23 Ago, 2017

Fotografia no Mar, quem são os homens por detrás das lentes – Ricardo Bravo

Palex FerreiraJunho 30, 201714min0

Fotografia no Mar, quem são os homens por detrás das lentes – Ricardo Bravo

Palex FerreiraJunho 30, 201714min0

É uma realidade que já ninguém passa despercebido, os fotógrafos costumam estar sempre no local certo à hora certa. Mas uns parecem ter outros ângulos diferentes, e cativam o público através de fotos nas principais publicações mundiais.

Nos últimos anos, passaram a fazer parte do crowd na água, já em Pipeline (famosa onda da ilha Oahu-Havaí) eram muitos colocados estrategicamente para tirar a melhor foto duma sessão.

 

Kelly Slater perante um “crowd” de fotografos. Fonte: Stabmag.com / Ryan Miller/ Redbull.com/surfing

 

Para tirar aquela foto melhor, foram arranjando melhores ângulos, outro tipos de lentes. E no final surgem fotografias mágicas que qualquer surfista / bodyboarder / longboard e outros desejam pagar para ter expostas na sua vida.

Uns fazem disso vida, outros são fotógrafos profissionais que juntam outros trabalhos de fotografia no seu espólio de imagens. Fiz uma escolha, entre os fotógrafos que conheço melhor, e pessoalmente, para entender o que os levou a mudarem da prancha para a fotografia. E trago a primeira parte hoje!

Lembro-me de um fotógrafo que tirava as fotografias do bodyboard nacional, o meu amigo Pedro Crispim, bodyboarder da antiga, que se dedicava a gravar nas suas lentes as imagens dos melhores atletas nacionais e internacionais, ainda de forma analógica.

Crowd, de surfistas e fotógrafos, é uma realidade hoje. 

Atualmente, vem-me à cabeça alguns talentosos fotógrafos que se mantêm ativos nesta área da fotografia e das ondas. Fui até eles para lhe colocar umas questões sobre esta forma de captar novos ângulos de surfistas no “nosso” espaço sagrado, que é o mar.

Poderia ter  colocado aqui mais fotógrafos, mas a ideia do artigo foi colocar de outras zonas de ação (Caparica por exemplo, temos outros fotógrafos, como o Pedro Morais (XtremePhotography), Nuno Fernandes (Water Visuals), Romeu Ribeiro (WalurBeachHouse), entre outros).

Hoje ficas com Ricardo Bravo!

Os fotógrafos e o surf

Tiago Pires sob o olhar de Ricardo Bravo. Foto: RicardoBravo.pt

Quem nunca quis ter a foto de surf/bodyboard tirado dentro de água? Pois são na grande parte “esquecidos” após a foto ou filme. Todos os surfistas querem ter uma fotografia a surfar, mas dentro de água tem outro encanto.

Existem alguns que já se dedicam a tirar cada vez melhores fotos dentro de água e a malta que desliza nas ondas adora isso,  até compram fotografias de surf, negócio que vem crescendo de ano para ano, tal como a população que se dedica a esta actividade que tanto prazer nos dá.

A evolução tecnológica veio aumentar a possibilidade de termos altas fotografias/filmagens no nosso ecossistema, as máquinas evoluíram, ficaram com mais mobilidade, caixas estanques, lentes todas “xpto”, GoPros em muitas pranchas. Todos queremos a tal foto na água.

Fomos procurar alguns fotógrafos conhecidos do mundo do surf, nomes como Ricardo Bravo, João “Brek” Bracourt, Nuno Fontinha, Luís Bento, entre outros tantos que não conseguiram dar o seu contributo para este artigo de opinião.

Se nós enquanto surfistas (englobando tudo e todos que deslizam nas ondas) às vezes custa-nos levar com as ondas, o que dizer dos fotógrafos que ficam grande parte do tempo, na zona de impacto? A meu ver, devem sair da água com o cartão cheio e o corpo bem massajado com água salgada (risos), mas as fotos ficam boas, depois de escolherem entre centenas, porque hoje me dia uma máquina dispara centenas de fotos em segundos e no meio dessas, estará aquela foto de luxo.

O investimento de um fotógrafo, deve ser enorme, porque tudo nesse campo da imagem (fotografia/filme) é caro, adicionando os programas de ajustamento de imagens (Adobes, entre outros), e que ainda se sujeitam a levar com um gajo em cima e perder o material ou danificá-lo em nome de uma grande foto de gala.

Ricardo Bravo. “A função de um fotógrafo é conseguir imagens para transmitir uma ideia…”

fp Há quanto tempo fazes surf/bodyboard?

RB: Para o ano celebro 30 anos de bodyboard e é para continuar com umas incursões ao bodysurf nos intervalos.

Visão de peixe. Foto: Ricardo Bravo

fp Deixaste de surfar, ou manténs essas actividades de fotografias e surfar umas ondas?

RB: Entre trabalho e família não é fácil ir tantas vezes como gostaria, mas tento ir pelo menos uma vez por semana.

fp Como surgiu essa paixão da fotografia?

RB: Não sei bem, foi acontecendo…já tirava umas fotografias por brincadeira, mas quando terminei o liceu acabei por experimentar um curso de fotografia. Gostei tanto que fui tirar outro mais completo e a partir daí passei a ter bases técnicas e artísticas que contribuíram decisivamente para gostar tanto de fotografia.

fp Onde gostas de fotografar mais?

RB: Não penso muito nisso. Pode ser no mar ao nascer do dia, como em minha casa. Depende da luz, do momento que estou a viver ou simplesmente do estado de espírito.

O surfista, a onda e o fotógrafo. Foto: Ricardo Bravo

fp Como foi começar, quem foram as grandes inspirações para chegares onde chegaste e seguir alguns dos melhore surfistas dentro de água?

RB: No início passava horas nos pontões da Caparica a tentar apanhar aqueles momentos de surf e bodyboard…depois aos poucos fui tendo algum trabalho publicado na Surf Magazine, Surf Portugal e Bodyboard Portugal e fui conhecendo as pessoas. A primeira vez que estive nos Coxos foi o Bubas que me levou, é um bocado ir a um estúdio de fotografia pela primeira vez, porque ali tudo se conjuga, tanto pela qualidade das ondas como pela possibilidade de fotografar de diversos ângulos. Na Costa fotografava muito com o Bubas e com o Frey Tuck que sempre tiveram um estilo muito bonito. O Tiago Oliveira também era uma referência pelo estilo a surfar, algo que sempre valorizei muito, mais até que a performance. Entretanto estava a geração do Tiago Pires a despontar e acabei por fazer o meu percurso um bocado em paralelo com o deles, ainda que sempre mais “caseiro” porque embora goste de viajar, sinto-me muito bem em Portugal. Temos muita sorte com estas praias, o clima, a luz…. Acho que estes factores também me ajudaram no meu percurso. O resto tem sido paixão e dedicação.

fp Já deves ter investido uma pequena fortuna em material, depois como é colocar material tão caro dentro do mar?

RB: Gasta-se realmente muito dinheiro, mas a maior parte das compras são completamente racionais, é um investimento. Mesmo o que não é utilizado na água, só por estar na praia é sujeito a um desgaste intenso – o ar do mar é terrível para o equipamento fotográfico.

fp Já perdeste dentro de água algum material?

RB: Já perdi a conta…várias máquinas e objectivas.  Faz parte da profissão e quem não estiver disposto a correr esse risco, nem vale a pena entrar na água. Acontece a todos os fotógrafos.

fp Numa sessão, o que é que te dá mais prazer?

RB: Conseguir uma boa imagem. É só isso e já é muito…

Ricardo Bravo na sua “secretária de trabalho” Foto: Ricardo Bravo

fp Qual a foto que falta teres?

RB: Todas. Não tenho nenhuma foto que posso dizer que é perfeita. Há sempre espaço para melhorar, podemos sempre fazer melhor. No mar tudo se altera, todos os dias são diferentes e nós enquanto pessoas também mudamos muito ao longo da vida e por consequência o nosso olhar vai evoluindo, a nossa interpretação do que estamos a fotografar altera-se com o passar do tempo e o acumular de experiências. A paternidade, por exemplo, mudou completamente a forma como vejo as coisas. A dada altura recuperei uma ingenuidade, uma capacidade de continuar a ver coisas novas em sítios onde já tinha fotografado inúmeras vezes, que pensava já ter perdido.

fp Quem é ou foi o surfista que te deu mais alegrias fotografar até hoje?

RB: Trabalho com muitos surfistas diferentes, é um desporto individualista e como tal acabas por conhecer todo o tipo de pessoas com atitudes e capacidades completamente distintas. Para mim o desafio acaba por ser encontrar o caminho para conseguir trabalhar da melhor forma com cada um. Claro que pelo caminho conheces pessoas especiais que se tornam amigos para a vida.

fp Um fotógrafo na água passa muito mal, debaixo das ondas? (Fala um pouco das sessões de inverno quando o frio se instala).

RB: Fotografar na água é sempre um desafio na medida em que não controlas quase anda. Preparas o equipamento, tentas posicionar-te no melhor local, mas estás condicionado pelas correntes, marés, ondas e até pela maior ou menor vontade do surfista estar disposto a sacrificar algumas ondas boas só para conseguirem uma aquela fotografia especial. Ao mesmo tempo são estas variáveis que tornam esta actividade tão especial. Na questão do frio, sinceramente acho que não temos frio a sério em Portugal. Ok, há um dia ou outro em Janeiro em que realmente é desconfortável, mas nada que um fato de 5mm, um gorro e umas luvas não resolvam.  Até nesse aspecto somos uns privilegiados em Portugal.

fp Como conseguiram vingar no mercado cada vez mais tecnológico, e com mais pessoas a tentarem esse tipo de trabalho?

RB: A evolução da fotografia digital trouxe realmente mais gente para o mercado porque passou a ser mais fácil tirar uma boa fotografia, mas um fotógrafo profissional tem que o conseguir de forma consistente e não apenas fazer uma boa imagem de vez em quando. Embora a base seja essa – produzir trabalho de qualidade de forma consistente – há uma série de outros factores que são decisivos para sobreviver no mercado e que passam pela relação com os clientes, capacidade de adaptação a cada situação que surge, cumprimento de prazos, etc. Fotografar bem é a base da pirâmide, mas é preciso construir o resto…

fp Para ti quem é o melhor fotógrafo e que características deve ter um bom fotógrafo na água?

RB: Há vários que considero referências, como Brian Bielmann, Jon Frank, Ted Grambeau, Joli, Art Brewer, Tod Glasser, Morgan Maassen e muitos outros. Cada um com o seu estilo.  Alguns destes nem fotografam na água, que é uma confusão recorrente na fotografia de surf. A função de um fotógrafo é conseguir imagens para transmitir uma ideia, ajudar a vender um produto, passar uma emoção, dar a conhecer alguém… e pode consegui-lo com um telemóvel, uma super objectiva profissional, um drone ou a fotografar na água. Estas são as ferramentas à sua disposição e cabe-lhe decidir qual a melhor para cada situação e em função das suas capacidades.

Relativamente à segunda parte da tua pergunta, um bom fotografo na água precisa de conhecer bem o mar, estar bem fisicamente e dominar as técnicas fotográficas.

fp O que achas do trabalho de Clark Little, gostavas de ter aquelas ondas (waimea ShoreBreak para fotografar) ao pé de casa?

RB: Acho que é admirável se pensarmos no que envolve em termos físicos e curioso em termos conceptuais, já que ele acabou por especializar-se em fotografar o mesmo tema no mesmo local e com resultados surpreendentes. Pessoalmente interesso-me mais pela linha de trabalho do Jon Frank, que é uma visão mais poética do mar com que me identifico bastante.

Tubo! Foto: Ricardo Bravo

fp Como vês o futuro da fotografia de surf em Portugal daqui a 10 anos?

RB: Vai continuar a existir, não sei se profissionalmente também ou apenas a nível amador. Acho que ninguém pode prever.

fp Que futuro tem a fotografia no surf?

RB: Estamos a viver uma fase de transição em que os conteúdos de vídeo são cada vez mais apelativos, o que não invalida o lugar da fotografia, mas eventualmente, tira-lhe algum protagonismo.  Sendo tudo imagem, são formas diferentes ler o mundo que nos rodeia e se calhar para consumo imediato – redes sociais – o vídeo vai continuar a ganhar terreno nos próximos anos, mas enquanto forma de comunicação ímpar a fotografia vai estar sempre presente. Uma fotografia por si só, ou acompanhada por uma boa história, é algo que nos deixa a imaginar um mundo de possibilidades…”

Agradecemos a disponibilidade do Ricardo Bravo e convidamos a visitar o site dele http://www.ricardobravo.pt/, e também o podes seguir no instagram.com/ricarbravo/

Para a semana, mais um nome estará à conversa connosco.

Aloha

 

Palex

Fairplay

Theboardhole.com/


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