20 Out, 2017

Surf: muito mais que “simples” ondas

Eduardo MenezesFevereiro 25, 20178min0

Surf: muito mais que “simples” ondas

Eduardo MenezesFevereiro 25, 20178min0

“Ondas artificiais”, um modelo muitas vezes defendido como futuro e evolução do surf; igualmente criticado por sua falta de essência, daquilo que é o surf e a relação com a natureza. Então, por que imitar a natureza instiga tanto o ser humano? Se há tanto mar e ótimas ondas, por que razão “inventar” ondas?

Em muito para a atenuar necessidades geográficas e climatéricas necessárias para esse desporto, possibilitando a prática dessa modalidade ao longo do todo o ano, 24 horas por dia e em qualquer ponto do mundo. Aumentando a inclusão e disseminação dessa modalidade desportiva.

E se partimos para um foco comercial, essas tais piscinas seriam atrações turísticas em parques aquáticos para aqueles que gostariam de experimentar essa modalidade sem o risco do mar e acompanhada por profissionais. Como até mesmo levar a locais “sem ondas” campeonatos de surf ou acabar com imprevisibilidade dos dias de competição, podendo ser um produto mais fácil de vender aos medias e a organizadores de eventos desportivos. Competições com horário e ondas agendadas vão ao encontro da tendência de venda de broadcasting e patrocínios, dado a certeza de um evento com ondas boas, com horário fechado para transmissão, sendo um produto sem grandes margens de imprevistos.

Wadi Adventures – Abu Dhabi- [Imagem: amatraveller.com]
Já em âmbito profissional e de formação, as ondas artificiais poderiam ser o complemento do treino, para aperfeiçoamento de detalhes, com uma constância maior e sem o desgaste das longas viagens além do já falado “surf no ano todo”. Construções de centros especializados em diferentes regiões – mesmo que afastadas do mar – e métodos-padrão de treino poderiam ser replicados. Com isso, muito provavelmente o mundo profissional se desenvolveria de outra forma e mais talentos poderiam surgir.

Motivações diversas sempre incitaram o desenvolvimento da indústria de ondas artificiais e sempre trazem à tona alguma polémica ao universo do surf.

Então nesses casos, a piscinas seriam uma solução? Talvez, o surf em locais artificiais apresenta uma maior segurança, inclusão e disseminação do desporto, organização na “ordem de prioridade”, menor esforço para chegar ao pico, além de ondas praticamente iguais – apesar da elevada velocidade e de algumas variações -. Acrescente a isso, um ano completo de surf e água mais quentinha. Em competições teríamos provas com horários marcados sem necessidade de dias de espera, chamadas, day off e em locais de mais fácil acesso. Parece o mundo perfeito, tanto para profissionais como para amadores.

Ondas artificiais pelo mundo

Há muitas ondas artificiais ao redor do mundo, algumas melhores que outras, em semelhança às naturais. Como no deserto da cidade Al Ain, em Abu Dhabi, o Wadi Adventure, um gigantesco parque aquático que compreende diversas piscinas e rios, com atividades como surf, rafting e kayak por exemplo. A Europa não fica de fora, com “ondas” no Reino Unido e Espanha, Surf Snowdonia Adventure Park e Wave Garden, respetivamente, atraindo surfistas a tais regiões na busca por ondas e diversão.

Mesmo que piscinas com ondas já existissem, nunca foram algo que trouxesse muitas atenções ao mundo do surf, porém muitíssimo se falou quando o mito Kelly Slater lançou ao mundo vídeos em ondas longas e tubulares, numa piscina de ondas artificiais localizada na Califórnia. Estava aí, um paradigma quebrado, ondas que satisfaziam atletas de elite, com ótima formação, velocidade e constância.

A Kelly Slater Wave Company (KSWC), já adquirida pela World Surf League (WSL), demonstrou que o surf artificial é mais que uma realidade. Muitos atletas da elite fizeram testes a convite de Slater e patrocinadores, produzindo otimos vídeos, drops e tubos. Podendo ser verificado nos vídoes e declarações, que surfar uma onda artificial aplica um grau, até certo ponto, elevado de dificuldade, dada a velocidade da onda. Estaria aí o produto perfeito para o surf ou aperfeiçoamento do surf profissional?

A tendência de ondas artificiais em campeonatos profissionais seria uma mais valia para candidaturas a jogos e outros eventos de desporto radical, como ocorreu em propostas e possibilidades de viabilizar a inclusão do surf no Jogos Olímpicos.

O mar e suas nuances

Apesar da massificação da prática e, de certo modo, da cultura do surf, surfar consiste em muitos detalhes, para além de dropar uma onda, encaixar um aéreo ou sair no spray de um tubo. A arte de surfar, desde um begginer (just like me), é conseguir “ler” e interpretar o movimento do mar, as marés, a formação das ondas, o sentido delas, encontrar e chegar ao pico correto e muitos outros desafios que Netuno te impõe numa surfada. Para além do vento e suas alterações (que já é uma outra história) e Deus.

O surf no mar consiste em muitos desafios que são tão grandes quanto ficar em pé e deslizar onda abaixo, e um novato sempre sofre mais, ainda mais para aqueles que começaram tardiamente nesse desporto. A técnica pode ser aprendida em escolas, com dicas de internet ou amigos, mas a leitura e sabedoria do mar…bom isso só com feeling, muitas horas de surf e ondas na cabeça para aprender.

Riscos e desafios. [Imagem: surfexperience.blogspot.com]
Além disso, quem nunca sentiu aquela dificuldade em chegar ao outside ou se arriscar mais do que deveria? Tomar ondas na cabeça, remar, remar, remar e ir para trás, fazer bico de pato, cair e rolar ondas abaixo, ir contra as rochas, pisar em pedras, mariscos e por aí vai…Fora o facto de que quando chegam ao pico, tem que estar no local certo, na hora certa e digamos assim na sua “prioridade” de onda. Surfar é muito mais do que se colocar em cima da prancha!

Mas fique calmo, essas dificuldades do surf e a sabedoria de ler o mar, não é um “privilégio” de surfistas não profissionais ou de fim-de-semana, pois no circuito mundial é muito fácil presenciarmos situações arriscadas e de acidentes seguidos de lesões, as vezes graves. E casos de leitura perfeita e espera pela onda certa para um nota perfect 10, ou um erro de interpretação, uma ansiedade de pegar uma onda, mesmo com a prioridade, ocasionando uma derrota num heat ou numa etapa na onda a seguir, que teu oponente pegou.

O mar e suas mudanças, muitas vezes em questões de minutos, são um dos factores principais do surf profissional, distinguindo um ótimo de um bom surfista. Por que acham que Kelly Slater domina as etapas de Pipeline (HAW) ou os Wildcards locais acabam por muitas vezes surpreender nas etapas em seus quintais?

Numa piscina ou tanque, a leitura do mar não é mais precisa, as ondas são basicamente iguais, o ponto para dropar é sempre o mesmo, o cansaço é menor, já que não há repuxo, nem onda na cabeça para chegar ao outside. A radicalidade se perde, como também a emoção, o medo do fundo de corais, aquela onda única e, claro, muito do espectáculo.

Então qual a graça?

Quase nenhuma, pois apenas dropar um onda nunca é o suficiente.

A paz do outside. [Imagem: Liquidsaltmag.com]
Por mais que uma onda artificial possa ser perfeita, tanto para profissionais como para amadores, nada irá chegar perto daquilo que o surf traz de melhor e como muitos dizem, não é água com açúcar que acalma, é água com sal.

O surf, por si só, é um estilo de vida, sendo muito mais que um simples desporto. É a paz do outside, é ver um amigo surfar a melhor onda da tua vida, é se assustar com teus wipeouts, é verificar o swell e torcer por condições épicas para seu surf, é ter contacto com a natureza. E com certeza é sonhar em viajar o mundo com uma prancha, por locais paradisíacos e radicais; que te traz paz e adrenalina. É ir atrás de sua onda (natural) perfeita.


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