21 Ago, 2017

Como o Recorde caiu perante a força da Irlanda

João DuarteNovembro 17, 20166min0

Como o Recorde caiu perante a força da Irlanda

João DuarteNovembro 17, 20166min0

A Irlanda pôs fim ao recorde de 17 jogos da Nova Zelândia, suscitando algumas questões e perguntas sobre como o conseguiram. A qualidade no transporte da bola, a intensidade imposta durante 80 minutos e a melhor execução de processos simples foram alguns dos pormenores da Irlanda de Joe Schmidt.

De um lado estava uma Nova Zelândia, sem derrotas na sua História contra a Irlanda (28 jogos disputados) e que seguia em 17 jogos sem perder; e do outro uma Irlanda à procura da primeira vitória contra os All Blacks em 111 anos e motivada pela memória de Anthony Foley, antigo jogador do Munster (1995-2008), antigo internacional irlandês (1995-2005) e treinador do Munster (2014 até 2016) que a 16 Outubro “partiu”, vitima de um edema pulmonar enquanto dormia.

No final do encontro vitória para a Irlanda por 40-29… os invencíveis All Blacks tinham caído por terra na sua tentativa de atingir outros números no seu recorde de vitórias consecutivas. Como foi possível, à Irlanda (3ª classificada das últimas 6 Nações) vergar a selecção neozelandesa?

Na primeira parte o jogo foi dominado pela Irlanda que sabia que tinha de estar a 100% e garantir todos os “sectores” de jogo para obrigar a Nova Zelândia a errar. Para isso apostou na manutenção da posse de bola que foi de 67% na primeira parte, tendo estado 2/3, desta parte do jogo, no meio-campo adversário. Obrigaram a Nova Zelândia a cometer faltas, onde por duas vezes tiraram partido disso com Johnny Sexton a converter duas penalidades (4’ e 24’), sendo que as restantes faltas foram jogadas para alinhamento e aproveitadas com a formação de mauls, uma das principais armas da Irlanda. Fizeram uso desta situação de jogo inúmeras vezes, tendo conseguido chegar ao primeiro ensaio por Jordi Murphy convertido por Sexton.

transferirO Pack avançado da Irlanda continuava a dominar e aproveitava os bons movimentos das suas linhas atrasadas, que acabavam por quebrar a linha defensiva da Nova Zelândia. Mais uma vez, esse domínio viu-se com novo ensaio de um dos 8 avançados, desta feita por CJ Stander a partir de pick and go. A 7 minutos do término da primeira parte, a Irlanda, de forma inteligente, voltaria a ir à área de validação. Conor Murray explorava o buraco deixado por Aaron Smith à volta do ruck e dilatava a vantagem da Irlanda.

A capacidade do Pack Avançado irlandês

A Nova Zelândia apenas respondeu por duas vezes com um ensaio de George Moala (5’) e uma penalidade de Beauden Barrett (21’), levando para o intervalo o marcador do jogo em 25-8.

Na segunda parte a Nova Zelândia “acordou” e foi obrigada a correr atrás do resultado, mas não correu de feição aos bicampeões mundiais já que a Irlanda se apresentou muito motivada. A selecção de Steve Hansen assumiu o jogo, invertendo os papéis da primeira parte e controlando a posse de bola (64%) e a posse territorial (69%).

Mesmo assim a Irlanda reabriu as “hostilidades” na 2ª parte com um ensaio através de Simon Zebo (48’). Depois veio uma “avalanche” dos All Blacks, que meteram o pé no acelerador e marcaram 3 ensaios convertidos (TJ Perenara 52’, Bem Smith 56’ e Scott Barrett 63’), encurtando a vantagem da Irlanda para 33-29.

Os últimos 15 minutos foram de grande intensidade e nervos para os adeptos de ambas as equipas, que viram a Nova Zelândia acelerar ainda mais o jogo, valendo aos irlandeses a consistência defensiva que vinham impondo desde o início com as figuras principais a serem CJ Stander (14 placagens), Robbie Henshaw (12), Josh Van Der Flier (13) e Jamie Heaslip (10), conseguindo segurar o último esforço da Nova Zelândia.

A 4 minutos do final da partida, após uma má decisão de Julian Savea, a Irlanda aproveitava a formação ordenada a 5 metros da área de ensaio da Nova Zelândia que lhes foi concedida e marcou o último ensaio do jogo, por intermédio de Robbie Henshaw, após uma saída de oito de Jamie Heaslip, garantindo assim a vitória final e histórica da Irlanda.

De notar que ao contrário do habitual a Nova Zelândia perdeu 3 dos alinhamentos com introdução própria, concedeu 12 penalidades e ainda esteve 10 minutos a jogar com 14 jogadores, fruto do amarelo de Joe Moody.

Pode visualizar todo o jogo em: goo.gl/0D6s1Z

Postura errada e pressão consentida alguns dos problemas dos All Blacks

Uma partida marcada pela entrada dos homens de negro em campo algo adormecidos e a deixar os irlandeses dominar a partida por mérito próprio. Nas formações ordenadas ambas as equipas ganharam as próprias introduções, mas nos alinhamentos a história foi diferente, sendo que a Irlanda conquistou 3 dos 15 alinhamentos adversários e perdeu 2 dos 12 alinhamentos com introdução própria. Não sabemos qual é a chave para derrotar os All Blacks, mas parece que uma defesa pressionante sem dar espaço ao ataque, a manutenção da posse de bola, a posse territorial e uma boa e inteligente utilização do jogo ao pé, em conjunto com bons mauls dinâmicos, parecem ser alguns dos ingredientes para o sucesso diante daquela que é a selecção bicampeã do mundo e a número um do ranking mundial.

A Nova Zelândia vai ter oportunidade de seguir para novo jogo frente à Irlanda, desta vez em Dublin no Aviva Stadium. O que se espera dos All Blacks? Melhores mecanismos de defesa (“agressividade” não significa jogar fora das leis), entrar no jogo com a intensidade correcta (a Nova Zelândia acusou alguma lentidão e falta de qualidade na execução de movimentações durante os primeiros 40 minutos) e assumir o favoritismo desde o 1º minuto (os All Blacks permitiram que a Irlanda tivesse direito a mais bola que o suposto). Do outro lado estará uma equipa muito motivada, carregada de confiança e que procura dar seguimento ao excelente jogo das últimas semanas… conseguirá a Irlanda fazer História, mais uma vez? Notem bem o trabalho em redor do ruck, a forma como os centros atacaram o canal de dentro de Beauden Barrett ou a intensidade dada a cada momento de rotura defensiva adversária. Será um encontro de grande interesse e de qualidade.

Artigo da autoria de João Duarte

A Irlanda a honrar Foley (Foto: World Rugby)
A Irlanda a honrar Foley (Foto: World Rugby)


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