20 Fev, 2018

Sofia Nobre. “Podemos sair do Rugby mas o Rugby nunca sairá de nós!”

Francisco IsaacAgosto 21, 201711min0

Sofia Nobre. “Podemos sair do Rugby mas o Rugby nunca sairá de nós!”

Francisco IsaacAgosto 21, 201711min0
Sofia Nobre e a importância que o rugby teve para o seu desenvolvimento como atleta, pessoa, mulher e mãe fica bem patenteada nesta entrevista dada ao Fair Play. Fica a conhecer o passado e presente da jogadora do SL Benfica

Sofia Nobre, internacional por Portugal, abriu as “portas” à sua história como atleta de rugby em Portugal onde nos falou das suas colegas de sempre, os seus “primeiros passos” na modalidade e como mantém uma intensa paixão com a oval. Esta é a Entrevista em Exclusivo com Sofia Nobre, atleta do SL Benfica


Sofia potencialmente és a jogadora mais experiente a jogar nos Campeonatos Nacionais… pronta para uma nova época? E o que ainda podes trazer à modalidade?

SF. Sempre pronta, até hoje tenho sempre vontade de voltar. O que posso trazer à modalidade, é ser mais uma a jogar e a impulsionar o rugby feminino.

Sentes que a modalidade (nos femininos) cresceu nos últimos 15 anos? Houve alguma estagnação em alguns pontos ou achas que caminhamos para uma realidade boa do rugby feminino em Portugal?

SF. Acho que a modalidade cresceu bastante, mas também há quinze anos era inexistente no nosso País. A qualidade das jogadoras melhorou muito, pois inicialmente eram as que gostavam de rugby, mas com o crescer das equipas, começaram a surgir as atletas vindas de outras modalidades e o jogo e treinos melhoraram bastante. Infelizmente, nos últimos três anos o número de jogadoras diminuiu, jogávamos rugby de XIII e agora só jogamos 7s, fruto da tentativa do apuramento Olímpico. Como todos tão bem sabemos, os 7s tem características bem especificas. Na minha opinião, são um grande funil à captação de novas atletas. Convenhamos que jogar torneios durante uma época inteira torna-se pouco aliciante. Mas como sempre acreditei no rugby feminino, vou continuar a acreditar que algo vai mudar.

Como é que começaste a jogar? De onde vem essa paixão tão grande pelo rugby?

SF. Comecei a jogar pontualmente, em jogos que se faziam há muitos anos atrás. Mas foi nos Beach Rugby que comecei a jogar. Esta paixão vem de família, cresci no rugby, a ver rugby e cada vez gosto mais, uma chatice…

Recordas-te das tuas primeiras colegas e adversárias? Consegues mencionar algumas das mais importantes para ti?

SF. Em primeiro vou falar das minhas colegas de equipa e as mais marcantes foram, sem dúvida, a Filipa Jales, uma grande amiga que até hoje está ligada à modalidade, mas agora como árbitra. A Catarina Ferreira, a minha eterna capitã que deixou de jogar, porque neste momento a variante é só 7s, mas que, felizmente, dedicou-se a treinar a equipa feminina do São Miguel. Mas gostava de deixar umas palavras de agradecimento a algumas muito importantes, dentro e fora de campo, como a Minhoca, Margarida Simões, Isa Cunha, Joana Pereira e Rita Vasconcelos, muitas mais havia, me perdoem as que não foram mencionadas, mas que todas têm o seu lugar.

As adversárias mais marcantes do passado: Barbara Viana (CRAV), Isa Ribeiro (Agrária de Coimbra) Isabel “Becas” Furtado (CDUP), todas elas jogadoras de excelência. Um orgulho enorme em ter jogado com e contra elas.

Houve algum momento em que estiveste para desistir? E se sim, como é que deste a volta à situação?

SF. No inicio foi muito complicado, eu gostava muito de rugby e levava o desporto e os treinos muito a sério. Mas nem todas tinham a mesma paixão e cheguei a treinar com três atletas, na altura do GDPCC. Vivia no Estoril, treinava na Sobreda, e muitas vezes me disseram “Desiste, elas não gostam como tu…” Felizmente nunca desisti. Arrisco mesmo dizer que muitas jogavam porque lhes pedia muito para não desistirem… Ah, ah, ser persistente compensa!

Sofia Nobre ao serviço do seu SL Benfica (Foto: Franky Dumez Fotografai)

Já agora… a tua Matilde começa a despontar no rugby… que conselhos dás ou vais dar nos próximos tempos? E vai ser melhor atleta que a mãe?

SF. Neste momento tem a sua graça, vamos para os treinos juntas, treinamos na mesma equipa e vivemos a mesma paixão. Confesso que adoro e só espero que se divirta tanto no rugby como eu me diverti e divirto. Que leve o desporto a sério e seja uma atleta. Se vai ser melhor que eu? Claro, também não será difícil.

Qual é o segredo SL Benfica na variante? Como explicas este domínio tão avassalador que têm tido nos últimos 5/6 anos?

SF. O segredo foi ter a sorte de ter um pai que levou sempre o rugby muito a sério. Na qualidade de Benfiquista e dirigente, apostou em bons treinadores e numa estrutura de qualidade, com dirigentes, fisioterapeuta e nutricionista. Aliado à boa qualidade das atletas que têm passado no Benfica, as vitórias foram surgindo, com muito trabalho do grupo, porque nada se conquista por acaso.

Fala-nos de alguns episódios marcantes e divertidos da vossa equipa? Quantas digressões é que já efectuaram tanto nos XIII, 7’s e Beach Rugby?

SF. Nem sei por onde começar, são tantos felizmente…

Mas alguns que se podem referir: Como o autocarro em que regressávamos depois de um jogo na Bairrada, ter ficado avariado na bomba de serviço e viemos de boleia num autocarro excursionista de terceira idade, que até hoje falamos nisso. Fomos tão bem tratadas, comemos e bebemos de tudo. Depois de um jogo teve a sua mística.

Os Beach Rugby da Figueira são sempre TOP dentro e fora de campo. Estamos sempre com vontade de ir, é sempre muito bom para o espirito de equipa e para terminar a época.

Também a primeira vez que fomos Campeãs, organizaram uma festa tão grande em casa dos Pais Antunes, que não sei a que horas terminou. Mas terminou em grande, claro.

Já fizemos algumas digressões, fomos uma vez jogar um torneio de 7s a Sevilha e ganhámos.

Fomos duas vezes fazer jogos de XV a Espanha, uma vez a Madrid e outra a Cáceres, tudo fruto do intercâmbio de atletas de ERASMUS. Jogaram connosco, e na época seguinte fomos lá. Também saímos vitoriosas.

Ponto alto, sem dúvida as últimas três idas ao Torneio Internacional da Flandres. Não sabíamos para o que íamos e quando chegámos não queríamos acreditar. São três dias de Rugby, festa e uma prova exemplarmente organizada. Mais de mil atletas e milhares de adeptos. Existem sete campos, mas o campo da final é o mais cobiçado. Desde a primeira ida que sonhávamos em jogar ali a final, perante 5 mil pessoas é algo que nunca irei esquecer. A primeira vez fomos à final com as francesas do Lille, ex campeãs nacionais de XV, uma realidade completamente diferente da nossa. O público toma sempre o partido dos mais pequeninos e assim foi um jogo histórico, que perdemos 10-5, para nós com sabor a vitória, claro. As duas últimas vezes, fizemos os jogos da vida e ganhámos a umas inglesas e este último ano a umas holandesas. Para o ano estaremos de volta e com a mesma vontade de sempre.

Como é ser apitada pela Filipa Jalles, uma antiga colega dentro de campo? Considera-la um dos melhores árbitros em Portugal? Achas que pode ir longe na Europa?

SF. Confesso que já me fez mais confusão, pois inicialmente era a Jales, mas agora vejo-a como uma árbitra.

Se é a melhor, sem dúvida. Só não vai mais longe, porque infelizmente o rugby Português não tem grande peso lá fora, e isso faz toda a diferença. Mesmo assim tem sido um exemplo nacional e internacional, sou fã.

Sofia Nobre e Filipa Jales (Foto: Sofia Nobre)

O teu melhor ensaio no Campeonato Nacional? E na Selecção?

SF. Gostei de todos, felizmente já marquei alguns. Na selecção foi num jogo de XV, contra as Sul Africanas do Tuks. 

Tu assiste à Repescagem Olímpica em Lisboa em 2015 correcto? Qual foi a sensação ver as nossas Lobas a conseguir o 3º lugar?

SF. Eu assisti a todo o torneio, mas a vitória contra a Holanda foi qualquer coisa de especial. Só me lembro de estar a chorar de emoção e dizer “Eu não acredito!”. Foi top!

Quantas vezes representaste a Selecção Nacional? E tens alguma memória em especial?

SF. Joguei um campeonato da Europa de 7s e dois jogos de XV. A memória especial, foi que o meu marido era um dos treinadores, e foi especial partilhar estes momentos com ele.

O que falta para o rugby feminino ganhar outra exposição? E como venderias o “produto”?

SF. O que falta ao Rugby feminino é mais apoio por parte dos clubes e da própria FPR. O dito respeito pelas jogadoras, que infelizmente nem sempre é o melhor.

Há algum “segredo” para a tua longevidade? Como combinas os treinos, os teus filhos e família e trabalho? Sentes que és um exemplo para os mais novos?

SF. O segredo da longevidade, digo sempre que é continuar a gostar de treinar e nunca ter parado, aliado a alguma sorte genética.

Em relação a conciliar tudo, nem sempre é fácil, mas também se fosse eu não teria gostado tanto de rugby. Tento ser muito disciplinada em tudo o que faço, no trabalho e em casa, pois só assim consigo organizar a minha vida. O rugby tem contribuído bastante.

Nota máxima para o meu marido, que me apoia sempre e respeita esta minha paixão, não fosse ele também ex-jogador de rugby, o que ajuda muito. Os meus pais também foram cruciais no inicio, porque jogávamos os dois.

Sofia Nobre e Francisco Goes (Foto: Luís Cabelo Fotografia)

Quem vai ganhar o próximo Mundial: França, Nova Zelândia ou há surpresa? E porquê?

SF. Acho que este ano vai ser a Nova Zelândia, têm uma equipa de excelência. Porque no último mundial a Inglaterra vingou todas as outras finais que perdeu. A parte boa, vou estar ao vivo com a minha família, em Belfast para saber se tenho razão. Melhor era impossível.

Sentes que a World Rugby está efectivamente a fazer uma séria aposta na variante feminina? O que falta?

SF. O rugby feminino é dos desportos que mais tem crescido nos últimos anos. Com muitas acções de formação e uma aposta nas mulheres no desporto. O problema é que ainda existe um grande défice de jogadoras, porque o rugby não é desporto escolar e muitas atletas nem sabem que existe rugby feminino. Os campos também não são suficientes para dinamizar o desporto.

Melhor jogo que assiste num estádio?

SF. Nova Zelândia – Portugal, definitivamente um momento único.

Perguntas Flash: melhor jogadora de sempre em Portugal? E a mais apaixonada pela modalidade?

SF. A melhor jogadora, a que está para aparecer no Rugby.

A mais apaixonada, sem dúvida, a minha grande amiga Catarina Antunes.

Uma quebra de linha com uma assistência ou uma placagem em cima da linha de ensaio?

SF. Uma placagem em cima da linha, sem dúvida!

Jogo mais emotivo? E jogo que voltarias atrás no tempo para o alterar de alguma forma?

SF. A final da Flandres, em frente a cinco mil adeptos.

O jogo que se pudesse alterava, foi o que parti o joelho e fiquei dois anos fora dos relvados e a fazer fisioterapia três vezes por semana. Mas como queria tanto voltar.

Um exemplo-mor de jogador para os mais novos?

SF. O meu Pai, Carlos Nobre.

Um SL Benfica-Sporting ou um Agrária-SL Benfica?

SF. Um Agrária – Benfica, aqueles jogos de XIII de que tenho tantas saudades, das borboletas na barriga logo na terça-feira…

Deixa umas palavras para a comunidade Nacional e potenciais novas atletas do rugby feminino!

SF. Eu escolhi o rugby e até hoje, em momento algum, me arrependo. É um desporto impar, dentro e fora de campo. São tantos os bons momentos que dificilmente depois de experimentarem, vão querer sair.

Tenho sempre uma máxima:

PODEMOS SAIR DO RUGBY, MAS O RUGBY NUNCA SAIRÁ DE NÓS.

Sofia Nobre com a filha Matilde Goes (Foto: Francisco Goes)


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