu, para nós, os Jogos de Verão: aquela quebra de linha do James Haskell. Como é que o levou a atingir aquela forma?
EJ: Sabes, é mais psicológico que físico. É verdade que ele mudou, um pouco, a sua forma de treinar e estar e nós também lhe explicamos qual era o papel que ele devia ter na selecção. Ele aceitou e trabalhou para isso, desenvolveu uma confiança fantástica e mostrou uma liberdade gigante em campo.

FP: Haskell, Hartley, Robshaw e mais uns quantos tiveram, durante algum tempo, problemas temperamentais. Mas hoje em dia estão completamente diferentes, mostrando uma forma de estar em campo fora de série. Como é que eles ultrapassaram isso?
EJ: A única pessoa que te pode mudar, és tu… mais ninguém! Eles mudaram porque queriam jogar por Inglaterra, perceberam que a disciplina e o controlo emocional tinham de estar no seu melhor. E como vês eles estão aqui!

O Único que te pode mudar, és tu!

FP: Concordamos em absoluto. James Haskell até passou a ser um ícone na internet, até um motivador e líder de massas.
EJ: 100%! Ele é um verdadeiro líder… aquela presença física faz a diferença mas, também, aquele humor e capacidade fantástica de “brincar” e “pregar” partidas aos seus colegas ajuda às pessoas gostarem dele. É importante para o ambiente de equipa existir alguém com esses traços. Acho que é das qualidades que mais aprecio numa pessoa.

FP: O meu colega, Steve Kendall (Last Word on Rugby), pediu para lhe perguntar à cerca da onda de lesões da Selecção inglesa… poderemos julgar-vos ou não nestes jogos de Outono?
EJ: Não procuramos desculpas, muito pelo contrário. Se queremos ser uma das melhores equipas do Mundo, temos de saber superar qualquer problema e atingir outro nível. Precisamos uma equipa com “profundidade”, com várias opções para várias posições. Por isso, isto será uma oportunidade para demonstrar que somos a melhor equipa do Mundo.

FP: Falando em melhores do Mundo… quando jogarão frente aos actuais melhores, a Nova Zelândia?
EJ: Novembro de 2018. Timing perfeito… um ano antes do Mundial.

FP: E a seguir a 2019, o que vai ser de Eddie Jones?
EJ: Vou para Portugal! Vou já procurar casa! Seriamente? Não sei ainda. Digo isto, porque ainda quero dar ao rugby mais de mim. Estou numa fase espectacular da minha carreira, posso escolher o clube ou selecção para onde quero ir e isso é excitante!

FP: Qual vai ser o seu legado?
EJ: O que eu sempre quis foi ajudar jogadores a melhorarem e a serem os melhores. Posso olhar para trás e sentir que fiz isso. Fiz o meu trabalho. Por outro lado, quis sempre jogar um rugby de ataque, que é o tipo de jogo mais excitante… é fácil ser um treinador defensivo e que não querer arriscar… eu quero jogar rugby de ataque e para o rugby conseguir ser a melhor modalidade mundial, só assim será possível.

FP: E em que ponto está o rugby da Inglaterra?
EJ: Nós queremos continuar a fazer jus ao rugby tradicional inglês, que consiste em ser excelente nas fases estáticas. Porém, também quero que o ataque tenha skill, velocidade e que arrisque… temos de ser mais “manhosos” a jogar com a bola. Vocês viram o treino hoje, notaram a intensidade imposta. É a forma de meter o nosso adversário em guarda.

FP: Sim, e notámos que não gosta de parar o treino.
EJ: Verdade! Procuramos que sejam os jogadores a tomar as rédeas e a responsabilidade de jogar. Nós não damos as respostas, guiamos-los nesse sentido, mas têm de ser eles a encontrar a resposta. Durante o jogo, serão eles a tomar as decisões. Estes treinos de alta intensidade servem exactamente para isso, para que eles encontrem, no meio do alto esforço e concentração, as respostas de como ganhar o jogo.

FP: Em Portugal a cultura desportiva é muito diferente… o treinador gosta de ser, na generalidade, o “actor principal”.
EJ: Sim, já notei que a vossa imprensa passa o tempo à volta das decisões e vida dos treinadores de futebol.

FP: Posto isto, agradecemos a si pela abertura e pelo tempo dispensado.
EJ: Eu é que agradeço o vosso interesse e apoio! Não se esqueçam de apoiar a Inglaterra!

Eddie Jones (Foto: Getty Images)
Eddie Jones (Foto: Getty Images)

Eddie Jones despediu-se, seguiu para uma nova reunião e deixou-nos com Tim Percival que ainda trocou algumas palavras antes de dar um caloroso “até já, porque vos esperamos quando voltarmos!”.

O dia com a selecção inglesa terminou desta forma. Já com o Brown’s no horizonte, ficámos a perceber o quão especial foi em estar presente num grupo de trabalho tão cuidadoso, profissional e intenso como a Inglaterra. O respeito que tiveram para com o Fair Play demonstrou, em primeiro lugar, a forma como o rugby vive com a imprensa: abertura completa, sem complexos e sem tiques de estrelas.

O Fair Play deve agradecer a Tim Percival por nos ter possibilitado esta oportunidade, sendo ele o grande “obreiro” desta “parceria” entre a nossa marca e a Selecção de Sua Majestade. Em segundo lugar, agradecer a Alan Brown, director do Brown’s, e a sua filha, Alisson Brown, por terem nos aceite em sua casa e ainda nos terem proporcionado uma visita às instalações.

A Selecção inglesa joga frente à África do Sul (12 de Novembro), Fiji (19 de Novembro), Argentina (26 de Novembro) e Austrália (3 de Dezembro). Desejamos boa sorte para Eddie Jones e Homens de Sua Majestade.

A Rosa tem espinhos! (Foto: David Rogers/Getty Images)
A Rosa tem espinhos! (Foto: David Rogers/Getty Images)


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