24 Nov, 2017

Rugby Português, o que queremos? – Coluna de Opinião de Luís Supico

Francisco IsaacJunho 6, 20177min0

Rugby Português, o que queremos? – Coluna de Opinião de Luís Supico

Francisco IsaacJunho 6, 20177min0

O Total Rugby de Luís Supico volta em força, agora com o tema “Rugby Português, o que queremos?” onde apresenta problemas e soluções para a modalidade em Portugal. 

Numa embrulhada de vários jogadores e sem ter a certeza de ser ensaio, o árbitro escocês John Dallas decide dar uma Formação Ordenada à equipa da casa, impedindo o empate a meio da segunda parte de forma controversa à Nova Zelândia (os “kiwi” a afirmar que a bola passou a linha, os “galeses” a garantir que ficou curto) num jogo que ficou para a história numa digressão que definiu, historicamente, o futuro do Rugby.

Estávamos em 1905 e a Nova Zelândia faz a sua primeira digressão pelas ilhas Britânicas, passando por França e América do Norte no caminho de volta e jogando, no total, 35 jogos. Resultado final: 34 vitórias e 1 derrota, com Gales, no tal jogo controverso.

Apesar dos números (34 vitórias em 35 jogos, 976 pontos marcados e 59 sofridos, numa altura em que os ensaios valiam 3 pontos), das inovações (diz-se que o jogo com Gales foi o primeiro onde foi cantado o hino de um país num evento desportivo, resposta espontânea do capitão, jogadores e por consequência dos 47 mil adeptos Galeses ao Haka) e estreias (primeiro jogo internacional de sempre de França), a digressão ficou conhecida como a primeira onde se designou a equipa kiwi como os “All Blacks”. A razão? Há duas versões:

A mais natural – no fim da digressão um jornalista Inglês escreveu um artigo de opinião intitulado “porque triunfaram os All Black“, nome retirado do equipamento (todo preto, excepto a folha de feto prateada);

A romântica – conhecidos pelo jogo à mão e facilidade de jogo dinâmico (típico jogo das linhas atrasadas), um jornal ia publicar uma notícia sobre a vitória dos “All Backs” (sinónimo de uma equipa que joga como se fossem todos das linhas atrasadas) mas um erro de impressão adicionou uma letra e ficou “All Blacks”.

É fácil ver qual foi verdadeiramente a razão (a primeira), como é fácil ver qual prefiro (a segunda); e aqui entra o rugby Português.

Desengane-se quem pense que este é um artigo de bota-abaixo: o titulo é apelativo e a altura propícia, mas há mais no rugby que subidas ou descidas temporárias de divisão. Os problemas do rugby Português são maiores que isso, são de identidade.

Durante anos vimos o jogo ao pé e de avançados Sul-Africano, o jogo à mão Francês e Galês, o virtuosismo Neo-Zelandês como uma marca própria, onde se identifica (goste-se ou não) mais-valias únicas que são trabalhadas durante anos, décadas ou, no caso acima, desde sempre. Faz parte do seu ADN. Coisa do qual já tivemos vislumbres mas nunca conseguimos, realisticamente, desenvolver – o que é, na verdade, o jogo Português?

Durante algum tempo tentou-se, enquanto foi possível e o dinheiro existiu em maior quantidade, profissionalizar (via jogadores) a elite do rugby Português. Pensou-se que seria aí o próximo passo de desenvolvimento, já que lá fora era o que se fazia. Não funcionou.

Agora que o dinheiro desapareceu, deram-se vários passos atrás para se poder dar outros à frente. Também não funcionou.

A meu ver tudo o que seja tentado, mesmo com êxito, será sempre apenas e só um remendo num buraco que existe no rugby Português – a falta de identidade de jogo e do jogador Português. E isso só começará a existir quando tivermos três pontos estratégicos bem definidos e alinhavados:

RUGBY NAS ESCOLAS

É imperativo que o rugby seja um desporto nuclear e obrigatório nas escolas. Só com a sua divulgação nas escolas é que iremos crescer verdadeiramente em número de jogadores, visibilidade, capacidade financeira, etc.. Só trará frutos visíveis entre 5 a 10 anos depois de começar e se for feito de forma consistente e contínua;

MUDANÇAS NOS CAMPEONATOS

Passar os escalões para números ímpares (sub18 de 2º ano entram na faculdade na passagem para o escalão Challenge, perdendo-se muitos miúdos aí: ao mudar para sub19 iriam ter o seu 2º ano de escalão já na faculdade, facilitando a sua conciliação);

Escalões sub19 e sub17 com Sevens no princípio (Setembro/Outubro), depois Regional (até Dezembro) como qualificação para o Nacional, que seria a partir de Janeiro (Sevens a começar porque as equipas começam com poucos jogadores e no fim do ano os miúdos já estão saturados, Regional com 4 séries – Norte e Centro, Sul 1 / 2 / 3 – de 7/8 equipas cada, a 1 volta, passando 2 equipas de cada série para o Nacional (total de 8 equipas) a duas voltas e as que não passam em 2 séries a uma volta cada, dando cerca de 21 jogos no Regional e Nacional / Série B por equipa, com a vantagem de haver sempre a hipótese de qualquer uma se qualificar para o Nacional todos os anos já que não há campeonatos fechados);

Campeonato Nacional (Divisão de Honra) manter 10 equipas ou aumentar para 12, 1ª Divisão ser regional dividido em Norte e Sul (menos custos em viagens), com subida de 2 equipas, seja uma por divisão ou por play-offs entre os melhores classificados de ambos, 2ª Divisão deixar de existir para passar a haver um escalão de equipas de Rugby Social (amigáveis com a chancela e árbitros da FPR para equipas novas ou com jogadores que só gostam de se reunir ocasionalmente para terem o prazer de jogar, sem grandes objectivos competitivos, mas com a hipótese de se candidaterem a subir à 1ª Divisão fazendo um jogo com o ou os últimos classificados da sua zona regional no caso de haver interesse da FPR e das equipas em questão);

 

(SEMI-)PROFISSIONALIZAÇÃO DA ESTRUTURA

Quanto mais amador o desporto, mais (e melhores) profissionais precisa ter, principalmente na estrutura: treinadores, fisios, directores de equipa, pessoal administrativo têm de ter todas as capacidades e tempo para tirar pressão aos jogadores, que são amadores e têm outras preocupações. Infelizmente parece-me que esta e outras profissionalizações no rugby não serão no meu tempo de vida (e vou viver até bem tarde…) mas penso ser possível replicando o que a Groundlink já faz com alguns jogadores do Cascais e fez com o Caldas: os técnicos da estrutura teriam um trabalho diário, com salário da empresa e disponibilidade de tempo para dedicarem ao clube, graças a horários flexíveis da empresa – benefícios fiscais para as empresas que se propõem a isso, por forma a ficarem todos a ganhar?

Tendo nós a sorte de conseguir conciliar estes três pontos, podemos passar para o segundo problema: o que queremos identificado como o jogo / jogador Português? Somos mais fortes, altos, espertos, rápidos, táctica ou tecnicamente mais evoluidos que os outros? Ou temos de ver outros pontos de vista?

Faz 112 anos que a identidade da Nova Zelândia foi dada a conhecer ao mundo – está na altura de começarmos nós a trabalhar a nossa.

Um espectáculo até quando? (Foto: Miguel Rodrigues Fotografia)


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