17 Ago, 2017

Jogos Olímpicos – Rugby: Masculino

Francisco IsaacAgosto 1, 201610min0

Jogos Olímpicos – Rugby: Masculino

Francisco IsaacAgosto 1, 201610min0

Jogos Olímpicos e Rugby voltam a estar de “mãos dadas” após quase um século de ausência. O Fair Play explica os contornos históricos, assim como três jogadores a seguir com atenção

Rugby_union_pictogram.svgDesde 1924 que o Rugby não marcava qualquer tipo de presença nos Jogos Olímpicos… largos anos foi esta separação entre um dos momentos do Ano com um dos maiores desportos de sempre. Após 88 anos sem termos áreas de ensaio, postes ou a bola em formato oval nos Jogos Olímpicos, em 2016, no Rio de Janeiro, voltaremos a ter uma boa dose de placagens, uns offloads de criar “sonhos” e uns ensaios de antologia. 12 equipas vão lutar pelas medalhas de Ouro, Prata e Bronze, naquele que será um reatamento entre a História e o Desporto.

Em 1924, França, Estados Unidos da América e Roménia encontraram-se em Paris para disputar 3 jogos, que acabaram numa troca de agressões, humilhações e tudo aquilo que não é o espírito do rugby. Devido aos desacatos e pouco Fair Play na final entre EUA e França – vitória dos americanos por 17 a 03 -, o Comité Olímpico de então, decidiu remover o Rugby como modalidade oficial dos Jogos Olímpicos. Não foi só por esse motivo que o rugby perdeu o seu lugar entre os Olímpicos, mas também pelo facto de as principais equipas a nível Mundial (Inglaterra, Irlanda, Austrália, África do Sul ou Nova Zelândia) nunca terem demonstrado qualquer interesse em participar nas provas, o que deixava cair em descrédito a própria modalidade (note-se que as equipas dos Estados Unidos e da Roménia não eram da mesma “liga” que a da França, por exemplo). Por isso entre 1924 e 2016 a relação entre o Rugby e os JO, que se tinha iniciado em 1900 (praticamente desde o início dos Jogos Olímpicos “modernos”), entrou em suspensão.

Em 2009, depois de vários anos a batalhar para regressar aos JO, o Rugby foi admitido como modalidade Olímpica, com a sua variante de Sevens. É impossível ter o rugby de XV em JO, por várias razões: duração dos jogos; as selecções do Hemisfério Sul têm a preparação e o início do Rugby Championship; acerto de calendário com a World Rugby; e, mais importante, o facto de os 7’s conseguirem conquistar um público que não está tão ligado à modalidade.

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Os Eagles que conquistaram 1924 | Google

Mais rápido, mais efusivo, mais ensaios, sem deixar cair a placagem ou a hipótese de um bom turnover, com um q.b. de agressividade nos rucks. E quem são as grandes personagens dos Sevens a nível Mundial? De forma curta, os campeões em título dos World Series (o Campeonato Mundial anual do rugby de 7, patrocinado pela HSBC) são as Ilhas Fiji, que aliás, são bicampeões com os títulos de 2014-2015 e 2015-2016. Uma formação recheada de talento, com offloads estonteantes, jogadas que parecem não ter nexo e que acabam em ensaio, tudo o que faz um adepto sentir-se entusiasmado com os flying fijians. A Selecção que deu Serevi (se não conhecem o “fantasista”, considerem ver alguns dos melhores momentos do fijiano) vai encontrar os Estados Unidos da América (Isles e Baker podiam estar inscritos nos 100 metros, a velocidade e agilidade de ambos é fenomenal), Argentina (Imhoff e Moroni, ambos Pumas foram convocados) e Brasil (tenham em atenção os irmãos Sancery e Duque’s) no grupo A.

Mas quem destacar das Ilhas Fiji? Savenaca Rawaca. Terminou no top-5 de melhores marcadores de ensaios (35) em 2015-2016, numa temporada em que os Saracens (campeões ingleses e da Champions) avançaram com um contracto para o ponta ingressar no rugby de XV. Rawaca tem um estilo que vai apaixonar qualquer viewer, onde a força encontra a velocidade (vejam um dos melhores ensaios nesta temporada: goo.gl/SohfUi) ou a técnica de corrida (goo.gl/C5xzdd) que deixa qualquer adversário plantado no “chão”. Para além dos ensaios, as quebras de linha (51), os offloads (59) são outros elementos que o fantástico fijiano traz ao jogo. Com 24 anos o que poderão ver do fijiano? Rawaca não foge ao contacto físico, aliás o 1 metro e 90 de altura que possui, faz a diferença quando aplica um bom handoff para depois apostar na sua velocidade para se escapar por completo da defesa adversária. É natural que as Fiji tenham a oval na maioria do tempo, o que possibilita a acontecerem situações de ataque de forma consecutiva. O jogo mais complicado, da fase de grupos, será frente à Argentina. Os sul-americanos gostam de pressionar alto e têm uma placagem bem “limada”, o que poderá causar problemas a um ataque que, por vezes, não se dá bem com a pressão alta. Como dissemos, as Fiji ostentam o título de campeãs do World Series, com o 2º lugar a caber à África do Sul, tetracampeões do 2º lugar.

Step Aside, aqui vem o bulldozer Rawaca!

Rawaca rhymes with try | HSBC
Rawaca rhymes with try | HSBC

Ora, os Blitzbokke têm ficado a escassos pontos de serem campeões de 7’s, algo que lhes foge desde 2008-2009. Será que se fará “justiça” nos Jogos Olímpicos? Senatla bem o merece. O formidável ponta da Western Province (chegou a alinhar pelos Stormers em 2014) tem dado “cartas” desde que chegou à equipa de 7’s: 157 ensaios desde 2013 (em três épocas, cerca de 165 jogos), conseguindo ser o jogador mais jovem de sempre a atingir 100 ensaios (só com 22 anos), mais de 140 placagens em 2015-2016 e ainda como “Rei” das quebras de linha (71). Isto tudo para um jovem com 23 anos que conseguiu no Mundial de 2013 de sub-20 conquistar o 3º lugar (7 ensaios em 5 jogos), o que demonstra uma facilidade em transitar entre variantes. Senatla é algo diferente de Rawaca, tem um estilo mais vibrante, gosta de procurar e criar espaços onde nada existe, com uma passada de difícil leitura para quem o tenta defender. A África do Sul tem uma capacidade de luta muito alta, mas precisa de ter algo mais do que Senatla, que apesar de ser um “elo” de ligação para a vitória, não consegue carregar a equipa sozinho. Há alguns jogadores do rugby de XV a participarem nos 7’s (Bryan Habana ficou de fora dos convocados no final das “contas”) como Juan de Jongh ou Cheslin Kolbe, figuras que podem dar outro “toque” aos Blitzbokke. Mas Senatla é Senatla… é uma Ópera de classe total, que ainda fica mais completa com o apoio de Snyman ou Speckman.

A África do Sul conquistou o ouro nos World International Games (competição internacional para todas as modalidades que não estão nos Jogos Olímpicos) com Senatla no meio da “confusão”. No grupo dos sul-africanos nos Jogos Olímpicos consta a França (Vakatawa, o poderoso ponta terá de fazer mossa para levar os Les Bleus mais longe), Espanha (será que há mais “fogo” na alma dos Leões da Espanha?) e a Austrália (há mais vida nos Wallabies do que vimos durante o Circuito Mundial). Claro que todos desejamos um duelo nos quartos-de-final frente a um rival de sempre… a Nova Zelândia.

Classe, pura Classe de Senatla

Senatla the Blitz in Blitzbokke | Roger Sanders Photo
Senatla the Blitz in Blitzbokke | Roger Sanders Photo

A maior campeã de sempre dos World Series (12 títulos em 17 possíveis), uma equipa que tem um rugby efusivo, que varia entre a capacidade de atacar o jogador ou de poder defender largos minutos, a ter quebras de linha de outro “universo” com rasgos de genialidade à mistura. Nisto, o melhor jogador que absorve estas capacidades todas é Sonny Bill Williams. Bicampeão mundial na variante de XV pelos All Blacks, SBW quer continuar a construir a sua lenda como um dos melhores jogadores e atletas de sempre. Enquanto jogador de rugby Union, soma dois mundiais (renovou contracto até 2019 com a Nova Zelândia), duas Bledisloe Cup, dois Rugby Championships, 1 Super Rugby (Chiefs em 2012), 1 ITM Cup (pelos Canterbury em 2010) e duas etapas de 7’s em 2016. Depois há o facto de ter ganho vários títulos no Rugby League e no Boxe (campeão da Nova Zelândia como Peso Pesado), o que demonstra a versatilidade de SBW. O fascinante centro neozelandês tem uma “arma” que o destaca acima de todos os outros: o offload. É assustador o que Williams consegue fazer com a oval em sua posse (vejam este offload nos World Series de 2015-2016: goo.gl/pCRqaX), desequilibra defesas inteiras com um simples gesto técnico de alto recorte, tornando-se um verdadeiro “carro de combate” quando a equipa assim o pede.

A Nova Zelândia tem os irmãos Ioane (Rieko conseguiu chegar a 28 ensaios no seu primeiro ano da variante) e Augustine Pulu (do Super Rugby) ou Webber e Mikkelson, que estão acostumados à vida alta dos Sevens. Mas SBW pode e vai fazer a diferença dentro das quatro linhas. Num grupo da “morte” onde se inclui Quénia (Injera um dos melhores jogadores dos Sevens), Grã-Bretanha (sem Dougie Fife, que ficou de fora da escolha final, a equipa composta por ingleses, escoceses e galeses pode fazer a diferença) e Japão (não descurem os nipónicos, pois há uma aposta muito séria na variante), a Nova Zelândia “sonha” em conquistar aquele Ouro que lhes trará a glória absoluta.

SBW, o Rei dos Offloads, o Rei do Momento

The Offload Masterchief | HSBC
The Offload Masterchief | HSBC

Os Jogos têm início a 9 de Agosto, no estádio Deodoro no Rio de Janeiro, com 34 jogos, cada um com 10 minutos e 1 de intervalo (para total tabela de jogos e horários, onde devem acrescentar +4 horas, ver: goo.gl/x382vO). Rawaca, Senatla e Williams, quem sairá vitorioso no final destes Jogos Olímpicos, em que a História, o Rugby e as Olimpíadas voltam a encontrar-se?

Aposta Fair Play para melhor marcador: Senatla (África do Sul)

Aposta Fair Play para medalha de Ouro: Ilhas Fiji

Aposta Fair Play para medalha de Prata: Nova Zelândia

Aposta Fair Play para medalha de Bronze: África do Sul

Aposta Fair Play para surpresa do torneio: Quénia

Aposta Fair Play para melhor jogador: Rieko Ioane (Nova Zelândia)


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