17 Dez, 2017

Brownlee, o gene do triatlo

João BastosAgosto 18, 20167min0

Brownlee, o gene do triatlo

João BastosAgosto 18, 20167min0

A prova olímpica masculina de triatlo teve hoje lugar em Copacabana. Partiam para o percurso de 1,5km de natação, 40km de ciclismo e 10km de corrida 56 triatletas, dos quais 3 portugueses, onde alinhava o campeão olímpico e grande favorito, o britânico Alistair Brownlee.

Para enquadrar esta prova, importa fazer um preâmbulo referindo o grande ausente: o espanhol Javier Gomez Noya. O triatleta de 33 anos tem sido o crónico dominador das etapas da Taça da Mundo há largos anos e tinha uma malapata com os Jogos Olímpicos, depois de perder em Londres para o surpreendente (na altura) Alistair Brownlee, em de 24 anos superiorizando-se na parte final da corrida.

Pódio de 2012: Gomez (prata), Alistair (ouro) e Jonathan (bronze) | Fonte: Getty Images
Pódio de 2012: Gomez (prata), Alistair (ouro) e Jonathan (bronze) | Fonte: Getty Images

O espanhol acabou por se lesionar num treino a um mês dos Jogos Olímpicos e o aguardado duelo com o agora consagrado Brownlee ficou de parte. Para o espanhol fica, certamente, o amargo de boca de deter um palmarés recheado de títulos, onde falta o mais importante: o ouro olímpico (muito à imagem de Vanessa Fernandes, a maior ganhadora de etapas da Taça do Mundo de Triatlo).

Com o espanhol fora de jogo, era Alistair Brownlee o maior favorito na linha de partida na praia de Copacabana, mas eram vários os triatletas na posição de challenger. O primeiro era nada mais que o irmão mais novo de Alister, Jonathan Brownlee. Os irmãos britânicos iriam tentar a dobradinha, mas tinham de contar com a oposição da armada espanhola que mesmo sem Javier Gomez (3º do ranking mundial), trazia Mario Mola (número 1 do mundo) e Fernando Alarza (número 2), dois triatletas com aspirações legítimas ao ouro. Tinham de contar também com o sul africano Richard Murray e com os franceses Vincent Luis e Pierre Le Corre. Numa segunda linha de favoritos surgiam o mexicano Crisanto Grajales, os australianos Ryan Bailie e Aaron Royle (ambos com a responsabilidade de representar um país com fortes tradições na modalidade) e os portugueses João Pereira e João Silva.

Assim que foi dado o tiro de partida, os irmãos revelaram a sua estratégia: fragmentar o pelotão ao máximo logo na natação, afastando os melhores corredores do grupo do ciclismo. Para isso, contaram com a preciosa “ajuda” do seu colega de treino, o eslovaco Richard Varga que como é seu hábito imprimiu um ritmo forte na natação saindo em primeiro da água logo seguido dos britânicos.

Richard Varga imprimiu um ritmo avassalador na natação | Fonte: Triathlon.org
Richard Varga imprimiu um ritmo avassalador na natação | Fonte: Triathlon.org

O resultado desse primeiro segmento nadado a um ritmo insuportável para a maioria do pelotão foi a formação de vários grupos no ciclismo, sendo que o primeiro tinha 10 elementos, entre os quais Alistair e Jonathan, mas onde também figurava um triatleta perigoso para as aspirações da família Bronwlee, Vincent Luís.

O grupo perseguidor na verdade perseguiu pouco, uma vez que o único presente com pretensões à vitória era o espanhol Mario Mola que não teve grande ajuda no encalço dos da frente. Pouco atrás vinha o grupo de Pereira e Silva que contava também com Murray, Alarza e Grajales.

Alistair e Jonathan aproveitaram a falta de entendimento no segundo grupo e colocaram-se na frente do primeiro grupo continuando a imprimir um ritmo forte que fez a diferença entre grupos aumentar até 1 minuto e 15 segundos, estabilizando por altura do 15º quilómetro do ciclismo, aquando da junção do segundo com o terceiro grupo.

Depois da transição do ciclismo para a corrida, e à semelhança do que sucedera na primeira transição, Richard Varga foi o primeiro a começar a correr, mas rapidamente o trio composto por Alistair, Jonathan Brownlee e Vincent Luís se destacaram mantendo-se em trio até aos 2 km, altura em que os britânicos conseguiram descolar o francês que estoirou autenticamente, já que aos 2,5km já estava a ser ultrapassado pelo sul africano Henri Schoeman que vinha fazendo uma prova em subida.

Vincent Luis foi o único a seguir com os Brownlee na corrida | Fonte: Anthony Lefort
Vincent Luis foi o único a seguir com os Brownlee na corrida | Fonte: Anthony Lefort

Nesta altura, João Pereira destacava-se como o melhor português estando integrado num grupo de corrida de luxo com Mola, Murray e Bailie e vinha a recuperar posições aos triatletas que estavam no segmento de corrida a pagar caro a ousadia de terem seguido com os manos no ciclismo.

A 4 km do fim, e quando já começava a ser evidente que o ouro e a prata iriam ficar em família, Alistair mudou de ritmo para iniciar a sua “cavalgada” solitária para a linha de meta.

Ao cabo de 1 hora, 45 minutos e 1 segundo, Alistair Brownlee tornou-se no primeiro triatleta a sagrar-se bi-campeão olímpico, numa prova de sonho para os britânicos e particularmente para a família Brownlee. Antes de cruzar a meta ainda parou à espera do seu irmão que a cruzou logo de seguida. Jonathan tinha sido bronze há 4 anos e agora sobe um degrau no pódio. Os dois festejaram estendidos no chão completamente esgotados.

De forma algo surpreendente Henri Schoeman chegou ao bronze, cruzando a meta a 42 segundos do primeiro.

Os três medalhados no final da prova | Fonte: Twitter
Os três medalhados no final da prova | Fonte: Twitter

Depois de uma recuperação absolutamente épica conjuntamente com Richard Murray, João Pereira chegou ao 5º lugar depois de ter estado em 37º, ficando a apenas 9 segundos das medalhas! Para sempre ficará a dúvida se a prova não fosse lançada de forma tão rápida na natação e Pereira tivesse conseguido seguir no grupo da frente, se não chegaria às medalhas. É que o triatleta do Benfica realizou o segundo melhor percurso de corrida, só superado por Murray que foi mais forte no sprint pelo quarto lugar (há que ter em conta que Alistair parou antes de cruzar a meta). Para a história de Pereira e do triatlo português fica esta posição de diploma olímpico que é a melhor de sempre do triatlo masculino português.

João Pereira trouxe mais um diploma para Portugal | Fonte: JM
João Pereira trouxe mais um diploma para Portugal | Fonte: JM

João Silva, o único repetente olímpico do trio de portugueses (9º em Londres), seguiu sempre no grupo de ciclismo do companheiro de equipa, mas ao contrário de João Pereira, não conseguiu recuperar lugares na corrida ficando com o 35º lugar final.

João Silva foi o 35º a cortar a meta | Fonte: BeneditaFM
João Silva foi o 35º a cortar a meta | Fonte: BeneditaFM

Em relação a Miguel Arraiolos teve a prova bastante condicionada com o ritmo forte da natação, saindo no último grupo do ciclismo. Ainda assim, fez uma prova em constante recuperação indo do 52º até ao 44º lugar final. Refira-se que Arraiolos teve de fazer mais provas da Taça do Mundo em 2015 e 2016 para garantir os pontos necessários para chegar ao Rio (ao contrários dos triatletas mais cotados), tendo tido duas épocas de grande desgaste.

Miguel Arraiolos estreou-se em Jogos Olímpicos
Miguel Arraiolos estreou-se em Jogos Olímpicos


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