20 Out, 2017

O jogo perfeito em Belfast e o levantamento da Red Army

Francisco IsaacDezembro 12, 201610min1

O jogo perfeito em Belfast e o levantamento da Red Army

Francisco IsaacDezembro 12, 201610min1

Retorno da European Champions Cup para a 3ª jornada, com o novo amanhecer irlandês, a classe dos campeões, a invasão dos Warriors de Glasgow em Paris e a estreia de um Wallaby na Ricoh Arena. A 3ª jornada em 5 pontos de Belfast a Paris!

Regresso aos jogos da European Champions Cup, num fim-de-semana glorioso para as equipas irlandesas, com Munster, Ulster e Leinster a somarem só vitórias; Glasgow Warriors invadem Paris e nem o génio de Carter “salva” o Racing;

Para os que não leram a 1ª e 2ª jornada deixamos o link de acesso à mesma: goo.gl/mmuq8k e goo.gl/7yO3Qd

O Jogo: LES JAUNARDS NÃO SOBREVIVEM À REVOLUÇÃO ULSTERINA

No jogo mais improvável de ganhar o “título” de Clássico ou Lição de Perfeição, o Ulster-Clermont desta 3ª jornada foi um regalo para os “olhos”. 39-32, 71 pontos no total, 9 ensaios e três pontos de bónus (1 para o Ulster e 2 para o Clermont), foram alguns dos números marcantes do jogo da Pool 5. Sem Julien Bardy (ainda a contas com uma lesão), a equipa francesa entrou a “matar” com um ensaio logo no 1º minuto por P. Yato, o nº8 dos Jaunards.

A entrada forte do Clermont não ficou sem resposta e, obviamente, o Ulster ,motivado pelo bom rugby que têm praticado esta época, “respondeu” com um ensaio de belo efeito, com Paddy Jackson a descobrir Luke Marshall, que quebrou a linha, bateu Lamerat e Fofana e caiu dentro da área de validação.

No meio da disputa, Morgan Parra converte uma penalidade, num momento em que o Ulster já “gritava” por domínio que se materializou em novo ensaio, carregado de “engenho”. Ruan Pienaar  aplica um up and under mas em formato de cross kick, que vai ter às mãos de Louis Ludik com o ponta a conseguir fazer um offload para o imparável Ian Henderson.

A defesa do Clermont permitiu muito espaço aos irlandeses de Belfast, o que beneficiou a equipa de Les Kiss ao longo dos 80′. De qualquer forma, foi o Clermont a aproveitar duas penalidades para subir no terreno e sair “disparado” para a linha de ensaio, desta feita por Scott Spedding.

A partir dos 30 minutos o jogo pertenceu ao Ulster que foi ao ensaio por Paddy Jackson (grande visão do nº10 a descobrir espaço por detrás das costas da defesa do Clermont), Luke Marshall e Charles Piutau (ensaio da semana?), pondo os Ulstermen em polvorosa! Sempre tinham acabado de chegar aos 39-18 perante uma das equipas mais fortes dos últimos 10 anos do contexto europeu! O Clermont conseguiu mais dois ensaios por Abendanon e Chouly (em grande momento de forma), só que ficou num “avant” de Spedding.

Porquê ver este jogo? Pela intensidade dos avançados a cada formação ordenada, pelo génio de ambos os aberturas (especialmente o terrível Paddy Jackson), pela agressividade de Piutau e a entrega física de Spedding, pela classe que os 15,000 adeptos espalharam durante uma tarde de rugby clássico. O rugby saiu a ganhar, especialmente o irlandês.

Piutau é de Belfast! (Foto: Irish News)

A Estreia: AND NOW THE BEALE WALLABY SHOW STARTS

Novo “Rei” nos Wasps de Coventry, de seu nome Kurtley Beale! O centro/defesa/ponta australiano (60 internacionalizações e 118 pontos marcados), recuperou de uma lesão no joelho que o atirou para “fora dos relvados” durante 7 meses, impossibilitando-o de participar na selecção dos Wallabies, jogar o início de época pelos Wasps e dar o seu contributo ao rugby. Mas, todos os “males” podem ser debelados e Beale, ao jeito de um Wallaby que se recusa a “desistir”, voltou em força.

Na sua estreia com a camisola preta-amarela, a nova vespa espetou o seu “ferrão” na defesa do Connacht logo aos 4 minutos. Este ensaio foi uma “ode” ao que Kurtley Beale consegue fazer… lutar pela posse de bola, explorar a linha de defesa e batalhar pelos metros, sejam 10 ou 2.

O jogador de 27 anos entrou com uma “fome” de bola fenomenal,  abrindo caminho para a vitória dos Wasps, num jogo muito complicado até à chegada do 4º ensaio (32-17 final).

Beale recebeu mesmo ordem de expulsão aos 20′, por pretensa placagem alta (o jogador do Connacht, baixou-se no contacto, algo que complicou a missão de placar de Beale), voltando ainda mais forte e motivado para a segunda metade do encontro. Quando o resultado vibrava num 27-17, Beale pôs fim às esperanças dos campeões da PRO12 com um offload de sonho para Basset.

Toda a elegância de Kurtley Beale resultou em 10 pontos para os Wasps, no fecho da 3ª jornada da Pool 2. Para além disso, o centro foi responsável por 6 placagens e 2 turnovers (Joe Launchbury foi um autêntico devorador de roubos de bola, com 3 em todo o jogo), provando que não é só a atacar que é um dos jogadores de grande classe mundial.

O Campeão: MUST EUROPE BOW AT THE FEET OF THE SARACENS?

Saracens F.C., o novo paradigma de domínio nesta Europa de rugby? No regresso à “actividade” europeia (o campeonato local decorreu durante os três últimos jogos da Selecção inglesa, com os sarracenos a registar duas vitórias em três jogos), a equipa de Mark McCall cilindrou os “vizinhos” do Sale Sharks por 50-03.

Num jogo fácil para a equipa londrina, os Sharks pouco conseguiram fazer perante a “agressividade” física de Bosch, os “pezinhos eléctricos” de Maitland, a visão de Owen Farrell ou o génio de Maro Itoje (regresso à Champions do 2ª linha, após três meses de fora por lesão).

Melhor que tudo é a forma como o plano de jogo é executado com uma fluidez que deixa qualquer um fã dos Saracens. A grande dificuldade para as equipas que jogam contra estes sarracenos passa pelo facto de não ser só Farrell a produzir ou a ser o ponto de convergência das jogadas e movimentações, já que existem outros pontos de início.

Quem por exemplo? Goode (vejam como o defesa aplica o grubber para que Chris Wyles capte no limiar da linha de fora e marque o seu ensaio), Wigglesworth (aos 33 anos, o formação continua numa forma de invejar) ou Bosch (o 2º ensaio de Maitland tem um toque de fora de série do centro argentino) conseguem “vestir” essa responsabilidade de criarem/conduzirem o jogo ofensivo dos campeões ingleses e europeus de 2015/2016.

Vai ser muito complicado parar estes sarracenos que continuam na sua demanda de dominar o contexto nacional e europeu, com um rugby prático, alegre, eficaz e seguro.

Na sua máxima força (vão ter Will Skelton, 2ª linha da Austrália, até Março de 2017) são imparáveis, seja no ataque ou na defesa (num jogo que só atacaram, nos momentos em que foram obrigados a defender não falharam uma placagem, conseguindo 5 turnovers, argumentando a favor da tal eficácia que já mencionámos). Quem vai conseguir parar estes Saracens?

A Polémica: HARTLEY NO MEIO DA CONFUSÃO

Um jogador mal-amado pela comunidade internacional da Oval, Dylan Hartley voltou a dar espaço para que se questione a legitimidade de ser capitão ou sequer integrar os British&Irish Lions em 2017.

As críticas vão mesmo ao ponto de pedir que Hartley seja excluído da selecção inglesa nas próximas Seis Nações 2017 (isto poderá acontecer dependendo se o capitão seja chamado à comissão de Ética da World Rugby), o que não deixa de ser um exagero e, talvez, alguma “raiva” contida para com o nº2 dos Saints.

Quando Dylan Hartley entrou em campo, os Saints já perdiam por 20-10 (ensaio de Sean O’Brien a culminar o domínio do Leinster)… nem dois minutos passaram quando o talonador saiu disparado para a placagem e acertou em O’Brien com o braço, colocando o asa em KO.

Não houve solução... cartão vermelho e saída do jogo ao fim de uns poucos minutos em campo, isto quando faltavam 25 minutos para terminar o jogo. O Leinster voltou a carregar e acabou por cima, com mais três ensaios, atingindo o 37-10 final.

Olhando para as imagens, terá Dylan Hartley tido desejo em desferir um “golpe baixo” no seu adversário? Errou na avaliação à placagem? Todas as questões são pertinentes, mas o facto é que a acção de Hartley vai levantar uma discussão acesa sobre a capacidade mental do nº2. De qualquer forma, o jogador nascido na Nova Zelândia, mudou por completo o “chip”, tendo guiado a Selecção inglesa ao seu melhor período desde 2012… 16 vitórias em 16 jogos.

Não merecerá mais respeito pela comunidade? Hartley passou a fase das semanas a fio de castigo para chegar a uma estabilidade emocional e de nível de jogo de alta categoria, algo que deve ser considerado por todos aqueles que colocam-no como um jogador violento, mau e que não tem espaço na modalidade.

Keep your chin high (Foto: The Guardian)

A Sequência: MUNSTER, NOVA VITÓRIA, NOVO SONHO

Sequência de excelência do Munster, que perdeu o seu grande timoneiro a 16 de Outubro… dessa data até ao dia 12 de Dezembro a equipa liderada agora por Rassie Erasmus jogou 6 jogos, somando só vitórias.

Quatro para a PRO12 e mais dois para a Champions Cup. No último jogo na Champions Cup, decidiram “varrer” a equipa dos Leicester Tigers por 38-00, com uma exibição de gala, onde o colectivo é a verdadeira força desta Red Army.

O sistema de Foley continua bem assente, onde a terceira-linha assume um papel importante na gestão de jogo (CJ Stander está na luta pelo melhor nº8 da Europa), seja no apoio ao ataque (Stander percorreu cerca de 60 metros com a oval na mão, em 18 tentativas) ou pela execução defensiva.

Depois há a excelente harmonia entre Connor Murray (grande final de 2016 para o formação da Irlanda) e Tyler Bleyendaal, que foram responsáveis por 28 pontos de forma directa/indirecta, com o nº9 a conseguir duas assistências para ensaio, enquanto que o médio de abertura completou 18 pontos ao pontapé (3 conversões e 4 penalidades) fundamentais para a vitória à passagem da 3ª ronda da prova máxima de clubes europeus.

Há toda uma intensidade, um “coração”, uma paixão em levar o Munster a vôos mais altos, que torna ainda mais apaixonante aquela “mancha” vermelha que acompanha o Munster para todo e qualquer lado… neste jogo, em casa frente aos Tigers, 25,600 adeptos marcaram presença no Thomond Park para mais uma grande tarde de rugby dos Red Army.


One comment

  • Carlos Carta

    Março 7, 2017 at 8:55 am

    Acho que o Munster não vai facilitar nada a vida de ninguém… grande equipa.

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