21 Ago, 2017

O Diário do Atleta: Diogo Cabral e Manuel Nunes ep. I

Francisco IsaacDezembro 17, 201610min0

O Diário do Atleta: Diogo Cabral e Manuel Nunes ep. I

Francisco IsaacDezembro 17, 201610min0

Manuel Nunes e Diogo Cabral, capitães da Selecção de sub-18 de Portugal, revelaram o seu “paradeiro” após um mês do jogo com as Escolas da Irlanda: os estudos, a exigência física, o campeonato nacional e outros episódios. Um mês na vida do futuro de Portugal

Placagens “encharcadas” de raça, “fome” de criar espaços, equipamentos enlameados e suor gelado… este era o resultado do desafio entre portugueses e irlandeses da categoria de sub-18 em início de Novembro.

Rui Carvoeira, Francisco Branco e João Mirra estavam satisfeitos com a prestação portuguesa, que de acordo com o primeiro “foi melhor do que esperávamos. A reacção deles [jogadores portugueses] foi fundamental para demonstrarem que temos uma larga margem de progressão. Estamos contentes por eles, provaram que querem ser jogadores de um grupo e não só de individualidades.”

Mas após esse jogo o tempo passou, mais precisamente 40 dias de um grande momento para Portugal. A poucos dias dos jovens lobos de se reunirem no Jamor para um estágio mais psicológico do que físico ou técnico, Diogo Cabral (CF “Os Belenenses” centro) e Manuel Nunes (asa do RC Montemor) partilharam o seu mês de Novembro-Dezembro com o Fair Play.

Reestruturar as minhas rotinas de Treino

Em termos de mudanças na forma de treinar/estudar e viver, Manuel Nunes, de forma muito lúcida e completa revelou que,

“Após o jogo contra a selecção da Irlanda Escolas, dia 4 de Novembro, dediquei algum tempo a uma pequena reflexão sobre o que se passara no campo e o que devia ser melhorado tanto em termos colectivos como em em termos pessoais.

Perante o adversário senti que, da minha parte, teria que reestruturar as minhas rotinas de treino e trabalho físico. Só assim,  em conjunto com o grupo, poderemos ter a ambição de alcançar ou mesmo superar o nível com que nos deparámos.

Neste sentido, a par dos horários escolares, tentei estabelecer uma rotina de treino individual não só da parte física no ginásio, mas também pormenores técnicos que me permitam melhorar a minha prestação em grupo.”.

Sentiu-se que a nova realidade da selecção teve um peso no asa de Montemor. Porém, Nunes, ao bom estilo e raça dos mouflons, não se deixou ir abaixo e lutou para voltar ainda mais forte. Como? O próprio explica que,

“E assim foi, neste último mês, o trabalho individual que realizei será um acréscimo para qualquer equipa que integre tanto grupo selecção, como clube.

O orgulho em ser do Montemor (Foto: Facebook do próprio)

Sinto que as dicas que me foram dadas e a disciplina no meu trabalho individual só me tornaram melhor jogador de há um mês para cá. Tudo isto teve que ser muito bem gerido com os estudos, pois estamos num ano decisivo, o que faz com que seja muito importante não deslizarmos.

Para isto é fulcral que tenhamos uma boa gestão do tempo e sejamos disciplinados e rigorosos connosco próprios. Quanto a mim, acho que tenho tudo minimamente controlado sabendo, perfeitamente, que esforçando-me um pouco mais as coisas podem ainda melhorar.

Como já tinha referido todo este progresso pode ser conseguido com o máximo aproveitamento do tempo dedicado tanto ao estudo como ao rugby.

Com isto, acresce a nossa responsabilidade, como jogadores de selecção, de não faltar e de trabalhar sempre no máximo,  de maneira a dar o nosso maior contributo à equipa, servindo de exemplo para muitos dos nossos colegas.

Só assim conseguiremos evoluir dia após dia, aspirando um aperfeiçoamento como jogadores de rugby, além de todos os valores que esta modalidade nos oferece para a construção e formação do nosso carácter.”

Anseio por ver o crescimento dos colegas de Selecção

Uma reflexão profunda, um trabalho sério e uma vontade de grande alma, são atributos que espelham bem a força de Manuel Nunes. Com apenas 17 anos (fará 18 em 2017), já se denotam algumas qualidades e características que muitos seniores deviam ter, onde uma forte personalidade obriga-o a trabalhar mais e melhor.

Antes de sair para mais uma corrida intensa e depois um treino individual de placagem, Manuel acaba por dizer que,

“Estamos a chegar às férias de Natal, avizinhando-se o próximo estágio de selecção. Penso que já todos estamos a ambicioná-lo, não ainda a cem por cento, visto que antes disso ainda há uma primeira fase do campeonato a finalizar-se.

Posteriormente, o foco debruçar-se-à sobre os trabalhos da selecção, e aí, tenho a sensação que todos iremos ansiar por ver a evolução desde o último momento juntos.

Uma raça de Lobo (Foto: Luís Cabelo Fotografia)

Com isto, conseguimos perceber individualmente a nossa evolução e mesmo em termos de grupo também perceberemos o que ainda nos faltará para chegarmos ao Campeonato da Europa com um grupo coeso e difícil de bater.

Após esta percepção teremos que reformular os treinos incidindo sobre os aspectos que achemos que devem ser melhorados. É tudo um processo complexo e demorado, mas a qualidade que encontramos no grupo só facilitará e nos dará gosto pertencer a este projecto.”.

O RC Montemor apurou-se para a Final Five do campeonato Nacional de sub-18, como 5º classificado. Uma boa vitória frente ao CDUP permitiu voltarem a lutar pelo troféu conquistado em 2015/2016.

Gestão do Tempo… o maior desafio!

Agora, indo para a costa portuguesa, mais precisamente para Lisboa, encontramos Diogo Cabral bem disposto (como de costume) confidenciou que as suas maiores dificuldades foram/têm sido,

“Desde o último estágio da selecção sub-18, no qual tivemos um jogo com a Irlanda Escolas, houve uma série de “desafios” que se apresentaram. Pessoalmente, enquanto estudante e atleta, acho que a maior dificuldade que se apresenta é a gestão do tempo, porque é necessário ter em conta todos os compromissos aos quais nos comprometemos e ainda arranjar tempo para lazer.

Pegando nos compromissos, o mais importante é a escola. Neste período pós estágio tive vários testes… não digo que o meu desempenho tenha sido o mais exemplar em todas as disciplinas, porque sei que posso fazer melhor e muitas vezes o cansaço não ajuda, mas dou-me como satisfeito para um primeiro período de horários preenchidos.

Outro tipo de aulas que ando a tentar fazer, são as de código, mas tem sido difícil devido à falta de tempo.

Quanto ao rugby quero apontar a minha grande satisfação em relação à época que está a decorrer, não só pelos resultados, mas também pelo envolvimento de toda a equipa nos treinos e jogos. Somos um grupo empenhado e com vontade de ser melhor.

Um aspecto que quero realçar dentro do esforço que todos fazemos, é a melhoria dos jogadores lesionados, sendo que um já está de volta aos treinos e jogos em óptima condição.”.

Um azul vivo (Foto: Inês Cabral Fotografia)

Cabral demonstra-se contente com o excelente campeonato do seu Belenenses, que segue para a Final Five em 1º lugar com 38 pontos. Cabral tem sido uma peça fundamental do jogo da equipa dos azuis do Restelo. Contudo, houve um momento mês bom que o centro revelou-nos como importante, senão fundamental, para a coesão de grupo,

Nos jogos menos bons encontramos a determinação para os ganhar

“Os jogos menos bons que tivemos não baixaram a nossa motivação, continuamos a ir ao ginásio e a treinar, a trabalhar para alcançar bons resultados na 2ª fase do campeonato.

Já que falei de jogos menos bons, quero pegar na derrota frente ao CDUL… apesar dos aspectos negativos a apontar nesse jogo, a resposta que a equipa teve na segunda parte marcou-me. Estávamos a perder ao intervalo, mas quando o jogo retomou vi a determinação que todos tiveram com o objectivo de dar a volta ao resultado.

Contudo esta atitude determinante não foi suficiente, e só aprofundando questões técnicas/tácticas é que é possível concluir “o porquê” do resultado final. E claro, com o que disse não quis tirar mérito ao CDUL, a atitude e prestação deles foi muito boa!”

Cabral ao bom jeito de um capitão com uma enorme vontade de fazer algo diferente e elevar Portugal ao mais alto nível, demonstrou que tem feito um trabalho muito consciente e árduo para atingir os seus objectivos. Quais, pode perguntar o leitor? O próprio jogador responde,

“No que diz respeito ao objectivo/sonho de jogar com a selecção, é importante perceber que é para isso que nós, jogadores, trabalhamos no dia-a-dia, além da ambição de chegarmos a seniores no clube.

No último estágio e jogo, acho que foi possível observar a qualidade que  temos enquanto grupo de trabalho, pelo que nas próximas vezes que nos encontrarmos o esforço de cada um terá de ser cada vez maior, para elevarmos o nível da equipa.

E quando digo elevar o nível da equipa, não me refiro necessariamente só a termos tácticos, técnicos ou físicos, mas também à construção de valores morais e de objectivos que nos definam e caracterizem, porque enquanto praticantes desta modalidade, também devemos ser um exemplo daquilo que são os ideais  que esta representa.

Deste modo saliento que as saudades de voltar a interagir e treinar com o grupo  dos sub-18 já são notáveis! E acredito que a vontade de sermos melhores e de conhecer/alcançar novos limites estará sempre presente.”.

Após este “discurso” flamejado e cheio de entrega, Diogo saiu disparado para regressar aos estudos, a sua obrigação principal e que é importante para o mesmo, uma vez que o ajuda a moldar como jogador, atleta e pessoa.

O nosso futuro e o futuro deles

Quem pensa que ter 17/18 anos é símbolo ou significado para levar o dia-a-dia de forma relaxada e sem preocupação, não conhece bem esta selecção de sub-18. Manuel Nunes e Diogo Cabral são dois representantes de uma camada geracional que tem sede em atingir algo mais e provar que o “amadorismo” não tem de significar fraqueza ou “brincadeira”. Pelo contrário, há uma obrigação em provar que os amadores podem ser tão bons como os profissionais, que as camadas de formação podem mais e melhor e que há um “sonho” que tem de virar realidade.

40 e poucos dias passaram-se desde o 1º jogo como Lobos sub-18… Manuel Nunes e Diogo Cabral são, sem dúvida, jogadores completamente diferentes. A antecâmara para o Europeu de sub-18 a realizar em Abril deste ano em França, segue-se dentro de momentos.

A luta pela Selecção (Foto: Luís Cabelo Fotografia)


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