23 Out, 2017

Pink is not dead! – Coluna de Opinião de Hélio Pires

Fair PlayMaio 16, 201710min0

Pink is not dead! – Coluna de Opinião de Hélio Pires

Fair PlayMaio 16, 201710min0

O Rugby no Fair Plays segue para mais uma crónica mensal, desta vez com Hélio Pires com «Visto de Fora». Pink is Not Dead!, o primeiro tema da coluna do historiador que se “apaixonou” pelos valores e princípios do rugby

O Desporto não pertence só a aqueles que o praticam, gerem e governam… pertence também a todos aqueles que o seguem todos os dias, seja através do youtube, artigos, twitter, instagram, que “absorvem” os ritmos e dinâmicas de cada equipa e perdem minutos da sua atenção com jogadores e treinadores.

Hélio Pires, doutor em História pela Universidade Nova de Lisboa, ganhou um fascínio pelo Planeta da Oval em 2015 com David Pocock e os valores que a modalidade defendia. Ao fim de dois anos de aprendizagem, crescimento e maturação, Hélio Pires aceitou o convite para seguir com uma rubrica mensal sobre o rugby «Visto de Fora», na óptica do adepto, apaixonado e seguidor de rugby, com algumas “pinceladas” na análise e compreensão do que se passou no jogo.

O primeiro artigo conta-nos sobre o seu interesse pelo Stade Français, o “renascimento” de um “gigante”, a final da Challenge Cup e outros pormenores da equipa parisiense. 

Pre-Match Mode

O cenário é um café-bar numa pequena cidade portuguesa, algo cheio e agitado. Os adeptos de râguebi são apenas dois, que ainda assim conseguem que se mude o canal de televisão de um direto da visita papal para as competições europeias.

O que durou até ao intervalo, altura em que foram confrontados com duas opções: ir embora ou ver o resto do jogo aos soluços, intercalando entre râguebi e Fátima a cada quinze minutos. Felizmente, numa sala ao lado igualmente apetrechada com uma televisão, houve quem não se importasse de partilhar a sua mesa e nós lá fomos, os dois adeptos, ver o resto da partida ombro a ombro com desconhecidos.

Peripécias à parte, não estávamos perante uma mera final de uma competição europeia. Havia um extra emotivo por estar em campo o Stade Français, que em dois meses passara da extinção iminente por uma fusão desigual a potencial vencedor da Challenge Cup ou Taça Desafio.

O que tem algo de heróico, mas já lá vamos. Sentados frente ao televisor, tentando abstrair-nos do ruído de fundo, pedimos um chá – somos adeptos um pouco posh – e torcemos por equipas diferentes. Porque o desportivismo é bom e recomenda-se, mas também porque os homens não se medem aos palmos e o Laidlaw é um grande senhor. Mesmo!

A rough pink! (Foto: Getty Images)

Os oitenta minutos

Não foi preciso esperar muito por momentos emocionantes. Logo aos 5 minutos, a bola andou pelos 10 metros do Gloucester sem possessão clara e, coisa de minuto e meio depois, um avant do Stade impediu o que podia ter sido o primeiro ensaio da partida. O que só aconteceu perto do quarto de hora de jogo, mas para a equipa adversária, quando Johnny May intercetou um passe e correu para a zona de validação.

A conversão pôs o Gloucester à frente por 7-0, pontuação à qual veio a somar mais três, e 10-0 ficou até o Stade marcar uma penalidade a meio dos 26 minutos. Segundos antes, ver o Will Genia esticado no chão, ele que é outro grande senhor, fez-me temer que saísse por lesão.

O que felizmente não aconteceu, em parte graças à resistência do médio de formação australiano, que volta e meia não escondia algum desconforto. E aos 31 minutos, uma bola à solta pelos 5 metros do Gloucester deu ao Stade o seu primeiro ensaio, marcado por Sergio Parisse com a ajuda de Hugh Pyle – o Jon Snow lá do sítio, como é conhecido entre os adeptos rosa. Ainda houve dúvidas sobre um possível avant, mas o vídeo árbitro pô-las de parte. Jogada limpa, conversão marcada e tudo em aberto.

Antes do final da primeira parte, ainda houve tempo para um cartão amarelo ao número 9 do Gloucester, que levou as mãos à cara de Plissou durante um salto, e um maul que… não acabou bem. Abençoado intervalo pela oportunidade de irem todos arrefecer a cabeça nos balneários!

No início da segunda parte, Laidlaw entrou em campo, para nossa alegria, que já não o víamos a jogar desde a lesão nas Seis Nações. E depois, aos 55 minutos, viu-se porque é que a bola oval pode ser traiçoeira: chutada pelo capitão escocês perto dos 10 metros do Stade, parecia que ia sair, tanto que Hugo Bonneval limitou-se a cobri-la, mas ficou disponível para ser apanhada. E foi Tom Marshall quem o fez, chutando-a para a frente já na linha dos 5 metros, embora em desequilíbrio e por isso incapaz de poisá-la claramente antes de sair da zona de validação. Foi ensaio ou não foi ensaio? A vídeo arbitragem mostrou que não, mas foi por uma unha negra. Literalmente!

Com as emoções ao rubro, o Stade marcou menos de dois minutos depois, após uma intercessão de Djibril Camara que fez lembrar o ensaio de Johnny May na primeira parte. O desempate estava assim quebrado e os franceses assumiam a liderança, para gaudio dos adeptos rosa. E a dez minutos do final, engrossaram a vantagem pelas mãos de Geoffrey Doumayrou, que recebeu a bola perto dos 22 metros do Gloucester e conseguiu fugir não a dois ou três, mas seis jogadores ingleses!

A julgar pela forma como olhou para trás, ele próprio nem acreditava no que tinha feito, e marcou o ensaio com um pequeno salto para a felicidade – língua de fora e braço no ar incluídos. A conversão, seguida de uma penalidade uns minutos depois, pôs os franceses à frente por quinze pontos, vantagem que o Gloucester ainda conseguiu reduzir a minuto e meio do fim com um ensaio de Ross Moriarty. O que é de aplaudir, porque um jogo só acaba quando o árbitro apita, mas não havia tempo para mais. O Stade saiu vencedor por 25-17 e Sergio Parisse ergueu a taça para alegria de muitos, eu incluído.

Le nouvelle champion de Challenge Cup (Foto: EPCR)

Húbris e redenção

Como disse antes, há nisto qualquer coisa de heroico. Se recuarmos até Março, altura em que os presidentes dos dois grandes clubes parisienses anunciaram uma fusão, o Stade estava em 12º lugar no Top14, apenas uma posição acima da descida de divisão, e era quase certo que seria extinto se se unisse ao Racing. Uma fusão é sempre uma absorção do mais fraco e o Stade estava ferido, a braços com maus resultados, problemas financeiros e uma escassez de adeptos que parece ser característica de Paris, conforme notou um artigo da Rugby World.

A esse estado de coisas acrescia ainda a forma como a fusão foi planeada, às escondidas e sem nunca se consultar os jogadores, a equipa técnica, funcionários ou adeptos, apresentando-a como um facto consumado onde as pessoas tinham, quando muito, o direito a votar em coisas como o aspeto do equipamento. Foi uma decisão burocrática com sabor a facada nas costas.

Ou dito de outra forma, um jogo de folhas de Excel por presidentes de formação empresarial, mas que se esqueceram de duas coisas: por um lado, que têm deveres para quem trabalha nos clubes, do mais simples funcionário ao mais famoso jogador; e por outro, que uma associação desportiva não é um mero somatório de bens e números, não podendo ser alienada ou fundida sem mais. Um clube tem história, tem memória, e tem acima de tudo uma forte carga emocional que está profundamente ligada ao sentido de identidade dos adeptos.

Achar que se podia passar por cima disso, como se uma fusão produzisse um simples somatório de massa associativa, é algo a que os gregos chamariam húbris, a ousadia desmedida e por isso condenada ao fracasso. E tal como nos mitos antigos, cada vez que se ousava em excesso, os deuses intervinham. Não que eu esteja a dizer que o Stade foi objeto de um milagre, mas teve qualquer coisa de heroico. Porque no espaço de dois meses, subiu para o sétimo lugar no Top14 e venceu uma das competições europeias. Foi como se a extinção iminente tivesse acendido uma chama que faltava e algo ou alguém, algures, quisesse dar uma estalada de luva branca em quem dava o clube como morto. Mais le rose n’est pas mort!

E agora?

Claro que depois da festa vem sempre a ressaca. O Stade venceu a Taça Desafio e provou estar vivo, mas os problemas que originaram a proposta de fusão não desapareceram. As contas continuam por equilibrar, o estádio por encher e há jogadores que estão de saída. É o caso de Hugo Bonneval, que vai para o Toulon, de Rabah Slimani, que segue para o Clermont, de Jono Ross, que vai juntar-se aos Sale Sharks, ou de Pascal Papé, que termina a sua carreira e foi uma das caras da luta contra a fusão. Aliás, vê-lo na tribuna no levantar da taça, apesar de não ter jogado ou sequer sido suplente, teve um sabor especial precisamente por causa disso e, entre os adeptos do Stade, Papé é um herói a quem já se diz, em tom de brincadeira ou não, que devia ser presidente. Mas não é, pelo menos por enquanto. À frente do Stade Français continua Thomas Savare, o mesmo que negociou a fusão e tem injetado dinheiro no clube.

Está ainda por perceber que impacto terá tudo isto. A vida é feita de mudança e o Stade não está imune a isso, mas depois do desastre que foi a tentativa de fusão, é pouco provável que o futuro passe por outra coisa que não um rosa choque, ainda que numa divisão inferior. Veremos.

http://www.rugbyworld.com/news/racing-92-stade-francais-77437

Fim de uma ameaça…até quando? (Foto: L’Equipe)


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