21 Ago, 2017

A sombra de um campeão

André Dias PereiraOutubro 16, 20165min0

A sombra de um campeão

André Dias PereiraOutubro 16, 20165min0

Não é o mais popular ou o maior vencedor. Tão pouco é a maior referência do seu país na modalidade. Nunca foi número um do mundo. Nem número dois. E raramente é o primeiro nome que vem à cabeça quando se pensa num favorito para vencer um major. Apesar de tudo, Stan Wawrinka está a um Grand Slam de se completar o carreer e gravar para sempre o seu nome entre os maiores na história do ténis.

O dedo indicador da mão direita apontado para a cabeça. O gesto já se tornou um clássico. Um ícone para Stan Wawrinka em representação da sua força mental, uma das suas principais armas em court. Nem podia ser de outra maneira. Só desenvolvendo um grande trabalho mental e uma gigante força de vontade poderia intrometer-se entre os maiores de uma das melhores gerações da história do ténis. Sendo contemporâneo e compatriota de Roger Federer, Stan parecia destinado ao papel secundário no circuito. O tempo tem mostrado que não é bem assim.

Stanislas Wawrinka, 31 anos de idade, não é o mais popular e também nunca foi o número um do mundo. Mas John McCanroe, antigo líder da hierarquia mundial, considera-o um dos mais completos tenistas do circuito. E não é para menos.  O seu palmarés conta com três Grand Slam em pisos diferentes. Australia (2014), Roland Garros (2015) e US Open (2016). Se vencer o torneio de Wimbledon, passará a integrar o restrito lote de atletas a completar o carreer Grand Slam, hoje composto por Roger Federer, Rafael Nadal, Novak Djokovic, André Agassi, Fred Parry e Roy Emerson.

Dos seus quinze títulos conquistados no circuito, onze foram nos últimos três anos, entre eles os três Grand Slam. Talvez o segredo do seu sucesso possa ser encontrado nas palavras que proferiu após vencer (outra vez) Novak Djokovic numa final, desta vez no US Open este Verão. “És um grande campeão. Por tua causa hoje sou quem sou”. Quando um grande torneio começa, o nome de Wawrinka normalmente figura entre os favoritos, mas raramente numa primeira linha. O helvético cresceu no circuito a ver Federer a tornar-se no maior de sempre e Nadal a superar-se fisicamente para atingir também um nível estratosférico. Depois, acompanhou a ascensão e a consolidação de Novak Djokovic e o surgimento de Andy Murray. Stan jogou, perdeu, caiu mas nunca atirou o tapete ao chão. O ponto de viragem, admite, teve lugar em 2014 quando venceu Novak Djokovic no Australian Open. “Foi aí que comecei a ser duro comigo mesmo. Se quero realmente ter chance com jogadores de topo, tenho que estar preparado mentalmente para isso”. O título alcançado nesse torneio, frente a Nadal, também ajudou. Foi o seu primeiro título de Grand Slam e a oportunidade de mostrar ao mundo que há outro suíço capaz de vencer os principais torneios. “Todos estão habituados a ver Federer em fases finais, não a mim”, disse na altura Wawrinka. Esta foi a primeira vez desde 2009 que um tenista fora do Big-4 (Djokovic, Nadal, Federer e Murray) venceu um major.

Mesmo como outsider, Wawrinka sempre se mostrou capaz de vencer qualquer adversário em court. Já venceu cinco vezes Djokovic, três Nadal, três Federer e sete diante Andy Murray. É número três mundial e já acumulou mais de 22 milhões de dólares em prémios ao longo da carreira.

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Stan e Federer, uma parceria que valeu o Ouro Olímpico e uma Copa Davis à Suíça

A ASCENSÃO E A RELAÇÃO COM FEDERER

Stan, the man. É assim que também é conhecido este helvético, cujo nome é de origem polaca, apesar de o pai ser alemão e a mãe suíça. Aos 15 anos deixou a escola, pelo menos de forma presencial, para perseguir o sonho de se tornar em um tenista profissional. Em 2003 sagrou-se campeão de Roland Garros e chegou a sétimo entre os juniores. O seu primeiro título como profissional teve lugar em 2006, na Croácia. Nesse ano terminou no top-40 e no seguinte continuou a galgar posições. Em 2008 jogou ao lado de Roger Federer, alcançando a medalha de ouro em pares, nos Jogos Olímpicos de Pequim. A parceria com o rei do ténis suíço viria a dar mais frutos, em 2014, quando os dois lideraram a Suíça ao inédito título da Taça Davis. A relação entre ambos, contudo, nem sempre foi a mais pacífica. Em 2014, por exemplo, em vésperas da final da Copa Davis, de acordo com o Daily Mail os dois compatriotas terão discutido no hotel, na sequência de um desentendimento de Stan com a mulher de Federer, Mirka, que o terá provocado. Discussões à parte, os dois jogadores estiveram fora dos Jogos Olímpicos este ano no Rio de Janeiro.

O ano de 2015 está a ser tão bom como o ano passado, quando alcançou quatro títulos. Para além do US Open, Wawrinka venceu também em Geneva, Dubai e Chenai. Afastado recentemente do torneio de Xangai, perante Gilles Simon, tem ainda um importante título em disputa. O Masters no final do ano. Federer passará o ano em branco, já que não jogará mais em 2016.

Actualmente com 5910 pontos no ranking ATP, o número três mundial está longe de Murray (9845) e Djokovic (13540) parece inalcançável. No entanto, aos 31 anos de idade, Stan ainda tem muito para conquistar na carreira. Mas independentemente do que aí vem, Wawrinka conseguiu deixar a sombra a que parecia destinado a ficar. E isso está-lhe no corpo, no suor e também tatuado no braço, onde se pode ler o pensamento de Samuel Beckett: “Ever tried. Ever failed. No matter. Try again. Fall again. Fail better”.


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