21 Nov, 2017

Elogio de uma Final e de um Desporto! – Coluna de Opinião de Hélio Pires

Francisco IsaacJunho 2, 20178min0

Elogio de uma Final e de um Desporto! – Coluna de Opinião de Hélio Pires

Francisco IsaacJunho 2, 20178min0

Hélio Pires com «Visto de Fora» “placa” a grande final da Liga Inglesa do Aviva Premiership abordando o espectáculo, cavalheirismo e a elegância do entre Exeter Chiefs e Wasps RFC.

No passado dia 27 de maio, num feito inédito em quase século e meio de História do clube, os Exeter Chiefs sagraram-se campeões da primeira liga inglesa de râguebi. Foi uma vitória merecida por terem sido a equipa dominante e digo isto como um fã dos Wasps que esteve a torcer pelos homens de Dai Young. Há que reconhecer o mérito a quem o merece.

A força dos melhores

À exceção dos primeiros quinze minutos da segunda parte, altura em que a equipa de Coventry virou o jogo e fez uma série de ataques que podiam ter somado mais pontos, foram os Chiefs quem controlou a partida. Tiveram iniciativa, maior controlo e possessão de bola, de tal forma que aos 66 minutos chegaram aos 5 metros dos Wasps após trinta e quatro fases. Eu vou pôr a coisa em algarismos para não haver dúvidas: 34 passes consecutivos! Se isto não é controlo de bola, anda certamente lá perto. E só não foi ensaio porque a equipa liderada por Joe Launchbury ergueu uma muralha preta e dourada.

A defesa foi aliás o ponto forte dos Wasps, mas isso não é suficiente para assegurar uma vitória, mais ainda numa final de um campeonato. Ou melhor, é, mas convém que se esteja à frente por uma vantagem confortável, o que não era o caso, pois a menos de um quarto de hora do fim as duas equipas estavam separadas por apenas três pontos. Bastava uma penalidade para o empate, o que aconteceu aos 79 minutos após uma falta de Nathan Hughes – logo ele, que estava a ser uma grande mais-valia para o seu clube. E já na segunda parte do tempo extra, ainda a pontuação continuava nos 20-20, os Wasps deixavam-se encurralar na sua metade do campo, pondo-se mesmo a jeito para a penalidade que veio aos 97 minutos. Gareth Steenson fez os 23-20 e os Chiefs sagravam-se campeões ingleses. Merecidamente!

Não vale a pena pensar nos ses – e se o Kurtley Beale tivesse jogado e se os Wasps tivessem marcado aos 47 minutos – até porque os adeptos dos Chiefs podem fazer o mesmo e perguntar, por exemplo, e se o vídeo-árbitro tivesse validado o ensaio do Exeter na segunda parte do tempo extra? Este tipo de pensamento é um exercício fútil. Em vez disso, há que reconhecer o mérito, aceitar o resultado, retirar do jogo as ilações produtivas e deixar que o resto, incluindo a sorte ou o azar, sejam águas passadas. Travá-las para remexê-las, debatendo-se ad nauseam o hipotético ou a arbitragem, isso não é benéfico para ninguém. As águas paradas têm por hábito ser um viveiro de doenças e depois quem sofre é a cultura desportiva.

A final de Nowell…e dos Chiefs (Foto: The Guardian)

O mérito da oval

Por falar nela, o râguebi ficou muitíssimo bem servido com a final da primeira liga inglesa. O jogo foi todo um monumento aos valores e vigor da modalidade e pôs em evidência aquilo que, para mim, são características que fazem dela um desporto brutalmente rico e interessante.

Comecemos pelo formato da competição, que faz depender o vencedor do campeonato não da mera acumulação de pontos ao longo da temporada, mas de duas eliminatórias entre os quatro primeiros classificados. Não interessa quão à frente vai a equipa cimeira, porque a existência de uma semifinal e final significa que, a menos que se tenha capacidades proféticas, é preciso aguardar pelo derradeiro jogo. Sem exceção! E neste caso nem isso bastou, porque foi preciso esperar pelo final da segunda parte do tempo extra para se ter um desempate e vencedor. Não foi um jogo próprio para cardíacos, mas mostrou o quão emocionante o râguebi consegue ser.

E apesar disso, apesar dessa grande dose de emoção, houve confrontos? Nada! Não houve um único cartão, uma única rixa ou altercação entre jogadores que obrigasse o árbitro a separá-los ou a parar o tempo. O que é ainda mais digno de nota se pensarmos que se trata de um desporto de contacto, algo que, numa final disputada até aos últimos minutos do tempo extra, pode exaltar os ânimos e gerar violência com relativa facilidade. O que felizmente não aconteceu, para mérito dos jogadores e do râguebi.

O mesmo pode dizer-se sobre os quase oitenta mil adeptos que encheram o estádio. Não houve confrontos nas bancadas, não foi preciso chamar a polícia de choque e não houve necessidade de segregar as pessoas ou claques. Bem pelo contrário, elas misturaram-se, cantaram, gritaram e sofreram lado a lado ao longo de cem minutos, mostrando que o desporto não é uma guerra. Os clubes podem fazer uso da imagética e linguagem militares, dos guerreiros de Glasgow ao exército rosa parisiense, mas há que saudar os adeptos que percebem a diferença entre o marketing e a realidade de uma atividade desportiva, onde se exige controlo e respeito mútuo.

Nem se pode dizer que a relativa paz em que decorreu o jogo foi produto de uma partida fraca onde não se marcou pontos e não houve reviravoltas. Porque aos 40 minutos os Chiefs estavam a ganhar por 3-14 e, segundos antes do intervalo, os Wasps marcaram um ensaio, ajustando a pontuação para 10-14. E pouco depois do começo da segunda parte, voltaram a marcar e assumiram a liderança, o que se manteve até aos 79 minutos, após uma série de oportunidades e penalidades para ambas as equipas.

Também aqui há mérito do râguebi, já que a emoção seria menor se cada validação contasse sempre como um ponto, fosse ela um ensaio, uma conversão ou uma penalidade. Mas ao distingui-las e atribuir um peso distinto a cada, acrescenta-se complexidade e riqueza ao jogo. Porque uma forma de validação pode não ser suficiente para passar à frente, mas reduz a diferença; ou então serve para assumir a liderança por alguns pontos, não se sabendo se basta, porque a outra equipa tanto pode marcar uma penalidade como um ensaio ou falhar a conversão. Há nisto um elemento de imprevisibilidade que cativa quem assiste e valoriza a modalidade.

Um duelo de grandes capitães (Foto: Aviva Premiership)

Futuro risonho

Contas feitas, as perspectivas para os próximos tempos são boas. Para os Exeter Chiefs por motivos óbvios, já que em menos de uma década conseguiram entrar para a primeira liga inglesa e, após uns anos a terminarem nos lugares intermédios, conquistaram o segundo na época passada e sagraram-se campeões nesta. É um clube em ascensão que pode captar interesse e recursos com o título, pelo que, espera-se, deverá manter-se competitivo.

Também para os Wasps há motivos para sorrir, já que parecem ter dado a volta à situação precária de há cinco anos atrás, quando maus resultados e uma crise financeira deixaram o clube à beira da desqualificação, jogadores sem salários e Dai Young a pagar do próprio bolso material de primeiros socorros e despesas de deslocação. Podem ter falhado a conquista do título, mas chegaram à final no topo da tabela e têm ganho raízes em Coventry, para onde se mudaram em definitivo em 2015. Se o futuro não é certo, pelo menos afigura-se risonho para os Wasps.

E por fim, é o próprio râguebi que tem motivos para sorrir. Com jogos assim, suspense até ao fim e adeptos como os que encheram o estádio de Twickenham, as perspetivas de futuro são boas e contribuem para o aumento da popularidade global da modalidade. Aliás, mais do que contribuir, o que se viu no passado dia 27 de maio ajuda a explicar o interesse crescente. É difícil não gostar de râguebi quando se lhe dá um pouco de atenção.

Uma final para todos e de todos (Foto: The Telegraph)


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