20 Out, 2017

Entrar em grande: 5 pontos sobre a 1ª Jornada das Seis Nações

Francisco IsaacFevereiro 8, 201712min0

Entrar em grande: 5 pontos sobre a 1ª Jornada das Seis Nações

Francisco IsaacFevereiro 8, 201712min0

Um início “agressivo” ao bom estilo de uma das maiores competições desportivas do ano, as Seis Nações tiveram dois jogos de alta intensidade e outro mais “recatado”. Inglaterra cínica sobrevive, a Escócia “envia mensagem” e o País de Gales faz os “mínimos”. A 1ª jornada em 5 pontos

A primeira jornada das Seis Nações marcou o início de uma nova era para a competição com a introdução do sistema de pontos de bónus. Porém, se esse pormenor será fundamental nas contas finais (um ponto a mais agora pode “levar” uma equipa ao título), a intensidade e entrega foi exactamente igual às temporadas anteriores como se pôde assistir nos jogos do Inglaterra-França e Escócia-Irlanda.

A Itália aguentou o ritmo durante 40 minutos mas acabou por “cair” perante a insistência galesa, conseguindo os Dragões assumir o 1º lugar.

O STREAK: Inglaterra vai em 15… só faltam 4!

14ª vitória da era Eddie Jones (o streak começou com aquela vitória na despedida do Mundial 2015, frente ao Uruguai) num jogo impróprio para adeptos gauleses e bretões, que sofreram até ao derradeiro apito de Wayne Barnes. Um 19-16, decidido aos 71′ com ensaio de Ben Te’o, carimbou uma entrada “feliz” para o campeão em título.

A França merecia mais, pelo muito que fez durante 60 minutos dos 80′, mas faltou aquela ponta de sorte para que Guy Novés saísse de Twickenham com uma vitória que lhes foge desde 2005.

streak manteve-se devido à soma de alguns factores que Eddie Jones tem implementado mas que nem todos notam: rigidez disciplinar; eficácia nas (poucas) oportunidades disponíveis; concentração exemplar e leitura “fria” dos ritmos e dinâmicas de jogo.

Quando falamos em “rigidez disciplinar“, estamos a falar de como a Inglaterra voltou a realizar um jogo sem cometer mais que 8 faltas (4 delas no seu meio-campo) enquanto que o seu adversário foi “forçado” a realizar 15 (8 no seu meio-campo) e que acabou por prejudicar o seu jogo ofensivo (por 5 vezes a França foi apanhada no ruck, com a Inglaterra a conseguir “sacar” a penalidade).

Partindo disto, a Inglaterra evitou que Camille Lopez conseguisse somar pontos (em grande forma o nº10 do Clermont) e que a França tentasse explorar o seu pack para irem ao ensaio.

Por outro lado, a Inglaterra só conseguiu furar o último terço do terreno em algumas ocasiões, aproveitando  – quase – sempre para somar pontos ao score. Veja-se o ensaio bem invalidado de Elliot Daly que poderia ter começado a “esboçar” uma vitória para os da Sua Majestade.

E finalmente, a concentração e frieza no assimilar do jogo e dos momentos em que se viram a “correr” atrás do prejuízo. A Inglaterra sofreu um belo ensaio de Slimani (jogada habilmente construída pela formação da França) aos 60′ e teve de saber construir processos, fases para depois dar a “estocada” final no momento exacto.

Durante esses dez minutos não “tremeram” ou hesitaram, não houve erros de transporte da oval, dando, por vezes, até oportunidade à França de ter a oval nas mãos.

Após duas penalidades, a Inglaterra subiu, fixou-se nos últimos 10 metros e um passe soberbo de Farrell permitiu a Te’o “quebrar” o eixo gaulês e a subir para 19-16.

Eddie Jones começa com o “pé direito” em 2017, mesmo com uma exibição não tão ritmada, “alegre” ou explosiva como as outras 14 em 2016, mas foi a necessária para garantir a vitória no jogo de abertura. 15 vitórias já estão no “bolso”, será que vêm aí mais quatro consecutivas?

O JOGADOR: Como não gostar de Stuart Hogg?

Que entrada soberba da Escócia nas Seis Nações, com uma vitória frente à Irlanda por 27-22 em Murrayfield. Entre os vários destaques do encontro, houve um jogador a surgir em grande: Stuart Hogg.

O nº15 dos Glasgow Warriors, é um dos “motores” dos highlanders que entraram com toda a pujança para as Seis Nações. Uma primeira parte de classe, permitiu que os comandados de Vern Cotter chegassem à frente do resultado por 21-08.

Hogg foi responsável por dois ensaios, 105 metros, três quebras de linha e um “guia” de defesa importante para a equipa da casa.

O primeiro ensaio das Seis Nações, da Escócia e de Hogg foi “soberbo” pelo toque técnico que o nº15 teve ao captar a oval do chão, onde um passe mal “atirado” por Russell, foi transformado em 5 pontos com um toque de malabarista e uma corrida imparável até ao ensaio.

Os escoceses continuavam “louco”, aplicando um inferno total sobre a defesa da Irlanda e aos 20′ Stuat Hogg voltou a fazer “magia” com um step e um dummy pass  (passe falso) para seguir até à linha de ensaio. 14-00 em vinte minutos, com a genialidade de Hogg a fazer se sentir.

Todavia, não foi só nestes dois lances ofensivos que Hogg se notabilizou. O 15 foi irrepreensível no seu trabalho como organizador de linha de defesa, “ocultando” as movimentações da Irlanda, pondo os seus colegas em “marcha” para evitarem abrir brechas que levassem aos comandados de Joe Schmidt à área de validação.

A última vitória escocesa remontava a 2013 (12-08) e agora, em 2017, festejam nova vitória com Hogg no meio dos acontecimentos. Ter um jogador como o 15 dos Warriors é um passo decisivo no caminho para as grandes conquistas.

A ESTRATÉGIA: Enquanto houve oxigénio, houve Itália

Imaginamos a cara dos adeptos do País de Gales quando JP Doyle apitou para o intervalo, numa altura em que os Dragões perdiam por 07-03 frente a uma Itália “diferente”.

A chegada de Conor O’Shea mudou quase radicalmente a forma de estar da Itália, que está a implementar um jogo muito ardiloso e que requer paciência (e tempo) para os seus adversários tentarem desmontar.

Uma primeira parte de “luxo”, com Edoardo Gori e Carlo Canna, 9 e 10 respectivamente, a liderarem as movimentações mais concentradas e que não iam além de dez metros em redor do ruck.

Foi sem arriscar muito que a Itália conseguiu equilibrar o território, impedindo o País de Gales de chegar à área de validação (só por três vezes conseguiram estar dentro dos 10 metros finais).

Para além disto, a defesa italiana teve 50 minutos de alta entrega, conquistando 105 placagens na altura (terminou com 153 no final dos 80′), onde Maxime Mbanda foi o “placador” de serviço com 26.

Os legionários demonstraram paciência na subida da linha de pressão e foram “castigando” o ataque pouco veloz e expedito dos galeses, que não estavam a encontrar o fio de jogo necessário para ir mais além que um 07-06 até aos 51 minutos de jogo.

Infelizmente, o oxigénio faltou e a capacidade de pensar o jogo e de ter paciência acabou para os transalpinos que somaram 10 penalidades nos últimos 35 minutos de jogo, com Halfpenny a aproveitar para “encaixar” 18 pontos em penalidades e conversões (4 penalidades e 3 conversões convertidas).

A Itália precisa ainda daquele extra na força anímica e na capacidade de gerir o jogo, de forma a contrariar as “vontades” de equipas como o País de Gales, França ou Irlanda nos próximos encontros. O toque de O’Shea já se sente… mas será suficiente?

A CONFIRMAÇÃO: Jackson, Daly e Fagerson novas soluções

A edição das Seis Nações em 2017 trouxe uma série de más notícias para os diversos fãs da competição: lesões. Jared Payne, Mako e Billy Vunipola, Chris Robshaw, WP Nel, Johnny Sexton (deverá regressar já neste fim-de-semana mas ainda está em avaliação), Trinh-Duc, Peter O’Mahoney, Wesley Fofana entre outros, ficaram afastados totalmente ou parcialmente dos 5 jogos do “nosso” Campeonato da Europa.

Para tal, todos os treinadores tiveram de apostar em outros nomes, assumindo o risco de algo correr mal. Nestes três jogos de abertura da prova, várias das soluções tomaram o palanque e assumiram protagonismo nos encontros.

Paddy Jackson pela Irlanda confirmou ser uma resposta à ausência de Sexton, seja pela “arte” do pontapé (três de quatro pontapés convertidos), pelo jogo à mão (Jackson tem outra forma de jogar, é um nº10 menos “clássico” e mais dentro da lógica do Hemisfério Sul) ou pela velocidade que impõe quando recebe a oval.

O ensaio do jogador do Ulster foi nesse sentido, uma recepção de qualidade, um “galgar” imparável e um trabalho notável no momento que é alvo da placagem para chegar à linha desejada por todos.

No mesmo encontro, houve outra “personagem” que nos captou a atenção, o pilar dos Glasgow Warriors: Zander Fagerson. 21 anos tem o primeira-linha da Escócia, tendo chegado à titularidade em 2016 para não sair mais da posição de nº3.

Fagerson realizou uma exibição imperial, onde as 17 placagens (não houve pilar que placasse mais na abertura destas Seis Nações) são superadas pela forma como “enfrenta” a formação ordenada, onde a Escócia já não comete faltas (relembrar que até 2014/15 o grande problema da Escócia era a “falência” da formação ordenada… agora é um princípio de jogo.

Por fim, Elliot Daly dos Wasps RFC e que está a “crescer” a uma velocidade alucinante na Inglaterra de Eddie Jones. Daly joga a centro por “natureza”, mas na selecção de Sua Majestade foi colocado a ponta e tem preenchido com qualidade o lugar que era de Anthony Watson.

É um problema sério na hora de ser “parado”, já que tem uma técnica de pés fora de série, para além de uma capacidade extrema de leitura de jogo. O jogo ao pé também é um apontamento no que Daly consegue fazer, conseguindo converter penalidades (neste fim-de-semana que passou converteu uma de 50 metros) ou quando o jogo está a decorrer (bons up and under’s).

Daly, Fagerson e Jackson foram só três jogadores dos vários que vieram “preencher as botas” de outras lendas, titulares por natureza ou jogadores que dificilmente perdem o lugar no XV, demonstrando que há muito mais para além dos 30 jogadores seleccionados e que todos os anos “nascem” novas novidades.

A IRMANDADE: As 50 placagens de Gray(‘s)

Um pormenor delicioso deste fim-de-semana e da vitória da Escócia contra a Irlanda foi o facto dos irmãos Gray terem feito duas exibições de “sonho”. Richie e Jonny Gray somaram 50 placagens, num jogo que estiveram imperiais nos ares (6 bolas próprias captadas, duas “roubadas” e apenas uma perdida), trabalharam excessivamente no contacto, onde os 27 carries (13 e 14) superaram qualquer colega de equipa.

Tem sido uma das fórmulas de sucesso da Escócia, com Vern Cotter a “limar” os dois talentos, transformando-os em dois dos melhores 2ªs linhas do continente europeu.

Se a primeira parte foi de um autêntico “luxo” ofensivo dos Highlanders, já a segunda exigiu uma entrega total a defender com os irmãos Gray a liderarem a tabela de placadores.

Segundos antes do segundo ensaio irlandês, Richie Gray consegue parar Connor Murray quando estava a escassos metros/centímetros da linha de ensaio, parando e garantindo uma placagem de “salvação” que acabou por ser em vão. No entanto, esta imagem foi recorrente durante este jogo, colocando o seu “corpo” no caminho da reviravolta irlandesa.

Para além disso, a forma como ambos aparecem no jogo aberto garante um veículo de avanço no terreno.

Quando é necessário garantir metros “estáveis”, para depois apostarem numa movimentação mais para o centro do terreno e daí conseguirem jogar ao largo (a mesma jogada do ensaio de Hogg surgiu no final da primeira parte, onde os irmãos Gray participam como “actores” de jogo curto) para apostarem numa jogada que pode trazer um ensaio à ponta.

As 50 Placagens de Gray não é uma grande produção de Hollywood, felizmente… mas sim foi uma excelência de uma exibição da irmandade de Richie e Jonny pela sua Escócia.

Gray’s sempre juntos (Foto RBS 6 Nations)

PREVISÕES DO FAIRPLAY PARA A 2ª JORNADA

Inglaterra “marcha” até Gales e, apesar de nunca ser um jogo fácil, Eddie Jones vai somar mais uma vitória. Alertas para as possíveis ausências de George North e Dan Biggar no País de Gales e a Inglaterra não deverá contar com Tom Wood. Vitória da Inglaterra por diferença de 10 pontos.

MVP do Jogo: Jack Nowell / Nathan Hughes (Inglaterra)

A Escócia fará uma visita ao Stade de France e deverá ser o jogo da jornada. Os escoceses motivados pela vitória frente à Irlanda vão “sonhar” com uma nova vitória que os poderia colocar no topo da competição. Porém, a França não fará os mesmos erros no breakdown ou na transmissão de passe. A chave da vitória estará na formação ordenada. Vitória da Escócia por diferença de 3 pontos.

MVP do Jogo: Noa Nakaitaci (França) / Josh Strauss (Escócia)

A Itália vai ter o “direito” de receber uma Irlanda “ferida” no orgulho de ter tropeçado perante a Escócia. O’Shea não deverá ter uma surpresa boa, uma vez que Sexton regressa ao XV irlandês e terá que fazer a diferença para não perder o lugar para Paddy Jackson. Vitória da Irlanda por diferença de 14 pontos.

MVP do Jogo: Braam Steyn (Itália) / Simon Zebo (Irlanda


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