21 Nov, 2017

O rugido dos Lions pôs fim à “escuridão” dos All Blacks – FP Análise

Francisco IsaacJulho 4, 201717min0

O rugido dos Lions pôs fim à “escuridão” dos All Blacks – FP Análise

Francisco IsaacJulho 4, 201717min0

Novo amanhecer para os British and Irish Lions que sobreviveram ao Westpac Stadium e saíram com uma vitória por 24-21 ante uns All Blacks reduzidos a 14 durante a maior parte do encontro. Mas será que os comandados de Hansen falharam em algum pormenor? E os Lions entraram de forma diferente? A análise ao jogo 2 das Series

From Darkness comes Light… e a verdade é que uma vitória dos Lions trouxe uma “luz nova” para vários adeptos do Planeta da Oval. A queda dos All Blacks (4ª derrota nos últimos 50 jogos…) parece que despoletou uma reacção em cadeia completamente desproporcionada e lançou uma boa percentagem de pessoas numa festa imparável.

Para os que apoiam os Lions foi uma demonstração de força, que os All Blacks podem cair a qualquer momento e que afinal não são assim tão competentes ou mortíferos. Muito se apregoou que os Lions iriam somar só derrotas contra os All Blacks, que não tinham estofo para “aguentar” com a intensidade física e qualidade técnica dos bicampeões mundiais e ruiriam de forma “fácil”.

Contudo, no segundo jogo, os Lions sobreviveram e acabaram por ganhar com uma penalidade bem “encaixada” de Owen Farrell entre os postes… 24-21, os All Blacks ainda tentaram recuperar do erro consentido mas já foram tarde de mais… o descontrolo de jogo tomou conta da “cabeça” dos 14 elementos que aguentaram o “castelo” durante 50 minutos.

Catorze porque Sonny Bill Williams, um jogador extremamente físico e que possui uma técnica individual de alto calibre, recebeu ordem de expulsão definitiva aos 25′ após uma carga com o ombro à cabeça de Anthony Watson. A “cena” não pareceu ser propositada, mas aconteceu e de acordo com as regras a decisão de dar o cartão vermelho é aceitável.

Sem o centro, Steve Hansen foi obrigado a fazer alterações ao XV, puxando Kaino para fora do campo e metendo Laumape dentro da contenda. Não seria a estreia que o centro esperaria, muito pelo contrário.

Como sempre, o público e comentadores caíram em cima de SBW rotulando-o de “desleal”, “falso jogador com fair-play”, “claramente uma vergonha para o jogo”, entre outras declarações menos simpáticas ou reais mas que cada vez mais fazem parte da modalidade.

Num discurso menos formal, a situação de SBW foi grave pelo impacto, não há dúvidas. É rugby e nos últimos anos há uma maior preocupação com a saúde dos atletas especialmente em redor da protecção da zona da cabeça. Jerome Garcés, ao seu “bom estilo” não perdeu tempo em decidir a expulsão (por outro lado, rugby não é só touch rugby, o contacto físico, a fisicalidade e a agressividade neste sector são três pormenores decisivos para manter a modalidade “vendável”).

Infelizmente, o critério já não foi o mesmo para Mako Vunipola (não tem sido o jogador que é na Inglaterra, mas já vamos explicar o porquê de estar a ser fundamental na campanha dos Lions) que entrou desta forma em Beauden Barrett. Dualidade de critérios (ver a 2ª situação, a primeira também Codie Taylor efectuou sobre Farrell e não recebeu admoestação)?

Mas não foi pelo árbitro que os neozelandeses perderam o encontro, foi um somatório de erros e más decisões que levaram a que a melhor selecção a nível mundial (seja por títulos ou no ranking) tivesse uma derrota que os deixou, bem num estado caótico… valem as palavras de Kieran Read e a forma como Steve Hansen expos o que podem ainda fazer.

Going Back to the Shadows… to Bring darkness yet again

A chuva “estragou” a estratégia dos All Blacks… era um dos “medos” que possivelmente pairavam sob as cabeças da equipa técnica dos neozelandeses. Não estamos a afirmar que não saibam jogar à chuva ou com o terreno molhado… o que é proposto é o facto que contra os Lions, a chuva iria “ajudar” a estabilizar o jogo mais “pesado” dos britânicos e tornar todos os processos dos All Blacks um pouco mais vagarosos.

A inclusão de Naholo não trouxe grande explosão ao jogo… os All Blacks pouco puderam explorar os seus pontas (52 metros somados em 11 carries entre Ioane e Naholo) com a eficácia de outros jogos, devido à muito boa defesa dos Lions onde Farrell (6 placagens), Sean O’Brien (12) e Warburton (9) foram imperadores, dominando os canais exteriores, impedindo Anton Lienert-Brown ou Ngani Laumape de conseguirem passar a linha de vantagem e assim soltarem um offload para os seus pontas.

Faltou intensidade às linhas dos All Blacks, a inclusão de Sam Cane (que tem realizado boas exibições) ou Jerome Kaino em detrimento de Ardie Savea continua a levantar algumas questões… o asa dos Hurricanes é um jogador bem mais “mexido” e irrequieto, não pára no contacto, consegue meter os seus adversários menos “à vontade” e acaba por ser um dínamo no ataque. É um pormenor que tem faltou aos All Blacks neste segundo encontro.

Se observarmos os dois jogos, é perceptível que Sonny Bill Williams é um jogador do qual a sua equipa depende mais do que o suposto. A quantidade de vezes que o centro ganha a linha de vantagem, a forma como coloca os adversários em sobressalto, muito devido à grande probabilidade de sair um offload ou um passe de categoria. Isso foi comprovado pelo primeiro jogo contra os Lions.

No entanto, no segundo encontro mal foi expulso, os All Blacks começaram a sentir graves dificuldades para sair a jogar da mesma forma que aconteceu no primeiro encontro.

Os Lions apertaram bem os All Blacks, forçaram-los a cometer más decisões no jogo rápido e até na escolha do que fazer com as 13 penalidades que tiveram ao seu serviço.

Notem que Beauden Barrett falhou três pontapés aos postes (só um deles era de extrema facilidade, com essa oportunidade a embater no poste esquerdo), sendo que duas delas podiam ter ido para o alinhamento… mas algo forçou aos All Blacks mudar algo na sua estratégia de jogo e que tem mais explicações para além de terem jogado com 14 durante 55 minutos.

A forma como os Lions prendem bem o saltador e a bola na disputa de mauls, levando a que na queda o juiz de jogo opte por considerar bola injogável e vantagem para a equipa que estava a defender (todavia, foi algo nítido o facto de existir uma disputa ilegal em dois mauls de um ou dois jogadores dos Lions que não é entendida como tal pelo juiz do jogo) ou como conseguem parti-lo retirando a vantagem para a equipa que produziu esse sequência de jogo. Isto forçou os All Blacks a optar pelos pontos ao pé garantidos de Barrett.

Os All Blacks nunca tiveram uma vantagem confortável, também, para iniciar o gameplay de arriscar em situações de jogo mais instáveis (no qual os neozelandeses costumam apresentar as suas melhores “cores”) mas que rendem proveitosas jogadas e belíssimos ensaios.

Faltou algo na parte de garantir espaço e margem de manobra para sair a jogar. Faltou, talvez, outra concentração, outro focus, outra vontade. Kieran Read não esteve tão “forte” como de costume, sentiu-se falta da “agressividade” de Codie Taylor e Owen Franks ou a intensidade de Broadie Retallick. E faltou uma maior calma quando tinham a bola nas mãos… o pontapé de Cruden aos 78:40′ voltou a ser (como no primeiro jogo) um erro, quando se pedia, talvez mais uma fase.

Sim, se o pontapé tivesse saído com a força, velocidade e altura certa tinha sido bem captado por Laumape com Rieko no apoio ao centro. Contudo, Cruden continua a falhar pontapés durante o jogo corrido, criando alguma deficiência naquilo que Beauden Barrett é um mestre… mas até este errou num pontapé na sua área de 22, asfixiado pela intensa pressão dos Lions.

Por isso, houve sobretudo menos All Blacks em jogo do que nos últimos encontros, menos alegria a jogar, como se um “pano soturno” tivesse caído lentamente durante o decorrer do encontro… é hora de corrigir e voltar para dentro do campo.

Faltou, essencialmente, arriscar mais na saída para o ataque com a oval controlada… Barrett arriscou uma saída de bola, onde galgou uns bons 20 metros, tirando Owen Farrell do caminho com um handoff de qualidade.

A inclusão de Fekitoa é um ás de espadas que Hansen tem de usar… é o melhor centro na Nova Zelândia a placar, para além da sua aptidão para criar pressão sob a linha de defesa e por se tratar de um jogador fisicamente fascinante. Fekitoa é o maior inimigo para Jonathan Davies… e Farrell. Nenhum dos dois vai gostar de receber a “monstruosidade” defensiva do centro, que pode estar de saída para o RC Toulon.

Rieko Ioane e Waisake Naholo não estiveram bem… o ponta dos Blues até largou uma bola naquele que poderia ter sido um momento capital para o jogo. Contudo, e em jeito de defesa, o passe de Lienert-Brown não foi bom, o que prova que “reinou” um certo nervosismo entre as unidades neozelandesas.

Por isso, Julian Savea deveria voltar a todo o vapor… o The Bus é um jogador que merece a oportunidade para tentar galgar uns metros ante os Lions. Não parece estar na sua melhor forma e isso é um facto, mas nos momentos mais difíceis Savea pouco ou nunca falhou… um jogador com uma grande mobilidade, com possibilidade de “explodir” na linha de defesa, com outra capacidade de furar a defesa e com uma experiência soberba.

Meter Ardie Savea de início, puxando Sam Cane para o banco seria ainda outra forma de ter mais ritmo no jogo. Cane tem estado seguro, com belas placagens, boas recuperações de oval, um instant killer no breakdown e um jogador mais “próximo” de Read, a nível táctico. Mas Ardie traz explosão, imaginação,irritação para quem o defende… é um dos jogadores que melhor trabalha no contacto.

Um exemplo de como o asa dos Hurricanes galga metros no contacto, mesmo quando é agarrado por mais que um adversário. O poder de explosão, a capacidade de aguentar com forças contrárias e a capacidade física permitem que Ardie seja um dos portadores de bola mais temidos do rugby.

Ainda outro pormenor era convocar Lima Sopoaga e retirar Aaron Cruden. Cruden tem estado francamente abaixo do espectável, com más decisões no jogo à mão e pontapés desalinhados com o que se pede. À parte da assistência para ensaio de Ioane, Cruden pouco ou nada mais fez.

Sopoaga traz imaginação, criatividade e uma leitura de jogo bem apetrechada. Os Lions não gostam de aberturas que façam decisões improváveis… o abertura dos Highlanders poderia ser uma arma secreta de Hansen.

Porém, conhecendo bem o seleccionador dos All Blacks, é provável que pouco ou nada mude no XV… talvez a entrada de Fekitoa, mas pouco mais. Hansen vai tentar impor a sua teimosia e de voltar a confiar no core do 2º jogo para trazer as Series para casa. Os All Blacks precisam de querer dominar, precisam de garantir poder de “fogo” nos alinhamentos, precisam de ser cínicos… agora que foram “apertados”, o backlash dos All Blacks poderá ser assustador.

Um exemplo do jogar em risco dos All Blacks:

Resist! The Lions great stopping power!

Os British and Irish Lions apresentaram-se mais confiantes no 2º encontro… As jogadas de Warren Gatland “resultaram”, criando um certo “ambiente” que deu pazcalma aos seus jogadores, pondo o ónus de interesse da imprensa em si e não nos homens que iriam alinhar no sábado. Os jogadores das Ilhas Britânicas entraram em campo com vontade de “estragar” o jogo aos All Blacks, de realizar uma exibição mais carismática (ainda com vários “ses”) e de pôr as Series num stalemate.

Com um jogo “bonito” ao largo e com outra vontade de olhar para a linha de vantagem, foi também um pormenor importante da vitória (notem, também, neste clip o trabalho defensivo de Beauden Barrett)

É verdade que os Lions só conquistaram a vitória nos minutos finais do jogo, apesar de terem jogado contra 14 durante 55 minutos… mas conseguiram-no e deram uma “estocada” no Monstro All Blacks que domina o Planeta da Oval.

Se foi uma estocada forte o suficiente para meter os neozelandeses em quase estado vegetativo, bem isso só será respondido dia 8 de Julho às 08:35. A defesa dos Lions foi inexpugnável, não consentindo qualquer ensaio, apesar das 13 penalidades cometidas, sete das quais aproveitadas por Beauden Barrett para fixar aos postes e somar 21 pontos.

Mais uma vez, Sean O’Brien foi um dos grandes enforcers dos Lions, assumindo um papel preponderante na posição de nº7. Para além das 12 placagens efectivas, fica também a forma como ocupou o espaço, o desempenho junto ao ruck e a concentração imposta durante todo o jogo.

A parelha que fez com Sam Warburton (grande jogo do capitão dos Lions) foi perfeita para anular com vários pontos de jogo dos All Blacks, que a jogar com 14 sentiram enormes (como seria de esperar) dificuldades em passar pela grelha defensiva bem montada e bem executada pelos Lions (Andy Farrell, pai de Owen Farrell e treinador de defesa da Irlanda e dos Lions, tem sido uma das chaves-mestra para o crescimento a nível de leitura defensiva e de trabalho na zona de placagem, assim como a disputa no breakdown).

Para além disso, Owen Farrell foi outro dos jogadores em alta com várias boas placagens, uma atitude intensa e um nível de jogo soberbo (possivelmente é um dos melhores atletas do Mundo, ao lado de Barrett, Coles, Fofana, Hogg, entre outros). A dupla de centros esteve em alta sintonia, combinaram na perfeição e foram um caso sério para SBW (até aos 25), Lienert-Brown e Laumape.

Os Lions exploraram, insistentemente, o fechar do canal entre 12-13 e 13-14/11 ou a possibilidade do 15 assumir um papel de “moinho” de jogo, retirando algum poder de fogo dos All Blacks, que tiveram de recorrer aos pontapés (seja o crosskickgrubber ou o up and under) para tentar conquistar metros.

Tentaram com Naholo (o ponta chegou atrasado, numa situação em que podia ter dado uma intercepção perigosa para os All Blacks) e Ioane (o tal pontapé desferido por Crudden), mas das duas vezes existiam sempre unidades para “desarmadilhar” a situação.

Foi com perfeição que Warren Gatland teve aquilo que tanto queria, uma equipa intensa, “guerreira”, mexida e que conseguisse entrar dentro da cabeça dos All Blacks.

Mako Vunipola fez um jogo de enorme nível, apesar de ter desferido algumas ilegalidades que poderiam ter sido punidas com cartão vermelho… no entanto, a “maldade” de Vunipola, a fisicalidade de Itoje, o moer de O’Brien ou a raça de Jamie George fizeram mossa nos avançados neozelandeses que estiveram numa noite desinspirada (quando Retallick ou Whitelock não surgem em jogo, algo está mal).

Já na nossa análise à convocatória dos Lions tínhamos questionado o não chamar de Dylan Hartley, pois seria um elemento que causaria “irritação” aos All Blacks, desferindo algum “veneno” no jogo. Faz parte… e Vunipola aceitou esse papel, assumindo uma postura muito “agressiva” para pôr alguns elementos dos All Blacks em constante frenesim.

Itoje foi outro dos “segredos” que Gatland confiou e resultou… o 2ª linha inglês fez “somente” 15 placagens e garantiu duas faltas por bola presa e mais um turnover. A capacidade de Itoje em avançar para o adversário e ir imediatamente à “bola”, pondo o portador da bola e o apoio em “suspenso”, é uma das melhores valências que os British and Irish Lions podem ter em campo.

Foi notória a boa postura na hora de defender, conseguindo parar as intenções dos All Blacks com uma defesa inexpugnável, em que o apoio ao placador foi imediato, atirando-os para trás mais que uma vez, como se pode ver no vídeo abaixo.

Contudo, a equipa das Ilhas britânicas teve erros que a jogar contra 15 podiam ter sido fatais… 13 penalidades consentidas foi um risco imenso… tiveram alguma “sorte” nos três falhanços de Barrett ou o facto dos All Blacks terem perdido a capacidade de montar um alinhamento e ganharem metros através de um maul.

Mais uma vez, sete faltas pelo placador não sair rapidamente da linha da bola, duas por fora-de-jogo, duas por placagem alta, uma por queda da formação ordenada e outra por disputa ilegal no ruck.

Não há dúvidas que isto acontece por:

1- o rugby do Hemisfério Sul é mais rápido, dinâmico e que assenta em princípios de velocidade mais “altos” que o do Norte, o que obriga aos jogadores dos Lions a mudarem os seus timings;
2- é a forma de “matar” com o jogo rápido que Aaron Smith e TJ Perenara gostam tanto de ter nas suas mãos… foi notório a “irritação” do formação dos Hurricanes com a forma dos Lions disputarem o breakdown ou de não saírem do caminho da bola nos rucks.

Finalmente… Gatland não deverá mudar nada para o 3º e último jogo… equipa que ganha não mexe, mesmo que tenha sido contra 14! O objectivo é manter a mesma consistência e harmonia que os 15 do sábado passado demonstraram. Talvez chamar James Haskell e porque não convocar Finn Russell?

Dia 8 de Julho segue-se mais um dia tenebroso para os Lions ou All Blacks… alguém vai ter que perder as Series… os All Blacks partem agora num misticismo obscuro, “engolidos” pelos seus próprios erros… o problema é que quando se consegue afastar uma bola de demolição para trás, ela volta para a frente com mais força e impulsão… o impacto poderá ser assustador. Por isso, os Lions têm de estar preparados para o embate. Entram no último jogo com a ideia de que podem “danificar” por completo os All Blacks e levar o título para casa. Partem em vantagem pela vitória que conquistaram em Wellington… em Eden Park, casa sagrada para os All Blacks, tudo se decide.


Entre na discussão


Quem somos

É com Fair Play que pretendemos trazer uma diversificada panóplia de assuntos e temas. A análise ao detalhe que definiu o jogo; a perspectiva histórica que faz sentido enquadrar; a equipa que tacticamente tem subjugado os seus concorrentes; a individualidade que teima em não deixar de brilhar – é tudo disso que é feito o Fair Play. Que o leitor poderá e deverá não só ler e acompanhar, mas dele participar, através do comentário, fomentando, assim, ainda mais o debate e a partilha.


CONTACTE-NOS




Newsletter


Categorias


newsletter