20 Ago, 2017

O Hit and Run dos All Blacks em Sydney

Francisco IsaacAgosto 21, 201611min0

O Hit and Run dos All Blacks em Sydney

Francisco IsaacAgosto 21, 201611min0

Nova Zelândia, ao estilo dos All Blacks, espalha o “terror” em Sydney e arruma com os Wallabies com um esclarecedor 42-08. Na África do Sul, os Springboks bafejados por alguma “sorte” conseguem “arrancar” uma vitória na penúltima bola de jogo frente à Argentina, com um 30-23 final. A 1ª jornada do Rugby Championship em 6 pontos.

O Colectivo: THE ALL BLACK VOID

Não há como fugir, até porque no outro jogo a África do Sul nunca foi um verdadeiro colectivo e a Argentina acabou por perder no meio de um “sarilho” que eles próprios montaram. A Nova Zelândia imperou de tal forma que os Wallabies, a jogar em casa e a defender o troféu, não conseguiram respirar em qualquer momento do jogo. E note-se que nem começou muito bem para a equipa de Steve Hansen que começou a perder com uma penalidade de Foley e Codie Taylor, o talonador dos Crusaders, saiu lesionado. Só existia mais uma solução para a posição de nº2, Dane Coles, o talonador dos Hurricanes que ainda está a contas com uma lesão (fractura numa cartilagem numa das costelas), e sem que ninguém esperasse, o jogo correu todo a favor dos neozelandeses. Coles até foi dos jogadores que mexeu com o jogo, com 33 metros conquistados em 10 carries e um ensaio (à ponta após uma sequência de fases de jogo curtas), para além de ter dominado no alinhamento ou nas formações ordenadas (100% nos dois sectores). Mas o que realmente foi incrível nos All Blacks, foi a sua estrutura de jogo e trabalho colectivo… os quinze que estavam dentro do campo só queriam “divertir-se”, trocar a bola o máximo possível e demonstrar que no meio desta reconstrução, o futuro está lá. Barrett fez jus ao lugar de Carter, com uma super exibição (1 ensaio, 2 assistências, 3 penalidades e 2 conversões em 9 pontapés) onde a sua incessante procura pelo espaço, permitiu aos neozelandeses chegar ao ensaio por 3 vezes… Barrett recebia a bola, trocava os pés – e os “olhos” aos australianos – e quebrava a linha sem que os seus adversários conseguissem montar uma rede defensiva eficaz. A dupla de centros conquistou-nos, com Crotty e Fekitoa a efectuarem um jogo sem mácula, cheio de entrega e vontade de “andar para a frente”, para além de que na avançada Kieran Read foi um comandante intenso e decisivo (roubou 4 alinhamentos aos da casa, fez três turnovers e 12 placagens), que ia corrigindo, sem “berrar”, os pequenos erros dos All Blacks. O planeamento de jogo de Hansen foi certeiro, equilibrado e de qualidade, com o ataque a não cometer erros: 840 metros conquistados, 20 erros próprios, 22 quebras de linha e 6 ensaios. Mas como isto se aplica? Bem, o sector dos avançados não ficou “agarrado” ao jogo curto ou ao simples apoio às linhas atrasadas, foram eles também parte da movimentação ofensiva com várias captações de bola que escolhiam entre ir ao contacto “rápido” (por isso entrar, trabalhar o mais possível, cair e a bola sair de imediato) ou serem eles a lançarem o ataque para as alas (Read, Cane, Coles ou Retallick fizeram com qualidade este papel) prendendo alguns defesas pelo caminho. Nem o mítico Pocock (com 7 turnovers e 13 placagens) conseguiu acompanhar o elevado ritmo físico dos neozelandeses (outro pormenor do seu jogo de colectivo), que causou vários dissabores em Sydney para a equipa da Austrália. Quando alguns duvidavam do valor dos All Blacks, que estavam órfãos de McCaw, Carter, Nonu, Smith ou Mealamu, os campeões mundiais deram um autêntico “chega para lá” e atacaram a linha defensiva dos Wallabies, dos fãs e daqueles que diziam que a Nova Zelândia não tinha colectivo, capacidade física para lutar pelo troféu em 2016… mas será tudo um all in the park para os All Blacks?

O Momento: A EPOPEIA DA VITÓRIA EM DUAS PLACAGENS

No África do Sul-Argentina existiram dois momentos que definiram o quanto os Springboks queriam conquistar a vitória neste jogo e ambos são defensivos. O 1º foi por volta do minuto 46 (mais precisamente entre os 46:15-28) quando Alemanno consegue ganhar espaço e, num belo offload, mete a oval nas mãos de Facundo Isa (jogo de grande qualidade do nº8 dos Jaguares, que teve mais de 85 metros de conquista em 15 tentativas, para além de 8 placagens e 2 turnovers) e o 3ª linha rompe a defensiva sul-africana para ir a correr em direcção à linha de ensaio… mas valeu uma semi-placagem de Goosen (bom jogo do nº15, algo diferente do que é Willie Le Roux) com Adriaan Strauss a meter a “5ª” e a saltar para cima do argentino impedindo-o de entrar pela linha de ensaio. Depois num ruck mal construído e sem qualidade, a África do Sul reconquista a bola e mesmo com um chuto desastroso de Jantjies (aqui podemos discutir se Strauss teve culpa ou não por estar no caminho da bola, mas o nº10 dos Lions demonstrou que falha perante a pressão) a África do Sul consegue voltar a “respirar”. E perto do fim, quando o resultado estava num 20-23, a favor dos argentinos, Pieter-Steph du Toit (começou no banco, de forma inexplicável) solta um sprint e num momento de puro génio e sem qualquer medo, se atira ao pés de Hernandéz no momento em que “el Mago” ia realizar um pontapé… bola para a frente, fora de jogo de um dos Pumas e penalidade para a África do Sul para o 23-23. Num jogo confuso, clumsy e, por vezes, sem “ideias” os Springboks foram atrás da vitória a partir de uma defesa tão ou mais agressiva que a dos argentinos e, no final, Warren Whiteley numa movimentação inteligente e carregada pelas “vozes” dos adeptos presentes em Nelspruit.

Try Time: BARRETT TOUCH WITH A FOWARDS SPRINKLE

Beauden Barrett… todos os momentos em que conseguiu criar jogo para a sua equipa, o jogo entrou sempre numa “zona” em que o impossível é distorcido e quebrado, em especial no ensaio de Naholo, em que Barrett simula um passe, abre-se uma gap, explora-o e depois perante dois adversários, espera pelo aparecimento de Naholo que segue sem oposição até à linha de ensaio (aos 38′). Mas o grande ensaio da jornada ficou reservado para o momento em toda a equipa dos All Blacks se envolve numa série de movimentações, explorando sempre o offload e a falta de velocidade dos australianos… a partir de um ruck nos 40 metros, Smith atira um passe para Whitelock, que entra no contacto e faz um passe nas costas para Kane Hames, com o pilar a sair em grande velocidade e a transmitir, no fim, a bola para Barrett (estava na 2ª linha de ataque). O nº10 só teve de abrir na ponta e esperar pela vinda de Julian Savea, com o ponta a chegar ao seu 40º ensaio pelos All Blacks, após dar um encosto em Will Genia (não foi o melhor retorno do nº9 à Austrália). O ensaio é excelente do ponto de vista do envolvimento da equipa, com avançados a demonstrar que conseguem realizar técnicas de jogo dos 3/4’s e com os 3/4’s a fazer aquilo que sabem bem fazer, decidir jogos em fracções de segundo. É um ensaio que demonstra todos os apontamentos que os All Blacks são conhecidos por: técnica individual aprimorada, noção de jogo total e os básicos bem aperfeiçoados (ensaio ao minuto 58). Houve outro ensaio de nota alta, o de J. Goosen após uma saída de Faf de Klerk da formação ordenada, com o 9 a fazer um passe excepcional para o defesa do Racing Metró.

O Playmaker: BETWEEN THE BARRETT SHOW AND THE GOOSEN WORK

Seria normal atribuirmos o MVP do fim-de-semana a Beauden Barrett, já que marcou 17 pontos e ainda criou mais duas situações de ensaio directas (e mais uma indirecta) o que perfaz um cômputo geral de 27 pontos num jogo que terminou em 42 para os All Blacks. Contudo, seria errado não falar de Johan Goosen, o defesa dos Springboks. Barrett fez um jogo completo e a roçar o perfect game, não só com as tais situações de rotura defensiva mas também com uma panóplia de pontapés bem medidos (Barrett vai modificando o tipo de pontapé a aplicar, desde com a parte de fora do pé ou a interior) e calculados. Nem foi necessário o nº10 envolver-se na acção defensiva, já que terminou só com duas placagens… num jogo em que a equipa adversária pouco fez para atacar. No jogo em Nelspruit, na África do Sul, o bok’ Goosen fez de tudo para levar a sua equipa à vitória. Não é um jogador ofensivo como Le Roux, mas tem uma série de outros atributos que elevam o seu jogo… desde logo, a placagem, com duas de último recurso que pararam corridas de Montero e Isa que já iam lançados para o ensaio. A excelente comunicação (bem audível) foi corrigindo alguns erros dos sul-africanos, que insistiam em tentar fazer o jogo dos argentinos, para no fim conseguir marcar um dos ensaios da vitória dos Springboks frente aos Pumas. Goosen realizou 85 metros, marcou o tal ensaio e dá o 1º a marcar a Combrinck (grande recepção a dois tempos). Foi uma “Rocha” no jogo deficitário dos sul-africanos e pode ser, sem dúvida, a solução para o problema Le Roux.

Goosen on the air (Foto: Sowetalive)
Goosen on the air (Foto: Sowetalive)

O Detalhe do Jogo: MATT GITEAU OUT AGAIN

Foi triste e decepcionante quando aos 10 minutos de jogo víamos Matt Giteau a saltar para fora do jogo. O centro australiano, que é uma das grandes lendas do rugby aussie com duas finais em campeonatos do Mundo, três Tri-Nations/Rugby Championships e uma série de outros títulos (fora e dentro da Austrália), sofreu uma lesão grave (partiu o tornozelo) e despediu-se, aparentemente, da selecção dos Wallabies. Ao jeito do que tinha sido no último Mundial, Giteau não conseguiu terminar o jogo frente aos All Blacks, saindo no decorrer da 1ª parte. A equipa ressentiu-se do seu nº12 e a entrada de Toomua, que só aguentou 20 minutos, não deu a resposta necessária para a ausência de Giteau. Acaba por ser um detalhe do jogo, pois está directamente envolvido no que acabou por ser uma derrota “humilhante” para os australianos. Não será altura de tentar Kerevi e dar possibilidade à estrela dos Reds, a aparecer no Rugby Championship?

Giteau over? (Foto: Reuters)
Giteau over? (Foto: Reuters)

O Rant da Jornada: SOUND SYSTEM ON?

Pelo que se conta, foi encontrado um sistema de captação e gravação de som (ao jeito dos filmes de espionagem) no hotel da Nova Zelândia em Sydney. Os primeiros comentários apontavam, como é óbvio do “extremismo das redes sociais” para a equipa de Michael Cheika sem qualquer prova que aponte para esse facto. Não sabemos até que ponto é ou não verdade que o sistema encontrado estava mesmo para gravar as possíveis conversas tácticas e estratégicas de Hansen, mas para qualquer apaixonado e acompanhante do rugby Mundial, sabe que o trabalho da Nova Zelândia não começa ou acaba num quarto de hotel…vem de todo o background, desde da formação escolar até à universitária e o desenvolvimento das equipas regionais que vão crescendo de ano para ano. Alguns antigos jogadores e especialistas da modalidade até criticam a postura da Federação da Nova Zelândia de Rugby estar a prejudicar o Super Rugby pela forma como não quer permitir modificações profundas ao modelo de competição ou da forma de apoios… mas a verdade, é que a Nova Zelândia tem o melhor modelo, o mais sério, o mais equilibrado e de grande colectivo. Se há espionagem ou não no desporto, essa é uma questão que nem precisa de ser debatida, uma vez que já ficou provado que existe um certo tipo de “espionagem”… mas dizer que Cheika estaria desesperado para descobrir qual era a estratégia de Hansen e que no desespero pediu que alguém montasse esse sistema para “descobrirem” tudo o que havia para descobrir… parece-me que é uma teoria da conspiração descabida e fora do Universo do Fair Play do rugby Mundial. Quem, como e porquê? Isso será ditado pela investigação australiana nos próximos meses.

Sound System overloaded by the Haka (Foto: Dailymail)
Sound System overloaded by the Haka (Foto: Dailymail)


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