17 Ago, 2017

O Diário do Atleta – Maria Heitor Episódio III

Francisco IsaacNovembro 16, 201611min0

O Diário do Atleta – Maria Heitor Episódio III

Francisco IsaacNovembro 16, 201611min0

Com a primeira volta do Top8 prestes a terminar, Maria Heitor enfrentou novos adversários, jogou em outras posições e viajou por França fora. Este é o Diário do Atleta de Maria Heitor Episódio III, a Loba à conquista de Lille

O mês de Outubro chegou com três grandes desafios e um só objectivo. Subir ao primeiro lugar do campeonato que nos escapava por dois pontos bónus concedidos ao Saint Oraes.

Após dois fins-de-semana de repouso, atacámos três jogos seguidos. O primeiro contra uma equipa aparentemente mais acessível. Aparentemente! Mas que tinha feito uma dupla contratação de luxo. Duas jogadoras da selecção fijiana de sevens que tinham participado nos jogos olímpicos (terceira linha e ponta). O estilo fijiano bem entrosado no estilo de XV francês… bola viva, passes depois da defesa, trocas de pés do «outro mundo» … dando uma nova dinâmica ao Stade Rennais.

Para mim, a estreia da época a titular. Super feliz de voltar à terceira linha titular, só me restava provar aos treinadores que merecia aquela titularidade.

Dia de jogo! Recebemos o Stade Rennais em nossa casa. Grande dia de rugby em Villeneuve D’Ascq. As quatro equipas seniores (duas femininas, duas masculinas, A e B) recebiam 4 equipas. A família do LMRCV estava lá toda!

Titular pela 1ª vez a Asa… para acabar a Pilar!

A minha camisola de jogo foi entregue por uma das minhas melhores amigas da equipa. Acho que nunca falei da entrega das camisolas… para mim é um dos momentos mais marcantes do jogo. Antes do aquecimento, a equipa reúne-se em roda no balneário. A capitã faz o discurso antes do jogo e as camisolas estão no meio da roda. No fim do discurso, uma jogadora toma a iniciativa de dar a primeira camisola. Pega numa camisola à sua escolha e vai dar à jogadora respectiva, diz-lhe duas ou três frases, dão um abraço, um beijinho e a jogadora que recebe a camisola pega na próxima e assim sucessivamente até ao fim. É um dos momentos mais emocionantes do jogo. Emoção, lágrimas e sorrisos estão sempre presentes.

Após a entrega das camisolas, seguimos para concentradas para o aquecimento. Uma primeira parte dada pelo preparador físico e uma ou outra revisão de saída de touche, formação ordenada ou pontapé de saída, orientada pelos nossos treinadores. Estávamos prontas para jogar. Um começo meio duvidoso, em que a bola esteve sempre do lado do nosso adversário. Uns primeiros dez minutos em que percebemos que o jogo não ia ser assim tão fácil e que se queríamos manter o nosso objectivo do ano tínhamos que ligar o «turbo». Assim o fizemos, dominámos o jogo durante os 30 minutos seguintes. Chegámos ao intervalo com um resultado de 13-6. No intervalo fazemos uma substituição e passo da terceira linha para pilar (nº1). Confesso que não é a minha posição preferida… adoro jogar a asa. Mas para mim o mais importante é ter a oportunidade de estar dentro de campo. Na segunda parte o Rennes cresceu e conseguiu marcar duas vezes. Ao mesmo tempo nós respondemos com dois grandes ensaios também. Resultado final 23-18. Vitória curta que permitiu ao nosso adversário acumular um ponto bónus defensivo.

Maria Heitor a partir barreira (Foto: Eric Photos)
Maria Heitor a partir barreira (Foto: Eric Photos)

Consegui, neste jogo, alcançar um dos meus objectivos pessoais. Pela primeira vez, desde que cheguei a França, fiz um jogo completo, 80 minutos. Fiquei super contente! No final do jogo, devido a uma situação atípica tivemos de dar a nossa camisola de jogo à equipa de reserva. Cada jogadora «ofereceu» a sua camisola à jogadora da equipa B que jogava na sua posição. Acabou por ser um momento emotivo para todo o clube que, ao mesmo tempo, mostrou que o desporto feminino está uns passos atrás do masculino. Infelizmente…

Com uma nova semana pela frente e uma responsabilidade acrescida… a procura do primeiro lugar do campeonato que continuava a fugir por dois pontos bónus. O jogo contra o líder do campeonato. O Saint Oraes recebia-nos em casa para a disputa da liderança. Uma semana para afinar os pormenores e adaptar o nosso projecto de jogo à equipa que íamos enfrentar. Evitar mauls e proteger bem as «portas» do ruck eram palavras de ordem. Esta equipa é conhecida por aniquilar todas as equipas na conquista de bola em pé, conquistam metros e metros graças ao seu poderoso pack avançado. De jogo bem estudado atacámos o fim-de-semana. No sábado, dez horas de comboio pela frente… Partida de Lille às 8h30 com uma chegada prevista as 18h30 a Toulouse. Uma viagem exaustiva antes de um grande jogo. Chegadas ao hotel só queríamos jantar e ir descansar. Depois do jantar temos um momento de recuperação muscular com o preparador físico e fisioterapeuta (roll out, alongamentos, massagens de recuperação) e a seguir duas a duas voltamos para os nossos quartos para finalmente podermos dormir.

8h da manhã, a equipa encontra-se na sala de pequeno-almoço do hotel. Após esse momento fazemos uma pequena reunião para tratar dos últimos pormenores, seguindo-se um acordar matinal do corpo com o preparador físico, que se baseia em corrida ligeira, movimentos calmos de todas as articulações, alguns passes, algumas revisões de touches ou jogadas de ¾, etc… Voltámos a reunir para comermos mais qualquer coisa antes do jogo e partimos para o estádio. No autocarro recebo uma pequena mensagem de incentivo de uma colega de equipa escrita num papel. Duas jogadoras da nossa equipa decidiram escrever uma mensagem pessoal a cada jogadora antes deste grande derby. Afinal era um dos jogos mais importantes que tínhamos pela frente e tudo o que nos pudesse motivar era bem-vindo. Além da liderança a disputar.

A forma de atiçar do Blagnac

Ao chegarmos a Blagnac, juntamo-nos no centro do campo em roda, os treinadores dizem as últimas palavras antes do jogo. Voltamos para o balneário e começamos a equipar. Antes da passagem do árbitro no balneário temos a entrega das camisolas e seguimos para o aquecimento. Depois do aquecimento volto para o balneário um pouco depois da equipa e deparo-me com uma situação esquisita… a minha equipa estava toda com as camisolas do clube que íamos enfrentar… olhei para a minha capitã que baixou a cabeça e me disse: pois vamos ter de jogar com elas. Não estava a perceber bem o que se estava a passar, até que me explicaram: tínhamos trazido uma camisola de jogo branca, tal como a equipa da casa. A solução mais prática seria o Blagnac jogar com o alternativo, uma vez que não tínhamos as nossas… mas recusaram tal ideia (o Blagnac) a trocar por causa dos patrocínios estampados, então a solução foi darem-nos a camisola alternativa.15058731_10154552856316368_1430483457_n

A minha equipa estava revoltada com toda a situação… primeiro porque tínhamos pedido um adiamento do jogo por causa dos horários de comboios (podem imaginar que Toulouse-lille é uma viagem com uma logística complicada em comboio) que não nos foi concedido, depois porque nos privaram de jogar com o nosso símbolo ao peito… esta frustração foi transformada em motivação por toda a equipa e entrámos mais focadas que nunca. Dominámos o jogo, touches, formação ordenada eram todas nossas, anulámos a sua supremacia nos mauls e rucks. Levámos apenas 3 faltas durante o jogo (o sonho de qualquer treinador). Tivemos quase sempre a bola na nossa mão. Infelizmente nem sempre conseguimos concretizar. Mas fizemos o suficiente para sair de Blagnac com a liderança do campeonato.

Eu fiz a minha estreia deste ano a pilar titular… não sou uma pilar experiente e mesmo as minhas colegas de equipa «gozam» a dizer que não tenho «gabarito» para jogar na primeira linha….  Estava assustada com as formação ordenada… mas sabia que tinha comigo mais 7 jogadoras. E dominámos! Pela primeira vez desde que o campeonato começou, dominámos as formação ordenada! Segundo as nossas suplentes, os olhos do nosso treinador dos avançados brilhavam em cada formação ordenada. Um dos nossos ensaios é resultado de uma formação ordenada que avança até à área de ensaio. No final do jogo, e mais uma vez 80 minutos feitos, estava como costumamos dizer aqui, «au bout de ma vie», ou seja, morta… imaginem que mesmo depois do banho, as minhas pernas e braços ainda tremiam.

Au Bout de Ma Vie… ou um anúncio de Missão Cumprida!

Os treinadores vieram pessoalmente dar-me os parabéns pelo jogo que tinha feito. Mais uma vez fiquei super feliz. Não é todos os dias que eles dizem estas coisas…

Jogo acabado, ainda nos faltavam 10 horas de viagem pela frente. Enquanto os treinadores faziam as estatísticas do jogo, nós festejávamos no bar do comboio.

Penso que nunca falei das estatísticas. Os treinadores fazem sempre a análise dos jogos: Tempo de jogo, número de placagens tentadas, número de placagens conseguidas/falhadas, formação ordenada contra ganhas, formação ordenada contra perdidas, formação ordenada nossas ganhas, formações ordenadas nossas perdidas, touches contra ganhas, touches contra perdidas, touches nossas ganhas, touches nossas perdidas, bolas perdidas e como, bolas ganhas e como, número de vezes que vamos ao contacto (bem sucedido, mal sucedido mas que não perdemos a posse de bola, mal sucedido e que perdemos a posse de bola), número de vezes que somos o primeiro apoio ao portador da bola no contacto (bem feito, mal feito mas que não perdemos a posse de bola, mal feito e que perdemos a posse de bola). As estatísticas do jogo são divulgadas a toda a equipa durante a reunião e a preparação do jogo seguinte.

Vitórias e mais vitórias (Foto: LMRCV)
Vitórias e mais vitórias (Foto: LMRCV)

Acabada a semana como líder do campeonato, os treinadores deram-nos a segunda-feira de descanso para recuperarmos da viagem e do jogo. Com apenas dois treinos de preparação ainda nos faltava um jogo para acabar o mês. Este com um sabor especial… a visita da minha mãe. Era a primeira vez que ela me ia ver jogar aqui em França, confesso que estava um pouco nervosa mas ao mesmo tempo com um sentimento reconfortante pela sua visita. Depois de dois treinos a acertar os pormenores para enfrentarmos da melhor maneira o jogo, encontrámos-nos no domingo bem cedo. 5 horas antes do jogo. Os treinadores fazem uma última análise do nosso projecto de jogo e partimos para o campo para fazer uma movimentação colectiva muito ligeira de 30 minutos. Partimos para o restaurante onde almoçamos todas juntas antes do jogo e voltamos para o clube. 50 minutos antes do jogo o árbitro vai ao balneário falar com os primeiras linhas e formação e verificar chuteiras e protecções, 45 minutos antes fazemos a entrega de camisolas e 40 minutos antes saímos para o aquecimento.

Só vitórias e mais vitórias!

Infelizmente, no inicio do aquecimento sinto uma picada na coxa o que me limitou durante o jogo e não me permitiu jogar como queria.

Depois de um grande teste na semana anterior, 80 minutos a pilar, tinha outro enorme pela frente… enfrentar cara a cara a pilar principal da selecção francesa de XV. Uma pilar «do outro mundo» que me deu muito trabalho e que me mostrou que em França a formação ordenada não é brincadeira… é incrível como os franceses apostam tanto na formação de pilares no alto nível. Resumidamente, levei um “banho” de técnica de formação ordenada dela! Apesar disso, objectivo cumprido! 34-5! Vitória com ponto bónus o que nos permitiu destacarmos-nos bem no primeiro lugar.

Assim acabou mais um mês do nosso campeonato. Para terminar a primeira fase de apuramento ainda nos falta um jogo contra o Bobigny que será disputado fora, domingo dia 13 de Novembro.


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