17 Out, 2017

O ano em que o príncipe se coroou rei

André Dias PereiraNovembro 29, 20166min0

O ano em que o príncipe se coroou rei

André Dias PereiraNovembro 29, 20166min0

Talvez mais importante do que qualquer vitória, ou conquista de Grand Slam, a coroação de Andy Murray como número um seja o mais importante feito do escocês, que se tornou no primeiro britânico a chegar à liderança do ranking mundial na era moderna.

Treino. Persistência. Perserverança. Estes são, por certo, três pilares fundamentais para o sucesso de qualquer desportista de topo. Para Andy Murray  não foi diferente. O escocês, cujo talento foi quase sempre olhado com desconfiança por muitos críticos do ténis, precisou de chegar aos 29 anos para se tornar número um do mundo, o primeiro britânico na era moderna a fazê-lo. E é também o segundo tenista mais velho a conquistar essa condição, sendo apenas superado por John Newcombe, em 1974, com 30 anos de idade. Mas ao contrário do tenista australiano, é expectável que o britânico se mantenha por lá mais do que oito semanas. Se vai, ou não, suplantar as 122 completadas por Novak Djokovic parece um cenário difícil de prever, mas que só o tempo o dirá.

“O Andy mostrou uma dedicação incrível e uma determinação muito grande no seu caminho para se tornar número um. É difícil pensar num atleta que mereça mais, já que vivemos numa das eras mais competitivas deste desporto”, admitiu Chris Kermode, presidente do ATP.

Certo é que o ano de 2016 figurará como o mais glorioso da carreira do Britânico – vencedor do Torneio de Wimbledon, do Ouro Olímpico no Rio de Janeiro e, mais recentemente, do Masters Final – e um marco na história recente do ténis Mundial. É preciso recuar até 2003 para encontrar um número um que não fosse Roger Federer, Rafael Nadal ou Novak Djokovic. E esse será, porventura, o maior mérito do escocês. Não sendo o mais talentoso do circuito, conseguiu intrometer-se na elite e, com treino, persistência e preserverança, fez com que, no final, tudo valesse a pena. Para aqui chegar Murray teve que atravessar o caminho das pedras. Derrotas, lesões, e a enorme supremacia do Big-3. Dizem que nada é mais inexorável do que o tempo. E foi com o tempo que Murray foi ganhando o seu espaço e estatuto, alargando o conceito para Big-4. Apesar de contar “apenas” com três Grand Slam, o seleccionador britânico, Miles Maclagan, concorda que Murray “merece estar ao lado de Boris Becker e John McEnroe – tenistas que venceram mais de cinco Grand Slam e que foram também números um. Ele tem três Slams neste momento mas as duas medalhas olímpicas e Taça Davis colocam-no entre os maiores”.

Desde que se tornou profissional em 2005 Murray conquistou 44 títulos, sendo 2016 o ano mais profícuo, com nove no total: Roma, Queens, Wimbledon,  Rio Janeiro (Jogos Olímpicos), Pequim, Shangai, Viena, Paris e ATP Masters Finals.

Murray é hoje certamente um atleta muito diferente daquele que venceu, em 2006, em San José, o seu primeiro título ATP. O seu primeiro Grand Slam chegou em 2012, nos EUA, e teve sequência no ano seguinte, em Wimbledon. Um feito repetido este ano. Murray foi igualmente finalista vencido em Paris, também este ano, mas a sua grande pedra no sapato é Australia, onde já perdeu cinco finais: 2010, 2011, 2013, 2015 e 2016.

A HEGEMONIA E O ARRANQUE DE ANO FULMINANTE DE DJOKOVIC

wimbledon
Vencedor de Wimbledon, Masters Final e Ouro Olímpico. 2016 coroou Murray.

Foram ao todo 122 semanas no topo da hierarquia mundial. Novak Djokovic, que aproveitou a fase descendente de Roger Federer e Rafael Nadal para cravar a sua hegemonia no ténis, parecia um líder inabalável no início de 2016. Depois de ter conquistado 11 títulos em 2015 (41 entre 2011 e 2015) o sérvio arrancou o ano a vencer em Doha e o primeiro Grand Slam do ano, em Austrália, ganhando essa final precisamente a Andy Murray. Seguiram-se vitórias importantes em Indian Wells, Miami e Madrid, antes de vencer em Paris, naquele que foi, provavelmente, o mais simbólico e emotivo título de Djokovic. Ao ganhar Roland Garros, após perder as finais de 2012, 2014 e 2015, Nolan imortalizou-se no restrito lote de jogadores que completou o Carreer Grand Slam. A vítima foi, outra vez, Andy Murray. Djokovic é, provavelmente, o grande rival do britânico. Em 35 encontros que ambos disputaram o sérvio ganhou 24.

As derrotas para Nolan nas finais de Melbourne e Paris foram um golpe duro para Murray. E é também isso que torna esta conquista algo de especial. Chegar ao final de um ano como este, onde o maior adversário parece mais vigoroso do que nunca, com vitórias retumbantes a meio do percurso, e alcançar, ainda assim, a liderança mundial, só está ao nível que quem coloca diariamente, a cada treino, a cada jogada e em cada jogo, paixão pelo desporto. Murray recompôs-se e Djokovic começou a descer o seu nível, com algumas derrotas surpreendentes. De Junho atá aqui, o sérvio venceu apenas o torneio do Canadá. Murray soube ser consistente, pensou jogo a jogo, torneio a torneio e a janela de oportunidade surgiu. Para isso o escocês tinha que chegar à final do torneio de Paris. A desistência de Milos Raonic, nas meias-finais, foi o necessário. “Nunca pensei chegar a número um do mundo. Têm sido tantos anos de trabalho e tão difíceis devido ao alto nível dos meus adversários”, desabafou Murray, que, semanas mais tarde, defendia a sua nova condição no Masters Final. E, no derradeiro jogo, Murray e Djokovic reencontraram-se como que discutindo quem era o melhor de 2016. Afinal, foram os dois tenistas que mais venceram no ano e o torneio reunia os melhores entre Janeiro e Dezembro. A coroa de rei do ténis estavam também em jogo. E se Djokovic começou melhor 2016, Murray confirmou a tendência de que é o tenista em melhor forma no circuito. Venceu por 2-0 (6-3 e 6-4). O coroa ficara gravada definitivamente na cabeça do escocês.

Tendo em conta os anos e o trabalho que Murray teve para chegar aqui, tendo em conta o seu perfil, não é expectável que o reinado do escocês seja efémero. Andy já tinha feito história ao liderar a vitória na Copa Davis para o Reino Unido, que agora se pode orgulhar também de voltar a ter um número um, o primeiro na Era moderna.

A coroação de Murray é também a coroação do treino, da persistência e preserverança. E é sobretudo a prova de que sem trabalho, o talento de nada serve. Longa vida ao Rei.

djokovic-murray-tennis_3364818
Djokovic e Murray continuarão, em 2017, a discutir o trono do ténis mundial


Entre na discussão


Quem somos

É com Fair Play que pretendemos trazer uma diversificada panóplia de assuntos e temas. A análise ao detalhe que definiu o jogo; a perspectiva histórica que faz sentido enquadrar; a equipa que tacticamente tem subjugado os seus concorrentes; a individualidade que teima em não deixar de brilhar – é tudo disso que é feito o Fair Play. Que o leitor poderá e deverá não só ler e acompanhar, mas dele participar, através do comentário, fomentando, assim, ainda mais o debate e a partilha.


CONTACTE-NOS



newsletter