20 Ago, 2017

Eurosport e Rugby – um “compromisso” para o futuro

Francisco IsaacNovembro 10, 201610min0

Eurosport e Rugby – um “compromisso” para o futuro

Francisco IsaacNovembro 10, 201610min0

Num país “dominado” pelo futebol, existem, ainda, algumas cadeias de televisão com vontade de nos mostrar outros “Mundos”. É o caso da Eurosport que vai trazer rugby à televisão portuguesa, em sinal aberto, com um França-Samoa, este sábado às 17 horas.

Num país dedicado à redonda, com um público absorvido entre as antevisões, jogos, resumos e debates do Domingo ou de Segunda-feira, as restantes modalidades vão lutando por um lugar ao “sol”.

A Sport TV, única empresa de transmissão televisiva de desporto, tem reservado alguns espaços para as modalidades nos seus cinco canais. Mesmo assim, continuamos a ter casos em que a transmissão X ou Y são reprogramadas para dar espaço a um jogo de futebol ou, pior ainda, a um debate entre convidados e comentadores pré-jogos que acabam por não ter um interesse tão grande como deviam.

O rugby foi sempre uma das modalidades de excelência da Sport TV, tendo decidido, logo ao início, ter um um programa (o Área de Ensaio) dedicado ao rugby português, onde podíamos ouvir algumas das personagens e personalidades do Campeonato Nacional e/ou da Selecção portuguesa. Do “menu” de programação constavam: Seis Nações (até 2002 a RTP2 passava alguns dos jogos desta competição europeia), o Tri-Nations (agora Rugby Championship), Super Rugby, Mundial de Rugby e mais uma competições, isto numa altura que a Sport TV tinha só entre 1 a 3 canais.

Com a expansão da cadeia, o rugby perdeu o seu “lugar” e foi sendo substituído… agora só podemos assistir a um programa semanal da World Rugby (traduzido e comentado por António Aguilar, um dos comentadores/repórteres com maior experiência, em Portugal), as Seis Nações (entre Fevereiro a Abril), o Mundial de Rugby e a European Champions Cup. Os jogos são poucos, a informação ainda menor e alguns dos comentadores não apresentam a qualidade pedida para que a comunidade da oval portuguesa perceba bem o que se passa no jogo (um mal comum na Sport TV).

A Comunidade do Rugby portuguesa: em expansão ou estagnação?

A comunidade da oval portuguesa também pouco fez para lutar contra este marasmo e problema, criticando pouco e mobilizando-se ainda menos para obter mais direitos e formas de ver os jogos. A liga Portuguesa foi, em tempos, explorada pela RTP2 ou Sport TV com alguns dos jogos a passarem na televisão… nos dois últimos anos ficámos arredados às finais de Campeonato e, também, da Supertaça. Mas em 2016 “saímos” de cena e só tivemos a final transmitida pela Review Sports, em parceria, com a Federação Portuguesa de Rugby no Youtube.

A RTP2 ainda chegou a transmitir uma variedade de jogos internacionais (notas para os Mundiais de 1995, para a França de Serge Blanco e pela chegada da Itália às Seis Nações). Assim como a selecção de Portugal que tinha a sua “casa” na TV pública, com os jogos dos Campeonatos da Europa de XV e 7’s a terem um espaço especial. Porém, com o tempo a RTP “desistiu” o rugby e hoje não há qualquer tipo de transmissão.

Numa primeira conclusão, podemos dizer que o rugby está a “desaparecer” do nosso dia-a-dia, que há menos jogos na televisão, com o impacto da modalidade a ser cada vez menor. Isto leva a que adeptos, que não estejam acostumados à modalidade, não se deixem “levar” tão facilmente (quantos jogadores, adeptos, pais ou amigos, ficaram entusiasmados com o rugby só por verem um bom jogo entre a Nova Zelândia e a Austrália?) o que tira a possibilidade de garantir novos espectadores. Isto representa a perda de um elemento importante para alimentar a nossa cultura da modalidade.

Os jogadores das camadas jovens dos vários clubes portugueses, são “filhos” de uma geração tecnológica, o que lhes permite ver os jogos em streamings, o que ainda requer algum esforço e vontade por parte destes para irem busca destas “fontes de informação”. Mesmo assim, os streamings têm problemas, seja pela qualidade de transmissão ou de variedade, existe a necessidade de ter uma boa net (e plataforma tecnológica) e de terem que ter uma boa dose de paciência para ir em busca de um canal que lhe possibilite ver o jogo.

A ReviewSports, uma empresa de multimédia, surgiu entre 2013-2016 como um dos streamers oficiais do rugby Nacional, com a passagem em directo dos vários jogos da Divisão de Honra. Foram responsáveis por transmissões de finais (Taça ou Campeonato) ou de BeachRugby’s. Todavia, para a nova temporada não haverá mais streaming dos jogos, ficando o Campeonato Nacional, para já, ao abandono.

No meio deste “deserto” de possibilidades, a Eurosport surge como uma nova forma de obtermos acesso aos jogos com um acompanhamento aos Jogos de Outono da França. Será o primeiro jogo internacional de seniores de XV, em sinal aberto, em muitos anos… acaba por ser um marco na História da comunidade do rugby portuguesa, um marco, também, terrível de assinalar… já que em tantos anos da nossa comunidade (o início da modalidade em Portugal remonta aos anos 40/50) só voltamos a ter rugby em sinal aberto na Eurosport em 2016, o que é um mau sinal, também.

A cadeia de televisão francesa, com um canal aberto (e dois fechados) em Portugal, já teve uma participação bem interessante na divulgação da modalidade com a transmissão de Campeonatos do Mundo de sub-escalão sénior ou Campeonatos da Europa de 7’s. O Pacific Nations foi, também, alvo de transmissão para Portugal, dando-nos um “aperitivo” do que era o rugby nas Ilhas do Pacífico.

A Eurosport como fomentadora da cultura desportiva em Portugal?

E que jogo escolheram para estrear em canal aberto? Bem, a Eurosport optou por França-Samoa, encontro que vai ter de tudo um pouco: desde o rugby champagne (menos efusivo que em outras alturas), poder físico (o impacto de ambas avançadas vai ser, no mínimo, curioso de assistir), o embate do espírito guerreiro (teremos a Samoa a fazer o seu Siva Tau) e detalhes técnicos de alguns dos jogadores mais intensos do Mundo (Louis Picamoles, François Trinh-Duc ou Ken Pisi).

Adiantamos as convocatórias de ambas as selecções:

FRANÇA

franca

SAMOA

samoa

O França-Samoa será um jogo eléctrico, que Guy Novés sentirá a obrigação não só de ganhar, mas, e principalmente, deslumbrar os seus adeptos. Marcado para as 17:00 (horas portuguesas), o jogo será realizado em Toulouse, no Estádio local.

O que esperar da França? Entrega, vontade de mostrar as suas capacidades técnicas e provar que a sua avançada é uma das mais competentes a nível europeu. O último jogo teste (o qual, nós portugueses podemos chamar de amigáveis) foi frente à Argentina, com uma vitória por 27-00. Nesse encontro o rugby mais eficaz, competente e lúcido permitiu aos Les Bleus sair com uma vitória de Buenos Aires, com François Trinh-Duc e Louis Picamoles em grande forma. A selecção de Novés está muito longe do rugby champagne de outrora, apesar de ainda existirem em alguns momentos, pormenores fantásticos. Há uma ausência de velocidade dos 3/4’s ou uma falta intensidade do apoio ao portador da bola (o apoio existe, contudo sem vontade de jogar uma 2ª bola rápida), o que pode acarretar problemas para em jogos mais dinâmicos, como será contra a Nova Zelândia.

Numa convocatória cheia de “estrelas” e nomes de alta qualidade, destacamos os regressos de Eddy Ben Arous (falhou o último jogo das Seis Nações 2016 e os amigáveis de Verão), Brice Dulin (em grande forma o defesa ado Racing Metró), Noa Nakatici (tem sido um dos centros mais fortes do TOP14 2016-2017, dando vitórias ao seu Clermont) e Jean-Marque Doussain. Hugo Bonneval, Morgan Parra ou Yacoube Camará não mereceram chamada de Novés.

Vakatawa a toda a velocidade (Foto: L'Equipe)
Vakatawa a toda a velocidade (Foto: L’Equipe)

E do outro lado, quem estará? A poderosa Samoa. Não sendo uma das melhores selecções do planeta, é uma das que possui maior poder físico e com um nível de entrega/dedicação de se louvar. Alama Ieremia convocou vários “jovens”, ou seja, vários jogadores que jogaram pouco pela Samoa internacionalmente, naquilo que está a ser uma renovação dos “quadros” de atletas: só 15 destes 33 é que estiveram no Mundial 2015; e só 8 marcaram presença no amigável de verão frente à Geórgia (19-19). Nesse jogo, a maioria dos jogadores “europeus” não puderam jogar por ordem das suas equipas, o que obrigou a Ieremia a convocar muitos jovens e a dar uma oportunidade, percebendo se existe, ou não, material para o futuro da Samoa.

A equipa do Pacífico conseguiu com esta vinda à Europa, contar com vários dos seus melhores atletas como George Pisi (um dos irmãos Pisi, tem um jeito único de pegar a oval e sair com ela a jogar), Jack Lam (asa muito aguerrido do Bristol, equipa que foi promovida à Aviva Premiership), Paul Perez (ponta do Toulouse), Ole Avei (bom início de época do pilar do Bordeaux) ou Ken Pisi (rápido, ágil e com um offload de belo efeito).

O que é o rugby samoano? Físico, uma “agressividade” apaixonante e uma força “selvagem”. É uma equipa que gosta de estar no meio do “combate”, de lutar por cada metro, de “arregaçar” as “mangas” e trabalhar no ruck, maul ou formação ordenada. Porém, há problemas estruturais, por assim dizer, com a falta de ligação entre os seus 3/4’s, um apoio que acaba por se escassear quando “esticam” o jogo ou o excesso de penalidades que cometem, permitindo o seu adversário ir subindo no terreno. Não será um jogo fácil para a Samoa, que precisa de mostrar o seu melhor, para obter um resultado histórico.

O duelo entre o Champagne em fase de Revolução e o Espírito de Guerreiro em excesso

O França-Samoa será o primeiro de três jogos transmitidos pela Eurosport2, no qual o Fair Play estará envolvido como convidado no “banco” de comentadores (pela 3ª vez, já que antes António Ribeiro, com a MLS, e André Coroado, com o Futebol de Praia, marcaram presença no canal desportivo).  Um agradecimento especial a Bernardo Rosmaninho pela atenção ao nosso espaço de discussão e promoção de ideias, sendo ele o comentador-principal para o rugby no canal de origem francesa.

França vs. Samoa – 12 de Novembro (a partir 16h45)
França vs. Austrália – 19 de Novembro (a partir das 20h00)
França vs. Nova Zelândia – 26 de Novembro (a partir das 20h00)

A Sport TV também irá investir esforços na transmissão dos Jogos de Outono, com o Inglaterra-África do Sul, País de Gales-Argentina, Irlanda-Canadá e Austrália-Escócia. O Portugal-Bélgica também será merecedor de transmissão em directo, na mesma estação, com a hora de jogo marcada para as 15:00 (o jogo será no Complexo Desportivo de Setúbal) deste sábado, 12 de Novembro.

A lista de jogos da SportTV


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