25 Set, 2017

Inglaterra e Nova Zelândia: Uma questão de números?

Francisco IsaacDezembro 5, 201610min0

Inglaterra e Nova Zelândia: Uma questão de números?

Francisco IsaacDezembro 5, 201610min0

Inglaterra e Nova Zelândia, as maiores potências do momento de ambos Hemisférios; Porquê? Quais foram os números? E como ultrapassar potenciais crises? Uma lição de Eddie Jones e Steve Hansen. Artigo feito em parceria com Entre-Linhas

O rugby internacional fechou com nova vitória da Inglaterra frente à Austrália, o que significou um ano imaculado da selecção liderada por Eddie Jones.

O treinador que já passou por quase todas as grandes selecções mundiais virou o rugby inglês  de “pernas” para… o chão, já que a selecção de Sua Majestade não concedeu qualquer derrota ou empate em 14 jogos jogados.

Isso mesmo, 14 jogos, 14 vitórias, três Grand Slams (Seis Nações, Tour de Verão na Austrália e Internacionais de Outono), 399 pontos marcados (41 ensaios, o que significa 205 pontos), 189 sofridos e um domínio absoluto em 95% dos jogos jogados.

2016 pode ter sido um ano com vários marcos infelizes para os ingleses (seja na Política, Música, Sociedade ou Cinema), mas na modalidade da bola Oval foi perfeito.

Um ressurgimento espectacular após quatro anos de Seis Nações pouco consistentes ou um Mundial, em casa, para esquecer (eliminação logo na fase-de-grupos), marcam esta nova era do rugby inglês.

A entrada em cena de Eddie Jones, com a chegada de Paul Gustard (o mestre da Wolf Pack dos Saracens, uma das equipas com melhor apresentação defensiva a nível Mundial) para adjunto, meteram a Inglaterra na fast lanedos títulos, recordes e exibições de calibre excepcional.

A recriação de Haskell (Foto: Dave Hunt)
A recriação de Haskell (Foto: Dave Hunt)

Desde 1992 que nada era assim visto por terras inglesas, o que nos deixa altamente expectantes para o que aí vem em 2017.

A Inglaterra segue para as Seis Nações 2017 como a grande favorita à vitória (não obstante atenção à Irlanda, Escócia e França, todas elas no caminho ideal para criarem surpresas na competição) e se conseguir 5 vitórias em 5 jogos, conseguirá ultrapassar o feito da maior Selecção de todos os tempos… a Nova Zelândia.

A nação que milita no Hemisfério Sul teve, também, um ano espectacular. Em 15 jogos jogados, somaram 14 vitórias e uma derrota. Mas temos de construir a linha dos acontecimentos para melhor perceberem em como é que a equipa comandada por Steve Hansen (melhor treinador para a World Rugby em 2016) atingiu o recorde de 18 vitórias consecutivas (um recorde para o Tier 1, já que é Malta que detém o recorde máximo com 24 vitórias, só que joga nas divisões internacionais inferiores).

Tudo começou com o Mundial de 2015, iniciado em Setembro desse ano e findado em Novembro.

Os All Blacks “varreram” a maior competição de clubes a nível Mundial, desde a fase-de-grupos (4 vitórias, 174 pontos marcados e uns meros 49 sofridos), aniquilaram a selecção da França por 62-13 (Julian Savea imitou Lomu com três ensaios recheados de velocidade, agilidade e força bruta), “sobreviveram” à raça dos Springboks (curiosamente, parece que foi nesse Mundial a última grande aparição dos sul-africanos para os próximos anos) e não vacilaram na final frente aos “vizinhos” da Austrália (34-17).

Posto fim ao Mundial e ao ano de 2015, várias lendas dos All Blacks decidiram enveredar pelo caminho de Mitos e retiraram-se dos jogos internacionais… temeu-se pelo “fim” do domínio neozelandês, pois como é que seria possível ultrapassar as ausências de Dan Carter (recordista de pontos a nível mundial com 1299 pontos), Richie McCaw (o asa e capitão atingiu as 148 internacionalizações, um recorde absoluto), Kevin Mealamu, Ma’a Nonu e Conrad Smith?

Bem, Steve Hansen deu uma daquelas “respostas” que só um neozelandês sabe dar: mais 10 vitórias em 10 jogos. Os internacionais de Verão “engoliram” o País de Gales com três vitórias (121 pontos marcados e 49 sofridos), com Beauden Barrett (melhor jogador do ano para a World Rugby), Malakai Fekitoa, Ryan Crotty, Sam Cane e Ardie Savea a corresponderem às expectativas.

No Rugby Championship não tiveram adversário à altura, com 5 vitórias em 5 jogos, dizimando todas as formações do Hemisfério Sul (Argentina, África do Sul e Austrália) com um jogo absolutamente categórico.

A Argentina e África do Sul ainda aguentaram os jogos até ao intervalo, mas quando cronómetro batia os 55 minutos, vinha aí uma avalanche de camisolas “negras” que não tinha forma de ser parada.

A única derrota consentida em 2016 foi em Chicago, frente à Irlanda. No Soldier Field, em plenos Estados Unidos da América, 64 mil pessoas pagaram para ver um jogo de rugby, o que demonstrou, em parte, o entusiasmo com que a modalidade é recebida. Mas essa nem foi a maior surpresa, já que a Irlanda decidiu fazer a desfeita, conquistando uma vitória por 40-29 aos bi-campeões mundiais.

Um jogo incrível da Selecção do Trevo pôs fim ao recorde… e lançou a questão? Afinal então existe forma de parar a Nova Zelândia? Sim, existe… mas a execução desse plano não é nada fácil, aliás é uma missão de muita provação, sacrifício e vontade.

Em Chicago, a Irlanda conseguiu estender a sua intensidade física até aos 70 minutos, mantendo uma defesa altamente pressionante que criava dificuldades nas fases dinâmicas, algo que perturbou as movimentações ofensivas neozelandesas.

Para além disso, a Irlanda não falhou nas formações ordenadas, não consentiu erros no alinhamento e aproveitou todas as oportunidades que teve para chegar à área de validação.

Mas há muito mais para além desses pormenores, já que a Irlanda na placagem soube parar a “oval” de se “mexer”, ou seja, bloqueou-a de forma a que os formações da Nova Zelândia não conseguissem dar continuação a um jogo rápido.

A Nova Zelândia continuou a jogar no risco, mas cada vez mais de forma caótica, sem uma organização pura e dura como manda as leis do staff dos All Blacks. A queda enviou uma “mensagem” para todas as outras grandes potências… “há forma de parar a Nova Zelândia!”.

Muitas vezes uma derrota ajuda a “crescer” e a aperfeiçoar erros que não se podem cometer, ou, pelo menos, obriga a que a equipa se aperceba que não pode perder o foco e a intensidade. Veja-se o último jogo frente à França, um encontro em que os All Blacks tiveram de suar para sair com a vitória do Saint-Denis, em Paris.

A selecção dos Les Bleus, comandada desde 2016 por Guy Novès, realizou uma exibição de champagne, com um rugby altamente intenso, de aproveitamento de fases rápidas e de risco total.

Infelizmente, não marcaram nas 5 oportunidades que dispuseram, já que quatro delas terminaram num avant (mérito para a defesa neozelandesa que soube ter paciência para forçar o erro gaulês) ou foram empurrados para a fora.

Nesse jogo valeu a grande defesa dos bi-campeões mundiais… o foco voltou, a concentração estava de regresso e o reboot do recorde recomeçou.

Abolish your Hopes (Foto: Rugbyrama)
Abolish your Hopes (Foto: Rugbyrama)

Mas ao fim de tantos dados e informações, de tantos pontos e recordes, qual das duas é a selecção mais dominante em 2016? E qual delas vai manter a forma em 2017?

É muito difícil apontarmos o futuro… mas a Inglaterra continuará a espalhar o terror no Hemisfério Norte e a Nova Zelândia irá manter o seu domínio no do Sul.

Para os ingleses as Seis Nações de 2017 serão uma prova mais intensa e que exigirá total compromisso das “tropas” de Eddie Jones.

A França está em busca de um revivalismo que os leve não só às vitórias mas às exibições que se exige de uma selecção francesa; a Escócia já tem o seu roster ideal de jogadores, mas falta consistência ao longo dos 80 minutos de jogo; a Irlanda, outra das selecções surpreendentes em 2016, derrotou a África do Sul, Austrália e Nova Zelândia, o que prova que há nova “sede” de títulos.

O País de Gales está em fase de transição e não será nada fácil ultrapassar esse momento (ficará Gatland muito mais tempo ao serviço dos Dragões?).

Já do outro lado do Globo, a Nova Zelândia reina suprema e serena no topo, pois a África do Sul precisa, urgentemente, de uma nova direcção federativa que ponha cobro às más políticas locais; a Austrália tem uma série de jovens de altíssima qualidade que começam a encaixar-se com os mais experientes; e a Argentina não consegue passar, para já, do estilo actual de jogo que tanto dá alegrias como grandes desilusões.

Os ingleses têm um rugby híbrido, com a “agressividade” física natural europeia (com um profundo trabalho nos detalhes das formações ordenadas ou alinhamentos) e a estratégia de jogo ao pé que caracteriza os europeus com a velocidade de movimentos e técnica de pormenor do Hemisfério Sul.

Eddie Jones trouxe essa “mistura” alquímica que tem vindo dar resultados espectaculares para o rugby inglês, como se tratasse de um perfume irresistível de copiar.

Para além disso, o seleccionador inglês faz jus ao que a sua equipa demonstra em campo, com uma tenacidade memorável (quantas vezes vê-se o australiano a puxar pela equipa no aquecimento de uma forma “louca”), uma defesa dos seus interesses “agressiva” (em Junho de 2016, Jones veio defender o seu nº10, George Ford, que tinha sido alvo de apupos num jogo por ter falhado alguns pontapés) e um plano genial de jogo que tem açambarcado todos os grandes críticos do rugby inglês.

O trabalho de Jones foi, sem dúvida, mais difícil e aterrorizador que o de Steve Hansen, uma vez que teve de refazer a “selecção”, recuperar os jogadores a nível psicológico, montar o tipo de jogo que lhe interessava e garantir vitórias pelo caminho.

Não tiramos mérito a Hansen, atenção, pelo contrário, já que manter a “bitola” de conquistas não é nada fácil para uma selecção que está habituada a só ganhar. Procurar novas soluções, conseguir que “elas” entrem que nem uma “luva” e garantir, também, vitórias é uma incumbência que tira a “respiração” a qualquer um.

Mas tanto Hansen, como Jones, são dois dos melhores treinadores de sempre que já tivemos o prazer de ouvir, ver e perceber. São muito poucos, aqueles que conseguem ter um domínio tanto no “terreno”, como nos jogos psicológicos ou na reformulação das suas selecções.

Entre eles somam títulos e mais de duas centenas de jogos como seleccionadores, com 85% de vitórias em toda a carreira (juntos).

Por isso quem domina e quem é o maior? Ambos. É esta a beleza do Mundo da Oval, que vive agora num equilíbrio de “monstros”, que vão ter o seu duelo só em 2018, uns meses antes do Mundial de 2019.

Até lá ficamos pelos jogos, ficamos pelos números e pelas análises de performance.


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