20 Out, 2017

Da Bledisloe Kiwi à “caça” do Bok pelos Pumas

Francisco IsaacAgosto 28, 201611min0

Da Bledisloe Kiwi à “caça” do Bok pelos Pumas

Francisco IsaacAgosto 28, 201611min0

E ao fim da 2ª jornada, a Nova Zelândia lidera, isolada, o Rugby Championship: nova vitória ante os Wallabies com uma exibição irrepreensível e a derrota da África do Sul ante a Argentina, garantem uma distância de 5 pontos entre o 1º e o 2º lugar. A jornada em 6 pontos.

O Colectivo: O TANGO DOS PUMAS – LENTO E MORTÍFERO

A Argentina voltou a afundar os “dentes” nos Springboks, numa vitória mais que merecida por 26-24. Sim, é verdade que o jogo esteve num vai e vem até ao apito final, mas a equipa que melhor lutou, pese embora o estilo caótico de ambas a jogar, foi a formação dos Pumas com um trabalho de “casa” bem feito e umas ganas ao bom estilo da raça argentina. Como já dissemos, o jogo foi “feio” no que toca ao bom espectáculo que, normalmente, é afecto ao Hemisfério Sul. Porém o estilo de jogo dos argentinos, assim como a estratégia, passava por “desconstruir” as tentativas de ataque dos Springboks, impedindo-os de encontrarem o caminho da linha de ensaio (só conseguiram ter 8 quebras de linha com 2 ensaios). Foi, no geral, um jogo “feio”, onde imperou o contacto físico, a “agressividade”, o jogo curto e a “batalha” entre avançados, dando só alguns momentos de brilhantismo às linhas atrasadas. Nesse aspecto, Facundo Isa, Agustín Creevy, Juan Leguizámon e Pablo Matera dominaram, conquistando metros preciosos que possibilitaram a abertura de “brechas” na linha defensiva sul-africana, que dominou q.b. no que toca à placagem (algumas já bem fora da lei que Jerome Garcés deixou passar incólume). O colectivo Puma foi sempre melhor, foi sempre mais unido e acreditou no seu potencial, valendo uma preciosa vitória na luta pela competição. Veja-se os 4 minutos finais para perceberem a força deste espírito de união dos argentinos, com a conquista da penalidade que lhes garantiu o 26-24, onde o risco de jogarem ao largo lhes valeu 3 pontos por Iglésias (Sánchez e Hernandez já tinham abandonado as quatro linhas) para depois defenderem, a todo o custo, essa vantagem. 1º uma formação ordenada a favor dos sul-africanos, que aguentaram e impossibilitaram de Morné Steyn de voltar a chutar aos postes, obrigando os boks’ a jogar ao largo… a oval sai da formação ordenada e, quando, a África do Sul procurava uma rotura defensiva ao largo, surge Facundo Isa com uma placagem de topo que força o erro a Pieter-Steph du Toit (voltou a começar do banco, inexplicavelmente) e lhes garante a bola aos 80′. Sem descontrolo emocional, organização defensiva irrepreensível e um acreditar total, a Argentina somou a sua primeira vitória no Rugby Championship, nesta edição, e consegue fazer justiça no marcador final. Mas bastará este nível exibicional para ganhar à Nova Zelândia? Até onde pode ir o espírito de união que, por vezes, é “invadido” com alguma indisciplina?

O Jogador: FEKITOA, THE KIWI ENFORCER

No final desta jornada, seria normal dar este posto a Beauden Barrett (voltou a espalhar o “terror” na defensiva Wallaby), Kieran Read (gigante a comandar a sua equipa), Santiago Cordero (uma “dor de cabeça” constante para os Boks), Facundo Isa (totalmente rendidos ao Puma, que teve dois momentos de génio nesta jornada) ou Jesse Kriel (mesmo tendo entrado do banco e jogado apenas 35 minutos), mas o destaque vai para Malakai Fekitoa, o 2º centro dos All Blacks. Não fez qualquer ensaio ou assistência, mas garantiu que os Wallabies ficassem presos com as suas trocas de velocidade e conquistas de metros, para além de ter sido um defesa sempre eficaz, pondo fim às dúvidas em relação à sua capacidade e valor. Fekitoa prendeu sempre 1 a 3 defesas com as suas movimentações, seja com a oval ou sem ela (está na jogada do 1º ensaio, assim como no 2º é dele que sai um falso que “prende” dois adversários), evocando uma excelente condição física e aquela agressividade necessária para envergar a camisola que foi de Conrad Smith. Nem sempre os melhores têm de ser aqueles que vêm o seu nome inscritos no placard, pois jogadores como Fekitoa garantem metros (50 metros em 10 carries, 3 quebras de linhas, as mesmas que o seu colega de posição Lienert-Brown), consistência, equilíbrio e segurança. Não cometeu erros ofensivos, não teve uma distracção, executou todos os processos de forma irrepreensível, fazendo jus ao título de All Black. Isto tudo para além de um “show” defensivo com sete placagens, duas delas que atiraram os seus adversários para trás (uma delas a Michael Hooper, bem “caçado”), impedindo qualquer perfuração de Cooper, Foley ou Kerevi no seu sector. Não há dúvidas… Fekitoa é o justo detentor da camisola nº13, um Kiwi de sacrifício e um jogador de equipa total.

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Fekitoa Unstoppable (Foto: Melville)

O Detalhe: A LOUW AWESOME BLOW

Apesar dos vários e mais variados detalhes e pormenores desta 2ª jornada, o passe de François Louw para Bryan Habana roubou-nos a nossa atenção totalmente. Um momento de pura genialidade do asa do Bath, que ao entrar no contacto permitiu que fosse placado só para soltar Bryan Habana e com um offload por detrás das suas costas, permitiu ao ponta fugir até linha de ensaio para o 13-13. O rugby sul-africano tem sido fustigado nos últimos tempos com um jogo pouco habilidoso, com escassos rasgos de genialidade e sem um show total como acontece com a Nova Zelândia ou a Austrália. Mas François Louw decidiu no jogo frente à Argentina demonstrar um pormenor só ao nível dos grandes tecnicistas, com aquele offload que deixa os Pumas “pregados” ao relvado, possibilitando a Habana chegar ao seu 65º ensaio pelos Springboks. Haverá espaço no rugby dos boks’ para que este tipo de detalhes passem de raridade para algo “normal”? Du Toit, Warren Whiteley, Faf de Klerk, Ruan Combrinck e Jesse Kriel podem ser os novos percursores deste tipo de jogo, com Alister Coetzee a “só” ter que dar “asas” à imaginação e criatividade dos seus jogadores.

Plano de JogoTHE LINE-OUT HANSEN LESSON

Alguns comentadores e analistas da modalidade têm apontado diversos destaques e pontos onde os neozelandeses têm retirado o seu domínio de jogo, mas há um que tem ganho destaque entre todos: os alinhamentos. O trabalho no line-out tem sido um das grandes valências dos All Blacks, que em dois jogos conquistaram todos os seus 22 saltos (100% de eficácia), para além de terem “roubado” 8 dos 18 que os Wallabies tiveram direito. O trabalho de Kieran Read, Samuel Whitelock e Broadie Retallick foi genial, uma vez que ao “retirarem” 45% dos alinhamentos dos australianos, impediram que os seus adversários tivessem uma “ponte” para partir para o ataque e, assim, eliminar por completo o maul dinâmico, um dos pontos fortes da equipa de Michael Cheika. Há algum demérito por parte do line-out de Stephen Moore, David Pocock ou Michael Hooper, que têm estado algo apáticos neste sector… mas o trabalho de Read a controlar a acção dos australianos, para depois saltarem no ar e tomarem a oval, partindo para o contra-ataque, que resultou fatal para os australianos nestes dois jogos. É ter os básicos bem “limados” que se ganham os jogos e os All Blacks, mais uma vez, fizeram valer essa lição. Dos 10 ensaios nos dois jogos, 7 provieram de alinhamentos o que demonstra uma dependência mas, também, uma das melhores qualidades dos bicampeões do Mundo em título. É uma “necessidade” extrema dos All Blacks em demonstrarem toda uma qualidade soberba no trabalho do alinhamento que tanto vai de um bom maul dinâmico (sem ser em exagero) para saídas rápidas das linhas atrasadas para depois os avançados (seja um 1ª linha ou 3ª, a categoria nos offloads é elevada, para além de todos terem noção do trabalho a fazer na linha de vantagem). Há alguém melhor que a Nova Zelândia nesse sentido? A Bledisloe de 2016 (após mais uma vitória frente à Austrália por 29-09) já está no “armário”, agora só falta o Rugby Championship.

160828 All Blacks Bledisloe
Já cá canta! (Foto: Rugby.com.au)

Try-time: WHO DOESN’T LIKE A TRY?

Difícil, muito difícil escolher o ensaio da semana… no jogo da Nova Zelândia frente à Austrália, temos um em que acontece tudo (desde 1ªas linhas a passar a quebrar a linha e a realizarem um passe de requinte a um step and run de Aaron Smith), outro com Barrett a meter aquela passada assistindo Izzie Dagg ou uma jogada de Ben Smith com Sam Cane a fazer um ensaio à Richie McCaw. Entre a África do Sul-Argentina, temos um ensaio de alta nota com o tal desfecho final de Louw para Habana ou uma jogada dos Pumas que começa nos seus 22 metros e pára com Tuculet dentro da área de validação dos sul-africanos. Mas, talvez, a jogada que nos conquistou foi aquele ensaio de Leguizámon, com o asa a subir nas alturas e a aterrar dentro da área de ensaio. A jogada começa numa boa formação ordenada da equipa das Pampas, que sai a jogar em grande velocidade, fazendo valer todos os seus atributos, entre a velocidade e troca de passes curtos rápidos, para depois Nicolas Sánchez quase parar no tempo e ver a desmarcação do seu colega, para meter a oval com perfeição para o segundo ensaio e o 20-13. É este o Tango dos Pumas que gostamos tanto de apreciar e ver, em que a raça, o contacto físico “agressivo” colidem com a genialidade dos seus Pumas. Mas vale a pena reverem cada um dos ensaios, porque todos demonstram o melhor que o Hemisfério Sul tem para mostrar: genialidade, raça, imaginação e visão de jogo.

Rant da Jornada: INEXPLICÁVEL COETZEE

rant da jornada fica para o seleccionador da África do Sul que voltou a cometer os mesmos erros. Manter Lood de Jager e atirar com Pieter-Steph du Toit no banco é um “crime de lesa majestade”, já que o 2ª linha dos Stormers é um “tanque” com um “motor V8”, conquistando metros (40 nos dois jogos), somando ensaios (conseguiu um ensaio aos 67′), placando adversários (12 placagens e só falhada em dois jogos) para além de toda a presença física e técnica que traz ao jogo. Para além disto, colocar Jaco Kriel no banco para manter Teboho Mohoje levanta várias reticências, uma vez que Kriel é um dínamo de jogo de excelente qualidade, que abana sempre com as equipas adversárias seja pela sua velocidade de corrida ou execução, ou pela capacidade técnica defensiva que apresenta (8 placagens e 2 turnovers com só 40 minutos de jogo em 160 possíveis), Kriel é tudo aquilo que os sul-africanos precisam. Isto para além de Mohoje ter escapado a um cartão amarelo em cada um dos jogos, com as arbitragens a não verem algumas placagens questionáveis ou acções menos “limpas” que precipitaram algumas escaramuças em ambos os jogos. A favor do treinador está o facto de manter a confiança na dupla de Klerk-Jantjies, quando ambos não estão a decidir tão bem como deviam… Morné Steyn traz outra versatilidade ao jogo, apesar de gostar de vincar um jogo mais “parado” e Rudy Paige é um jogador mais eléctrico no acompanhamento dos avançados, mas não consegue aparecer no jogo como Faf de Klerk consegue (nem tem a qualidade defensiva que o jogador dos Lions tem). Na derrota na Argentina tem responsabilidades quando devia ter retirado Combrinck para apostar em Jesse Kriel ou para tentar dar outra liberdade e estratégia a Goosen, que esteve sempre longe das incidências de jogo.

La marca del Puma (Foto: Olé)
La marca del Puma (Foto: Olé)


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