23 Ago, 2017

Lobos de Risco e Irlandeses de Horas Extra

Francisco IsaacNovembro 5, 20167min0

Lobos de Risco e Irlandeses de Horas Extra

Francisco IsaacNovembro 5, 20167min0

A selecção portuguesa de sub-18 perdeu frente às Escolas da Irlanda, num jogo com duas partes distintas; Vasco Morais, Diogo Cabral e Manuel Mendes em alto destaque; Irlanda só fez a diferença na 2ª parte com Iwan Hughes a espalhar o “terror”.

Jogo histórico entre Portugal e Irlanda, no escalão de sub-18, realizado no CAR Jamor. Com as bancadas polvilhadas de adeptos, já que a chuva deu tréguas e permitiu que ambas as equipas tivessem outra liberdade de movimentos, os jovens Lobos de Portugal deram sinais muito positivos neste “início” de caminhada para o Campeonato de Europa do escalão.

Notem que o mais importante deste jogo não é em si o resultado (12-46), mas a forma como a selecção portuguesa se apresentou perante uma das melhores formações de rugby do planeta: carácter forte, personalidade de raça e talento “escondido”. O primeiro ensaio português prova isso mesmo, onde uma boa formação ordenada (a 1ª linha demonstrou uma capacidade de choque acima da média), possibilitou espaço e tempo a Vasco Morais (MVP do jogo para o Fair Play) para atirar um atrevido up and under, que a equipa irlandesa não conseguiu “decifrar”, possibilitando a José Maria Leal da Costa meter o “pé no pedal” e aparecer a tocar, subtilmente, a oval no limiar da linha de fora.

Rui Carvoeira tinha prometido que o “jogar no risco e arriscar” iria ser uma norma para estes sub-18 (ao jeito do que já tinha sido a geração anterior que conquistou o 3º lugar no Campeonato de Europa de sub-18 realizado em Lisboa). E, os seus jogadores não o defraudaram. É  certo que nem sempre correu bem, mas a ideia destes jogos de preparação é exactamente essa: saber até onde podem arriscar e como o podem fazer.

Por outro lado, a avançada trabalhou com qualidade (Manuel Nunes foi fiel ao que nos tinha garantido, boas placagens e uma defesa segura) nos primeiros 35 minutos de jogo, o que significou problemas para a equipa irlandesa que ainda assim conseguiu virar o resultado na 1ª parte (12-15).

O 2º ensaio de Portugal (bela intercepção do “mágico” Vasco Morais) proveio de outra ideia de jogo que a equipa técnica, de Rui Carvoeira, João Mirra e Francisco Branco (um trio que promete resultar), deseja ter em “excesso”: pressão alta e sufocante na defesa. Enquanto houve “pulmão e ar”, os portugueses fizeram da pressão uma “arma” útil, que os irlandeses tiveram dificuldades em lutar contra.

Na segunda parte, a entrada do “eléctrico” Iwan Hughes (dos melhores jogadores desta geração de irlandeses, jogador do Bristol e um dínamo ofensivo de excelente qualidade), a queda física dos atletas lusos (os dois treinos que antecederam o jogo, exigiram muito dos jovens lobos) e a vontade dos irlandeses em não saírem de Lisboa sem a vitória fizeram a diferença.

Sempre melhor nos alinhamentos (Portugal perdeu 4 dos 6 que dispôs nestes segundos 35 minutos), mais frescos e lúcidos na saída do ruck e ainda mais curiosos no explorar da linha de vantagem (Hughes conseguiu abrir a defesa portuguesa por 4 vezes), o resultado foi crescendo em favor da selecção do Trevo.

Com um 12-46 final, o comum adepto poderia dizer que se trata de uma derrota pesada. Se nos ficarmos pela observação só dos números, sem olhar para o conteúdo, poderíamos aceitar essa constatação. Todavia, há que ir além da “paixão” pelos números e atacarmos o âmago da questão: há ou não qualidade nesta geração de sub-18.

No risco pelo ensaio (Foto: João Peleteiro Fotografia)
No risco pelo ensaio (Foto: João Peleteiro Fotografia)

Em resposta a esta pergunta, facilmente respondemos: sim. A equipa técnica tinha revelado que era uma geração mais física, mais “bruta” e mais “forte”, com um talento mais refreado e sem tanta exuberância, em comparação com os sub-18 anteriores. Contudo, os jogadores nacionais provaram que o talento reside dentro deles, com uma série de detalhes bem “engraçados”, que irritaram de certa forma a equipa da Irlanda.

Findado o jogo, o Fair Play teve acesso a alguns dos protagonistas do jogo, que responderam às nossas questões (um agradecimento público a Rui Carvoeira e Francisco Branco pela abertura e disponibilidade em nos dar esta possibilidade).

Diogo Cabral, capitão destes sub-18, revelou que “a parte física fez a diferença. São algo maiores do que nós e depois geriram melhor o esforço na 2ª parte. Mas faz parte.”

Continuou por dizer que “fizemos uma grande entrada, demos tudo e quisemos surpreende-los. Devíamos ter cuidado a desenvolver o nosso jogo aberto, onde eles sentiram maiores dificuldades em lidar connosco.”

Quando questionado se o grupo se manteve uno e forte até ao apito final, a resposta do centro foi de raça, “claro. Somos uma família… só queremos jogar juntos, ganhar juntos! Temos uma vontade enorme de crescer e aprender. Vamos ter que ser mais consistentes a jogar.”

Continuou, “arriscámos sempre que possível. É todo um processo… jogar rápido, criar fases de jogo dinâmicas e irmos para além dos limites. Temos de saber jogar com as nossas capacidades físicas e técnicas, só assim faremos a diferença. O nosso estilo de jogo só vai melhorar daqui para a frente.”

Deixámos uma pergunta “mordaz”… conseguiria Portugal outro resultado daqui a uns 6 meses? Cabral, ao jeito do que deve ser o espírito da Alcateia afirmou que “Sem dúvida. Seria completamente diferente, começámos agora uma caminhada que só pára no final de Abril. Estamos focados em dar o nosso melhor.”.

Antes de regressar para o balneário (juntando-se aos seus colegas nas limpezas, algo que é imperativo nesta equipa) pediu para que chegasse a seguinte mensagem “agradecer ao público que aqui veio. Fizeram a diferença. Para nós isto só dá vontade de trabalhar mais e melhor. Obrigado!”.

Lobos com fome (Foto: Luís Cabelo Fotografia)
Lobos com fome (Foto: Luís Cabelo Fotografia)

De seguida, Vasco Morais, médio de abertura da selecção (jogador do CF “Os Belenenses” com mais de 9 anos de serviço), sentou-se e discutiu algumas ideias connosco.

Iniciámos por perguntar de aonde tinha vindo aquele pontapé do 1º ensaio de Portugal, no qual afirmou que “ninguém está à espera naquele momento que façamos aquilo. Já é algo que faço a algum tempo e costuma correr bem. Vimos que os irlandeses estavam desatentos e arriscámos…correu bem!”.

E onde nasceu esta paixão pelo rugby? “Bem, a minha irmã frequentava as piscinas do Belenenses. E eu sempre que ia lá, tentava ver os treinos… comecei a gostar, apareceu-me o bicho e pedi à minha mãe que me deixasse experimentar. E assim foi!”.

Revelou-nos que “já joguei a defesa e a formação. São posições diferentes, com sentidos de jogo também diferentes. A abertura tenho a responsabilidade de gerir o jogo, fazer a bola girar, de guiar a equipa. Mas é me indiferente a posição, quero é jogar!”.

E o grupo é coeso? “Sem dúvida! Somos um verdadeiro grupo… podemos jogar em clubes diferentes, mas sempre que nos juntamos há uma harmonia perfeita. Temos uma grande vontade em treinar, jogar e estar juntos.”.

Por fim, agradeceu o apoio ao público, “foram importantes. Eu tento não me focar nas bancadas, para mim interessa-me é o jogo!”.

Vasco Morais e Diogo Cabral juntaram-se ao convívio pós-jogo, num descanso muito merecido. A selecção portuguesa de sub-18 regressa aos trabalhos a 19 de Dezembro com um treino bi-diário para preparar o jogo do dia seguinte frente ao Methodist College.


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