13 Dez, 2017

Fiji e o voo de Ouro nos Jogos Olímpicos

Francisco IsaacAgosto 12, 20169min0

Fiji e o voo de Ouro nos Jogos Olímpicos

Francisco IsaacAgosto 12, 20169min0

Uma brutalidade ao estilo das Fiji  coroou o seu reinado Mundial, a Grã-Bretanha fez furor, Nova Zelândia só “apareceu” no fim, Japão sem direito a medalhas e um dia de Sonho. Este foi o final do Rugby nos Jogos Olímpicos 2016.

O CampeãoThe Golden Flight of the Flying Fijians

Eram um dos favoritos e, no final, confirmaram que eram O Favorito. No último dia de jogos, os fijianos trataram de galvanizar e fazer um brilharete, com vitórias frente ao Japão (meias-finais 20-05) e Grã-Bretanha (43-07), onde a velocidade, organização, inteligência e leitura ofensiva, garantiu-lhes a primeira medalha de ouro… de sempre para as Ilhas Fiji em Jogos Olímpicos. Pois é verdade, a equipa de Ben Ryan (seleccionador dos flying fijians) deu uma nova absoluta alegria para uma Nação que nunca tinha saboreado o peso das medalhas em Jogos Olímpicos. A forma como se apresentaram ao longo dos três dias, com 160 pontos marcados e apenas 64 sofridos, as Fiji ainda deram mais destaque ao facto de dominarem o Mundo nesta variante do rugby. Há uma “necessidade” de controlarem a bola com um juggling constante, em que caso haja espaço entram sempre com uma técnica de pés “perigosa”, para depois soltarem a bola num passe rápido (seja no ar ou no chão) ou o tal offload fácil. É a única selecção que consegue fazer do passe com uma mão uma forma de jogar e estar, é quase imperceptível esse momento (vão para a esquerda, vão jogar com velocidade ou vão gerir?) o que torna a “vida” a quem joga contra eles quase impossível. A equipa da Grã-Bretanha, que chegou imaculada até à final, foi autenticamente atropelada pelas Fiji, que aproveitaram três erros nos primeiros 2 minutos (de um jogo de 20) para se colocarem na frente com um 17-00. A equipa da Sua Majestade pouco ou nada podia fazer, já tinha esgotado toda a sua “fome” e o seu equilíbrio defensivo que acabou por “partir” perante um adversário que faz da velocidade e “magia” a sua verdadeira forma de ser. Sem Rawaca (lesionado numa mão), as Fiji dominaram o jogo da final, com Tuisova ou Viriviri a “dançarem” no meio de tentativas de placagem e Nakarawa (o Racing poderá tornar o fijiano um soberbo 2ª linha) a impor placagens do mais “duro” possível. Foi um final em grande, ao estilo das Fiji, que parece que voavam a cada bola que recebiam, impedindo os adversários de sequer sonhar com uma vitória… levam o Ouro pelos resultados e qualidade, levam o ouro pela paixão e “alma” e levam o Ouro porque jogaram rugby.

Foto: You can't Stop a Flying Fijian | The Guardian
Foto: You can’t Stop a Flying Fijian | The Guardian

O Jogador do Torneio: CECIL AFRIKA

Uma escolha fácil, mas ao mesmo tempo difícil… Se olhássemos só para o último dia Viriviri, Tuisova ou Ravouvou, das Fiji, mereceriam o destaque pelo forte impacto que tiveram na vitória da sua equipa no final. Tuisova foi dos melhores marcadores em toda a prova (5 ensaios), com toda uma panóplia de skills e “gestos” que quebravam qualquer defesa. A própria equipa da Grã-Bretanha teve dois jogadores em evidência, Rodwell (dos melhores defesas de todo o “torneio” dos JO) ou Norton (leitura de jogo, velocidade e capacidade de decisão imediata). Porém, é impossível não dar o “prémio” a Cecil Afrika, o nº10 dos Blitzbokke. Se no 1º dia de competição tinha “dominado” a competição, no último voltou a “saltar” para cima e bem que tentou impulsionar a África do Sul para as medalhas. Em toda a competição Afrika conseguiu 54 pontos (6 ensaios e 12 conversões), começando várias quebras de linha (muito complicado de parar o nº10) e com várias assistências para os seus colegas (Specman e Senalta foram os mais “visados” neste aspecto). Enriqueceu o rugby dos bok’ dos 7’s, apurando-os para as meias-finais (derrota com a Grã-Bretanha por 05-07) e, depois, abrindo caminho para o bronze olímpico. Afrika terá que ficar na História do rugby de 7, como um dos seus maiores artistas e “pensadores”, um jogador ágil, caprichoso e que “obriga” a sua equipa a corresponder fisicamente/tecnicamente às exigências do jogo. O bronze não deve ser visto como um prémio de “consolação” mas sim como um marco alcançado na carreira dos Blitzbokke… na ausência de um formidável Senatla (esteve bastante bem, a escassos “metros” do seu melhor), Cecil Afrika pegou na batuta e apoiado por Specman, Snyman e De Jongh (os dois primeiros foram uns “tanques de guerra” na luta no contacto) deram-nos alguns dos melhores momentos destes três dias.

O prémio Fair Play: AO SOM DO TANGO ARGENTINO

Não sendo uma variante extremamente popular na Argentina, os 7’s do Rio 2016 saíram a ganhar pela participação dos Pumas. Por um erro defensivo ficaram de fora da luta pelas medalhas, num jogo que sentiu-se a injustiça frente à Grã-Bretanha. Perante algumas decisões do juiz de jogo, os argentinos deixaram o seu “fogo latino” tomar conta do seu juízo e acabaram por perder perante uma Grã-Bretanha que só jogava à “retranca” (sem desmérito nenhum, uma vez que para aguentar 20 minutos a defender é preciso um trabalho perfeito de todos os que estão lá dentro). A ida para a discussão do 5º lugar abanou com os homens das Pampas, como se notou pelo resultado ao intervalo frente à Austrália (05-21)… porém, Imhoff, Moroni e Revol (uma ode ao que é um Capitão) não baixaram os braços e cavalgaram para uma recuperação fenomenal e acabaram por carimbar o lugar para a discussão do 5º lugar com a Nova Zelândia. Apesar da derrota frente aos neozelandeses, por 17-14 (exibição de topo dos irmãos Ioane), a Argentina conquistou o respeito de todos pela forma como “viveram” os 7’s do Rio 2016… com vitórias atrás de Vitórias, raça com mais raça e paixão ao jeito da América do Sul.

O Momento: MITCHELL THROWS A WRENCH-BALL

Quando todos esperávamos ter uma final entre Fiji e África do Sul, ao bom jeito dos World Series, a Grã-Bretanha abanou a “cabeça” e com um audível não, em forma de ensaio, estragou a dream final para “carimbar” um empate mesmo perto do final do encontro. Só que para o pontapé final havia Tom Mitchell, o Comandante Bretão e não o desperdiçou. Os blitzbokke já tinham perdido Senalta após o jogo dos quartos-de-final (lesão no pulso direito) e foram para este jogo com a “novidade” François Hougaard com toda a vontade e sonho de atingirem a tão desejada final. Do outro lado, a equipa composta pelos melhores atletas britânicos (questionava-se uma ou outra decisão) decidiu fazer o jogo “perfeito” e esperaram pela 2ª parte para atirar os sul-africanos para fora da final olímpica. Foi um momento frio, duro e quase silencioso, com os adeptos britânicos a festejar e os restantes paralisados a tentarem se aperceber como é que o cenário final aconteceu. A equipa das Ilhas soube defender, aplicou-se nas placagens, nos turnovers e sempre que possível atacava em estilo (sem grandes floreados e “magias”) “agressivo”, impondo um confronto físico do 1º ao último minuto. O ensaio de Dan Norton chegou e o pontapé de Mitchell fechou a final para a África do Sul.

Foto: Norton Anti-Blitzbokke | SA News
Foto: Norton Anti-Blitzbokke | SA News

Rant Final: O QUE É O RUGBY?

É uma questão que a maioria dos que desconhecem a modalidade perguntam a quem a “vive”: o que é o rugby? A reacção imediata seria tentar explicar como se processa o jogo, o números de jogadores, as leis básicas, a forma de pontuação por aí fora… porém, não há nada melhor do que mudar esse tipo de “conversa” para: o rugby é um desporto onde não há “inimigos”, mas adversários; onde os prémios e conquistas não são um objectivo dominante, mas um processo normal e sem uma importância anormal; uma forma de viver, de sentir e de se aproximarem indivíduos independentemente de onde vêm, quem são ou o que querem. Melhor forma de ilustrar isso, é o gesto de Hougaard na cerimónia da entrega de medalhas. Senatla foi tirado dos 12 inscritos para o jogo das meias e final de bronze por uma lesão no pulso, entrando o médio de formação do Worcester. Isto implicava que em caso de uma vitória nos jogos de “medalhas”, Senatla não iria receber qualquer “prémio”… as leis por mais ridículas ou mal concebidas possível têm de ser seguidas… e o fantástico sul-africano ficou sem medalha. Só que Hougaard ao ver este cenário, dirigiu-se para o seu colega de equipa fora do pódio (que o COI obrigou que ficasse de fora), retirou a medalha do pescoço e meteu-a no do seu colega. É a melhor forma de mostrarmos o que é o rugby… um desporto que esteve demasiado tempo de fora dos Jogos Olímpicos, uma modalidade que ensina todos os princípios que devíamos ter no nosso dia-a-dia, onde a luta e contacto físico não servem de desculpas para entrarem em agressões, em que todos fazem parte de uma colectivo (ver mais em: goo.gl/XJ4YOQ).

RESULTADOS FINAIS

Medalha de Ouro: Ilhas Fiji;

Medalha de Prata: Grã-Bretanha;

Medalha de Bronze: África do Sul;

Melhor Jogador do Torneio: Cecil Afrika (África do Sul);

Melhor Jogador Jovem: Rieko Ioane (Nova Zelândia);

Melhor Equipa: Ilhas Fiji;

Desilusão: Estados Unidos da América (9º lugar);

Melhor pontuador: Cecil Afrika (54 pontos);

Foto: This is Rugby | Inside the Game
Foto: This is Rugby | Inside the Game


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