17 Ago, 2017

O Haka de Campeão à 4ª Jornada do Rugby Championship

Francisco IsaacSetembro 18, 201614min0

O Haka de Campeão à 4ª Jornada do Rugby Championship

Francisco IsaacSetembro 18, 201614min0

Outra exibição de gala dos All Blacks, Springboks a ficarem longe do satisfatório, Pumas na raça mas sem cabeça e uns Wallabies em franca recuperação… esta foi a 4ª jornada do Rugby Championship, em que a Nova Zelândia já conquistou o título de Campeã do Hemisfério Sul

O Campeão: ARE THE ALL BLACKS THAT GOOD?

Para responder desde logo a essa pergunta… sim, o são. É a 2ª semana em que perdemos tempo a falar dos neozelandeses, mas vale a pena analisar, brevemente, como jogam, como atingem a linha de ensaio e como criam uma ilusão aos seus adversários. Para os mais dedicados à observação do rugby, apercebem-se, desde logo, que a selecção da Nova Zelândia trabalha com excelência os básicos: passe, linha de corrida, apoio, colocação de bola no chão, placagem, disputa de ruck e recuperação de bola. No primeiro factor, o passe, vejam como Dane Coles, o talonador neozelandês, acaba o jogo como o melhor assistente para ensaio com três passes certos, cada um diferente do outro (curto, offload e longo) o que prova que em todas as posições o domínio dos básicos é necessário para jogar a este nível. Esse trabalho só torna mais fortes, temíveis e capazes de dar a volta a qualquer jogo (jogo frente à Argentina por exemplo). Seja um pilar que tem de saber correr com a oval nas mãos e fazer diferença na hora de escolher entre um offload, um passe curto ou optar por uma finta de corrida, ou um médio-de-abertura que não pode realizar uma placagem de baixa categoria e tem de saber parar o adversário on the spot (Barrett voltou a realizar 7 placagens nesta 4ª jornada), a Nova Zelândia acaba por ganhar os jogos não só nos detalhes (os offloads preciosos, as linhas de corrida de outra dimensão ou os pontapés in game) mas por tornarem os básicos na sua melhor “arma” durante os 80 minutos. No jogo frente à África do Sul, foi aí que se viu a grande diferença entre as duas “arque-inimigas”, com os sul-africanos a realizarem 16 erros próprios, enquanto os All Blacks ficaram nos 11. Outro destaque vai para a formação ordenada, que já tínhamos falado na análise à 3ª jornada. Neste jogo em 6 ensaios, 3 nasceram a partir desse aspecto do jogo: o 1º, de Israel Dagg, começa numa FO já dentro dos 22 metros, com Smith a transmitir a oval para Barrett e depois, logo de seguida, de Smith para Coles e este a fazer de “moinho” para entregar ao ponta neozelandês; o 2º é uma cópia do 1º, com a mesma sequência de jogada, que acaba com Coles a receber a bola e a encontrar espaço na linha de defesa, o que vai permitir metê-la nas mãos de Julian Savea para o ensaio; e o 6º e último de TJ Perenara, foi um “mergulho” a partir de uma FO já nos últimos 5 metros dos Springboks. Steve Hansen, com a sua equipa técnica, aperfeiçoou este “prisma” de jogo da Nova Zelândia garantindo não só eficiência mas, e principalmente, “conversão” da FO em pontos para conquistar novas vitórias e levantar novos troféus. Por último, um terceiro aspecto igualmente importante: banco. Isto é, suplentes que têm a mesma categoria, qualidade e capacidade que o XV titular. Neste Rugby Championship foi outro “sector” em que os All Blacks provaram a sua gritante diferença entre eles e os outros. Se Aaron Smith saísse de jogo, TJ Perenara fazia o mesmo ou melhor (2 ensaios, 2 assistências em menos de 100 minutos), Jerôme Kaino sai por lesão entra Matt Todd, não há que preocupar (2 placagens e 1 turnover) e Ryan Crotty, o 1º centro que está a assumir um papel importante nas linhas atrasadas, falhou a 2ª jornada por lesão, foi substituído com classe por Lienert-Brown. Com um banco de excelência é fácil entrar para a 2ª parte dos jogos, momento em que os All Blacks aproveitou para ligar o “motor” e cilindrar quem esteja à sua frente. Nesta 4ª jornada estes três factores somados deram a vitória final de 41-13 e o título de campeões do Rugby Championship quando ainda faltam duas jornadas por disputar. Básicos, Formação Ordenada e Banco de Suplentes… três detalhes para garantir metros, pontos e jogos.

Dominium (Foto: Getty Images)
Dominium (Foto: Getty Images)

O “retorno”: WELCOME BACK MICHAEL HOOPER

Sentíamos saudades do one and only Michael Hooper. O asa australiano, na vitória da sua selecção frente à Argentina (36-20), voltou à carga com uma exibição ao seu estilo: 1 ensaio, 1 assistências, 20 placagens e 2 turnovers. A intensidade que impôs na 3ª linha foi fulcral para que os Wallabies continuassem na senda das vitórias (2ª consecutiva), com aquele ritmo muito alto que acabou por “vergar” a defesa adversária. Nos 3 jogos anteriores, Hooper e Pocock andaram longe dos seus melhores dias, aparecendo aqui e ali, sem uma participação preponderante… especialmente no jogo frente aos All Blacks, a queda vertiginosa da 3ª linha complicou a missão de Cheika. Como já destacámos, no jogo frente à Argentina, Hooper demonstrou o seu melhor rugby, mas como? Enquanto que no jogos frente à Nova Zelândia sentia-se a ausência do asa nos canais mais laterais do campo ou no apoio ao portador da bola (notem que neste momento, Read, Ardie Savea e Jaco Kriel são os melhores neste sentido), o que criava, a longo prazo, problemas constantes no avanço no terreno, perdendo boas ocasiões de conseguirem pontos. Hooper tem este papel no jogo de Michael Cheika, é uma “peça de xadrez” para o avançar no terreno, no criar espaços e roturas defensivas (veja-se os jogos com a Inglaterra, em Junho, o papel de Hooper no ataque da Austrália), já que é um jogador de qualidade atacante acima do normal. Se a atacar foi fundamental (acaba por estar ligado a 10 pontos, directamente, jogo da 4ª jornada), a defender foi um primor estupendo. 20 placagens e 2 turnovers demonstram o papel preponderante em garantir que a defesa Wallaby não fosse alvo de “danos” sérios durante os 80 minutos de jogo. A Argentina teve um arranque de jogo péssimo, em que aos 10′ já se encontravam a perder por 21-00, o que obrigou a “carregarem” no “acelerador”. Nos restantes 70 minutos de jogo tiveram direito a 14 penalidades (os australianos tinham já feito duas nos primeiros 10) que quase nunca foram bem aproveitadas… em quatro delas, que seguiram para alinhamentos, Hooper conseguiu destruir – legalmente – os mauls com ajuda de Kepu e Mumm, para além de ter ido buscar Cordero a uma das pontas num momento fulcral de decisão de jogo. Com Hooper em alta forma, a “cantiga” australiana muda de tom, tomando proporções espantosas e necessárias para conseguir colocar a Austrália perto do topo do Hemisfério Sul.

Hooping away (Foto: Sanzar)
Hooping away (Foto: Sanzar)

Detalhes: BROTHERS IN ARMS, BROTHERS IN TRIES

Ao fim de 4 meses tivemos, finalmente, os dois irmãos Savea lado-a-lado num jogo internacional. Se nos Hurricanes a parceria tem sido de sonho em 2016 (campeão do Super Rugby), na selecção voltaram a chamar a atenção para si. Um ensaio para cada, uma grande exibição também e membros dos campeões do Rugby Championship em 2016. É nos detalhes que cada um deles conquistam o público do Rugby, já que Ardie é aquele asa incansável, veloz, que arrisca saídas de ruck desapoiado e ainda inventa jogadas de ataque do nada, enquanto que Julian é um monstro à ponta, consegue quebrar a linha e aguentar a placagem de um ou dois opositores, pondo em prática o seu belo offload ou aquela jigajoga que permite chegar ao ensaio. No total, os dois irmãos correram 70 metros (destaque no ensaio de Ben Smith, os 25 metros que Ardie conquistou com dois adversários a tentarem a agarrá-lo), 2 quebras de linha, 2 ensaios, 11 placagens, 3 turnovers e uma forte importância posicional. Vale a pena reverem um detalhe (dentro destes detalhes) de Ardie Savea aos 31′ (ver vídeo) para perceberam a utilidade que é ter um asa que não só placa, como se preocupa a levantar e voltar a atacar o canal para arrancar a bola da oposição. Hansen tem dois Savea e qualquer um pode assumir o papel de dínamo do ataque ou defesa All Black.

A estratégia: HOW TO HUNT A PUMA, A CHEIKA GUIDE

Michael Cheika volta a sorrir e a demonstrar que os Wallabies não estão “doentes” como se apregoava. No jogo frente à África do Sul (na semana passada) os Wallabies voltaram a conquistar uma vitória, sem demonstrar um rugby consistente e equilibrado, tendo alguma sorte em certos momentos do jogo. Nesta semana, pudemos ver algo completamente diferente: uma equipa sólida, crente nas suas capacidades e com vontade de fazer o seu jogo, sem se preocupar com o que adversário queria fazer. Cheika estudou bem os Pumas e percebeu que a equipa da Argentina dá-se mal com demasiada posse de bola, pois sempre que os Pumas tinham-na na mão durante largos períodos de tempo, havia pouca conquista de metros efectiva, levando-os a a perdê-la num avant ou turnover. Claro que aqueles primeiros dez minutos foram fundamentais para a Austrália, com três ensaios (todos convertidos) sem qualquer esboçar de resposta da Argentina. A partir daí foram os Pumas a ir atrás do prejuízo, com os Wallabies a fazerem uma “espera” bem montada, com 168 placagens confirmadas (mais 34 falhadas). A selecção comandada por Daniel Hourcade nunca soube aproveitar os momentos de maior superioridade (jogaram contra menos um durante 10 minutos) e nem com 16 penalidades a seu favor (8 nos últimos 22 metros australianos) conseguiram chegar a um ponto de bónus defensivo (optaram chutar três vezes aos postes e as outras 5 foram foram para o alinhamento, três delas perdidas no contacto). A Austrália traduziu em pontos sempre que tinha a posse de bola, castigou todas as desatenções argentinas e obrigou a Nicolas Sanchez, Tomás Cubelli ou Joaquín Tuculet a cometerem erros nos pontapés in game, que lhes deram os pontos suficientes para se afirmarem no 2º lugar do Rugby Champioship à passagem da 4ª jornada. Os Pumas exageraram nos rucks e jogadas curtas, desgastando-se o suficiente para entrarem para os 30 minutos finais sem capacidade física para virarem o resultado e nem mesmo com um ensaio aos 71′ (maul dinâmico) acreditaram na vitória. A perda de David Pocock para os restantes jogos poderá ser problemática (fractura na mão direita), todavia Cheika finalmente tem uma equipa, algo que faltou entre Junho e Agosto. 3 jogos frente aos Pumas, 3 vitórias para Cheika e, para já, 2º lugar no torneio de selecções do Hemisfério Sul… será suficiente para se aguentar no comando da Austrália?

The Wallabies hunting Pumas (Foto: ESPN)
The Wallabies hunting Pumas (Foto: ESPN)

Ensaio da Jornada: THE KEREVI-HOOPER CONECTION

No final desta 4ª jornada, tivemos uma mão cheia de bons ensaios, com os All Blacks a terem aquela jogada impressionante de Dane Coles para o ensaio de Julian Savea ou a “fuga” de Cordero frente à Austrália. Porém, foram dois ensaios dos Wallabies que captaram o nosso interesse: o 1º de Kerevi e o 2ª de Haylett-Petty. O de Kerevi começa num pontapé mal executado por Sanchez, que vai para às mãos dos australianos, para depois em movimentos bem trabalhados, conseguirem jogar ao largo, com Quade Cooper (boa exibição do excêntrico médio-de-abertura) a entregar a Hooper e este a atacar o espaço entre Moroni e Amorosino, com uma belo step tendo tempo para armar um excelente offload para Kerevi conseguir fazer o ensaio. Todos os detalhes foram bem trabalhados,  com um contra-ataque mordaz, rápido e letal para chegarem ao ensaio em 2 fases, em 15 segundos. Já o 2º ensaio é construído com uma base de dinamismo total, seja pelo salto de Coleman, a viragem de Pocock, para depois Quade Cooper “inventar” um passe que Petty “agradeceu”, quebrou a linha e foi directo aos postes. Era isto que faltava aos australianos, a “alegria” em querer arriscar, em imprimir uma dinâmica extenuante e que deixa o adversário sem reacção. Enquanto que nos jogos frente à Nova Zelândia ou mesmo frente à África do Sul, os avançados apresentaram-se algo “parados”, já neste jogo viveram das acelerações de Genia participando activamente na construção de oportunidades. O ensaio de Hooper, também merece menção, seja pelo passe de Cooper ou a corrida de Polota-Nau (substituto à altura para Stephen Moore).

O rant da jornada: ARGENTINA E O EXCESSO DE RAZA

É irritante e altamente frustrante ver um jogo dos Pumas. A qualidade está lá, têm jogadores fenomenais (Santiago Cordero, Agustín Creevy, Tomás Lavanini, Facundo Isa, Joaquín Tuculet, Matías Moroni, etc), têm um treinador que sabe analisar e ler as grandes adversárias (foram a única selecção a conseguir pôr os All Blacks em modo pânico) e o público, em casa, apoia ao bom estilo dos hinchas do país das Pampas. Porém, voltaram a claudicar num jogo que poderia ter sido seu a partir dos 15’… em 16 penalidades a seu favor só aproveitaram os pés de Sanchez por 3 vezes (só 9 delas é que foram a seguir ao meio-campo), tentando por ir a um alinhamento que saiu quase sempre mal (ganharam 88% das bolas no ar, mas no chão faziam falta, avant ou eram facilmente atirados para fora e só por uma ocasião conseguiram montar uma jogada de ensaio através deste sector de jogo) ou jogar em pick and goruck curto, sem aproveitar a velocidade de Tuculet (esteve muito afastado do jogo) ou o génio de Cordero. A equipa argentina foi sempre atrás da picardias lançadas pela defesa australiana, que queria os Pumas de cabeça quente, para destabilizarem a formação de Daniel Hourcade. Quando essa irritação Wallaby entrou nas “cabeças” dos Pumas, o jogo começou a ser mais jogado na raza e força, do que em génio e estratégia, algo que os Wallabies agradeceram para montar um jogo defensivo de enorme qualidade e que castigou, severamente, os Pumas. Com um jogo ainda em casa e outro em Twickenham, caberá a Hourcade mexer com os seus jogadores e pedir mais frieza e capacidade para perceberem que o “calor” do jogo não deve ser um veículo de destabilização e de destruição do plano de jogo.

Só raça não chega (Foto: Olé)
Só raça não chega (Foto: Olé)

 

Jogos Completos:

AUSTRÁLIA-ARGENTINA (goo.gl/jNrzuv)
NOVA ZELÂNDIA-ÁFRICA DO SUL (goo.gl/Xc3efn)


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