18 Ago, 2017

A sombra dos All Blacks chega a Paris – Jogos de Outono

Francisco IsaacNovembro 25, 201610min0

A sombra dos All Blacks chega a Paris – Jogos de Outono

Francisco IsaacNovembro 25, 201610min0

Derradeiro jogo do Tour da Nova Zelândia pela Europa termina em Paris frente aos Les Bleus. Conseguirá Novés surpreender o Mundo? Ou será mais um jogo “fácil” para os All Blacks? Um jogo com mais de 110 anos de História, transmitido na Eurosport1 no dia 26 de Novembro às 20:00

All Blacks Les Bleus, um duelo centenário pela Glória. Desde 1906 que os franceses desafiam os neozelandeses a cada novo ano que passa (houve hiato entre jogos, com os maiores a verificaram-se entre as duas Grandes Guerras, ou seja, 1906-1924 e 1925-1954). Nos últimos nove jogos, a Nova Zelândia conquistou 9 vitórias, com a última a ser um autêntico rolo compressor  em pleno Mundial de Rugby em 2015. Nesse jogo Julian Savea tratou de “imitar” Jonah Lomu, com três ensaios de grande qualidade, onde a expressividade física e o detalhe técnico do ponta, criaram sérios problemas para uma defesa débil, pouco flexível e sem a “raça” necessária para parar as intenções de vitória dos All Blacks.

A última vitória francesa foi no distante ano de 2009, quando os Les Bleus se deslocaram até Dunedin (Nova Zelândia). No dia 13 de Junho, desse ano, a França de Marc Lièvremont conquistou uma vitória por 27-22, expondo algumas das debilidades de então da Nova Zelândia. De 2009 para 2016, a França manteve, na convocatória, só um jogador: Louis Picamoles. Entre reformas, jogadores que caíram do “pedestal” do Top14 ou as sucessivas “revoluções” dentro do rugby dos Les Bleus, Louis Picamoles resistiu e voltará a jogar contra a Nova Zelândia. Maxime Médard, Vincent Clerc e François Trinh-Duc (lesionado até Janeiro) são outros três nomes que poderiam estar ao serviço da selecção para este encontro mas Novés teve outras ideias, ou pelo menos, foi forçado a mudar a equipa.

A queda de 2007 (Foto: Rugbyrama)
A queda de 2007 (Foto: Rugbyrama)

Mas o que há de especial com esta Nova Zelândia? Em poucas palavras podemos dizer que entre 2009 a 2016 conquistaram 90 vitórias em 100 jogos, um recorde único entre selecções mundiais de todos os desportos. 8 derrotas (três contra Austrália e África do Sul, uma contra Inglaterra e Irlanda) e 2 empates (sempre contra a Austrália) são o registo mais “negativo” nestes últimos sete anos, o que demonstra o espectacular trabalho de Sir Graham Henry (sobreviveu ao Mundial 2007, quando a Nova Zelândia perdeu nos quartos-de-final…contra França) e Steve Hansen. A Nova Zelândia fez jus à ideia que o Mundo tinha de si, transformando-se num “monstro” quase imbatível de “abater” com um elenco de 50 jogadores que mantêm a qualidade de jogo para jogo, mês para mês e ano para ano.

Os dois mundiais (2011 e 2015), cinco rugby championships (em oito) e vários recordes batidos espelham um domínio total por parte dos All Blacks que parece não ter data para terminar. Mas como chegaram a estes números e recordes? Já fizemos várias alusões em artigos anteriores ao facto da Nova Zelândia ter os básicos bem limados, em que os detalhes mais práticos são trabalhados ao ponto em que não há erros críticos que os impeçam de seguir no caminho da vitória. Vejamos os dados estatísticos dos últimos quatro jogos (3 vitórias e 1 derrota):

  • 2629 metros conquistados (max. contra a Itália com 1079 / min. contra a Irlanda com 470 metros);
  • 23 ensaios (max. contra a Itália com 9 / min. contra a Irlanda no 2º jogo com 3);
  • 76  erros forçados/próprios (max. contra a Itália com 22 / min. contra a Irlanda no 2º jogo com 17);
  • 535 placagens efectivas com 66 falhadas, o que perfaz 12% do número total de tentativas (max. contra a Irlanda no 1º jogo com 193 / min. contra a Itália com 71);
  • 31 turnovers conquistados;
  • Formações ordenadas com 95% de eficácia (22 em 23 tentativas bem sucedidas);
  • Alinhamentos com 90% de eficácia (31 em 37 tentativas bem sucedidas);

O que provam estes números? Eficiência, concentração, equilíbrio, consistência e um trabalho bem executado. A Nova Zelândia procura ter as fases estáticas (formações ordenadas e alinhamentos) quase nos 100% de modo a garantir uma base de saída para fases de ataque. Com Beauden Barrett essa ideia ficou ainda mais bem vincada, já que no The Rugby Championship, a Nova Zelândia marcou 38 ensaios, sendo que 20 provieram de alinhamentos (12) e de formações ordenadas (8), o que prova o trabalho exaustivo do staff dos All Blacks em ter estas “secções” na sua máxima qualidade (91% de alinhamentos conquistados e 93% de formações ordenadas ganhas).

Outro dado importante de vincar, é a forma como a Nova Zelândia dá uso aos pontapés que recebe dos adversários, verificando-se 12 ensaios dos últimos 9 jogos (excluímos o jogo da Itália) a partir desse ponto. Nisso as linhas atrasadas (maioritariamente composta por Israel Dagg, Julian Savea e Ben Smith) e o formação (melhor TJ Perenara que Aaron Smith neste ponto) conseguem transformar uma recepção num lance de perigo iminente para o adversário que teve de “despejar” a bola para o território neozelandês.

A somar a isto tudo, os avançados dos All Blacks são uma “máquina oleada” que está em perfeita sintonia com os 3/4’s, já que gostam de ter a oval na mão, sabem manobrá-la como poucos (veja-se Dane Coles, Kieran Read, Ardie Savea, Broadie Retallick ou Jerome Kaino), conquistam bons metros e têm noção de como podem fazer a diferença no espaço aberto. Dane Coles é o principal “rei” nestas características, já que é um autêntico “ponta” a jogar com a camisola nº2, provando-se como um jogador letal e fulcral para a manobra defensiva ou ofensiva dos All Blacks.

Isto explica o porquê da Nova Zelândia ser bi-campeã Mundial em título, do porquê de tornar uma situação de “aperto” numa jogada de perigo e do porquê de conseguir ganhar qualquer jogo. Para além do mais, a NZRU tem produzido inúmeros jogadores de um talento e qualidade inegável, que sabem que têm de ser os melhores na sua posição para chegarem ao nível de selecção.

Quando em 2015 Ma’a Nonu, Conrad Smith, Daniel Carter, Richie McCaw e Kevin Mealamu se retiraram, muitos temeram pelo futuro dos All Blacks… poucos meses depois surgiram Anton Lienert-Brown, Ryan Crotty, Beauden Barrett, Sam Cane e Ofa Tu’ungafasi como soluções directas ao problema, para além de Sonny Bill Williams, Charlie Faumuina, George Moala, Waisake Naholo ou Codie Taylor, jogadores que já se estavam a afirmar no universo neozelandês. E, melhor ainda, os vários jovens que despontam a cada dia como Ardie Savea, Damian McKenzie, Akira e Rieko Ioane, Vaea Fifita, Patrick Tuipulotu ou Seta Tamanivalu, vão dar outra coesão aos eleitos de Steve Hansen.

Barrett the Best Player on The World 2016 (Foto: The Guardian)
Barrett the Best Player on The World 2016 (Foto: The Guardian)

No meio disto tudo está a França que tem a missão ingrata de parar os All Blacks no Saint Denis em Paris neste sábado. Guy Novès não poderá contar com Trinh-Duc ou Jefferson Poirot, verdade, mas a chamada de Camile Lopez ou a titularidade de Charles Ollivon foram adições importantes para o jogo contra a Austrália (23-25) e que quase deram uma vitória aos Les Bleus.

A França está à beira daquilo que Novès procura, com uma equipa que sabe conquistar as suas fases estáticas e que consegue, também, “roubar” as do adversário. Frente à Austrália a França ganhou os seus alinhamentos (10) e formações ordenadas (6), o que permitiu sair para o ataque, conquistando metros e até ensaios (ensaio de Doussain veio de um alinhamento no meio-campo). A França já consegue, até, conquistar formações ordenadas dos adversários, o que penalizou a Austrália em três faltas e três pontos (Spedding e Machenaud falharam os outros dois pontapés). Por isso, será importante que mantenham a postura, concentração e qualidade exibicional que se fizeram sentir nos dois últimos jogos.

O problema dos avançados “gauleses” passa pela sua participação no jogo ao largo, que ainda está longe de ser “agradável”. Os níveis estão no “satisfaz”, o que não é positivo quando se preparam para enfrentar a Nova Zelândia. Para evitar riscos, talvez, o melhor é manter o jogo fechado, intenso e cansativo, obrigando os All Blacks a cometer erros no ruck (é o sector do jogo onde os neozelandeses cometem mais faltas e subsequentemente penalidades) e a perder a paciência, dois elementos que foram vistos em Chicago. Se Guirado e Picamoles conseguirem um equilíbrio entre “risco” de sair com a bola em direcção à linha de vantagem e de manter a oval “parada”, em certos momentos do jogo, talvez consigam bloquear o plano de Steve Hansen.

Mais atrás está uma boa linha atrasada que sabe criar, construir e executar o plano estabelecido com Wesley Fofana a assumir o protagonismo, com Lamerat e Spedding a encaixarem-se bem na lógica estabelecida por Novès. Fofana conquistou 160 metros, fez duas assistências e marcou um ensaio, para além de 6 quebras-de-linha e 9 defesas “fintados”, completando estes números com 8 placagens e 1 turnover (que deu ensaio no jogo com a Samoa). Com o crescimento de Fofana, a França conseguiu ganhar outra proporção e está mais confiante quando tem de atacar a defesa ou tem de esperar pelo ataque.

Um pouco de Fofana para quebrar os All Blacks (Foto: L'Equipe)
Um pouco de Fofana para quebrar os All Blacks (Foto: L’Equipe)

Frente à Nova Zelândia, Camille Lopez assume o lugar de 10, completando com Fofana, Lamerat e Nakaitaci o quarteto do ASM Clermont. Para além disso, Vakatawa está numa forma espectacular (quatro ensaios em dois jogos), sendo um verdadeiro perigo para as equipas que defendem de uma forma “estática” e sem pressão alta. Spedding falha o jogo, o que obrigou ao staff dos Les Bleus promover Dulin para a posição de 15, podendo ser um dos problemas da equipa francesa.

De qualquer das formas, não será uma reedição do Mundial 2015, estando uma vitória por uma margem excessiva fora de questão. A França terá poucos argumentos para conseguir conquistar uma vitória que lhe escapa desde 2009, mas fará uma exibição personalizada.

Poderão assistir ao jogo na Eurosport1 a partir das 19:45 num dos últimos jogos dos Internacionais de Outono. Não percam a possibilidade de ver a Nova Zelândia em canal aberto pela primeira vez em 18 anos!ffrnz


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