14 Dez, 2017

“E os Lobos estão no Mundial!” – 10 anos do apuramento para o Mundial de Rugby 2007

Francisco IsaacMarço 24, 201713min0

“E os Lobos estão no Mundial!” – 10 anos do apuramento para o Mundial de Rugby 2007

Francisco IsaacMarço 24, 201713min0

10 anos, aproximadamente 3650 dias passaram desde aquele momento em que Portugal conquista o direito de estar num Mundial de rugby, o seu 1º na sua longa história. O Fair Play recorda aquele é um dos motivos de orgulho do Rugby Nacional

Seria costume começar um texto destes a dizer “24 de Março de 2007… Montevideo, Portugal cantou um Hino que ficaria para sempre para a História de Portugal… etc etc”. Mas, vamos tentar dar outra direcção ao texto.

Falo agora de uma perspectiva pessoal, de uma pessoa que na altura tinha 19 anos e só jogava rugby há 1 ano e meio em Agronomia.

Convivi, treinei e joguei com alguns dos jogadores que foram ao Uruguai jogar a 2ª mão da 2ª fase de repescagem, como o Gustavo Duarte (que ainda hoje “calça” as botas todas as semanas para jogar), Luís Pissarra (actual seleccionador de sub-20 e um dos Ironman portugueses), Francisco Mira (actual capitão da Agronomia, “Paco” Mira como é conhecido é uma das figuras incontornáveis da Tapada), Juan Severino (2ª linha argentino) e Duarte Cardoso Pinto (associei sempre a imagem de nº10 à do “Velho” da Tapada, um placador de excelência e um maestro a fazer a equipa a jogar).

Na altura o ambiente nos campos de rugby era apaixonante…sim existia alguma dose de agressividade nos grandes clássicos, mas o respeito e a comunhão estavam lá.

A partilha de conhecimentos nas bancadas, o blog do Miguel Rodrigues (cdul.blogspot, ainda cheguei a ganhar um IPOD Nano por ter acertado num resultado), a loja do Rugby Spot (que entretanto deixou de existir apesar da insistência do Nuno Canas – a loja pertenceu a Leonardo Falcão Trigoso e a Francisco Mira no início), o site do Bernardo Rosmaninho, os textos de David Andrade no Público (chegámos a ter o P3 Rugby passado uns anos) enfim havia tanto nessa altura que era único.

Recordo-vos, ainda, que também tínhamos a dar na televisão as Seis Nações, Super Rugby, os Tri-Nations, amigáveis de Verão e Inverno… era intenso, uma pequena loucura… o domínio que a nossa comunidade tinha altura era fenomenal.

Agora imaginem para alguém que só estava a jogar há 450 dias… era ainda tudo mais apaixonante, mais próximo, mais intenso… cada jogo que tinha parecia ao mesmo tempo um ano da minha vida ou um minuto.

O Ensaio para a Vida? (Foto: CDUL Blogspot)

Tive a sorte de ter entrado nos Anos de Ouro do rugby português… tudo era perfeito, ou pelo menos aparentava ser.

O CDUL na altura até tinha começado mal o campeonato, parecia não estar as coisas a correrem bem ao gigante adormecido, e cheguei a assistir, nas bancadas, a várias pessoas a “gozarem” com a equipa dos universitários numa “feia” demonstração de fairplay.

Mais uma vez, entre o fastforward entre épocas, é delicioso ver como o CDUL se reergueu e voltou a conquistar títulos nacionais, chegando a ter a supremacia do rugby Nacional.

Como disse, tínhamos media, havia interesse público, as pessoas “discutiam” rugby, existia intensidade, a entrega era completa, nos escalões estavam várias equipas de sub-16 a 20, as bancadas estavam (quase) sempre cheias.

Continuava a ser um pouco um desporto de elite mas a ida ao Mundial alterou a comunidade, abrindo-a a outros “mundos”, outras pessoas e outras ideias.

O Campeonato Nacional tinha uma dinâmica fantástica, existia um desafio todas as semanas, despontavam os grandes treinadores como o Daniel Hourcade no GD Direito (quem diria que chegaria a seleccionador Nacional da Argentina?), Francisco Borges no CF “Os Belenenses”, entre outros tantos.

Faço um aparte no texto para mencionar mais um treinador que nunca deveria ser esquecido e que ajudou aos sucessos do rugby Nacional… José Ricardo Sequeira.

Foi com ele (e o irmão, Luís Sequeira) que aprendi os valores do rugby, que percebi que tinha de exigir não a vitória, mas sim o 100% a cada jogo.

A derrota acontecia porque falhámos em certa altura, o adversário soube ser sério e melhor durante os 80 minutos.

Era um senhor nos relvados, um professor atento nos treinos que raramente era obrigado a “gritar” (só por uma vez nos chamou à razão e foi na 3ª feira antes do jogo contra o GD Direito na final)… era uma “forma de expressão da alma do rugby português”.

Há uma lembrança que tenho dele: após o jogo contra o Técnico na Tapada (penúltima jornada) em que somámos a nossa 2ª derrota (uma época quase perfeita), na “rodinha” pós-jogo, lembro-me do “Zé” Ricardo dizer “Agora deixou de ser jogo a jogo… agora é para GANHAR!“.

Duarte Cardoso Pinto e André Silva (Foto: CDUL Blogspot)

É curioso, que em Março-Maio de 2007 vou ter direito aos meus dois (de cinco) momentos marcantes no rugby. Ser campeão Nacional (mais uma vez, obrigado José Ricardo pela oportunidade) e o tal momento que ocupa o lugar nº2 do meu Top.

Eu, como tantos os outros, assistíamos aos jogos da Selecção no EUL, numa altura em que as bancadas estavam pejadas de pessoas vestidas com as diferentes cores do rugby Nacional, seja do Benfica, Técnico, Agronomia, Cascais, Évora, ou qualquer outro.

Se nas vestes existia uma multidisciplinaridade, sem uma mancha Verde e Vermelha concreta, já nos cânticos tudo era diferente.

Havia um claro apoio aos Lobos, o EUL era um “terror” para as equipas da Rússia, Roménia ou Geórgia… era um peso total, uma paixão sem dimensão calculada emanava por todos os “poros”.

A bancada era a extensão da forma de jogar de Portugal, uma selecção aguerrida, mexida e dinâmica que gostava de ir ao contacto, mas também encontrar formas de fugir dele com estilo.

Éramos uns autênticos “sul-americanos” no rugby Europeu, isso irritava as selecções do Leste que queriam um jogo “duro”, sólido e táctico. Fintas? Dribles? Trocas de pés na cara do contacto? Jogadas com falsos a dobrar? Loucura profunda!

Era o rugby dos Lobos entre as placagens aos pés, mesmo lá em baixo (quem se esquece de Paulo Murinello a andar às “sapatadas” aos russos?) ou às trocas de pés (Pedro Leal na altura era um formiga atómica nesse aspecto), era o nosso estilo!

O culminar destes pontos todos levou-nos para a repescagem, onde tivemos um duelo com Marrocos (dois jogos complicados, recordo-me do tamanho da 1ª linha marroquina no jogo em Lisboa) e depois o Uruguai.

Os Teros já tinham estado nos Mundiais de 1999 e 2003, já sabiam qual era a sensação de pisar os relvados com a Nova Zelândia, a Austrália ou Inglaterra… Portugal não, era uma selecção amadora de um país que jogava rugby com um gosto especial.

No entanto, na altura não ouvi uma pessoa a dizer que era “impossível de lá chegarmos”.

Existia uma cumplicidade quando caminhávamos para o EUL todos juntos, uma sensação de orgulho inerente, de expectativa do que íamos ver no jogo da Selecção.

Eu pessoalmente queria ver o “Velho” a dar um “passo de dança”, uma jogada daquelas que deixava tudo a de boca aberta. Isso, ou ver o Vasco Uva a dar uma “porrada” (peço desculpa pela expressão corriqueira, mas é a única possível) ou o “Muri” a dar as tais “sapatadas” com a palma da mão.

E tínhamos o Tomaz Morais, seleccionador Nacional desde 2001, já nos tinha dado um Torneio Europeu das Nações (o equivalente às Seis Nações “B”) e que pautava a selecção com a sua intensidade e metodologia de viver o jogo.

E os Teros? Eram grandes sim, tinham velocidade e ganas… mas no meio do nosso inferno? Nem pensar.

A 1ª mão foi um jogo “quente”, com um sol que tinha intenções de amolecer os adeptos e tirar a voz da Alcateia do jogo… felizmente, não foi isso que aconteceu. A voz foi uma só e na 2ª parte parte Diogo Gama e Diogo Coutinho chegaram à linha de ensaio.

Confira aqui, a entrevista de Tomaz Morais ao FairPaly.

Estávamos a 80 minutos do sonho… em Lisboa os sorrisos, os empurrões, os urros de Hurra soavam bem alto naquela tarde… agora era esperar por dia 24 de Março.

Para a viagem, Tomaz Morais selecciona os 24 jogadores que tinham de garantir uma vitória, empate ou derrota por menos de 7 pontos.

As bancadas do EUL (Foto: CDUL Blogspot)

Através do antigo Blog do CDUL (administrado por Miguel Rodrigues) ficamos a saber quem eram (a FPR tem também notícia do facto):

Joaquim Ferreira, Gonçalo Malheiro, Marcelo d’Orey, Duarte Cardoso Pinto, Pedro Leal, Francisco Mira, Vasco Uva, Diogo Gama, Gustavo Duarte, Juan Severino, Luis Pissarra, Miguel Portela, Duarte Figueiredo, João Uva, Diogo Mateus, Gonçalo Uva, João Correia, Rui Cordeiro, André Silva, David Penalva, Pedro carvalho, José Pinto, Paulo Murinello e Diogo Coutinho.

O jogo foi para esquecer literalmente… não me recordo de quase nada dos momentos, dos ensaios ou dos pontos marcados. Graças às partilhas de informação com Manuel Gaivão (Alqateia do Luxemburgo) ele recordou-me que o capitão do Uruguai recebeu cartão vermelho muito cedo e foi algo que “estragou” o jogo aos Teros.

Mas o que é que me lembro do jogo? Do sofrimento, das placagens, de chegarmos aos 75 minutos e do Uruguai, com menos um, montar mauls e não conseguir avançar, de tentar nas formações ordenadas tirar pontos mas nada, de tentar quebrar a defesa com picks e entradas curtas… nada passou.

Os doze pontos saídos da “bota” de Cardoso Pinto, conquistados nos rucks e nas saídas rápidas, deram-me fôlego a mim e aos que viam comigo (principalmente o meu pai, a razão pela qual eu fui para o rugby e um entusiasta da modalidade) o jogo para acreditar no Mundial 2007.

18-12…estava feito…tinha de estar…

Portugal era um só, estava uno na conquista de um sonho que chegou com o apito final… estávamos no Mundial! Éramos a primeira selecção amadora a ir a um Rugby World Cup, poderíamos conviver com as melhores e mostrar Portugal.

Graças ao Blog do Aguilar (do actual treinador da selecção de sub-20 e 7’s de Portugal) ficámos a saber não só os XV de cada equipa, assim como pudemos ir buscar as palavras de Tomaz Morais após o término do jogo:

Falamos sempre no sonho, para tirar alguma responsabilidade de cima dos jogadores, mas sabíamos que íamos fazê-lo.

Lutamos muito e agora tenho de pensar e viver tudo isto, porque ainda não consegui dar um abraço aos jogadores, ainda não consegui agradecer-lhes toda a entrega, todo o sacrifício, acima de tudo terem acreditado em mim, nunca terem desistido.

Tenho a certeza que muitas vezes tiveram vontade de me atirar de um campo para fora. Mas aguentaram-me e eu tenho de lhes agradecer isso, agradecer às famílias deles, aos sítios onde trabalham e, acima de tudo, ao râguebi português por ter confiado em mim desde o primeiro minuto, sendo eu uma pessoa tão jovem, tão inexperiente nesta função.

Enfim, tenho de ir com calma e agradecer a todas as pessoas que nos apoiaram ao longo desta caminhada.

Para a memória fica a ficha de jogo, eternizada em sites, blogs e federações, assim como nas moradas de muitas pessoas da comunidade do rugby português que guardam (alguns sem saber) de uma parca folha com nomes atrás de nomes mas que marca uma das páginas de Ouro do rugby Nacional:

“Ficha de jogo

Local Gran Parque Central (Nacional de Montevideo)

Árbitro Jonny Speadury (inglês)

Uruguai 18 (6) Juan Manchaca (2); Ignacio Crosa, Joaquin Pastore, Diego Aguirre (3+3)e Juan Labat; Sebastian Aguirre (Juan Miguel Alvarez) e Juan Campomar; Nicolás Brignoni, Nicolás Grille (Rafael Alvarez) e Alfredo Giuria (Frederico Capo, 5); Rodrigo capo e Juan Carlos Bado (expulso aos 2’); Pablo Lemoine (5)( Guillermo Storace), Juan Pérez e Rodrigo Sanchez (Juan Martin Llovet).
Seleccionador Ignacio Inciarte

Portugal 12 (6) Pedro Leal; Diogo Gama, Miguel Portela, Diogo Mateus e Pedro Carvalho; Cardoso Pinto (3+3+3+3) (Gonçalo Malheiro) e Luís Pissarra; Vasco Uva, João Uva e Juan Severino (Diogo Coutinho); Gonçalo Uva e Marcello D’Orey (amarelo aos 40’)(David Penalva); Joaquim Ferreira, João Correia (amarelo 13’) e André da Silva (Rui Cordeiro).
Seleccionador Tomaz Morais”

Passaram-se 10 anos… 10 anos em que vivi um momento único…e acredito como eu, toda a comunidade também.

Não faço ideia onde está o Juan Severino nos dias de hoje, João Uva é o treinador do Belenenses, Duarte Cardoso Pinto deixou de estar envolvido na modalidade, Tomaz Morais é o homem do leme do Cascais, assim como os outros tantos…  seguiram com as suas vidas.

É curioso que algumas dessas lendas ainda jogam dos clubes e/ou da Selecção Nacional como o Gustavo Duarte, Pedro Leal, Gonçalo uva, João Correia, Vasco Uva, Francisco Mira ou Diogo Mateus.

Sempre que entrarem em “campo” para assistir ou jogar em campo e partilharem o mesmo espaço que estes jogadores/treinadores/adeptos, não os tratem como deuses… mas sim como Lobos que levaram o espírito do rugby Nacional ao mais alto.

Não são divindades, são vossos colegas, amigos, família… são vossos adversários, placadores e conhecidos no final de cada encontro.

Inerente a eles vive uma parte da História do rugby Nacional, subsistem anos de sacrífico e entrega, de paixão e ódio pela modalidade, de acordar de manhã e lembrar das mazelas do treino da noite passada… e se perguntarem a eles se voltarão a ir para o treino de 2ª às 20h00 é garantindo que vão, com um sorriso na cara.

10 anos de memórias, 10 anos daquele dia de 24 de Março de 2007… fica para a memória aquilo que fizemos, com tanto sacrifício, valor e paixão.

E 2007 chegou… (Foto: Getty Images)


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