25 Nov, 2017

Uma Geração para o “Amanhã” – O Rescaldo do Campeonato da Europa sub-18

Francisco IsaacAbril 20, 20179min0

Uma Geração para o “Amanhã” – O Rescaldo do Campeonato da Europa sub-18

Francisco IsaacAbril 20, 20179min0

As participações de Portugal no contexto europeu fecharam no Sábado passado, com os Lobos a terminarem em 4º lugar no Campeonato da Europa sub-18. O que fica, as impressões finais e qual será o futuro?

Portugal é a 3ª melhor selecção europeia de rugby de sub-18 após o término do Campeonato da Europa Open Invitational, em que participaram as selecções dos EUA, Japão e Canadá.

Se incluirmos as Ilhas Britânicas e a Itália, Portugal está em 8º, sendo a formação com menos investimento, nº de pessoas envolvidas e menor tempo para preparação destes torneios. Porém, a estrutura actual estável, a preocupação com o desenvolvimento de atletas (e pessoas) e o interesse pelo rugby de formação (dar um grande mérito às Associações de Rugby assim como os clubes que apostam nesta secção) demonstra que Portugal tem mais que “pernas para andar” no futuro próximo.

Ao fim de vários anos, as gerações que foram aos torneios internacionais desde 2015 (até agora) tiveram direito a estar sobre o spotlight da comunicação, da divulgação, ganhando eles próprios uma voz que pouco ou nada tinham. Pode parecer um ponto sem importância, já que não é algo que entra directamente na performance dos jogadores ou nas decisões a tomar dentro de campo.

Porém, devemos discordar. Quem conhecia os vários jogadores da selecção? Que clubes pertenciam/pertencem, de onde vieram, qual a sua escola, como foi a sua formação, quem jogou nos jogos, etc. Isto eram informações que não chegavam ao público, o que desencorajava, desde logo, um interesse pelas selecções de sub-18 ou sub-20, ou qualquer outra de formação.

Durante 6 meses, o Fair Play conversou com vários atletas dessas selecções, acompanhou o seu crescimento e deu-lhes voz (assim como a Federação Portuguesa de Rugby, um dos aspectos mais positivos da actual direcção). Manuel Nunes e Diogo Cabral foram o “foco” da nossa atenção, com os seus Diários de Atleta (que podem visitar em: XXX), explicando o processo de treinos, o seu dia-a-dia, as suas dificuldades e objectivos.

A conquista do 4º lugar no Campeonato da Europa (ficaram a 7 pontos da reviravolta frente ao Japão, num encontro que terminou 22-16) volta a dar um estímulo de confiança com o que se faz no seio do rugby português, apesar de podermos melhorar muito em vários aspecto… mas sem investimento e uma maior cumplicidade entre “parceiros” do rugby Nacional será impossível atingir outro patamar.

Não obstante, a equipa de Rui Carvoeira, Francisco Branco e João Mirra realizou boas prestações e deu a resposta a muitos que diziam que não era uma boa selecção ou conjugação de selecções.

Desde Diogo Cabral (boas exibições do centro do Belenenses), Manuel Nunes (o melhor de Portugal no Campeonato da Europa), José Roque (o 8 bem que gosta de andar para a frente), José Costa (uma força da Natureza, que poderá vir a dar um jogo excelente para o futuro) a Duarte Matos (qualidades muito interessantes do defesa), entre os vários outros, os sub-18 deram provas que são de confiança, têm capacidade de luta e merecem ter atenção.

Nesse sentido o Fair Play foi recebe-los ao aeroporto no dia 16 de Abril, em pleno Domingo de Páscoa. Cansados, mas com um sorriso na cara, os atletas portugueses foram recebidos numa boa festa, com várias caras conhecidas a marcarem presença no aeroporto e que deram mais um motivo de alegria a quem tinha acabado de chegar a “casa”.

Diogo Cabral e Manuel Nunes prestaram “declarações” ao Fair Play, com um vídeo “rápido” que toca em alguns pontos do Campeonato da Europa.

Após, o “fecho de emissão”, notámos a forma como os atletas se despediram uns dos outros… amizade, compromisso e lealdade. Estes têm de ser três pontos coesos e defendidos dentro das selecções, é a única forma de se construírem grupos sólidos e competentes, que se entreguem nos jogos. Conhecer o colega do lado vai-me ajudá-l oa compreender melhor e a sacrificar-me com mais facilidade por ele.

Mas esta ideia utópica do desporto e, principalmente, do rugby não é algo que vá acontecer muito. Dar mérito a estes jogadores, que sabem diferenciar adversários de inimigos, de manterem amizade e comunhão entre eles e de quererem jogar uns contra os outros tanto como querem jogar juntos.

Para fechar o capítulo dos artigos de acompanhamento de formação, conversámos com Rui Carvoeira, um dos seleccionadores nacionais dos sub-18, tendo-lhe lançado três perguntas.

4º lugar, várias estreias com a camisola das “Quinas” e uma experiência nova de jogar contra equipas de outros Continentes. Qual é o rescaldo que faz da participação? Podia ter corrido melhor?

RC. Em termos de resultado final podia ter corrido melhor dado que, na disputa para o 3º lugar acabámos por perder o jogo por apenas 6 pontos, apesar de não termos conseguido impor o nosso jogo e colocado problemas ao adversário durante a maior parte do tempo.

Por outro lado, e tendo em conta que vemos estas competições como momentos muito importantes de crescimento e aferição do potencial técnico, tático, físico e mental dos jogadores deste escalão no seu percurso para o alto rendimento, o balanço final foi positivo. Defrontámos equipas muito fortes, com diferentes estilos e capacidades que nos foram obrigando (a todos, jogadores e staff) a constante estudo e adaptação. E a presença neste patamar mais elevado da competição europeia para este escalão foi de uma exigência  de superação muito enriquecedora e uma grande lição em todas as áreas da gestão de grupos desportivos.

Esta mescla geracional era algo diferente da de 2016, porém tem qualidades e valências que valem a pena salientar. Quais? E há espaço para um crescimento acentuado?

Como já fomos dizendo, tratou-se da equipa mais jovem dos últimos anos a participar nesta competição. Estiveram no grupo final 6 jogadores de 1ª ano (nascidos em 2000) e mais 8 participaram regularmente no processo de preparação. Há um ano atrás ainda jogavam pelos respetivos clubes no Campeonato Nacional de Sub-16.

Se por um lado isso pode trazer algumas insuficiências na maturidade, fisicalidade e estabilidade de processos que este nível de competição exige, por outro é revelador do potencial que a próxima geração já apresenta e que teve oportunidade de enriquecer e consolidar neste processo de preparação e nesta competição.

Saliento como muito positivo a performance da equipa nas fases de lançamento de jogo (alinhamento e formação ordenada), uma melhoria na utilização do jogo ao pé (tipo, pressão e organização coletiva) e uma predisposição muito interessante para a quebra da linha de vantagem junto ao ruck.

Por outro lado, não conseguimos ter um balanço positivo no ataque planeado, na organização coletiva defensiva e técnica individual de placagem e na continuidade das ações que o jogo de movimento requer.

Os últimos três anos, Portugal tem conquistado bons resultados nos torneios de formação. Houve uma mudança de modelos, de trabalho e do crescimento físico/mental dos jogadores?

Efetivamente os resultados têm sido agradáveis mas não podem ser vistos como o único indicador de “bem fazer”.

Embora o “resultadismo” seja a corrente da moda no nosso desporto, temos de ter a consciência que é o fator do treino e competição que não controlamos. Depende de muitas coisas, valor do adversário, critérios de arbitragem, nível de performance apresentado, momentos de inspiração individual e… sorte.

Disse isso a seguir à vitória sobre os EUA. Se perdêssemos não éramos os piores do mundo, tal como não passámos a ser os melhores pelo facto de termos ganho, como se veio a verificar ao repetirmos posteriormente insuficiências já detetadas nesse jogo, apesar de termos ganho.

Lutamos sempre em todos os jogos por apresentar a melhor versão possível de nós próprios, para estarmos fortes nas diferentes áreas do jogo. Mas entendemos a participação no Campeonato da Europa como uma etapa no percurso para o alto rendimento, onde procuramos atingir sempre patamares de resposta competitiva cada vez mais elevados, mas que não se encerra num resultado, seja ele bom ou mau. Neste, por exemplo, fizemos com que todos os 26 jogadores tivessem a oportunidade de representar Portugal no XV inicial.

A principal mudança está na forma séria e competente como os treinadores dos clubes têm vindo a estimular e desenvolver os seus jogadores. Os jogadores têm aparecido cada vez melhor preparados.

Da nossa parte o modelo assenta sempre no trabalho com um grupo alargado (aproximadamente 45), com igualdade de oportunidades e estimulação, e numa metodologia que tem em conta não apenas a dimensão técnico-tática mas o jogador e o seu desenvolvimento pessoal como centro do processo de transformação.

O nosso foco está no jogador e no que podemos contribuir para um futuro melhor para o rugby português.

E não posso deixar de referir a competência e a total disponibilidade e dedicação do Pedro Rodrigues, do Paulo Vital, do Francisco Branco, do João Mirra e do Carlos Castro, no trabalho desenvolvido ao longo desta época.

 O Fair Play regressa com os seus artigos de acompanhamento, promoção e análise ao rugby de selecções de formação em Julho, na antecâmara para o Mundial sub-20 a se realizar no Uruguai.

Um obrigado (Foto: Pai Conde Fotografia)


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