23 Ago, 2017

Entre a “Roseira” de Eddie Jones e o Desafio de Outono

Francisco IsaacNovembro 6, 201614min0

Entre a “Roseira” de Eddie Jones e o Desafio de Outono

Francisco IsaacNovembro 6, 201614min0

A Selecção da Inglaterra estagiou entre 30 de Outubro a 4 de Novembro no Algarve, no fantástico centro de estágio do Brown’s. O Fair Play foi convidado a marcar presença para perceber do que se trata esta vinda, os seus motivos e ainda discuti-los com Eddie Jones, o seleccionador da Rosa.

O desporto Mundial vive “ludibriado” pela pompacircunstância dos maneirismos e costumes do futebol. Entre os gritos do “golo” ou do “chuta, chuta”, da divisão total entre adeptos e estruturas, da complexidade de vivências dos jogadores com os seus seguidores e de um profissionalismo que exagera em certos detalhes, existem outros Universos, que denotam outra qualidade e outro carinho.

Neste caso, falamos do rugby e da Selecção Inglesa, que vieram para Portugal à procura de paz, sossego, bom tempo, boa comida e uma base de ataque para os amigáveis que estão aí à “porta”. O Fair Play foi convidado a marcar presença no estágio da selecção comanda por Eddie Jones… o convite consistia em assistir a um treino dos jogadores ingleses, para percebermos como trabalham diariamente na Selecção e, também, para nos sentarmos com Eddie Jones.

Brown’s: a “casa” de Eddie Jones

O local de estágio? Brown’s Resort. Um espectacular complexo desportivo/lazer em Vilamoura, apetrechado com um ginásio de ponta (com piscinas), dois campos de rugby de excelente qualidade e toda uma estrutura que deixaria muitos centros de estágio ou de alto rendimento com inveja. A família Brown (o resort começou com Alan Brown) tem tentado dar um pouco de si pelo rugby português, que apesar de terem perdido o seu Vilamoura XV Rugby Club (os apoios, comunicação e trabalho da Federação com o sul de Portugal não foram os melhores nos últimos 20 anos), mantêm uma postura fantástica com o rugby português.

Pelo Brown’s já passaram as lendárias selecções da Austrália, Argentina (2015, no qual o GD Direito teve a oportunidade de jogar contra), Irlanda, ou clubes como Northampton Saints, Saracens, Clermont, Bath, entre outros, demonstrando o quão apetecido é este “fruto” da família Brown’s.

Por isso, entendemos logo o porquê de Eddie Jones gostar tanto de estar neste Resort (é a 3ª vez que o treinador traz uma equipa sua para estagiar neste complexo), mas, mesmo assim, fizemos essa pergunta a Tim Percival, o director e gestor de comunicação da Selecção Inglesa. Percival respondeu claramente:

“É óbvio, não? Excelente tempo, excelentes condições, as pessoas são fantásticas, os adeptos que perceberam que estávamos aqui não abusaram da sua presença, antes pelo contrário! Era importante sairmos de Inglaterra, darmos uma volta, dar a conhecer aos jogadores outras paragens e tirar a pressão de cima deles. Sair de casa faz bastante bem a qualquer um, especialmente às equipas que são alvo de uma pressão da imprensa sem igual.”.

O director de comunicação ainda perdeu algum tempo com o Fair Play, a explicar os procedimentos, como funciona a estrutura, entre outros trâmites. A abertura com que nos recebeu foi sensacional, demonstrando um lado humano que, por vezes, nos esquecemos que existem nestas estruturas altamente profissionais – ou pelo menos aquelas que tentam demonstrar que não o são.

Depois surgiu o mestre da companhia, Eddie Jones. Apertámos-lhe a mão, aparentando uma boa disposição e altamente enérgico para o treino que se avizinhava, dizendo “vocês vieram no melhor dia possível… treino de alta intensidade! Qualquer dúvida, falamos no final!”. Conversámos brevemente e depois o homem que já guiou quase todas as grandes selecções mundiais, foi “obrigado” a sair de cena, já que estava atrasado para uma reunião com a equipa.

Aguardámos uns momentos até que fomos chamados para ir para o treino. Tivemos acesso, por momentos, ao ginásio do Brown’s, munido de todo o material de alta performance no qual Courtney Lawes ia fazendo uso (está com uma pequena lesão ao nível do joelho). Finalmente, chegámos ao campo no qual já se encontravam todos os jogadores… os avançados a trabalhar os alinhamentos, enquanto que os três-quartos iam testando as combinações e movimentações que podem vir a dar ensaios nos jogos de Outono. O que nos impressionou foi a forma como trabalhavam… sim, viram-se bolas (poucas) perdidas no alinhamento ou avants (raros), ou erros de passe ou de outro género, mas a comunicação era sempre clara, directa e positiva.

Era notório o sentido de apoiar sempre o colega que errava ou de emendar o erro fazendo a linha de defesa mexer ou de voltar a repensar o ataque, sem grandes espectáculos de gritos e conversas desnecessárias. Após o treino de secções Paul Gustard lançou um jogo (só com blocagem) com a intenção de treinar a defesa… a intensidade foi, realmente, alta e propícia a choques e encontros de 3º grau, exactamente o que se pretendia. Gustard ou Jones interrompiam brevemente para assinalar algum erro (maioria das vezes deixavam jogar), com um dos treinadores da Inglaterra a assumir o papel de juiz jogo… não se ouviu uma palavra de discussão ou de discórdia para com o homem do apito.

Robshaw indica o caminho (Foto: Getty Images)
Robshaw indica o caminho (Foto: Getty Images)

Depois, fomos informados por Tim Percival que a selecção inglesa ia simular uma “ida ao balneário, para depois saírem directos para a 2ª parte do jogo” com uma intensidade bem mais alta. Não só isso, como também, o seleccionador inglês decidiu “brincar” com a cabeça dos seus jogadores… com a utilização de bolas de futebol e treino de corrida nas linhas laterais. Como funcionava isto? Bem, o jogo decorria com placagem e alguma disputa no ruck (o grande interesse era tentar garantir a bola no contacto, mas já lá iremos), usando a bola oval para tentar chegar ao ensaio ou a quebra de linha (raramente deixavam os jogadores ir até à linha de ensaio, o objectivo era garantir que as fases de defesa aconteciam com exactidão e que o ataque aproveitava, no 1º momento, a abertura de espaços para sair a jogar).

De repente, Eddie Jones apitava e lançava uma bola de futebol noutro ponto do campo, o que obrigou aos jogadores a estarem sempre altamente focados no trabalho de campo. Não havia tempo para discutir com o colega do lado, pois era necessário era montar a linha, defender com clareza e garantir o apoio ao colega do lado. E de repente, pela 2ª vez, o preparador físico chamava, aleatoriamente, nomes para irem fazer treino de corrida enquanto o jogo prosseguia… isto tudo durante 30 minutos sensivelmente.

Intensidade Alta: Live or… Live!

Mesmo com o cansaço, suor e esforço todo, nunca se viu uma desatenção (os avants com a bola de futebol aconteceram mais para o final do treino, mas notem o quão difícil é jogar rugby com outro tipo de bola) ou uma conversa menos própria para o terreno de treino/jogo. No final, Eddie Jones apitou e pediu mais dois minutos de trabalho… chegava agora aquilo que ele chamou de “Joguem com e contra o Caos! A defesa tem de garantir sempre o seu melhor assim como o ataque”. Os jogadores voltaram a simular uma ida ao balneário e quando entraram no relvado, mais uma vez, foram dois minutos de “inferno”… Jones com 4 bolas de rugby, apitou e ia lançando o jogo em diferentes pontos e canais, obrigando os jogadores a correrem e mostrarem todo o seu melhor trabalho. O caos nunca conseguiu ganhar à Selecção inglesa que provou estar no seu melhor pico de forma.

Antes do regresso às boxes, ainda houve tempo para treino específico de pontapé, recepção de bola no ar (os ingleses fizeram-se acompanhar de uma máquina que dispara as bolas de rugby para o ar, voando 10/20 metros para cima e tinham de ser apanhadas com classe), alinhamento, formação ordenada, placagem e recuperação. Tudo isto decorreu com um profissionalismo exemplar (os jogadores estavam completamente concentrados), em que notámos a liberdade que Eddie Jones e a sua equipa técnica dava aos jogadores… são eles que decidem o que fazer e como fazer no treino.

Posto isto, o treino terminou e tivemos a possibilidade de nos sentar durante 20 minutos com o seleccionador inglês. O australiano fez questão de não negar as suas raízes inglesas e pediu um chá, algo que era costume já no Japão e em outros países por onde passou.

Farrell over the... football? (Foto: Getty Images)
Farrell over the… football? (Foto: Getty Images)

FairPlay: Obrigado por nos receber na sua “casa”… é a sua 3ª vez aqui! Porquê?
Eddie Jones: Bem, boa comida, bom tempo (o Verão aqui está para ficar!), as pessoas são incríveis e calorosas e o Brown’s é um sítio espectacular para se estar!

FP: Terceira vez em Portugal, certo? Última vez foi com os Saracens?
EJ: Correcto! Já vão alguns anos… na altura tinha mais cabelo (risos). Adoro Portugal, voltar aqui é sempre aquele desejo que tenho, mas é sempre difícil conjugar gostos com trabalho!

FP: Vamos recuar até Junho, pode ser? Como foi ganhar à Austrália?
EJ: Vê, foi fantástico para os jogadores que mereciam mais que todos aquilo. Eu não senti nada de especial, adorei o meu tempo nos Wallabies mas o tempo passa. Quando és um profissional tu adoras todas as equipas que treinas. O mês na Austrália foi desafiante, divertido e foi bom ver os jogadores a crescerem!

FP: Houve um momento que definiu, para nós, os Jogos de Verão: aquela quebra de linha do James Haskell. Como é que o levou a atingir aquela forma?
EJ: Sabes, é mais psicológico que físico. É verdade que ele mudou, um pouco, a sua forma de treinar e estar e nós também lhe explicamos qual era o papel que ele devia ter na selecção. Ele aceitou e trabalhou para isso, desenvolveu uma confiança fantástica e mostrou uma liberdade gigante em campo.

FP: Haskell, Hartley, Robshaw e mais uns quantos tiveram, durante algum tempo, problemas temperamentais. Mas hoje em dia estão completamente diferentes, mostrando uma forma de estar em campo fora de série. Como é que eles ultrapassaram isso?
EJ: A única pessoa que te pode mudar, és tu… mais ninguém! Eles mudaram porque queriam jogar por Inglaterra, perceberam que a disciplina e o controlo emocional tinham de estar no seu melhor. E como vês eles estão aqui!

O Único que te pode mudar, és tu!

FP: Concordamos em absoluto. James Haskell até passou a ser um ícone na internet, até um motivador e líder de massas.
EJ: 100%! Ele é um verdadeiro líder… aquela presença física faz a diferença mas, também, aquele humor e capacidade fantástica de “brincar” e “pregar” partidas aos seus colegas ajuda às pessoas gostarem dele. É importante para o ambiente de equipa existir alguém com esses traços. Acho que é das qualidades que mais aprecio numa pessoa.

FP: O meu colega, Steve Kendall (Last Word on Rugby), pediu para lhe perguntar à cerca da onda de lesões da Selecção inglesa… poderemos julgar-vos ou não nestes jogos de Outono?
EJ: Não procuramos desculpas, muito pelo contrário. Se queremos ser uma das melhores equipas do Mundo, temos de saber superar qualquer problema e atingir outro nível. Precisamos uma equipa com “profundidade”, com várias opções para várias posições. Por isso, isto será uma oportunidade para demonstrar que somos a melhor equipa do Mundo.

FP: Falando em melhores do Mundo… quando jogarão frente aos actuais melhores, a Nova Zelândia?
EJ: Novembro de 2018. Timing perfeito… um ano antes do Mundial.

FP: E a seguir a 2019, o que vai ser de Eddie Jones?
EJ: Vou para Portugal! Vou já procurar casa! Seriamente? Não sei ainda. Digo isto, porque ainda quero dar ao rugby mais de mim. Estou numa fase espectacular da minha carreira, posso escolher o clube ou selecção para onde quero ir e isso é excitante!

FP: Qual vai ser o seu legado?
EJ: O que eu sempre quis foi ajudar jogadores a melhorarem e a serem os melhores. Posso olhar para trás e sentir que fiz isso. Fiz o meu trabalho. Por outro lado, quis sempre jogar um rugby de ataque, que é o tipo de jogo mais excitante… é fácil ser um treinador defensivo e que não querer arriscar… eu quero jogar rugby de ataque e para o rugby conseguir ser a melhor modalidade mundial, só assim será possível.

FP: E em que ponto está o rugby da Inglaterra?
EJ: Nós queremos continuar a fazer jus ao rugby tradicional inglês, que consiste em ser excelente nas fases estáticas. Porém, também quero que o ataque tenha skill, velocidade e que arrisque… temos de ser mais “manhosos” a jogar com a bola. Vocês viram o treino hoje, notaram a intensidade imposta. É a forma de meter o nosso adversário em guarda.

FP: Sim, e notámos que não gosta de parar o treino.
EJ: Verdade! Procuramos que sejam os jogadores a tomar as rédeas e a responsabilidade de jogar. Nós não damos as respostas, guiamos-los nesse sentido, mas têm de ser eles a encontrar a resposta. Durante o jogo, serão eles a tomar as decisões. Estes treinos de alta intensidade servem exactamente para isso, para que eles encontrem, no meio do alto esforço e concentração, as respostas de como ganhar o jogo.

FP: Em Portugal a cultura desportiva é muito diferente… o treinador gosta de ser, na generalidade, o “actor principal”.
EJ: Sim, já notei que a vossa imprensa passa o tempo à volta das decisões e vida dos treinadores de futebol.

FP: Posto isto, agradecemos a si pela abertura e pelo tempo dispensado.
EJ: Eu é que agradeço o vosso interesse e apoio! Não se esqueçam de apoiar a Inglaterra!

Eddie Jones (Foto: Getty Images)
Eddie Jones (Foto: Getty Images)

Eddie Jones despediu-se, seguiu para uma nova reunião e deixou-nos com Tim Percival que ainda trocou algumas palavras antes de dar um caloroso “até já, porque vos esperamos quando voltarmos!”.

O dia com a selecção inglesa terminou desta forma. Já com o Brown’s no horizonte, ficámos a perceber o quão especial foi em estar presente num grupo de trabalho tão cuidadoso, profissional e intenso como a Inglaterra. O respeito que tiveram para com o Fair Play demonstrou, em primeiro lugar, a forma como o rugby vive com a imprensa: abertura completa, sem complexos e sem tiques de estrelas.

O Fair Play deve agradecer a Tim Percival por nos ter possibilitado esta oportunidade, sendo ele o grande “obreiro” desta “parceria” entre a nossa marca e a Selecção de Sua Majestade. Em segundo lugar, agradecer a Alan Brown, director do Brown’s, e a sua filha, Alisson Brown, por terem nos aceite em sua casa e ainda nos terem proporcionado uma visita às instalações.

A Selecção inglesa joga frente à África do Sul (12 de Novembro), Fiji (19 de Novembro), Argentina (26 de Novembro) e Austrália (3 de Dezembro). Desejamos boa sorte para Eddie Jones e Homens de Sua Majestade.

A Rosa tem espinhos! (Foto: David Rogers/Getty Images)
A Rosa tem espinhos! (Foto: David Rogers/Getty Images)


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