17 Ago, 2017

O Cruzamento de Gerações do rugby em Portugal

Francisco IsaacDezembro 22, 201612min0

O Cruzamento de Gerações do rugby em Portugal

Francisco IsaacDezembro 22, 201612min0

Sub-18 e Sub-20 fecharam o seu ano de 2016, num jogo recheado de bons momentos, intensidade física e necessidade de mostrarem o melhor que têm para oferecer. O futuro da Alcateia no CAR Jamor a lutar por um lugar nas Selecções Nacionais de formação. As gerações de Portugal na voz de Diogo Cabral, Gonçalo Prazeres, Manuel Nunes e João Vital

Há algo de especial quando temos a oportunidade de ver quatro gerações diferentes de jogadores portugueses a jogarem entre si, imbuídos pelo Inverno solarengo que se faz sentir em Lisboa. Quase 70 jogadores marcaram presença nos estágios de sub-18 e sub-20, com intenções claras de lutar por um lugar nos futuros “ajuntamentos” que se perspectivam para 2017.

Sob o olhar atento de Rui Carvoeiro, João Mirra, Francisco Branco (treinadores dos sub-18), João Pedro Varela, Luís Pissarra (treinadores dos sub-20), António Aguillar e Martim Aguiar (seleccionadores nacionais dos XV e 7’s de Portugal), o futuro do rugby português disputou um jogo carregado de bons momentos, onde a excelente entrega e vontade de apresentar provas de qualidade marcaram as três partes de 30 minutos.

Num “resumo” muito sucinto do que foi o jogo, os sub-20 conseguiram chegar ao ensaio por sete ocasiões, mas só após muito “sofrimento” e “trabalho”, ante uma defesa agressiva, aguerrida e comunicativa dos sub-18. Manuel Nunes, asa do RC Montemor (jogador que o Fair Play vai seguir até ao Campeonato da Europa de sub-18), realizou uma das melhores exibições, com destaque para a sua disponibilidade física e mental em receber a bola e lutar contra as placagens e cargas que era alvo.

Foi, talvez, o jogador mais utilizado em termos de gestão de jogo, domínio de bola e recuperação de território. Perante uma defesa onde estavam alguns jogadores que alinham na Divisão de Honra de seniores, Manuel Nunes, Rodrigo Marta ou Sebastian Castanheira, foram alguns dos jogadores que conseguiram mostrar que a “idade” é só um “número.

Os líderes das gerações (Foto: Pai Conde Fotografia)

Notou-se, no geral, que a equipa dos sub-18 está à procura de aguentar a exigência física que as selecções como a Geórgia ou Roménia fazem uso de para atingir as suas metas e garantir domínio.

A placagem esteve no ponto, com uma defesa bem articulada e que soube se movimentar, seguindo de perto as “agitações” das jogadas Jorge Abecassis, João Lima ou Francisco Costa Campos. Outro pormenor interessante dos sub-18, foi a forma como conseguiram “arrancar” a bola dos rucks, completando 5 turnovers e 4 penalidades frente aos seus mais velhos.

É um dos pormenores que a equipa técnica liderada por Rui Carvoeira deseja manter no jogo defensivo dos Lobos sub-18, uma defesa activa, agressiva e que consiga reagir rápido à pós-placagem, ou seja, apanhar a bola no chão no momento em que o portador da bola tenta disponibilizar a oval. Só assim será possível impedir as selecções mais dominadoras a “sofrer” e a perder o controlo de jogo.

Porém, os sub-20 conseguiram ir à área de validação depois de muito “baterem”, obrigando os sub-18 a abrir brechas. Jorge Abecassis foi um dos que melhor despontou da equipa de João Pedro Varela, com uma série de jogadas, que permitiram aos seus colegas chegar ao ensaio. Um dos ensaios dos sub-20 foi da autoria do próprio nº10 do CDUL, que encontrou um espaço na defesa, aproveito e já não mais parou até à linha de ensaio.

Ideias, Processos e modelos: obrigações destas geraões

Um bom jogo dos mais velhos provou que há grandes expectativas desta equipa, que precisa de tempo para fomentar a coesão e espírito de grupo. Mais de 88% dos atletas convocados provieram dos antigos sub-18 de Março de 2016, conseguindo um fio condutor muito importante para o futuro da Selecção Nacional.

Desde os irmãos Azevedo ou Campos, passando por Manuel Dias, Diogo Cardoso (o defesa/abertura do CDUL pode ser outra surpresa nesta selecção sub-20 por tudo o que trás ao jogo), Manuel Cardoso Pinto (o MVP de Portugal no último Europeu de sub-18 já se estreou pelos seniores), entre outros tantos voltam a marcar “posição” num novo escalão.

Notou-se, sobretudo, que há ideias de “processos” antigos mas que necessitam de ser remodelados perante as necessidades que o nível sub-20 exige. Luís Pissarra tinha avisado que era necessário formar um grupo coeso, que possibilitasse à selecção crescer e ser um símbolo de união. Isso só será possível com mais jogos e estágios, mais intensidade e camaradagem.

Lado-a-lado (Foto: Pai Conde Fotografia)

No jogo propriamente dito, os sub-20 sentiram algumas dificuldades em ter um jogo fluído, que lhes garantisse mais situações de ataque em condições. Contudo, o passado sub-18 e a experiência adquirida nos seniores (pelo menos 25 jogadores dos convocados já jogaram na Divisão de Honra) vai garantir uma base de trabalho bem interessante para a equipa técnica, que gostaram de ver a entrega física, a intensa “raça” e a capacidade de entre-ajuda no jogo frente aos sub-18.

Um despique amigável de asas!

No final do jogo e após as típicas conversas de grupo e o convívio entre ambas selecções, o Fair Play conversou com dois asas e capitães das selecções em causa: Manuel Nunes (sub-18, jogador do RC Montemor) e João Fezas Vital (sub-20, atleta do GD Direito).

Numa conversa mais aberta, sem as “restrições” de responder com demasiada ponderação, abrimos o diálogo com a seguinte questão:

João [Vital] que conselho darias ao teu colega de posição?

Bem sabem que eu neste momento transito entre a 2ª linha e a posição de asa, mas agora até tenho-me fixado na posição de 7. Para o Manuel tenho a dizer o seguinte: desfruta desta oportunidade e deste momento. Não sei que equipas vão jogar contra no Campeonato da Europa, mas seja a França, Geórgia, Irlanda, agarrem a oportunidade e joguem pela vida. Somos mais pequenos fisicamente, mas tecnicamente mais apurados que eles… podemos fazer a diferença se derem o máximo e acreditarem no grupo! Não se esqueçam que estão a representar Portugal! Honrem a camisola!

Manuel [Nunes] tens algum pedido, conselho ou ideia a partilhar com o João?

Gostava que fossem uma ameaça para que os vê de fora. Vocês são os próximos Lobos, as pessoas têm de saber quem vocês são e o que vão fazer por nós. Quero que vocês passem a integrar os lobos, que consigam dar o salto e que sejam o futuro do rugby português. Eu sei que é difícil dar o salto de sub-20 para os plantéis de seniores, mas têm de conseguir. É também dar o salto para homens!

Vamos a uma pergunta de discussão…. Richie McCaw ou David Pocock?

MN: “McCaw pela liderança e capitania, pela entrega dentro de campo! Claro que gosto muito do Pocock, que é um “monstro” no breakdown. Ou estou a dizer mal?
JFV: “Concordo com o que dizes, mas meto o Pocock em 1º lugar. É o jogador que gosto de “copiar”, tem aquela técnica na placagem, a inteligência no ruck. Respeito e sigo muito o McCaw por aquilo que o Manuel diz, o espírito de liderança… mas o Pocock é para mim o nº1!”

Acham importantes estes encontros entre selecções?

JFV: “Para nós é importante estes encontros… sobretudo porque estamos a ajudá-los a crescer… sei que o jogo foi altamente físico e exigimos muito de vocês, mas tem de ser. Vão encontrar a mesma oposição mas ainda mais competitiva. É excelente partilhar o campo convosco, Manuel! Mesmo com as placagens que vocês nos fazem! Para nós é uma forma de mantermos o nosso grupo coeso, de crescermos como modelo de jogo. É aproveitar ao máximo estes momentos.
MN: “As placagens são sem “maldade”… bem a maioria delas (risos). Estamos a jogar contra os nossos mais velhos, eles passaram por estes processos, jogam mais que nós e têm outra experiência. Para nós é só vantagens, já que nos obriga a querer e trabalhar mais.

A luta de gerações (Foto: Pai Conde Fotografia)

Para acabar… conselhos de jogo entre vocês?

MN: “O João sabe o que é ser asa… somos uns cães de fila que têm de aguentar tudo. Temos de estar na formação ordenada, mas ao mesmo tempo temos de saber estar na linha de ataque. Somos um 3º centro que gosta de lutar no contacto. O João faz isso com grande qualidade.
JFV: “Temos de saber estar no contacto… lutar por cada bola. O Manuel neste jogo sacou três bolas nos rucks, ele sabe perfeitamente o que é ser asa. Para além disso está sempre a disponibilizar-se para ir ao contacto. É ser um Pocock no ruck e um Hooper na placagem ou no jogo corrido.”

Depois de uma troca de elogios, um abraço, João Fezas Vital foi para o almoço de selecção assim como o Manuel. O espírito de companheirismo ficou bem ilustrado nesta pequena conversa entre os dois, que percebem que no rugby não há barreiras clubísticas e, talvez, nem de diferença de idades.

Uma troca de passes entre Gerações

Por fim, tivemos a hipótese de dialogar com mais dois jogadores, desta vez de forma separada e pós-estágio: Diogo Cabral (CF “Os Belenenses”) e Gonçalo Prazeres (AIS Agronomia).

Diogo, são um grupo empenhado em trabalhar… como foram estes 2 dias de estágio?

DC: “Estes dois dias de estágio, mais uma vez, acho que reflectiram o potencial que a equipa tem e o esforço e foco que metemos no trabalho que realizamos. Por estas razões, foram dois dias positivos! O jogo contra os sub20 mostrou a nossa vontade de crescer e ainda conseguimos definir e discutir alguns valores que nos identifiquem.

Quais foram os pontos positivos do jogo contra os sub-20?

DC: “Os pontos mais positivos no jogo que fizemos foram os momento defensivos que a equipa teve. Também gostei muito de ver os avançados, nunca desistiram daquela “luta” que os caracteriza, conseguindo, por vezes, um contra-ruck.

Como é jogar contra dois colegas de posição que já se estrearam nos seniores? E como os tentaste parar ou fintar?

DC: “É um grande orgulho! Acho que a minha motivação passou por encarar quem tivesse à minha frente de “igual-para igual” . Já sabia que ia ser um jogo muito exigente em termos físicos, por isso a entrega foi muito importante. Acima de tudo não me posso esquecer que, ao nível da alta competição, é possível encontrar centros muito mais desenvolvidos fisicamente do que eu. Assim, acho que foi um excelente teste para experienciar o embate físico e dinâmica de jogo a que estaremos sujeitos quando enfrentarmos equipas em competições de alto nível.

Gonçalo diz-nos como foi jogar contra o Methodist College. Como vos correu o jogo?

GP: “O jogo foi bastante interessante e como esperado intenso! A primeira parte correu menos bem e ao intervalo estava 5-7. Na segunda parte a equipa correspondeu ao pedido pelos treinadores e metemos mais intensidade no jogo e conseguimos virar o resultado ficando 27-7. No fim conseguimos mostrar uma defesa muito coesa depois de 5 minutos a defender nos nosso 5 metros.”

O que é que a equipa técnica vos pediu neste estágio de dois dias? E conseguiram dar isso?

GP: “O que nos foi pedido pelos treinadores para este estágio penso que tenha sido o início da coesão do grupo e começarmos a desenvolver o modelo de jogo.

O que esperas deste grupo para 2017? 

GP: “Acho que as expectativas são altas porque temos uma geração muito boa mas por sua vez não é pela geração que os resultados vão aparecer mas sim pelo trabalho que teremos de fazer até Março! Por isso acho que só depende de nós!”

Após estas duas conversas, o Fair Play despediu-se de ambas as selecções e espera vê-las no mais alto nível em 2017. Sejam do Belenenses, Direito, Agronomia, Bairrada, Montemor, CDUP, CDUL ou qualquer outro clube, a ideia em 2017 é ter dois grupos de excelência a representar Portugal. Como em 2015 e 2016, Portugal sairá “vencedor”, honrado com as prestações de ambos os grupos que dão o seu melhor a cada placagem, a cada ruck, a cada entrada, a cada jogo, a cada mês e ano.

O espírito de união (Foto: Pai Conde Fotografia)


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