20 Out, 2017

Lobos “abatem” Carvalhos e estão na Final – A Bola Rápida do Europeu de sub-20

Francisco IsaacMarço 30, 201712min0

Lobos “abatem” Carvalhos e estão na Final – A Bola Rápida do Europeu de sub-20

Francisco IsaacMarço 30, 201712min0

bola rápida com o carimbo para a final por parte dos Lobos. Portugal electrizou e sofreu no jogo frente a Roménia, mas aguentou na hora mais difícil. A análise ao jogo com o post match de João Bernardo Melo e Luís Pissarra, um dos capitães e seleccionador de Portugal

Quando é que Portugal pode “parar” de fazer sofrer os seus seguidores? Novo jogo do mata-mata com nova vitória bem suada e arrancada a “ferros” perante a Roménia.

Um 21-16 final, com dois ensaios, permitiram aos Lobos sub-20 seguir até à final da competição, onde encontrarão os seus vizinhos da Espanha.

Um jogo que demonstrou o melhor lado dos portugueses, apesar de alguns erros nas fases estáticas que podiam ter prejudicado a selecção.

Esta é a Bola Rápida do Fair Play

SABER SOFRER, AGUENTAR E VENCER- 7 PONTOS

Sabem onde se fazem as equipas campeãs? Nos minutos finais de cada encontro. Só essas é que sabem sofrer, aguentar e vencer todas as adversidades levando ao êxtase total de quem vê o(s) jogo(s).

Quem assistiu aos últimos 6 minutos de jogo e não ficou sem respirar, então é porque está a mentir… mas deixemos este exagero de lado e observemos o que se passou.

Portugal estava a ganhar por 21-16 com 8 minutos no cronómetro, a Roménia a jogar com 14 (nova placagem alta de um jogador dos Carvalhos) e a intensidade subiu de tom.

Os jovens Lobos podiam ter “aguentado” melhor a oval mas um duplo erro em dois alinhamentos (depois de dois belos turnovers e sucessivas penalidades) que permitiriam ter uns minutos finais mais “relaxados”.

Mas no que nos faltou de eficácia nas fases estáticas, tivemos no jogo corrido e na defesa: disponibilidade, concentração e “fome” de ganhar.

São características que às vezes escapam na “emulação” destas gerações jovens, este passar de mensagem de que “podemos e devemos ganhar” quando somos efectivamente melhores.

Portugal aguentou três formações ordenadas, duas penalidades e 10 fases estáticas… em 6 minutos. Fomos pacientes, deixámos a Roménia entrar num certo desespero e lá no final surgiu uma placagem “valorosa” (Nuno Mascarenhas e João Vital) que resultou num avant e subsequente final do encontro.

O saber sofrer faz parte de uma grande equipa… só falta “saber matar” a contenda, algo que por vezes nos escapa na nossa impaciência.

Contudo, é importante dizer que tivemos a presença de um grande colectivo neste jogo… a equipa foi só uma, a esperança também e o prazer de sofrer partiu de todos… isto é o espírito Lobo.

Destacamos o trabalho defensivo de João Bernardo Melo, um jogador dotado de uma “alma” de gigante que esteve, particularmente, bem a defender junto ao ruck.

OS SUCESSIVOS “ALL IN” DE PORTUGAL- 6 PONTOS

O ensaio de Manuel Cardoso Pinto é um hino ao rugby… mas também é um hino para dar um “ataque cardíaco” a quem está a assistir ao jogo.

É um risco tremendo sair a jogar da “nossa” linha de ensaio e decidir começar a jogar rápido. É, talvez, de loucos o que Manuel Pinto fez, sem dúvida.

Mas isto é a “essência” do rugby, daquilo que pode elevar Portugal como uma nação diferente no Planeta da Oval… a nossa capacidade de “arriscar”, de “sonhar”e de ir em busca do impossível.

Veja-se as quatro jogadas iniciadas mesmo em cima da linha de 22 portuguesa… bola directa para o 9, após alinhamento, que transmite ao 10 (Abecassis esteve imperial nos pontapés em jogo corrido) e este mete a bola no 1º centro… e se há um avant? E se há uma placagem bem dada e um possível turnover?

Porém, note-se que foi nessas jogadas que ganhámos metros e espaço para novas movimentações… conseguimos sair dos nossos 22 para estar nos 22 romenos em menos de 3/4 fases.

Nesse aspecto, José Luís Cabral esteve nos “píncaros” (para além da placagem), com várias quebras de linha (5) e metros conquistados… uma peça nuclear no XV português.

Há um risco latente no jogo dos Lobos, há quase um “all in” em cada movimentação mais arriscada… se tirarmos o “pé do acelerador” e cairmos na desconcentração vai correr mal.

Com a Roménia correu quase tudo bem, nesse aspecto… todavia, realizámos quatro passes para a frente em jogadas de perigo iminente… excesso de pressa e impaciência?

Sim é possível e com a Espanha não poderá acontecer, já que é uma equipa que concede pouco espaço a defender. Todas as oportunidades terão que ser aproveitadas.

Portugal tem de criar fases de jogo (que o fez com bastante exactidão, apesar de algumas faltas nos rucks), obrigar a defesa a “desgastar-se” e aproveitar o maior virtuosismo para num “rasgo” partir a linha e sair a jogar.

Bate e fura por José Cabral (Foto: FFR.RO)

UM BANCO DE LUXO INTENSIFCA A CONTENDA- 5 PONTOS

A Roménia foi afectada por um problema visível para quem teve atenção ao jogo: falta de banco, isto é, as soluções que saíram dos suplentes não foram as melhores.

Portugal pôde “sorrir” nesse aspecto, uma vez que todos os jogadores que trouxe “mexeram” com o jogo à sua maneira.

Martim Cardoso, que entrou para o lugar de um desgastado Duarte Azevedo (melhor na circulação de bola e saída dos rucks, teve dois pontapés de excelente qualidade a conquistarem metros) deu outro andamento aos avançados.

Houve mais duas ou três alterações (destaque para José Pimentel também, que trouxe mobilidade na 1ª linha) que trouxeram “balões de oxigénio” a Portugal.

Muitas vezes grandes equipas fracassam em momentos-chave por não terem jogadores suplentes da mesma categoria que os titulares.

A título de exemplo notem que Eddie Jones (na Inglaterra) preocupou-se a criar 35 soluções para todos os lugares do seu XV… um bom banco pode ganhar jogos.

Hoje foi fundamental a forma como que esses Lobos entraram, a “fome” que tiveram e as ganas que demonstraram em cada placagem ou entrada.

Só nas formações ordenadas é que faltou uma maior estabilidade, mas isso já foi uma ocorrência durante todo o jogo.

DESCONCENTRAÇÃO NAS FASES ESTÁTICAS – -1 PONTOS

Cinco alinhamentos perdidos e quatro penalidades na formação ordenada… resultaram alguns pontos para a Roménia ou tiraram possibilidade de nos aproximarmos da linha de ensaio.

As oportunidades têm de ser aproveitadas, ainda por mais quando o adversário parece estar “adormecido” perante a maior intensidade que Portugal teve.

No final do jogo foi notório que os carvalhos quiseram conquistar um ensaio de penalidade na 3ª formação ordenada que dispuseram… Portugal não consentiu, soube ser uma equipa “una” nesse momento.

Frente aos Leões de Espanha, no próximo sábado, Portugal não pode, de forma alguma, consentir erros nestes dois “departamentos” se quer segurar jogo e ganhar metros.

A equipa espanhola foi categórica na formação ordenada frente à Rússia (uma equipa muito dedicada a este ponto no jogo) e garantiu dois ensaios através de alinhamentos.

É preciso “matar” estes dois sectores e garanti-los para a Alcateia… sem eles vai ser tudo mais complicado.

Nos alinhamentos houve descoordenação, alguma falta de concentração e, até, duas decisões controversas da equipa de arbitragem (numa foi clara que a bola não entrou torta no corredor, possível má colocação do juiz de jogo).

Já era sabido que a Roménia ia aplicar uma alta pressão na formação ordenada e conseguiu, em certos momentos, ter domínio sem ser avassalador… os asas não tiveram a flexibilidade para incomodar Duarte Azevedo ou David Wallis por exemplo.

NOTA FINAL – 17 PONTOS

Notem que o jogo foi de níveis diferentes em comparação com a Holanda… Portugal esteve muito tempo por cima, capitalizou em momentos-chave e foi expressivo como uma só unidade.

ASPECTOS POSITIVOS: Espírito de sacrífico, paciência em momentos fulcrais, trabalho no contacto, placagem individual e comunicação activa, sentido de risco com boa leitura de jogo, boa aplicação de jogo ao pé.

ASPECTOS NEGATIVOS: Defesa colectiva abriu “brechas” no lado exterior (falha na leitura defensiva final), avants em situações de perigo iminente, alinhamentos perdidos, algumas formações ordenadas mal construídas;

PORTUGAL: 1 – João Melo; 2 – Nuno Mascarenhas; 3 – Afonso Carreira; 4 – Fezas Vital (5); 5 – Manuel Picão; 6 – João Granate; 7 – David Wallis; 8 – Duarte Campos; 9 – Duarte Azevedo; 10 – Jorge Abecassis (3+3+3+2); 11 – António Vidinha; 12 – José Luís Cabral; 13 – Vasco Ribeiro; 14 – Castelo Branco; 15 – Cardoso Pinto (5).
Suplentes: José Sarmento, Sousa Nardi, José Pimentel, Rebelo de Andrade, Manuel Peleteiro, Martim Cardoso, Pedro Silva, Rodrigo Freudenthal, Francisco Campos, Gonçalo Santos e José Sarmento.

PRÓXIMO JOGO: Espanha- 1 de Abril às 15:00 (Portugal)

RESCALDO DO JOGO POR JOÃO BERNARDO MELO (VICE-CAPITÃO DE PORTUGAL) E LUÍS PISSARRA (SELECCIONADOR)

PALAVRAS DE JOÃO BERNARDO MELO

fp.Como é que sobreviveram às três formações ordenadas finais e a aqueles sucessivos picks da Roménia?

JBM. Tivemos de ir buscar forças onde já não haviam. Não só nas formações ordenadas como na defesa dos mauls e à volta dos rucks . Sentimos uma responsabilidade gigante em não deixar passar nada

fp.Demonstraram calma mesmo quando, em alguns momentos, falhámos. Qual foi a mensagem nesse sentido da equipa técnica?

JBM. O plano do jogo nem sempre foi fácil de cumprir. Queríamos jogar no meio campo da Roménia grande parte do tempo, mas infelizmente não o conseguimos fazer e por isso tivemos de fazer da nossa defesa, a nossa maior arma.

fp.Agora Espanha, um rival desde sempre… o que vos espera nesse jogo?

JBM. Ainda não tivemos muito tempo para analisar a Espanha, mas são claramente uma equipa de muito valor que joga bem no jogo aberto e na avançada.

PALAVRAS DE LUÍS PISSARRA

fp.Para quem viu o jogo através do streaming foi um sofrimento aqueles 6 minutos finais. Qual era o vosso estado de espírito? Acreditaram sempre nesse desfecho?

LP. Foi um jogo muito difícil, em que felizmente, conseguimos a vitoria.

Esses 6 minutos os jogadores foram incansáveis e acima de tudo foi um orgulho ver e sentir que eles se estavam a divertir com a forma como estavam a defender a nossa area, e o prazer que estavam a ter em cada placagem!

Não tenho dúvida que a pressão era grande fora de campo porque lá dentro os jogadores estavam com muita tranquilidade a fazer o que lhes competia.

Em conversa fora de campo que comentávamos que esta iria ser uma vitoria épica…… porque claramente havia uma série de factores no jogo que nos estavam a condicionar a nossa prestação.

fp.Voltámos a fazer algo que “irrita” os nossos adversários: arriscar. O ensaio do Cardoso Pinto, o bate pé do Jorge Abecassis na “cara” do contacto ou os offloads no limiar da placagem são demonstrações desse elemento. Este é um dos nossos princípios de jogo?

LP .Portugal tem armas diferentes dos nossos adversários em quase todos os jogos que faz. A nossa estrutura física e mind set são diferentes de grande parte dos países contra quem jogamos, e com a capacidade técnica dos nossos jogadores temos de jogar um jogo diferente com as melhores capacidades que temos.

Temos o compromisso de arriscar e de nos apoiar uns aos outros e quando corre bem dá muita confiança a todo o grupo! O que não quer dizer que tenhamos tomado, sempre, as melhores opções neste jogo…..

fp.Holanda, Roménia e, agora, Espanha. É um adversário completamente diferente dos outros dois? O que temos de esperar do duelo ibérico?

LP. É uma equipa bastante mais evoluída, com um estilo de jogo muito dinâmico, mas hoje vamos passar o dia agarrados aos computadores a ver com precisão e calma como jogam! Da nossa parte garantimos aquilo que temos vindo a mostrar….. um orgulho enorme em jogar por Portugal e uma vontade gigante de ser campeões da Europa!

Manuel Pinto “foge” mais uma vez (Foto: FFR.RO)


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