17 Dez, 2017

Volta a Portugal 2017 – Helena Dias: “retirar o final de etapa na Torre é como retirar o ex-líbris da Volta a Portugal”

Davide NevesAgosto 1, 201712min0

Volta a Portugal 2017 – Helena Dias: “retirar o final de etapa na Torre é como retirar o ex-líbris da Volta a Portugal”

Davide NevesAgosto 1, 201712min0

Helena Dias é a próxima convidada na nossa mini-série de entrevistas a personalidades do ciclismo, depois dos irmãos Sabido. Com um conhecimento vasto sobre o ciclismo nacional e com uma paixão imensa pela modalidade, Helena Dias realiza um trabalho verdadeiramente notável no acompanhamento das provas nacionais e na participação dos ciclistas portugueses em provas no estrangeiro. No dia de aniversário do Fair Play, Helena Dias antevê a Volta a Portugal.

 

fpHelena, numa primeira instância gostaria de agradecer, em nome de toda a equipa do Fair Play, por ter aceitado o nosso convite com enorme prontidão e simpatia. A primeira pergunta passa por algo muito simples e atual: como nasceu a paixão pelo ciclismo?

HD: A paixão pelo ciclismo surgiu com a Volta a Portugal. Em pequena ficava pregada ao televisor todos os verões a ver a Volta. Tudo me fascinava, desde o colorido do pelotão até à fuga, pela qual torcia diariamente. Para além disso, sempre nutri uma profunda admiração por Marco Chagas, primeiro como ciclista e posteriormente enquanto comentador, com quem aprendi a ouvir os seus comentários televisivos. Bem mais tarde, em 2010 comecei a olhar ao ciclismo internacional e a colaborar profissionalmente com a modalidade.

fpO FC Porto e o Sporting regressaram no ano passado ao ciclismo, depois de terem estado de fora durante vários anos. Existem rumores que o SL Benfica poderá regressar também. Acha que os seus regressos contribuíram para elevar a modalidade?

HD: Não sei se elevar será o melhor termo para descrever os seus regressos. Trouxeram um maior mediatismo, não tanto quanto pessoalmente esperava relativamente ao interesse dos meios de comunicação social. Trouxeram um melhoramento monetário às respectivas equipas, com as quais reentraram no ciclismo, e também um melhoramento nas condições dadas aos ciclistas. Contudo, neste tema tenho uma opinião muito similar à já referida por Marco Chagas. Gostaria que os clubes de futebol tivessem regressado com estruturas próprias e não as já existentes, principalmente no que toca ao caso da equipa Sporting-Tavira, que viu um clube histórico como o Clube de Ciclismo de Tavira ficar à sombra do clube leonino.

fpQual é a principal razão para o sucesso da W52-FC Porto?

HDA resposta a esta pergunta é complicada. Na minha modesta opinião, penso haver um conjunto de factores que conduzem ao sucesso da W52-FC Porto. Primeiramente, o factor Gustavo Veloso, pois foi um dos pilares que fez a estrutura permanecer de pé nos difíceis primeiros anos em que a equipa subiu ao escalão continental. Além de ser um ciclista de qualidade comprovada, não só pelas vitórias na Volta a Portugal como na Volta a Catalunha, Gustavo é visto carinhosamente como o “papá Veloso” por todos os que pedalam a seu lado e penso que isso diz muito do seu carácter, que une e fortifica o grupo. O factor monetário conjugado com a qualidade do plantel é também fundamental, pois esta equipa consegue contratar um conjunto de ciclistas de grande qualidade. Podemos vê-lo no ranking nacional da APCP “Ciclista do Ano”, onde tem actualmente cinco ciclistas no Top 20, liderando com Amaro Antunes e estando no comando do ranking “Equipa do Ano”. O factor Nuno Ribeiro, ex-ciclista profissional e vencedor da Volta, que exerce a função de director desportivo, sublinhando-se a forma como integra cada elemento da equipa e dá oportunidade a todos de competirem por igual nas diversas provas ao longo da temporada. Por último o factor união, pois ao interagir com o grupo percebemos que são muito mais do que uma equipa, mostrando respeito e lealdade entre todos.

fpA Volta a Portugal é uma prova que, para nós, portugueses, tem grande importância, mas que, no entanto, não consegue atrair grandes equipas World Tour a participar. Qual é, na sua opinião, o grande problema?

HD: O escalão em que a Volta a Portugal está actualmente inserida não pode receber equipas WorldTour no seu pelotão. Têm-se feito esforços para que suba de escalão, como aconteceu esta temporada com a Volta ao Algarve, que já anteriormente podia receber equipas WorldTour, e a Volta ao Alentejo, que passou a poder integrar estas equipas. A meu ver, um dos principais problemas da Volta a Portugal passa pelo descurar do calendário por parte da UCI, que ao longo dos anos deixou proliferar inúmeras corridas para os mesmos dias da nossa Volta, que já tem de lidar com a proximidade da Vuelta a España. Fala-se sobre mudar a Volta para outro mês do ano, pessoalmente não vejo que essa seja a melhor solução.

fpComo é comentar ocasionalmente, em televisão, provas como o Giro d’ Italia ou o Tour de France, na Eurosport Portugal?

HD: É o coroar de um sonho e de anos de estudo. Licenciei-me em Comunicação Social e Cultural e sempre sonhei trabalhar em televisão, mas tomei outro rumo profissional. O primeiro convite para comentar uma etapa do Giro surgiu em 2014, sem estar à espera, e este ano o Eurosport renovou o convite no Giro e no Tour. Acaba por ser a junção de duas paixões, a televisão e o ciclismo, com o acréscimo de se tratar de duas das maiores provas do ciclismo mundial.

Helena Dias faz o acompanhamento das provas nacionais ao detalhe. (Foto: Facebook Helena Dias)

fpQuem parte com favoritismo para esta edição da Volta a Portugal?

HD: Sem dúvida alguma, a W52-FC Porto e Gustavo Veloso. Esta temporada, tem mostrado ser a equipa mais forte nas provas disputas até ao momento e é a defensora do título da Volta a Portugal, que vem conquistando consecutivamente desde 2013. O Gustavo é o líder assumido e tem duas Voltas no seu palmarés, mas a equipa tem outros nomes capazes de vencer a Volta, como demonstrou na edição transacta o vice-campeão nacional Rui Vinhas.

fpPortugal apresenta um contingente elevado de ciclistas no escalão máximo do ciclismo, com o Rui Costa, o José Mendes, o Nélson Oliveira, o Tiago Machado, o José Gonçalves, o André Cardoso, o Rúben Guerreiro, entre outros. Acha que Portugal pode voltar a sonhar com nova vitória lusa numa prova World Tour?

HD: Tenho quase 100% de certeza. Não só com os nomes referidos, não esquecendo o talento em maturação Nuno Bico, como também um ou outro rosto que poderá subir ao WorldTour num futuro próximo.

fp: A nível sub-23 também há enorme talento, com os irmãos Ivo e Rui Oliveira, o Rúben Guerreiro ou o João Almeida, que têm ganho algumas provas lá fora. Existe potencial para ambicionar, com a geração atual e com as próximas que começam a despontar, com novo campeão mundial, depois do Rui Costa?

HDO Campeonato do Mundo é uma corrida muito particular, talvez das provas de um dia mais difíceis de vencer pelo seu significado e consequente entorno psicológico que envolve o ciclista. Ser campeão do mundo, seja qual for o desporto em causa, é de uma grandeza sem igual para qualquer atleta. O feito alcançado por Rui Costa, da forma lutadora e sábia como foi conseguido, tem um valor incomensurável para o ciclismo português. A vitória nesta prova depende muito do percurso em causa se adequar ou não às características de cada um dos ciclistas portugueses. O potencial de Rui Costa continua lá para envergar novamente a camisola arco-íris, mas não seria surpresa para mim ver no futuro essa camisola no corpo de Rúben Guerreiro.

fpA Helena faz a cobertura detalhada da participação nacional em provas lá fora, bem como a cobertura de todas as provas de ciclismo nacionais, algo que é notável… O seu trabalho já começa a ser reconhecido, nomeadamente através do seu blog?

HD: O meu trabalho começou por ter reconhecimento internacional, visto eu ter começado a colaborar no ciclismo com uma empresa espanhola, a Pedaleo, que me ligou aos meios de comunicação estrangeiros, ciclistas e equipas internacionais. Posteriormente, quando iniciei a colaboração com a Associação Portuguesa de Ciclistas Profissionais, chegou o maior dos reconhecimentos que poderia ter… o pelotão nacional e os ciclistas portugueses, a quem sempre agradeço a disponibilidade imediata na colaboração com o meu blog Cycling & Thoughts. Embora tenha em conta que este é um nicho de mercado em Portugal, estou satisfeita com o crescimento do blog e a receptividade dos fãs de ciclismo, com quem tento ter uma proximidade e troca de ideias através das redes sociais, pois é para eles que escrevo.

fpEm jeito de curiosidade, qual é, para si, o melhor ciclista de sempre? E o melhor português?

HD: Eu não tenho opinião quanto ao melhor ciclista de sempre. Penso que é sempre redutor dizer apenas um nome, quando não podemos comparar ciclistas de características diferentes. Há ciclistas que marcam as minhas memórias em diferentes momentos. No que toca aos portugueses, Marco Chagas por ser o português com maior número ganho de Voltas a Portugal, passando pela força da natureza que foi Joaquim Agostinho, o campeão do mundo Rui Costa e o nosso ciclista mais internacional dos recentes anos Sérgio Paulinho, que construiu uma carreira singular ao serviço das melhores equipas do pelotão internacional. Relativamente aos estrangeiros, Alberto Contador surge no topo da lista por ser um exemplo de superação pelo grave problema de saúde que passou em 2004, regressando à competição quando pouca probabilidade tinha de conseguir fazê-lo, por tudo o que conquistou até hoje e por ser dono de uma garra, classe, impetuosidade e querer quase inabalável, como referi há dias. Numa escala diferente, o vencedor de cinco Voltas a Portugal David Blanco, o galego mais luso de todos os tempos no coração dos portugueses.

fpQual é a sua opinião relativamente à ideia de incluir Portugal na Volta a Espanha, num futuro próximo? Não digo que seja completamente anexada, mas não daria maior visibilidade ao nosso país?

HD: A Volta a Espanha já esteve em Portugal, se não me engano em 1997 quando partiu de Lisboa. Nos mais recentes anos tem-se falado sobre a possibilidade de voltar a começar em território luso, nomeadamente no norte. Pelo que tenho tido conhecimento, o factor monetário tem sido o principal entrave para que tal suceda, pois como é do conhecimento de todos Portugal e consequentemente os municípios têm passado por restrições orçamentais. Mas é claramente benéfico para o ciclismo nacional voltar a ter Portugal no mapa da Vuelta.

fpA Volta a Portugal pretende inovar, mas a não inclusão de uma chegada na Torre causa alguma indignação. Acha que a Torre deveria ser quase obrigatória com final da etapa-rainha?

HD: Para a maioria do público, retirar o final de etapa na Torre é como retirar o ex-líbris da Volta a Portugal. Trata-se de um símbolo da Volta, que prende os aficionados ao ecrã da televisão para descobrir quem será o rei da Torre e retirar esse símbolo é um facto que causa a referida indignação. Para equipas e ciclistas, retirar a subida final ao ponto mais alto de Portugal Continental é negar a possibilidade de produzir maiores diferenças de tempo entre os candidatos à vitória final da camisola amarela.

 

fpPor fim, e fazendo jus ao nome do Website, acha que existe Fair Play no ciclismo?

HD: Penso que é dos desportos onde há maior fair play entre os atletas e isso pode comprovar-se no final das etapas, quando ciclistas de diferentes equipas cumprimentam o rival pela vitória acabada de alcançar.


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