21 Nov, 2017

Onde é que os British and Irish Lions (não) estão a falhar – FP Análise

Francisco IsaacJunho 20, 201715min0

Onde é que os British and Irish Lions (não) estão a falhar – FP Análise

Francisco IsaacJunho 20, 201715min0

Entre os “solavancos” frente aos Highlanders e Blues, às respostas de “força” ante os Crusaders e os Maori All Blacks, a Tour dos British and Irish Lions está prestes a entrar no seu epicentro. O Fair Play faz uma análise aos erros, virtudes, problemas e soluções da mítica selecção chefiada por Warren Gatland

Quatro vitórias em seis jogos possíveis… são estes os números da Tour dos British and Irish Lions antes de chegar à recta final de jogos, onde vão defrontar os poderosos All Blacks (por três vezes) e os Hurricanes (campeões em título do Super Rugby).

A equipa liderada por Warren Gatland não tem tido vida fácil em terras kiwi, apesar de uma vitória categórica sobre os Maori All Blacks (32-10) e que “encheu” as medidas de vários adeptos a nível mundial.

Porém, existem falhas evidentes nos processos de jogo dos Lions, motivados quer pela falta de consistência entre linhas, pela ausência de harmonização das unidades ou pela sucessão de faltas por falha de comunicação.

Por outro lado, os Lions já demonstraram um sentido de jogo “forte”, que faz mossa em equipas que tentam procurar o jogo rápido (Crusaders e Maori), uma aplicação de força bruta bem trabalhada nos avançados e uma boa capacidade em tirar elasticidade à equipa adversária.

Por isso, os British and Irish Lions têm virtudes e falhas, tudo muito natural dentro de qualquer equipa seja de clube ou selecção. Analisemos algumas delas e fiquemos a perceber onde é que os All Blacks podem “ganhar” pontos e onde os Lions podem dominar.

PRESSÃO AO JOGO CORRIDO

Quem conseguiu ver os jogos (incluímos os NZ Provincial Barbarians) pode perceber como é que os Lions têm insistido na sua defesa ao largo. Seja com Ben Te’o (a surpreender em alguns jogos, onde o seu jogo físico “explosivo” faz danos na defesa), Jonathan Joseph, Owen Farrell ou Jonathan Davies, os Lions impõe uma placagem segura e completa.

Contra os Maori All Blacks, Davies foi fundamental para criarem situações de ataque perigosas, com duas quebras de linha e 70 metros percorridos. A defender a dupla Te’o-Davies foi bastante equilibrada, apesar de não terem somado mais que 9 placagens e 2 turnovers. Contudo, não foi preciso placarem “muito” para os considerarmos importantes na defesa ante os Maori.

Ambos (com apoio do abertura e normalmente o nº6 ou 7), subiam numa pressão alta a partir dos 40 metros até à linha de ensaio dos Maori, o que criou dificuldades à equipa neozelandesa em encontrar espaços à ponta como tanto gosta. A vantagem dos Lions foi, principalmente, confirmada quando a dupla de centros dos Maori fracassou inúmeras vezes na parte de recepção e transmissão de bola… ou ainda pior, na conquista de metros no contacto.

Proctor e Ngatai (Hurricanes e Chiefs respectivamente) somaram 2 metros com a oval nas mãos, quatro passes em oito participações com a oval nas mãos. É caso para dizer que “algo esteve mal” nos Maori.

A dupla foi completamente anulada pelos seus homólogos, assim como pelos apoios que o 12 e 13 dos Lions tiveram. Asfixiar é a palavra que melhor se adequa ao plano estratégico dos Lions e desespero por parte dos Maori, que nunca foram uma equipa propriamente dita.

Porém, esta estratégia pode resultar em quebras de linha da equipa adversária, se o par de centros (ou entrada dos pontas) destes for efectiva. Contra Sonny Bill Williams os Lions não conseguiram parar as acções de offload e de passe antes do contacto de SBW. O mesmo aplicou-se quando “apanharam” com Fekitoa. Os típicos centros móveis, que trabalham bem no contacto e garantem tanto metros ou possibilidade espaço para um colega entrar e fazer danos foi uma das “chaves-mestra” para derrubar a muralha dos Lions.

Por isso, Gatland apostou numa estratégia que envolve uma série riscos… se forem bem sucedidos em asfixiar e levar os seus adversários ao desespero, está meio caminho andado para uma vitória, algo que foi notório no jogo com os Maori ou Crusaders (a opção por Havili no par de centros foi, no mínimo, estranha)… porém, se SBW, Lienert-Brown, Laumape ou Ioane encontrarem espaço, os Lions então precipitam-se para um jogo muito “complicado”.

Podemos argumentar que os Maori marcaram um ensaio que nasceu a partir de uma “incursão” de um ponta na zona dos centros. Todavia, o ensaio de Messam provem mais de um erro de handling de North do que uma genialidade por parte de Skudder (apesar do belo pontapé que o ponta arremessou), não existindo falha quer de Davies ou Te’o neste “episódio”.

Muito dependerá, também, do trio de trás escolhido… Halfpenny é dos jogadores mais seguros do Mundo a defender atrás (nos pontapés não claudica), mas Hogg está mais habituado a este tipo de defesa de risco (o defesa escocês ficou de fora após o 2º jogo por culpa de uma cotovelada sem querer de Murray, partindo o maxilar ao seu colega de equipa).

George North garante a parte física, mas talvez peca na leitura de jogo defensivo, enquanto Anthony Watson está francamente acima do seu colega, mas ainda longe de uma boa participação no ataque… apostar em Elliot Daly (jogo bem completo contra os Chiefs) não seria, de todo, uma má opção, já que tem um bom pontapé, uma velocidade de qualidade e uma das melhores leituras de jogo no Hemisfério Norte. Jack Nowell é um dos pontas mais irrequietos do Hemisfério Norte mas só no jogo contra os Chiefs é que “acordou” com dois ensaios.

Outra forma de “aniquilar” com a capacidade invasora do par de centros dos All Blacks é “atrasar” o jogo no chão, impedindo que Aaron Smith ou TJ Perenara consigam dar sequência a um jogo veloz e eléctrico que poderia causa danos aos Lions.

Obviamente que isto acarreta o problema das penalidades, mas se os Lions disputarem os rucks (como tão bem fizeram contra os Crusaders ou Maori) vão pôr os All Blacks mais “nervosos” e com outro cuidado na organização atacante.

FASES ESTÁTICAS

Warren Gatland já “descobriu” a sua melhor linha de jogadores, pelo menos, no que concerne ao bloco dos avançados… uma primeira linha com Mako Vunipola, Jamie George e Tadh Furlong sustentada por Maro Itoje e George Kruis na 2ª.

Este cinco da frente tem sido exímio no trabalho nas fases estáticas, em especial nas formações ordenadas e alinhamentos. A somar a isso, são cinco jogadores “resilientes” no breakdown, com um índice de trabalho bastante alto e que mais “arriscam” na defesa (5 faltas entre os cinco jogadores.

Se o jogo dos Crusaders foi discutível a forma como o juiz de jogo apitou as formações ordenadas, já contra os Maori a mesma discussão não existiu. Os Lions “pulverizaram” os “guerreiros” da Nova Zelândia, conquistando seis penalidades nas FO e um ensaio de penalidade.

Pressão intensa, excelente encaixe e um trabalho dos oito de enorme categoria. A equipa técnica dos Lions soube bem “espremer” as melhores capacidades de cada um dos escolhidos… Vunipola e Furlong são, sem grande discussão, dois dos melhores pilares no hemisfério Norte (WP Nel é outro dos quais se insere nesta categoria e mais uns quantos), com George a dominar bem a posição de talonador.

A dupla Itoje e Kruis é uma aposta de sucesso… se já com Eddie Jones e Mike McCall (treinador dos Saracens) assim o foi, porque é que seria diferente nos Lions? Alun Wyn Jones é um jogador lendário, mas quando se tem dois 2ªs linhas que jogam juntos, sabem trabalhar juntos e conseguem obter dividendos juntos… porque não os usar?

Depois nos alinhamentos, os Lions têm se aproveitado de alguma irregularidade dos neozelandeses para não só “roubar” (já vão em oito) mas também para sair a jogar com velocidade ou formar uns potentes mauls que já levaram aos Lions festejar por duas vezes (Blues e Maori).

E, mais uma vez, não é só nos mauls ofensivos que têm estado bastante bem, mas a desmontar o dos adversários (só sofreram um ensaio a partir desta fase de jogo, contra os Highlanders) como aconteceu contra os Maori ou Crusaders (boa colocação do saltador que fica agarrado ao seu adversário, o que leva a que depois a equipa adversária não consiga tirar a oval e a perca para os Lions).

É uma avançada pesada, móvel, trabalhadora, enérgica e que gosta de impor o seu domínio num adversário que não quer disputar as fases estáticas ou os rucks da mesma forma… são oportunistas nesse sentido.

Os All Blacks vão ter que se “prestar a trabalhos pesados”, não vão poder virar a cara à luta e têm de ter cuidado, especialmente, quando forem ao contacto uma vez que os Lions vão tentar criar mauls espontâneos para depois caírem no chão e virarem a posse de bola em seu proveito.

Ou seja, os campeões do Mundo terão que jogar rápido e com “simplicidade”, no contacto vão ter de trabalhar como de costume e têm de ser imediatos a cair no chão mal se verifique uma tentativa de aglomeração à volta do portador da bola.

Jogar devagar e em fases curtas só serve para os propósitos defensivos dos Lions… jogar demasiado rápido e tentar meter a bola no último canal, sem ganhar a linha de vantagem, vai permitir que os Lions metam a tal pressão defensiva, o que pode levar a erros de handling.

Sean O’Brien, Peter O’Mahony e Taulupe Faletau parecem ser as unidades que melhor combinam na 3ª linha, com Sam Warburton e James Haskell à espreita. Extremamente móveis, inteligentes na saída com bola e exímios placadores (nem é preciso placarem muito, basta garantir sucesso nas poucas placagens que têm), colocam uma pressão ideal na equipa adversária seja a defender ou atacar.

No entanto, será interessante ver como Sam Cane, Ardie Savea, Jerome Kaino, Kieran Read e Akira Ioane podem “quebrar” com a capacidade “de rocha” da 3ª linha britânica… são mais rápidos, sabem participar no ataque como se fossem um 3º centro e a capacidade física é igualmente tremenda como a técnica.

PENALIDADES E ERROS ESCUSADOS

Ora os Lions têm sofrido alguns problemas no que toca à “disciplina”… bastantes faltas no chão ou vários erros na transmissão de bola. As penalidades ao todo já vão nas 59 penalidades em seis jogos (curiosamente, as duas derrotas foram onde tiveram um máximo de faltas com 13 e 12, frente aos Blues e Highlanders respectivamente), sendo que no penúltimo frente aos Maori só consentiram quatro penalidades, coincidindo com a melhor exibição dos britânicos na Nova Zelândia.

Quase que se pode dizer que os Maori All Blacks perderam o jogo quando na segunda penalidade que tiveram direito, optaram por chutar aos postes invés de irem ao alinhamento, algo “incomum” para uma selecção neozelandesa que gosta de ir ao ensaio, mesmo que isso simbolize algum tipo de desrespeito para com o adversário.

No entanto, ao fazer isto os Lions cresceram ao se aperceberem do “medo” que os seus adversários demonstravam… os Lions conseguiram incomodar os Maori nos três pontapés de reinício que tiveram direito (início de jogo, ensaio e penalidade), lançando uma espécie de “pânico”. É um dos pontos fortes dos British and Irish Lions, os pontapés de início e reinício, assim com os de 22.

Aonde é que os All Blacks podem “tirar” vantagem? Das faltas no chão (os Lions arriscam em demasia a disputa no breakdown ou o facto do placador não sair da área do ruck com velocidade) e do facto dos Lions gostarem de jogar no limiar da falta no fora-de-jogo.

Se os All Blacks conseguirem “manipular” o jogo a esse ponto, a vida dos Lions vai ficar difícil… vão começar entrar em desespero, ao mesmo tempo que entram na espiral ofensiva dos neozelandeses, que depois de começarem a “carburar” vão iniciar o seu processo de jogo em todo lado, com todos os jogadores, aproveitando todos os espaços para ir ao ensaio.

No penúltimo jogo, os Lions só somaram quatro penalidades, o que demonstrou uma melhoria significativa em termos de disciplina e que lhes proporcionou uma vitória por 32-10, algo que deu um “balão de oxigénio” e “esperança” para o que aí vem.

Contudo, e entra agora uma curiosidade “interessante”, as duas derrotas dos Lions provieram de faltas. Seja contra os Blues ou Highlanders (pontapé de Marty Banks a castigar uma falta na formação ordenada), ambos upsets advieram através de faltas ou erros que os Lions cometeram, levando às duas únicas derrotas do Tour…para já.

Em termos de erros próprios graves, veja-se o ensaio de Liam Messam… Skudder aproveita o maior espaço dado na defesa (não subiram no imediato) e aposta num pontapé curto mas que ia batendo na relva… North abordou o pontapé francamente mal e largou a bola no chão, bastando ao 8 dos Maori chutar para dentro da área de validação e cair em cima da oval.

São erros graves e que já aconteceram mais do que o suposto… contra uma equipa letal e que espera pela altura em que o adversário comece a “facilitar”, como os All Blacks, os Lions vão ter umas “noites” mal passadas.

Veja-se outro avant que tomou proporções complicadas: bola de jogo, saída de alinhamento rápido, Farrell recebe a oval e quando já está em cima da linha de vantagem, entrega um passe mal “medido” para Joseph… bola para a frente, fim de jogo e derrota dos Lions contra os Highlanders.

Os passes para a frente ou bolas largadas no chão começaram a ser menos frequentes à medida que os jogos foram passando, o que “agiliza” a capacidade ofensiva da equipa britânica… os dois últimos jogos já conseguiram garantir vitórias por 30 pontos, quase 20 (ou mais) de diferença.

Mas a velocidade de jogo dos Lions será a suficiente para a dos All Blacks? Terá o três de trás dos britânicos capacidade de fazer frente a Dagg, Savea e Smith, três jogadores com uma experiência enorme e que farão diferença no jogo tanto pelo ar ou de situações de ataque de perigo iminente?

São quatro dias até o 1º jogo, o encontro que pode entregar o poder total do Mundo do Rugby à Nova Zelândia, que está à espera silenciosamente, sem fazer grandes alaridos e que a sua única demonstração de força foi a vitória ante a Samoa por 78-00… os Lions vão ter que jogar com tudo, incluído com alguma espécie de anti-jogo para bloquear o ritmo alucinante e a estratégia multifacetada dos bicampeões mundiais em título.

PORMENOR: BEAUDEN BARRETT

Num parágrafo muito curto e sucinto, uma das ameaças ao “futuro” dos Lions tem pelo nome de Beauden Barrett. 25 anos, melhor jogador do mundo para a World Rugby, campeão em título dos Hurricanes e, também, pelos All Blacks, o abertura é a super ameaça para os Lions.

Barrett é um abertura muito diferente daquilo que era Daniel Carter…sim existem pontos de convergência como a velocidade (Barrett consegue ser mais explosivo e tem um maior poder de sprint), elegância no passe ou jogo ao pé (Carter continua a ser melhor que Barrett neste ponto).

Todavia, Beauden Barrett traz outras coisas para o jogo que põe o espectáculo numa máxima total. É um “caçador” nato na procura de espaços e o aproveitamento que tira deles é de sonho, impondo não só uma visão de jogo “enorme” mas também uma qualidade quer no offload ou no trabalho imediato de pontapé rasteiro… ou seja, um “buraco” pode significar ensaio.

Os Lions vão ter que fazer uma defesa “fechada” a Barrett, muito ao estilo que Sam Cane ou Retallick fazem em encontros entre Chiefs e Hurricanes. Ou como os Crusaders, que apostam na “agressividade” de Crotty para “tirar” unidades de ataque a Barrett, pondo-o à mercê de um dos melhores blocos de avançados do Mundo.

No entanto, no “papel” isto tudo é fácil… subir linhas, meter os asas em cima, tirar profundidade e soluções de ataque, ser rápido a chegar ao momento que o abertura vai chutar etc… o problema é que se Barrett tem espaço, tempo e apoio, não há foram de o parar. Nem precisa de se mexer muito, veja-se o ensaio de Laumape contra os Brumbies, um cross-kick de uma simplicidade e qualidade que põe a defesa contrária KO.

Barrett pode ser o pormenor que levará os All Blacks (ou não) à vitória nas Series.


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